Pagina de diário – 5
Janeiro de 2012
Ao longo destes últimos meses, e, não foram tão poucos como teria sido desejável, para fingir que não estava desocupada e que não eram de todo inúteis os meus dias inventei uma série de tarefas daquelas que, quer se executem, quer não, ninguém dá por elas, salvo quem as promove.
Foi assim que inventariei livros, li, reli, e fui destruindo, ou não, correspondência arquivada ou meio esquecida. Cataloguei postais, fotografias, enfim, exerci uma actividade que eu bem sabia ser de fachada, mas que, confesso honestamente resultou eficaz sobre uma certa desordem que, havia muito, me incomodava, pois sempre que olhava para o meu baú da papelada, que até é bonitinho, pensava para mim - por fora cordas de viola, por dentro pão bolorento…
Como era previsível este compulsar de recordações foi uma espécie de viagem de funâmbulo sempre a balouçar na corda bamba do sentimentalismo mais ou menos piegas mas, lá fui prosseguindo e, valeu a pena porque fui encontrando pequenas pistas de histórias que o coração foi guardando nas sombras do tempo e a memória há muito que não as iluminava.
Assim que, ao guardar algumas cartas ainda dispersas me detive a olhar enternecida as rosas que a Matilde quase sempre desenhava como se fossem parte da sua assinatura – Matilde -Rosa-Araújo…vai daí surgiu-me a lembrança de Sebastião da Gama cujos pais conheci por seu intermédio naqueles anos em que meu marido e eu por deita cá aquela palha nos refugiávamos na Estalagem do Portinho da Arrábida.

Os pais de Sebastião (donos da estalagem) vinham por norma tomar café após o almoço na nossa companhia. Sua Mãe confortava-se revivendo episódios da infância do filho que eu escutava deliciada, e, um certo dia, levou para me mostrar um pequeno caderno escrito com letra de criança.
Contou-me então que Sebastião desde muito pequeno cultivava um grande amor à pátria, a tal ponto que aí pelos seus oito, nove anos, desejou escrever uma história de Portugal em verso.
Ouvi, atenta e comovida aqueles “lusíadas” nascidos da alma do
menino que havia de vir a ser um dos grandes Poetas da língua portuguesa e ainda hoje me faz sorrir deliciada a ingenuidade de alguns versos que, então, fixei
“ D. Manuel, o cagarola, fugiu para a Ericeira aos primeiros tiros de pistola”
Sebastião havia partido em 7 de Fevereiro de 1952 – estes encontros foram poucos anos depois.
Maria José Rijo
Entrevista
29 de Dezembro de 2011
Jornal Linhas de Elvas Nº 3.155

Costumes gastronómicos de Natal
À mesa todos fizeram por manter as suas tradições
A crise não impediu que os portugueses cumprissem as tradições
gastronómicas do Natal, com as vendas de bacalhau, frutos secos e doces a irem
ao encontro das expectativas do comércio tradicional.
O Linhas quis saber quais são as tradições de Natal junto de
quatro entrevistados que aceitaram o repto lançado de partilhar com os nossos
leitores quais são os seus costumes familiares, os gostos gastronómicos e as
diferenças de um Natal vivido na sua terra natal ou, em contrapartida, na
cidade onde residem há largas décadas.
Do norte ao Alentejo ou de Elvas à Aldeia de Santa Vitória, em Beja,
foram percursos únicos contados na primeira pessoa, sobretudo, com base nas
recordações de infância que lembraram histórias felizes, de dificuldades e até
daquele anseio pela chegada do Menino Jesus ou do Pai Natal.
Maria José Rijo, 85 anos
“Peru era um mártir no Natal nos lares abastados”
O quente da salamandra afasta por momentos o Inverno, que acaba de chegar,
e a companhia fiel da poetisa Maria José Rijo, a gata Kika, haveria de escutar,
descansada, na sala da residência onde revisitámos o Natal de outros tempos.
Maria José Rijo nasceu em Moura, mas foi na Aldeia de Santa Vitória, em Beja,
onde cresceu e melhor se recorda da época natalícia e das tradições
gastronómicas vividas no Baixo Alentejo.
“Em qualquer uma destas terras, especialmente nas casas abastadas, o peru
era um mártir no Natal, mas noutros lares era o frango ou a galinha que pagava
as favas porque o peru era muito caro”, conta-nos.
Naquele tempo já o arroz doce, os sonhos, as filhós e os pastéis
com recheio de abóbora ou de batata doce acompanhavam o espírito
natalício da época – hoje completamente diferente daquele tempo.
“Agora fala-se imediatamente em Natal e as pessoas enlouquecem com as
compras quando no meu tempo não era assim. Compravam-se os chocolates para dar
às crianças, éramos miúdas nesse tempo – a minha irmã, os meus primos e eu – e
aquilo que recebíamos eram os chocolates, uma ou outra peça de vestuário mais
bonita, que iria servir à mais velha, e depois passava pelas outras todas”,
refere Maria José Rijo.
Na quadra festiva organizavam-se pequenas récitas de Natal ao estilo de
curtas peças de teatro, “algo ingénuas”, assentes numa poesia de João de Deus,
que a mãe da poetisa sabia de cor.
“Ensaiavam-nos umas coisinhas para nós encantarmos as visitas e para isso
contribuíam também a roupinha a par dos lacinhos na cabeça que nos faziam ficar
muito bem compostas”, disse.
No Baixo Alentejo desde sempre que à mesa existem as comuns fatias
douradas e os nogados. Em Beja, por exemplo, os nogados fazem-se com amêndoa e
mel, sendo depois colocados em cima de folhas de laranjeira, conferindo “um
certo perfume e requinte de beleza”, parecendo-se com “pequenos rebuçados”,descreve.
Mas, tal como explica Maria José Rijo, na gastronomia de hoje “o coração
das coisas é o mesmo mas por fora exagera-se no doce, esquecendo-me daquilo a
que estava habituada, ou seja, dos bolos puros. Compram-se mais coisas feitas e
vive-se, sobretudo, para o efeito visual”, justifica a experiente poetisa.
As diferenças para a sociedade de hoje são consideráveis, pois se naquele
tempo as tabletes de chocolates com uma pequena nota colocada por debaixo de
uma fita satisfazia o desejo da pequenada, hoje o quarto dos petizes mais se
assemelham a uma loja de brinquedos.
“Todas as crianças tinham um mealheiro e ninguém dispunha do dinheiro sem
perguntar aos pais, que nos aconselhavam a guardar, o que, por um lado, nos
ensinava a suster o impulso de gastar em detrimento de juntar para algo
melhor”, sublinha.
Para Maria José Rijo, os mais novos estão hoje “afogadas em excesso, o que julgo
ser altamente deformador do carácter de qualquer criança. É impossível que qualquer
criança cresça com sentido de justiça e com senso do que é essencial ou supérfluo
quando tudo lhes é dado de uma só vez e, por isso, estão afogados em desejos e
caprichos sem tom nem som”.
O Natal, este ano, tal como no ano passado, foi passado na companhia da
Kika, a fiel gatinha de Maria José Rijo, que por ser gata “não merece ser
traída” nesta altura só pela sua condição animal quando no restante período do
ano “vive aqui só, não passeia e está sozinha comigo”.
Da família, que se disponibilizou a vir buscá-la no Natal, recebe
telefonemas com frequência, mas, como explica a poetisa, “eles compreendem que
preciso da minha comodidade, do meu canto, do meu sossego até porque a saúde já
não me permite grandes avarias”.
Para este período ainda contagiado pelo Natal e numa altura em que se
aproxima o novo ano, Maria José Rijo sugere que “cada um deve olhar para dentro
de si próprio e fazer uma certa introspecção à procura do sentido das coisas e
da coragem para fazer o que se pensa que está certo”.

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É dia 31 de Dezembro de 2011.
Um dia, é sempre um dia, porque qualquer que seja a sua posição no calendário, em
qualquer dia tudo cabe.
Esperança,
Desesperança, Alegria, Tristeza, Nascimento e Morte.
Porém tudo quanto anuncia um fim pode marcar um novo começo.
Talvez daí, a expectativa que nos invade quando um novo ano surge no horizonte das nossas vidas.
Já, já começa 2012 e cada um de nós, qualquer de nós ou todos nós, como as fadas madrinhas
nas velhas lendas nos abeiramos do seu nascimento como ela dos berços, com os melhores augúrios.
Saúde – Vida – Amor – Trabalho – Alegria – enfim, tudo quanto se nos possa afigurar como
componentes de Felicidade.
Que para cada um de vós o sonho se cumpra.
Eu fiz a minha última compra do ano Flores para embelezar o meu canto.
Com elas celebro o Ano Novo e a amizade que me une a todos vós.
F E L I C I D A D E S
Feliz Ano Novo
Maria José Rijo

Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.943 – 3 de Junho de 1988
A La Minute
BOLA

Também eu vi o Veloso “chutar” a taça para os holandeses.
Não restam duvidas de que, mesmo quem, como eu, nada percebe de futebol, acaba em circunstancias destas, aderindo com interesse ao espectáculo. Milhares e milhares de pessoas, enchendo um estádio, a vibrar de entusiasmo, a roer as unhas de enervamento, querendo e temendo

olhar – como o Toni durante a marcação das penalidades – milhares e milhares de pessoas, unidas e divididas pelo desejo de ver ganhar estes ou aqueles – milhares e milhares de pessoas a gritar de gáudio ou de raiva, eufóricos ou desalentados, com os sentidos presos do que vêm os olhos atentos que rolam nas orbitas, seguindo a bola como a equipa no campo – não é acontecimento para desprezar.

Se pensarmos que em quase todas as casas de todos os países, para onde a televisão transmite estes desafios, há gente igualmente atenta e absorvida pelo comportamento dos clubes que se defrontam – se o pensarmos – então sentiremos, como alguma preocupação, a força que tem o futebol para sintonizar milhões de pessoas no mesmo acontecimento – um jogo de bola.

Daí que, por força de tal envolvimento colectivo, nasçam as confusões, e os relatos futebolísticos e as tricas de clubes, apareçam a publico empoladas e tratadas como acontecimentos de que dependessem a dignidade dos povos.

Quere-me parecer que já era tempo de dar definitivamente a estas coisas o seu espaço próprio e de aceitar que, mais do que perder ou ganhar – o que tem que ver com a dignidade – é a dignidade – e essa, testemunha-se na vitória, na derrota e também na maneira como se relatam os acontecimentos.
A meu ver, também não é abonatório ao comportamento equilibrado, que se deseja em quaisquer circunstâncias, que algumas pessoas ligadas ao desporto apareçam a falar dele com o ar de quem discute vida e morte.
Também não se me afigura certo que logo à transmissão directa de um jogo se voltem a emitir – de imediato – fragmentos desse mesmo acontecimento, sabendo-se que para tal há rubricas da especialidade, onde tudo é, de forma exaustiva, esmiuçado até ao átomo ou à sua desintegração.
É destes exageros que a gente se queixa, e ou é mercê deles que se canalizam as atenções gerais – excessivamente – para áreas determinadas.
Quando os factos são mesmo sérios, como transplantes de órgãos e outras coisas assim, às vezes nos ecrans, um médico, jovem ainda (como são os desportistas) – com um sorriso tímido de criança e uma modesta e simplicidade que tocam o coração do mais desatento. Então, sem parangonas, dramatizações de faca e alguidar ou histerismo – quase como se nada se tratasse – fala de esperança para a humanidade, serenamente e com o respeito que integra – de verdade – dignidade e vida.
Maria José Rijo
Á LÁ Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1961 – 21 de Outubro de 1988
DIAS DE ISTO E DAQUILO

Isto de ser feito de memória – é verdade!
Todos o somos. Somos a resultante da história da nossa vivência, como os povos o são também. Somos vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, e partimos para cada dia com a capacidade de compreender, amar ou perdoar, que tivermos acumulado. Tal como os povos que se confrontam entre si, nós também o fazemos, e tal como os povos que entre si estabelecem acordos de diplomacia, amizade, respeito ou pacifico convívio, também nós o fazemos – não esquecendo, embora – quer como indivíduos ou como povos, diferenças ou semelhanças.

Só quem recorda, cumpre.
Só quem não esquece, tem palavra.
Quem perde a memória – perde a identidade.
Mesmo assim há, recortes que se limam pelo caminho porque deles nos soltamos na medida em que somando experiência, a cada momento, o nosso ponto de reflexão pode ser corrigido e ajustado.
Assim que, dei comigo a concordar com os dias mundiais de “isto” e de “aquilo”, depois de durante muito tempo, nem sequer ter pensado no assunto ou, até, de me ter parecido, levada na corrente, não ser necessário haver medidas em especial, fosse para o que fosse, assentava esta posição na lógica de que todos os dias são de tudo: -- vida e morte, graça e desgraça, guerra e paz – manhã e noite.

Porem, depois de reconsiderar, já não digo, no calendário litúrgico, com um Santo para cada dia – reconhece-se que não está errado o critério que tal determina. Pelo contrario! Estabelecer no tempo um momento certo para que, na medida do possível, todas as pessoas, simultaneamente façam convergir os seus cuidados sobre os problemas que a todos respeitam, é ordena-los em vista a soluções possíveis - atribuindo-lhe a dimensão que realmente têm.

Lembrei-me então de Fátima. Toda a gente pode rezar em casa, quando lhe calhe, lhe é necessário ou lhe apetece. No entanto, rezar em Fátima é diferente. É faze-lo no local escolhido para as orações. E onde toda a gente que lá vai – se despe de vaidades, artifícios e egoísmos e, com a humildade possível, se reconhece humano, fraco, falível, carente. Lá quase sempre a fé e a generosidade se curvam a par. Lá pede-se saúde, vida, paz, trabalho, amor e perdão. A Fátima, mesmo quem vai em carro de luxo, vai de joelhos e tão suplicante, como o romeiro pobre e descalço que empoeirado palmilha a pé o caminho, dirá e apenas: - MÃE !

Dentro deste espírito parece-me que os dias de “isto” ou de “aquilo” se tornam os “lugares” de convergência para “curtir”, à vez, aquela multiplicidade de problemas a que é preciso e urgente que a sociedade dê a resposta justa e certa.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.936 – 15 de Abril de 1988
A Lá Minute
FIM DE PROGRAMA

Acabou o programa de Joaquim Letria.
Faz falta – melhor – fazem falta, programas vivos, variados, bem pensados – como primam, por o ser, aqueles que Letria produz. Se é verdade que por vezes algumas situações nos surpreendem e até se tornam um tanto embaraçosas, outras vezes deixam-nos apontamentos que dão para pensar e repensar.
Foi assim com algumas das entrevistas que trazendo até ao nosso conhecimento pessoas e factos a elas ligados, enriqueceram o nosso quotidiano rotineiro!

Estou a lembrar-me de uma afirmação proferida por Lídia Jorge, que acaba de publicar um importante livro sobre a sua vivência em Africa, que disse mais ou menos isto:
“Há dezassete anos que trago comigo esta experiência e só agora ela ganhou a maturidade necessária para me ser possível trata-la”.

Realmente o tempo não “apaga” – (como se diz) o tempo – “arruma” – ou não – na nossa sensibilidade tudo quanto nos toca – enriquecendo a nossa vida de experiências, conhecimento, tolerância – ou não …
Penso que tudo quanto se vive de coração aberto e alma limpa, seja tristeza ou alegria, ajuda a temperar o carácter e a definir a personalidade.
Assim, cada qual, é, e sempre será – sem remissão – a resultante possível dos actos que praticou – das memórias que consigo guardar – e, a sua maneira de estar na vida e de julgar … de isso – dará testemunho iniludível.
Muitas vezes tenho pensado, e, até já talvez o tenha dito ou repetido que um dia, se Deus quiser, e eu for capaz de o fazer, hei-de falar profundamente do terramoto dos Açores.

Essa experiência, foi a “minha guerra” e nas guerras - em todas elas se há os aproveitadores das tragédias, os que prosperam colhendo lucros com as desgraças alheias – há também – aqueles que se despojam de tudo quanto lhes pertence, tudo sacrificam e tudo compartilham com os mais carentes.
O procedimento humano tem enraizamentos muito profundos e não é tarefa fácil compreender razões de bem e de mal, de tolerância ou rancor de amor e ódio.

Disse Maria Antonieta de França com piedade dos seus algozes: - “é na desgraça que a gente sente melhor quem é!”
É incontestável que pelo aproveitamento das circunstancias se mede a craveira moral dos indivíduos e, nestas lucubrações, quase me perdia do: “Já está”em que Letria com a bonomia do homem tranquilo ofereceu, como fecho, o seu auto-retrato, sorridente e crítico, como é apanágio da boa consciência de quem se sabe e aceita falível.
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Assim, ele, que foi de rosto franco, autor assumido pôs ponto final no programa da forma mais inteligente possível – não deixando ninguém escondido por detrás de ninguém.
Colocou todos frente a frente – e, com a verdade nua –foi mostrando diversas formas e maneiras de reagir dos “apanhados”.
Esclareceu e identificou.
Foi Vida.
Maria José Rijo

Neste dia de rosas, como minha Mãe
chamava a estes
dias de sol perfeitos de Outono, sabe bem vir dar
muitos beijinhos de Parabéns à pequenina Magé
pelo seu terceiro aniversário.
Que Deus lhe abra na vida caminhos de luz
são os votos da tia Ze e Paula
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.976 – 3 de Fevereiro de 1989
A Lá Minute
APELO ÀS ORIGENS

O excesso de técnica tem distanciado o homem da prática de usos e costumes ancestrais que o ligavam ao meio ambiente, como um cordão umbilical liga mãe e filho.
São agora as fábricas que produzem as quantidades industriais de tudo quanto sustenta, a sôfrega e insaciável sociedade de consumo para que fomos evoluindo e nos escraviza.

Espartilhado entre a máquina e o relógio, na cadeia de produção e montagem da fábrica, que para ser rentável lhe exige um procedimento quase tão automatico como se peça de engrenagem fora – o Homem – desumaniza-se. Perde-se da relação viva com o meio, perde-se do gozo telúrico de caminhar sobre a terra, perde-se da espontaneidade de expressar, pelo canto, a alegria, perde-se do tempo de meditar, perde-se do jeito do silencio em que se pensa, sonha e cria… perde-se de si próprio, perde-se da sua condição de homem e corre - e corre … e corre atrás do que lhe é imposto pela sociedade de consumo, que o comanda e estrangula. Esquece, ou nem chega a conhecer, valores verdadeiros, e transfere para falsos ídolos os seus anseios.

Faz da compra do sofá, do carro, da máquina, do casaco de peles para a mulher, da motorizada para o filho, do gira-discos e do computador e do mais não sei quê, ou não sei quantos, a meta da sua existência.
Da televisão, que espreita, à noite, nos intervalos do sono do cansaço que o vence, enche-se de anúncios e mitos que lhe impingem miragens enganosas como a maçã lustrosa do conto da Branca de Neve que bastava morder para se ficar envenenado de morte.
Talvez que por tanto excesso comece a aparecer no fundo das consciências, rompendo o torpor, uma procura de autenticidade que possa anunciar uma certa redenção.

Talvez porque a todos é impossível um recomeço, a todo seja possível um repensar da vida. Talvez que um pouco por toda a parte se comece a equacionar o problema das doses justas, do que foi inevitável e do que o não foi; do que foi apenas, e só, desnecessário e nocivo.
Alguma coisa parece indiciar a consciência, nem sempre ainda reflectida, de que viver não é correr atrás do lucro, da fama, da aparência ou valores afins.
Alguma coisa parece indiciar que na procura de, “como era” ou “como foi” – está envolvido o compromisso de deixar às novas gerações as pistas limpas que lhe permitem o dom de escolher caminhos distintos dos nossos.

Quando se procura e compra a colher de pau tosca, talhada à mão com a enxó, mas ainda com “feições” do pinheiro de que descende, e se deixam na prateleira as outras polidas e impecáveis que a máquina fez aos centos, iguaizinhas, alguma coisa me diz que, até nisso, há um certo apelo às origens, em que não faz mal a ninguém meditar com seriedade.
Maria José Rijo
.
Para todos os meus queridos sobrinhos,
leitores e amigos
um sinal de presença para quebrar este
longo intervalo.
.
Não desisto
Insisto
Resisto
Vivo!
Vivo - se viver é isto.
.
Com um grande abraço
Maria José Rijo
.
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.968 – 9 de Dezembro de 1988
A La Minute
UMA CARTA

Inesperadamente, chegou às minhas mãos, uma carta de JOANA LUISA, que foi mulher de SEBASTIÃO DA GAMA.
Em Maio, eu escrevi aqui, “A presença do Poeta” referindo Sebastião da Gama. Foi este o motivo.
Não foi a primeira vez que me escreveram cartas, postais, ou me telefonaram a falar de apontamentos que aqui faço. Em boa verdade, isso tem acontecido com alguma frequência, o que, confesso, embora me seja grato, muito me responsabiliza.
Sempre, que me disponho a apontar algumas ideias, procuro fazê-lo subordinando-me a alguns princípios que me norteiam – honestidade e rigor.

Sendo a opinião que se expressa um exercício resultante de um critério assumido por escolha e eleição de valores que tomamos por padrão, toda a opinião, agradável ou desagradável, envolve juízo crítico – e se torna por sua vez passível de ser criticada.

Não admira pois que ao ler: “… gostei do que escreveu e achei enternecedora a forma como captou a personalidade de Sebastião transmitida pelo pais saudosos” - me tenha, com estas palavras inesperadas, sentido compensada pela falta de outras – que, por vezes, não vieram, daqueles que, na opinião do nosso coração, no-las deviam.
Falar de alguém que se conheceu, se conhece, se admirou ou admira – não é – penso eu, a tarefa fácil que pode parecer.

Quem mereceu ou merece a nossa estima ou admiração e fazendo-nos nascer esses sentimentos enriquece a nossa vida – merece o nosso respeito e tem direito ao rigor de que formos capazes, porque aí reside o segredo da admiração e a qualidade da amizade que lhe votamos.

Ter de pessoas ou obras o conhecimento que permita o conhecimento de que nos é lícito delas falar aguça o gosto de o fazer e o medo de falsear a imagem que se evoca pela facilidade de mistificar a que, o amor, predispõe.

Assim que, a carta de Joana Luísa, (a que ainda não respondi) se me afigurou a carta natural, “da mulher” de Sebastião da Gama, como ela ternamente escreve.
Joana Luísa não me escreveu por eu ter dito de Sebastião o que dele merece ser dito, - escreveu-me porque sentiu que era isso que eu gostaria de ter feito – e, por isso, lhe estou grata.

Vou procurar entre a minha papelada o retrato de que falei no tal artigo, para lho enviar, como seu expresso desejo – e mais uns outros que julgo ainda conservar. Às vezes pedem-me estas coisas e quando percebo que o interesse é verdadeiro – vou-as dando. As colecções, de jornais, completas, já as dei quase todas.
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De qualquer modo, um destes dias, se Deus quiser, vou-lhe escrever para agradecer a carta que me forneceu a oportunidade, que me tornou feliz, de ter “encontrado” Joana Luísa no rasto de beleza que deixou a vida e a poesia de Sebastião da Gama.
Maria José Rijo

Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.878 – 6 de Março de 1987
A La Minute
CARTA A ELVAS

Querida Elvas:
Obrigado por não teres faltado. Foi muito bom ver-te, presente e interessada, no colóquio em defesa da língua portuguesa.
Confesso que tinha um certo receio de que estivesses tão distraída ou ocupada, que não aparecesses. Ainda bem que assim não aconteceu!

Penso que tudo quanto se passa na tua Biblioteca e no teu Museu te diz particularmente respeito que deverás aparecer deliberadamente, sem esperar convites especiais.
Aqueles espaços são teus, e por essa razão farás muito bem indo lá sempre que os assuntos te suscitem curiosidade ou interesse. Afinal, ninguém desdenha saber o que se passa em suas casas, como é lógico.
Porem, de qualquer modo, confesso que estou a escrever para te dizer… obrigado! … Obrigado, de verdade, pelas manifestações de compreensão que dás com a tua presença.
Isso ajuda. Tu sabes.
Preparar uma reunião e depois não ver aparecer as pessoas a quem ela se destina não é só desagradável… é triste!

Olha, Elvas, aproveito para te prevenir que no sábado dia 7 às 17 horas, na Sala Públia Hortênsia, vamos abrir o piano e tocar um bocado. Vai ser uma tarde diferente, e ao mesmo tempo, um bom pretexto para estarmos juntos de novo.
Tu sabes que não me canso de repetir que tu tens muita sorte. Tens uma Biblioteca linda. Invejável. Preciosa, podes crer.

Goza-te bem dela. Utiliza-a. Vale a pena, não tenhas a menor duvida.
Desculpa a insistência. Não te roubo mais tempo. Ainda tenho umas coisitas a preparar para o nosso encontro.
Não te esqueças, Elvas, aparece. Sem ti, não há festa possível.
Escutarás Bach e haendel! … vais gostar… verás.
Conto contigo… já sabes.
Maria José Rijo
P.S. – Podes levar as crianças.
Há sempre lugar para elas e, como toca também gente nova “elas” não irão aborrecer-se.
Espero-vos
Maria José
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1975 – 27 de Janeiro de 1989
VALHA A VERDADE

Gosto de escrever, gosto! - Confesso!
Porém escrever, nem sempre me é fácil.
Muitas vezes, ou pelo menos algumas vezes, é-me difícil superar preocupações ou mágoas latentes no meu espírito, para falar de coisas que não envolvam, emocionalmente, quem lê estes apontamentos, em problemas a que são alheios.

Não me furto a falar de tristezas ou assuntos dolorosos, desde que eles possam ser postos de molde a ser ponto de reflexão, que me pareça justo ou útil ser considerado por todos.
Quero dizer, com este preâmbulo, que hoje é um desses dias difíceis para encontrar um ângulo certo, por onde descortinar o sol – que brilha – porque está lá – (está sempre lá no lugar) mesmo quando as nuvens se amontoam, e eu não quero? – Ou não posso? – Ou Desisto? – Ou, sei lá … se me apetece ainda sacudi-las e lutar.
Mas… adiante! Só eu poderei decidir!
Acompanhei, tanto quanto me foi possível, a “Jornada da Pastoral da Saúde de Elvas”.
Cada qual, do que ouve e vê, tira as ilações que pode, conforme a sua formação, as suas tendências, e a sua capacidade de reflectir.
Previa-se um debate final (que em verdade não aconteceu) houve apenas 3 ou 4 depoimentos, que, embora com interesse, não fizerem mais do que o ponto da situação das condições e esperanças locais – o que provocando aplauso geral, não provocou, como é obvio, confronto de ideias.
Também me calei.
Estou, como já confessei – na fase de:talvez, afinal, não valha a pena.

Noutra altura, teria lutado “por minha dama” e teria perguntado se tudo quanto foi dito (e de que meneira!) não cabe também no âmbito da cultura. Sendo esta o reflexo de uma “certa maneira” de estar entre os outros, com todo o respeito que isso implica de atenção a pessoas e coisas – uma Jornada da Pastoral de Saúde, ao sublinhar regras de comportamento humanizadoras, proclama a defesa dos direitos humanos (os tais mandamentos) e regras de civilidade que integram,
forçosamente, a Cultura – “O como ser” – e “ O como estar” de um povo. Ao defender a profilaxia da doença, que se reconhece bastas vezes, ser reflexo de doença moral – ao filiar doenças morais 
em carências afectivas e solidão, está apelando à criatividade – a actividades que dêm à pessoa humana a consciência de se sentir útil, necessária, activa e interveniente na sociedade que a envolve.
Ao criar uma escola uma banda, um rancho, um coral, um grupo de teatro, e outras formas de convívio que empenhem pessoas ou grupos, também se está a colaborar numa Pastoral de Saúde.
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… Mas não perguntei…
Nem perguntei àquele Homem impressionantemente inteligente, culto e afável com um sentido de “O outro” quase comovente – se sabe o que é a dúvida.
De qualquer modo o seu discurso encantou-me tanto como me “incomodou” – valha a verdade!
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.913 – 6 de Novembro de 1987
À LÁ MINUTE
AS NOSSAS CONVERSAS
O Verão estava no fim, toda a gente debandava da praia e os garotos, lá de casa, andavam enervados, quezilentos – insuportáveis de verdade com a falta dos companheiros de brincadeira.
Da nuvem multicolor de guarda-sóis, sobravam um ou dois sobre o areal, o que, para as crianças tornava a praia mais triste do que se estivesse vazia.
Peganhavam por tudo e por nada, desde a troca dos copos à cor dos pratos, da escolha das cadeiras à mesa.
Em resumo: - tudo quanto servia para unir um “bando” desunia agora os 4 ou 5 lá de casa.
Então, numa noite calma de belo luar, propus que experimentassem passear.
Aonde? – Com quem? – Em que carro? – Foram as perguntas imediatas.
Ao acaso, comigo e a pé. – Foi a resposta.
Mais ou menos a rabujar, tentamos a 1ª experiência.
Lá fomos.
Fomos precisamente pelos caminhos que todos fazíamos dúzias de vezes ao dia.
Eles intrigados – eu calada.
A certa altura – uma voz pouco amistosa inquiriu – foi para isto que nos convidou?
Foi – respondi, e comecei então a contar como eram dantes aqueles caminhos, como eram as casas, os costumes das pessoas que por lá moravam e como tudo se tinha transformado ao longo dos últimos trinta anos.
Contei como eram os nossos serões, passados nos pátios das casas, conversando, rindo, sem luz de candeeiros, quando sequer havia bom luar.
Falei-lhes das noites de “ardentia” que é como os pescadores designam o plâncton que põe o mar negro de algas e cheio de ondas luminosas como chamas.
Contei que a mãe de um deles, então pequena, como eles são agora – se comovera vendo que as pegadas na areia molhada à beira mar, eram luminosas e dissera: “ Deve ser assim o rasto de Nossa Senhora”!
Enfim! – Andamos, conversamos e, já perto de casa, frisei: daqui a uns anos, talvez, algum de vós distraia um filho vosso, ou um neto, contando como foi bom passearmos juntos, só porque gostamos uns dos outros e dá prazer sentir esta alegria de conviver.
Se calhar dirá que foi bom descobrir que não é necessário barulho ou multidão para uma boa distracção…Que saborear a presença de alguém de quem se gosta e gosta de nós, falando com simplicidade de pequenas coisas que nos comovem, nos deram alegria ou sofrimento, nos ajuda a perceber que viver é um bem inestimável que nos torna mais felizes e compreensivos.
Ora não é que isto se passou no Verão de 86 e o Pedro me telefonou esta semana para dizer:
-- a tia este ano não foi à praia e a Chica e eu temos tantas saudades das “nossas conversas”! - - Venha cá”
O Pedro tem 10 anos, um coração doce, umas pernas de Bamby, escanzeladas e cheias de nódoas negras, uns olhos escuros e redondos do tamanho da esperança de todos os meninos – e uns bracinhos magros que, quando abraçam, apertam o nosso pescoço como turquêses e nos dão ganas de viver.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.915 – 20 de Novembro de 1987
À LÁ MINUTE
PONTES e … PONTE …

Logo ao cimo da escada, no pequeno patamar, sobre uma mesa onde a luz incide – com a dignidade que lhe é devida – nos recebe, como anfitrião da história da cidade – em edição fac-similada – o frontispício do foral que El Rei D. Manuel lhe outorgou.
Assim se nos apresenta, como a todos os visitantes, o belo e bem cuidado museu de costumes de Olivença ( - a nossa irmã – que vive aqui ao lado, em Espanha) onde em primeiro lugar a iluminura que nos cativa, porque dela constam, como nos forais de vilas e cidades de Portugal, as cinco quinas e a esfera armilar. As cores e os ornamentos são idênticos, no embelezamento, aos de outros forais outorgados pelo mesmo rei português – o Venturoso – nesses anos de 1500… que, onde se lê Olivença se poderia ler Elvas, tal como no foral de Elvas se poderia ter escrito Olivença.

Foi por esta ponte indestrutível de raízes históricas que lá chegamos de visita e foi dos sentimentos provindos dessa ancestral fraternidade, que recebemos o calor afectuoso que nos conforta na noite húmida e fria, e nos aquece com aquele bem estar de alma que nos invade quando, vindos de algures, chegamos a casa.
Tínhamos recebido o irrecusável convite para assistir à apresentação do livro “Encuentros/Encontros de Ajuda”.

Logo soubemos estar frente a uma oportunidade única, de enriquecedor convívio, que não foi defraudada.
Logo percebemos que nos fora dado um privilégio – “Um foral novo” – com regras deste nosso tempo.

Não teríamos que pagar a barca, qualquer percentagem de comércio, qualquer foro sobre terras, moeda ou serviços… teríamos apenas que acreditar juntos no reerguer das pontes que a marcha da história fez estremecer com o eco vibrante, mas não destruiu: Laços de sangue, raízes, apelidos, tradições, momentos, casario, amizades, origens culturais – em suma todas as forças que são sustentáculo das pontes que se queiram construir ou reconstruir como sinal da fraternidade entre os povos.
A Olivença não se vai ainda pela ponte da Ajuda mas, a Olivença nenhum português vai – porque a Olivença qualquer português “volta” mesmo quando lá chega pela primeira vez.
Olivença é única, é diferente, porque em ela se cultiva nobremente a feição de origem, embora se afirme na sua qualidade de cidade de Espanha.
“Encuentros/Encontros de Ajuda”...
Encuentros/Encontros – festas de família de Espanha e Portugal, onde cada presença é como uma pedra que se coloca na ponte que assim lentamente se está reerguendo sobre as águas mansas do Rio Guadiana
Maria José Rijo
quanto mais de uma rosa feita de perfume e luz de luar.
Se não leva a mal, e eu sei que me entende - divido-as com os
companheiros desta " nossa casa", agradecendo a todos que me
estimam e a quem devo atenções que tenho descurado .
Liberto-me assim de um pouco do mau estar que sinto por parecer ingrata -
são esses os espinhos a que não consigo eximir-me - como a rosa que
também vive entre eles...
Conto ir a Fátima, agorinha.
Rezarei por todos vós e pedirei a Nossa Senhora
que fortaleça um pouco mais o "motor"
da minha vida para que eu durma menos e realize
acordada o que "ainda" vou sonhando.
Se calhar o coração queixa-se do peso de amor que carrega
Vamos lá entender estes mistérios!
Beijinhos grandes
Maria José Rijo
.ASSUNÇÂO na revista
.
Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 3.142 de 29 Setembro de 2011
São Mateus 2.011- Balanço
Aqueles a quem o tempo tem permitido vidas extensas, nalgum dia mais carregado de
recordações, hão-de dizer, nem que seja no segredo dos seus corações plenos de
memórias, aquela quadra popular, tão verdadeira, que retrata sem disfarces as
vicissitudes dos caminhos de viver
Quem eu era, e quem eu sou
Até parece mentira!
O tempo é que tudo dá
O tempo e que tudo tira
Aceita-se como inevitável que as mudanças sejam elas quais forem, são sempre,
nas vidas humanas como as estações do ano.
Mais alegre ou mais chuvosa, há sempre uma Primavera e, na sua sequência um Verão,
um Outono e um Inverno numa cadência de dias e noites que invariavelmente se
sucedem indiferentes a quem os viva.
Não pode o homem sequestrar o tempo nem traçar com certeza o seu percurso.
Sonha, luta, cria, mas é-lhe intrínseco o saber que cada passo mais no seu caminho é
sempre um passo menos para atingir a meta porque tudo o que começa tem um fim.
Outros que o seguem, levantam, ou não, do pó, os testemunhos e prosseguem que a
estrada da vida é sempre em frente e não para.
Estamos em 2.011.
“Desde Maio de 1737 ano em que se fez a hirmida
de N.Sºr da Piedade”-
quantas gerações de crentes com a sua fé já sacralizaram
estes caminhos que conduzem aqui ao Santuário do Senhor Jesus da Piedade, onde a romaria traz, de longe, todos os anos, milhares de fieis para rezar neste “altar de cada dia” da nossa cidade.

Percorro pelos caminhos da memória, estes mesmos caminhos onde soavam as guizeiras de
cavalos, carroças e trens e agora chiam pneus.
Aviva-se-me na lembrança o cheiro delicioso da fruta nas bancas

onde os perinhos vermelhos e doces que se seguiam às escadas, paus de varejo e
canastras para apanho de azeitona se enfileiravam antes do começo da avenida .

Ouvia-se falar de searas, moios, de sementes, contratos de trabalho, cabeças de gados…
Passeavam de braços dados os noivos com seus fatos de casamento.
Elas de branco com os véus arrojando encardidos pela poeira do chão.
Eles engravatados, solenes, lenço no bolso de peito do paletó preto, cravo na botoeira.
Os convidados seguiam-nos em cortejo.
Tocavam as bandas nos coretos. Cadeiras articuladas de ferro, arrumadas em frente,
do outro lado da avenida convidavam a uma pausa para apreciar o concerto.
Grupos de camponesas marcavam a alegria das suas presenças, cantando e dançando as
saias ao som do toque de castanholas e pandeiretas. Havia circo, poço da morte,
barracas de tiro, de sinas, algodão doce, fantoches …
Nunca faltavam as barracas de torrão…
Havia a “caseta”, onde se dançava, ao fundo, junto à “Bétola”que também mudou seu
nome.
Os hábitos alteram-se, que os tempos mudam. Tudo evolui e se moderniza. O que
ontem era novidade, hoje é obsoleto.
Havia as tendas dos belos cobres reluzentes…
Havia utensílios de madeira. Mesas de cozinha, berços, cadeiras de fundos de bunho…
Havia o artesanato local, com os tarros, as corrediças de por ao ombro para a linha
de fazer meia… havia…havia… havia…
…Recordações
de quase setenta anos de festas de São Mateus que o tempo, soberano, começa a
esvair. Como era…Como foi!
Até parece mentira…
Os homens mudam – envelhecem.
Mudam os costumes…as circunstâncias e, no entanto a Fé persiste e resiste – não muda.
E, através dela, todas as gerações têm encontrado e sempre hão-de encontrar a sua
própria maneira de ajoelhar dando graças ao senhor Jesus da Piedade pelo milagre
da vida que nos concede.
Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade!
Ámen!
Maria José Rijo.
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.904 – 4 de SETEMBRO de 1987

… POR – JOSÉ DE ALMEIDA RIJO
AO ERNESTO um abraço de PARABÉNS

Naquele tempo, - e já lá vão 37 anos – o “Linhas” era vivido, como agora, com ORGULHO por todos que contribuíram para o pôr na “RUA”.

Nasceu pela mão de gente nova, com uma pitada de irreverência, um toque de ousadia e uma mão cheia de coragem … que os tempos eram outros!

Soube sempre dizer “NÃO” ao oportunismo que tornaria a “Vida mais fácil a ” … quem quisesse levar as vacas a beber…” como diria mestre Aquilino.

Teve honras da colaboração de José Régio, entre outros.

Problemas com a Censura eram quase semanais. As Multas abundavam, numa clara demonstração de independência na crítica e desprezo nas ameaças.
Sofreu pressões, que sacudiam!
Durante anos foi a única voz escrita do concelho de Elvas, o que não lhe deu qualquer complexo de superioridade nem de abuso do poder.
HOJE, ele ai está!
Com uma colaboração certa e diversificada como convém.
Diferentes formas de pensar, não invalidam a comunhão, no ideal de fazer o “Linhas de Elvas” um jornal cada vez mais apetecido, por cada vez mais leitores.
Ao ERNESTO um abraço de PARABÉNS
José de Almeida Rijo

Meus sobrinhos e meus amigos de
coração! - a nossa Paulinha faz as reportagens fotográficas que, com o toque da
sua sensibilidade, contam como os elvenses e todos os crentes dos arredores se
rendem à fé no Senhor Jesus da Piedade.
Elvas recebe de braços abertos todos os visitantes.
Nós duas,também recebemos "as vossas visitas virtuais"com um abraço
grande que bem desejariamos fosse ao vivo na confraternização do arraial onde a
par da alegria dos reencontros há sempre um toque de saudade, como sinto neste
momento pela distância que nos separa de vós.
Obrigada pelas vossas presenças e
Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.895 – 3 de JULHO de 1987
A La Minute
Encontros com o Inesperado

Gostava de conhecer a criança que respondeu a um inquérito de rádio dizendo que ler um livro na Biblioteca era um bom programa para um dia de férias.
Eu não ouvi. Contaram-me.
Contaram-me e fiquei contente. Gostei de o saber.

Não se vá daqui deduzir que julgo que, isso tem alguma coisa a ver comigo. Não. Não é isso.
E apenas, penso que todos temos que aprender uns com os outros e gostava de conviver com essa criança que tendo gostos afins dos meus, poderia, porventura, ajudar-me a ir ao encontro de outras crianças para que fizessem a descoberta que ela já fez:
-- Ler é bom!
-- Ler é importante!
-- Ler é necessidade!
-- Ler pode ser considerado, também, como um saudável entretenimento.
-- Ler pode até tornar-se um vício.

Nesse caso confirma o aforismo que diz:
“Não há regra sem excepção”, pois que, desta vez – o vício – seria virtude.
Saber do depoimento desta criança arreiga no meu espírito, a justiça de certas atitudes que, olhadas apressadamente, quase parecem sem justificação.
Lembro a noticia que li, sobre a criação de uma escola num ponto isolado da costa inglesa, para que os dois filhos do Faroleiro, que estavam em idade escolar, tivessem acesso ao seu direito de aprender. Fora considerado “como crueldade” separa-los dos pais, a quem o dever de profissão obrigava a tal isolamento.

Ergueu-se uma escola para dois alunos.
Não é o caso – mas – posso talvez deduzir que também é justo que mesmo para “poucos” ou “raros” uma biblioteca possa funcionar, ou um programa musical, ou de teatro, ou de qualquer outra matéria, com intenção formativa de qualidade social.
Serei, uma pessoa, entre outros, que, não sendo adepta ao futebol, respeita a promoção que se faz dessa disciplina do desporto.

Penso, é certo, que esse horizonte foi aberto a outros ramos, eles virão, algum dia, a ocupar também, o lugar a que, porventura, tenha direito. Estou convencida de que canto, bola, dança, teatro, investigação, etc, rtc. … Deveriam ser enquadrados nos programas escolares com o mesmo respeito que merecem a história ou a matemática.
Lamento, sim, que se deixem avolumar algumas coisas de tal forma que elas acabem por encobrir outras também respeitáveis. Da coexistência dos vários sectores dependerá a boa saúde do tecido social.

Apercebi-me agora de que estou “ainda” a continuar uma longa conversa que tive com um interlocutor que, com correcta frontalidade fez a critica que lhe pareceu justa ao meu trabalho, que nalguns sectores muito reprova.
Foi numa tarde quente, amenizada pelo requinte da hospitalidade com que no Hotel D. Luís, nos acolheu a “A Associação Barman de Portugal” – que nos convidara porque ali encerrou um curso de formação.

Foi um convívio agradável e, já gora, confesso que se a critica não teve o sabor do – desejado – me deixou a impressão curiosa de mais um encontro com – o inesperado.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 3.138 de 1 de Setembro de 2011
Conversas Soltas
Em dia de aniversario

Venho de longada a teu lado, Amigo!
E…assim passaram, contando este - sessenta e um anos.
Só que ao contrário das pessoas que quer integras, quer trafulhas, com o decorrer dos tempos envelhecem, os jornais apenas se fortalecem, ganham estrutura, amadurecem se não desmerecerem dos seus princípios.

Um jornal de província, um jornal regional – nestes tempos controversos - é sempre um acto de fé na vida e, até um sinal de coragem, de crédito na fraternidade. A notícia que propaga é a dádiva do que se conhece a quem se interessa pelo bem comum da sua terra e, só dessa forma, a ela tem acesso.

Um jornal de província - fala sobre os acontecimentos mais importantes do país e do mundo mas, faz mais do que isso, fala de quem se conhece, conta quem nasceu, quem faz anos, quem partiu para sempre, faz, como que, a ligação entre as famílias como uma saudação amiga de porta a porta. Faz o relato minucioso dos problemas, dos acertos e desacertos, de tudo que directamente toca à comunidade que serve e a que pertence.
Não é, nunca poderia ser o lacaio subserviente que por medo, interesses pessoais, ou cobardia bajula quem tem poder.

O poder pode ser sedutor, mas é escorregadio, traiçoeiro, e nem sempre enobrece quem o detém, muito ao contrário, avilta quem o exerce sem dimensão moral para o merecer.
A dignidade e a honra são bens perenes – ou se têm ou não se têm e, um jornal - ou vive sob esses desígnios - ou não vive – soçobra.
Um jornal, pode e deve ter uma linha editorial, que respeita, mas se tiver abertura a colaboração exterior não nega o parecer contrário ao seu, desde que exposto correctamente e assumido.

Sessenta e um anos – são testemunho dum percurso limpo e, também - dessa qualidade de nobreza – isenção – dessa e de
todas as demais que granjearam o prestígio de que desfruta – o jornal de todos nós – o jornal da nossa cidade.
Se - O Linhas - está de parabéns – Elvas também está e, como é lógico, todo o núcleo que o compõe e quem por ele responde se responsabiliza e mostra o rosto – o seu director

Para todos um abraço de felicitações e apreço com desejos de longa vida e um muito obrigada porque, desde há sessenta anos, discretamente têm vindo a escrever para a historia a saga da nossa gente

Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.859 – 24 de Outubro de 1986
A La Minute
FUI DO MANDO DA CIDADE

Fui à feira!
Fui a Santarém – à Casa do Campino – onde ela está a decorrer
desde 18 de Outubro até 21 de Novembro, para quem a queira e possa visitar.
Bem organizada – pessoal correctíssimo, amável, eficiente.
Feira viva e colorida.
Há mostra de tudo!
Bordados, cestas, estanhos, cobres, latões, latas, barros, trapos, tecelagens,
brinquedos de madeira – dos antigos – articulados com guitas e arames –

pintados de cores berrantes, filigranas… e, a par com esta variedade incontável
de maneiras de utilizar os materiais, por mais pobres que sejam – em que a mão
do português é mestra e perita – está também Portugal do Sul ao Minho, a
compita – nas “Tasquinhas”.


“Dons Rodrigos” e outras
Quase se poderia almoçar só de perfumes e rematar com a
fragrância do “café Delta” – que também lá está
com presença de marca.
Mas… a tudo isto fui do vosso mandado e vos trago estas notícias.
Acompanhei as meninas funcionárias do Turismo em que a Câmara deliberou apostar para nos
representarem, com a cozinha de “A Nossa Gente”, estreada no S. Mateus.
Fui preocupada e esperançosa como a Avó que leva a neta ao baile. Voltei contente.
Vi a representação de Elvas apreciada, visitada com interesse e aprovação, louvada
até, algumas vezes – muitas vezes.
O Sr. Secretario de Estado, e demais entidades que fizeram a inauguração,
provaram com delicia as azeitonas que tão amavelmente a “Cooperativa agrícola do Caia”

ofereceu ao Turismo para propaganda da nossa terra, receberam o nosso cartão de visita e
falaram com respeitosa atenção com os nossos artesãos que para eles cantaram.
Trago “de lá” este recado para dar à cidade que mandatou o Presidente da Câmara
que assim nos orienta.
Fomos convidados – Elvas foi convidada especialmente – para estar
presente na “Feira da Agricultura 1987”.
Com esta missão cumprida ficamos a sonhar com a “Casa da Cultura”
a “Universidade Popular” e… outros “recados” que a cidade nos dá e que,
se em verdade tiram à Câmara o descanso, lhe dão a força que há outras pessoas
que, como ela, se empenham a desejar que se cumpram programas sonhados e, se
sonhem programas para cumprir.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.861 – 7 de Novembro de 1986
A La Minute
A VERDADE DOS MITOS
Uma das minhas histórias
preferidas, quando era criança, contava a vida de uma princesa, que em todos os
momentos de pavor que tinha que suportar, ao atravessar a floresta de cobre, de
prata e de ferro – sempre defendidas por horríveis dragões que vomitavam chamas
– se via “in extremis” – salva miraculosamente, porque nascera com uma
estrelinha de oiro na testa.
Nas histórias antigas, as meninas princesas boas, eram de beleza idílica e
bondade sem mácula e sofriam tratos de polé pela inveja de madrastas,
que eram sempre feias e más, pavorosas como sustos!
Como as histórias eram tecidas de terrores, maldades e
generosidades de dimensões impensáveis, ficava-se a saber que todas estas
coisas eram mais antigas no mundo do que as próprias histórias, já que eram
estas que as narravam.
Claro que nestes contos
do maravilhoso, os milagres, quero dizer, os acontecimentos fora do comum,
sucediam aos bons e aos maus. Assim, as lágrimas podiam ser pérolas, quando
vertidas pelos bons, enquanto os maus choravam sapos e caganitas de ratos.
Também no fim das
embrulhadas os maus eram punidos duramente, enquanto os bons recebiam
recompensas mirabolantes… casas cobertas de pedrarias, príncipes ou princesas
para consortes, e quer eles, quer elas, também exemplos insuperáveis de
virtudes, beleza, juventude, graça… aliás era um estado de graça que ficavam
depois a viver para sempre…
Não sei muito bem
porque, e se o suspeito calo por não ter a certeza - aqueles contos fantásticos
que sempre tinham sentido e intenção acodem-me muitas vezes ao espírito.
Vejo as florestas de cobre em cada árvore que o Outono despe,
com o sol a incendiar os tons de laranja das folhas que esvoaçam e
também vejo as florestas de ferro em cada pinheiro ou eucalipto queimado,
ainda de pé e já sem mais esperança de verdes renovados…
Vejo a prata no brilho de cada copa florida de branco quando os frutos
são ainda promessas…
Sei, sabemos, como são comovedoras e belas – verdadeiras pérolas –
as lágrimas de ternura, e como são revoltantes, asquerosos como feios
repteis ou fétidos ratos os sentimentos maus.
No entanto, nas histórias reais também o bom e o mau – fadas e bruxas –
de cuja mistura todos somos feitos se degladiam dentro de cada um.
E, se ninguém encontra, quando passa a mão pela testa, a tal estrelinha
que dá imunidade e garante o bem, o prémio, o conforto depois de qualquer
légua de caminho, ou luta terrível com perigoso dragão

– não porque a estrelinha não existe – ela é o ideal porque se
orienta cada vida, para a qual se aponta o sentido de cada existência.
Por isso, à última hora, “in extremis”, quase sempre se salvava a princesa
idilicamente bela porque era a imagem daquilo que se propunha defender,
o Bem e a justiça, pelos quais lutava com resignação e coragem. Eis que,
compreendido ou não, cada um, tem que lutar e sofrer pela “estrelinha”
que o guia porque “in extremis” a fé o salvará.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.852 – 29 de Agosto de 1986
A La Minute
Tempos livres
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Andam e cirandam lá pelos corredores em pequeninos bandos. Andam contentes, trabalham e fazem obra asseada. Limpam os livros um a um e folheiam-nos procurando mazelas e defeitos que registam com minúcia. Como no todo elas são bastantes, a tarefa progride a jeito.
É tudo gente nova. Usam bibes e aventais para protecção das roupas de sair e ficam com um bonito ar de intimidade entre as estantes abarrotadas de velhas obras cheias de sabedoria.
Riem. Riem, como os pássaros cantam. A alegria é-lhes natural porque são novas. Tagarelam enquanto trabalham.

Ás vezes olho-as e digo qualquer coisa que provoca replica. São rápidas na defesa e no ataque.
São lúcidas. Fazem projectos em que entram os “proventos” a receber. Não sei dos seus anseios.
Não me abeiro da intimidade de nenhuma delas. As nossas relações limitam-se da minha parte, a faze-las interessar pelo projecto de trabalho em que se integram, e a parte delas, é a colaboração tanto mais válida, quanto melhor entenderem o que estão a fazer.

Já andam por lá como em suas casas, e é isso que é bom de ver.
Aquela vinda de grupo, aquele trabalho participado, aquela experiência diferente – torna-se numa recordação gostosa de evocar mais tarde, com filhos e netos – penso eu.
Têm caras engraçadas, cabelos longos ou curtos, silhuetas de juventude – tristeza no olhar – às vezes.

Bichanam-me ao ouvido apontamentos de vida sobre uma ou outra que começo a identificar por qualquer particularidade.
Aquela é casada. Aquela vai casar… Reparei nessa.
Destaca-se das demais. Não anda, esvoaça. Tem sempre assunto de conversa. Leva, para mostrar, com o enlevo de quem exibe tesouros, certidões e papelada que anda a preparar para o casamento. Perguntei-lhe a idade. Vinte anos, foi a resposta. Vinte vezes três – fazem os meus sessenta.
Parece, pelas contas, que eu deveria ser portadora de três vezes aquela alegria, três vezes aquela esperança, três vezes aquele gosto de rir.

Parece! … Mas apenas encontro em mim multiplicada, a ternura com que se olha qualquer menina que sonha a vida e dela espera confiante; de coração limpo, o seu lugar ao sol, o seu direito à Felicidade.
Maria José Rijo
Quem foi que disse que quem não aparece esquece?
Quem quer que fosse enganou-se...
pois aqui estamos nós a dar um
abraço de Parabéns ao Avelino
com um cheirinho de Elvas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.058 – 31 de Agosto de 1990
Á Lá Minute
Conversa de vizinhos

Dizia alguém, que ouvi, com muito fina ironia, que Portugal desde o 25 de Abril é, sem dúvida, o país que tem “produzido” mais políticos por metro quadrado.
Não consegui deixar de sorrir e de pensar se esta repentina erupção iria suplantar, ou já suplantou a nossa romântica queda para a rima e nos condenaria a perder o título de “pais de poetas”.

Depois ocorreu-me outra faceta nossa muito peculiar - a de sermos tão convictamente como os brasileiros – “um país de doutores”
Penso que há doutores com tanta profusão que já são acarinhados com diminutivos – para facilitar o trato – por “sotor” e “sotora”.
Em Coimbra, até era uso os carregadores de malas perguntarem às pessoas à chegada dos comboios: “O Senhor Doutor é caixeiro viajante?”.
Mas, em boa verdade, se somos assim irónicos e bem dispostos, somos, também, muito mais.
Somos parte de um povo engenhoso, inventivo e sábio que diz com segura dignidade a sua opinião sobre assuntos, por vezes polémicos, desde que a sofrida vivência de um dia a dia de consciente entrega, o tenha levado, embora empiricamente, a esse saber de experiência feito.
Sentada à porta, olhos perdidos na imensidade do horizonte, a minha vizinha Clemência, evocando a aprendizagem de vida dos seus oitenta anos dizia-me com convicção:
“Antigamente, a gente tinha os filhos, acareava-os ao peito. Arrimava-os à gente, dava-lhes de mamar. Levava-os para todo o lado nos braços, aconchegados no xaile.
As crianças até conheciam a gente pelo cheiro, como os bichos.
Agora, as crianças nem sabem de quem são. Mal nascem, vão para os infantários. Não conhecem os braços das mães.
Andam de carrinho. Mamam no biberão. Andam de mão em mão. Não têm dono, nem sabem a quem hão-de querer.
Depois, as mães choram e dizem que os filhos as desprezam.
O que é que esperavam?
Os meus não me querem aqui deixar. A toda a hora me vêm buscar, e os netos também. É uma luta para ficar uns dias aqui na minha casa.

Criei aqui os meus filhos. Pouco mais tenho do que o que veio comigo quando casei.
Nunca trabalhei para comprar tabaco, ir ao café, nem para camas de bilros e luxo.
Ensinei os meus a trabalhar e a trabalhar para se governarem.
Faço a minha lida. À tarde vejo um pouco de televisão. À noitinha sento-me à porta a gozar do fresco e entretenho-me a pensar coisas da vida.
Isto tem mudado muito…”
Os costumes, sim. A alma do povo – não!
Maria José Rijo
.Jornal Linhas de Elvas
Nº3.135 de 11 Agosto de 2011
Historias com mezinhas e receitas - 16
A CABEÇA DE XARA
Recentemente, numa reportagem de televisão vi e ouvi pessoas muito interessadas na receita dum petisco que acabavam de provar – cabeça de xára.
Como é evidente a cozinheira foi dando dicas sobre a maneira de confeccionar a iguaria, mas, quando chegou à minúcia dos temperos usados escusou – se com um sorriso a enumera-los dizendo que o segredo era a alma do negócio.

Pensei então que, apesar dos livros de cozinha oferecerem múltiplas soluções para quem tenha curiosidade sobre estes assuntos, nem sempre, os modernos processos nos conduzem aos resultados que a feitura lenta das pacientes receitas das nossas avós nos brindavam.
Confesso-me devota dessa confraria de petiscos inigualáveis que a carne de porco pode oferecer e lembro sempre um livro sobre gastronomia alentejana – Elucidário do Alentejo - do escritor Dr. João Falcato em que, um tanto à maneira franciscana ele alargara essa fraternidade aos porcos chamando-os de “nossos irmãos”por gratidão a tudo que do porco se aproveita e, a que logo o Senhor Padre Tomaz, homem inteligente e atento –figura de topo da cultura elvense, por essa época - veio ponderadamente refrear o entusiasmo que o levara a tão exagerado parentesco contrapondo bem humorados e sadios argumentos.
Mas… vamos à receita não antes de confessar que desde a Internet às minhas velhas enciclopédias e livros de receitas, por todas as maneiras ao meu alcance tentei perceber a razão da designação – cabeça de xára - sem o conseguir.
Xára - é um arbusto, como as estevas, vulgar nas Beiras.
Xára - é como no Brasil se designa o homónimo´
Na cozinha francesa diz-se “tete de achard”. Achard é um condimento originário da Índia resultante de frutos e vegetais confitados em vinagre.
Do meu ponto de vista nada disto tem que ver com a citada iguaria.
Também se diz xára ( segundo o dicionário De Morais) a animais de pêlo crespo – será por aí? -será referência ao porco e ao javali? - não sei !
Mas sei, com data de uma edição de 1904, a receita que uso e transcrevo. Escalda-se limpa-se e raspa-se de pêlos a cabeça do porco. Extraem-se-lhe os olhos e os miolos.
Salga-se de um dia para o outro com uma mistura de sal e salitre (eu uso apenas sal, o salitre serve para dar cor rosada às carnes)
Então, lava-se e vai ao lume a cozer com 2 ou 3 cebolas, 2 ou 3 grandes dentes de alho, um farto ramo de salsa, outro de salva e outro de mangerona e, ainda uns 15 a 20 grãos de pimenta, um copo de vinagre , dois de vinho branco e a água necessária para a cozedura até que a carne se separe dos ossos.
(Na receita antiga deitava-se também um ramo de lúcia-lima – que nunca usei)
Este tempero refere-se a quantidades de 2/3 quilos.
A meio da cozedura prova-se o caldo e corrige-se o tempero que deve ser forte visto que todo o molho depois será extraído ao meter nos cinchos, que são aqueles aros de folha onde se moldam os queijos.
Uma vez a carne cozida sacode-se dos temperos, retira-se do caldo que depois se côa em passador de pano e pica-se em pequenos pedacinhos que voltam ao caldo e vão de novo ao lume até abrir fervura. Temos então preparados os cinchos ou outras formas, forradas com guardanapos fervidos,( para não deixarem gosto) que se enchem, se apertam atando-os e colocando sobre eles um peso para que o caldo vá saindo e fique depois de frio – deve deixar-se de um dia para outro - uma espécie de queijo que se serve cortado em fatias finas. (Manda assim a tradição.)
Nota:
Eu, uso as latas das batatas”pringles”a que perfuro os fundos para que se possa escoar o caldo. Obtenho assim bonitos “paios”que dão um corte uniforme e muito conveniente. Não precisam de ser forrados, apertam-se comprimindo-se até com o fundo de um copo e depois de utilizados, deitam-se fora – aqui fica o meu segredo - e…bom apetite!
Á lÁ Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2029 – 9 de Fevereiro de 1990
A PROPÓSITO

TIA SUSANA, MEU AMOR – é um belo livro de Alçada Batista, que acabo de reler com o mesmo interesse que já me suscitara da primeira leitura.
Que isto de gostar ou não de livros, tem que se lhe diga.
Cá por mim, até que me convençam do contrário, penso que a preferência com que se distingue um livro, ou este ou aquele autor, se filia no mesmo critério que na leva a escolher alguém para o nosso convívio.

Tem, penso, muito que ver com afinidades.
Pessoalmente, prefiro autores que escrevem como quem conversa, em tom coloquial. Que dizem o que têm a dizer sem empolamentos, sem teatralizar. Que contam as suas histórias deixando fluir as palavras como sendo as inevitáveis, como os rios que correm, porque têm de correr e mais nada.
Gosto que tratem os sentimentos sem espantos, como coisas naturais, coisas da vida que são, como é o nascer e morrer, o amor e o desamor.

Gosto quando não assumem a posição de juízes que se crêem fora de todas as contingências desagradáveis, porque essas, só são pensáveis para os outros.
Claro que também leio “os outros” como também me encontro e desencontro com “os outros” , que, só assim, é possível a escolha.
Nem é desses que falo. Refiro os outros que, como algumas pessoas, no segredo da nossa eleição, podemos considerar de: - íntimos, nossos!...

Jorge Amado, Eurico Veríssimo e muitos outros mais, também são desses. Dos que parece que sabem tudo de si próprios e por isso chegam tão bem à compreensão de toda a gente.
Não inventam histórias importantes, de maravilhar ou arrepiar. Falam da vida e, cada qual com a sua capacidade, encontra os sentimentos que lhe são próprios para as situações imaginárias. Autores que são capazes de ser humanamente fraternos, com os erros e grandezas de gente como eles mesmos, nunca se esquecem o que são.
Daí, talvez, que algumas personagens que erguem, se nos tornem tão familiares que quase nos pesa não termos os seus retratos à cabeceira, na parede da sala ou, tê-los na vizinhança ao nosso lado para virem à nossa casa de pantufas, irem atrás de nós à cozinha fazer um café, ou, adormecerem calmamente sentados na poltrona que escolhessem, ao serão, quando a conversa esmorecesse – tão reais se nos tornam!

É desses autores que eu gosto particularmente, daqueles que acreditam que confessado ou não, ninguém desdenha a fraternidade.
Talvez até se escolham livros e amigos que nos ajudem na procura da nossa plena identificação. Afastamo-nos de quem nos agride e faz descer nos ideais que perseguimos.
Talvez até, tudo aconteça em torno de um dado intrínseco, atávico, talvez, que pode ou não estar identificado na nossa consciência – a solidão de ser.

Talvez, mesmo a vida, seja simplesmente o percurso que nos levará até reintegrar na dimensão de infinito ou eternidade perdida para se poder dizer – Eu.

Talvez como essa individualização – ser é estar separado – nasça a irremediável solidão de ser que deslumbra e doe, mas dá campo à esperança, à fé, à compreensão, à ternura, à solidariedade, e a todos os sentimentos generosos e grandes que podem unir os homens durante a sua humana solidão.
Maria José Rijo

Á lÁ Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1956 – 2 de Setembro de 1988
UM CASO
No final do noticiário, ali na horinha de jantar, o locutor de serviço fez um
pequeno intróito, para prender bem as atenções dos ouvintes, sobre o que
apresentou como: - “Um caso”.
E foi! – Foi um caso lastimavel , porque a indigência moral exibida,
a quase infantil inconsciência, emboída do seu quê de vaidade e narcisismo,
permitiram classificar facilmente o pobre ser humano, que se considerou a si próprio como –
um machão ou um “gigolo”.

Penso que se trata realmente de um caso, mas, de um caso de doença, de desequilibrio
mental, ou qualquer outro que não merecia da RTP aquele tom de anedota inócua que se conta à
mesa, na frente das crianças no fim do Jantar.

Penso que ninguêm ficou mais enriquecido, beneficiado, ou feliz por ver que casos
destes – que infelizmente são possíveis – se podem considerar tão interessantes
e de tão útil divulgação, que a própria televisão, não resista ao sencionalismo
de os noticiar de forma tão “leve”.
Penso ainda, que a televisão se torna com este tipo de coisas, ela própria, também
“Um caso”.
Um caso que faz, pensar se será sua missão entrevistar um tarado sexual,
forçando-o, com um ar de simpática cumplicidade, a revelar frente às câmaras,
pormenores das suas práticas, como se fosse vital para os ouvintes conhecer em
minucia tais aberrações – ou apoiá-las.

Em resumo:
Um locutor fez o anuncio, uma locutora conduziu a entrevista e, um país inteiro
“registou”, com espanto, a maneira como estas coisas podem acontecer.
Foi realmente UM CASO. Um caso que dá aso a
que se pergunte com inquietação se a televisão faz caso dos sentimentos de pudor e recato –
que graças a Deus – ainda se cultivam e defendem em muitas
familias portuguesas – que nascem, vivem, trabalham e morrem sem que, para se
considerarem felizes, precisam de utilizar tão moderno à vontade.

É que casos - como o deste triste caso – quando por dever, para prevenir ou defender
outros, manda a razão que se exponham publicamente, tem que ser tratados com a
piedade e o cuidado que as desgraças exigem, e não como quem fala de heróis.

Há entrevistas que falam tão mal de quem as dá como de quem as solicita ou
consente.
Maria José Rijo
Á lÁ Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1931 – 11 de Março de 1988
CHORA MEU CORAÇÃO

Se não houver uma cantiguinha brasileira com este título – se não houver –
paciência !!
Faz de conta que há e que fui eu que a escrevi, porque se eu tocasse ou cantasse olhando,
agora, tantos eucaliptos derrubados e tantos mais marcados de cruz para cair,
não resistiria a pegar no tema!

Não é que se queira acreditar que o seu abate obedeça – obedecerá – por certo, a
uma politica de alargamento de estradas ou a qualquer projecto válido que
justifique o “morticínio”.

Mas lembrando uma época , ainda recente, em que a “mal amada”, era a lendária
oliveira, e por todos os lados se viam, tristemente, olivais de raiz ao sol…
Pensando naquela “onda” que fez a maré das rusticas azinheiras que desamparadas do amor
dos homens caiam como construções de cartas…

Recordando que nesta altura surgiam e proliferavam os pomares de macieiras como se arvore que não florisse de branco na Primavera, não tivesse direito à vida e se estivesse a reconstruir
o paraiso na terra…

Vendo agora restaurado o prestígio da Oliveira, vendo também recuperada a Azinheira
que já é falado como necessário para dar sombra ao gado, protecção e alimento à
caça, útil para a conservação da humidade nos solos, e mais … fico a pensar se
os eucaliptos à beira dos caminhos, não virão ainda a ser evocados com saudade.

Por agora, choram-se aqueles que, como eu, não vêm sem dor, cortar uma àrvore que
levou anos e anos a crescer e a ganhar porte, que ofereceu sombra ao caminheiro
cansado, deu cunho identificador a qualquer troço de estrada, deu abrigo a
ninhos de cegonha, que ano após ano lá voltavam para criar novos filhos e a
matraquear com os seus longos bicos.
Chora meu coração!
Chora de medo, que desta vez, não tenha havido um cuidadoso estudo prévio que evite o
abate de uma só àrvore, que seja.

É que uma, uma apenas, já empobrece o canto do vento, o abrigo dos pássaros, o
perfume e a pureza do ar, o banquete das abelhas e o regalo dos olhos de quem,
de dentro da alma, as bendiga como uma das dádivas mais generosas da Natureza e
as ame como um sinal de Deus.
Maria José Rijo

K I K A
.
Que como se vê fez as suas investigações
sobre os moveis, dentro das gavetas, enfim, o costume...
E também como sempre nos
divertiu e fez boa companhia.
.
Enquanto a Paulinha continua a fazer as suas reportagens fotograficas
- desta vez da Manta Rota onde estamos a terminar umas gostosas férias -
eu, estou tentando acomodar-me à condição de (Senhora maior) ou seja
de velha senhora.
Espero quando regressar a Elvas retomar o vosso convivio com mais
regularidade.
Na verdade, muitas vezes, das vossas amigas presenças, creiam, é que, recolho
alegria para estes tempos nem sempre faceis.
.
UM ABRAÇO
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.857 – 10 de Outubro de 1986
A Lá Minute
Rescaldo…

Pelo menos – a nível local – bastante já se falou e disse sobre a visita a Elvas de alguns membros do Governo.
Se bem que visitas de passagem, quando o rumo é outro – sejam lugar comum na nossa terra … desta vez… a novidade foi que o destino não era Badajoz, e o viajante era o Senhor Primeiro Ministro.

Porém, o que foi novo, e não vi sublinhado com a importância que, a meu ver, teve… foi a frontalidade e a lucidez da intervenção do nosso Presidente da Câmara.
Não é vulgar, nos tempos que correm, as pessoas assumirem com tanto desasombro as suas convicções, e quando os destinatários dessas mensagens são os mais altos “mandantes” e o que se diz não é titubeado mas sim, afirmado com a dignidade e a segurança do sentir que exprime, mais respeito nos merece.

Ouvir da boca do Senhor Presidente da Câmara, sem ferir a cortezia
e a delicadeza que compete a um anfitrião, defender os interesses dos
seus municipes lembrando aos membros do Governo que… traçar projectos em gabinetes só tem sentido , tendo em conta o bom senso que obriga ao respeito pelas populações – voltar mais adiante, a repetir a expressão, bom senso, para que não parecesse casual, penso que deve ter deixado em todos os circunstantes aquela noção de dimensão e capacidade que se espera de quem foi escolhido para nos representar.

… Mesmo os turistas mais apressados, rolando a alta velocidade pela estrada, ao passarem junto ao Aqueduto, não resistirão a pensar que em Elvas há qualquer coisa de identificador e diferente…
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.950 – 22 de Julho de 1988
A Lá Minute
FELICITAÇÕES…

Por muito bem que nos saibam as férias, há sempre um momento em que os nossos
velhos hábitos noscomeçam a fazer falta.
Às vezes, quando se é muito novo, tudo o que é repetição provoca tédio, e então
“ ser vagabundo no mundo” parece ser o melhor sonho a realizar na vida.

À medida, porém que o tempo passa, começam a ser mais importantes os laços que,
dos hábitos, e mudar pode tornar-se uma dolorosa experiência.
Sentem-se mais as faltas dos amigos e conhecidos, dos lugares, das raizes que nos
vão enredando e prendendo como àrvore ao chão.

Desenraizar, por vezes, pode ser morte. Talvez que de tudo quanto se conhece,
e ritualmente se repete, nos venha uma ilusão de segurança, ou alguma sensação
de tranquilidade que nos prometa um futuro em que sabe bem acreditar.

As férias terminaram e voltei.
Voltei e dei comigo fóra do ritmo de trabalho em que, naturalmente, ia
metendo os meus comentários “A Lá Minute”.
Não é que faltem assuntos em que apeteça meter a penada.

Não é isso! Eu tinha até umas crónicas de férias divertidas, destas situações
quase anedóticas que vão acontecendo com toda a gente. Porém, não o fiz logo,
e outras surgiram tão importantes para a cidade e para on concelho que me parece
falso referir qualquer assunto neste momento que não seja a alegria que colectivamente
nos toca e vivemos.

Embora conhecendo o risco que corro, de leituras mais ou menos perversas de quanto
eu possa escrever sobre a Câmara, decido que não me alheio, e louvo o que é de louvar
neste gostoso jeito de fugir à demissão – sempre fácil – de intervir naquilo
que a todos diz respeito.

Felicito o Sr. Prsidente da Câmara deste mandato – 1986-89 porque na sua actuação
para resolver assuntos de tanto melindre como: Hospital e Maternidade –
deste testemunho público de como:
Prudência não é medo
Coragem não é bravata
Bom senso não é cobardia

Felicito e agradeço que tenha tido a sabedoria e humildade do silêncio, com a percepção exacta
da importância que tem o ser paciente, quando é necessário escolher a onda propícia para meter
o barco ao mar com segurança.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº - 3.130 de 7 Julho de 2011
Historias com mezinhas e receitas 15
Comidas tradicionais, ou, asabedoria do povo
Dos Açores, para alem da memória da página do livro de geografia da escola primária com o desenho das nove pequenas ilhas sobre um fundo azul que queria significar – mar - e, de umas quantas linhas que indicavam as coordenadas da sua posição relativa ao resto do mundo, nada sabia.
Quero dizer, sabia-lhes o cheiro a sal, a tragedia da solidão e o encanto de serem ilhas cercadas de mar por todos os lados, como se aprendia na escola e mais o deslumbramento que escorre com que rebentam nas rochas, da poesia e de “mau tempo no canal”de Vitorino Nemésio.

Era isso que guardava comigo quando a vida me fez “dar à costa” por essas paragens
para o meu particular descobrimento…
Quer dizer, para o meu deslumbramento.
Lembro-me e ter respondido a quem me perguntou que, se tivesse caído de olhos vendados num qualquer povoado açoriano teria respondido sem hesitar, mal me deixassem ver em redor, que sabia estar em Portugal.
Já o mesmo não diria da paisagem e das culturas. Necessariamente foram as
condições climatéricas ambientais que determinaram
muitos dos seus usos e costumes quer no artesanato quer na gastronomia quer até no vestuário.
Na ilha do Pico, onde me deram a receita de geleia de mão de vaca, que hoje
ofereço, vi grandes culturas de inhame e, aprendi a saborea-lo mexido com ovos e linguiça como por cá se faz com a batata.
Só que a sua preparação tem um ritual especial porque em cru, queima na língua mais do que piri-piri e produz nos incautos um ardor nas mãos como provocam as urtigas.

Por lá reina o gado bovino e muito da sua cozinha típica assenta nessa riqueza, até as “albarcas,”calçado hoje em desuso, eram feitas artesanalmente de pele de
vaca curtida.
A vaca tudo fornece.
São os doces de leite, as massas sovadas ricas em manteiga, é a sopa do Espírito Santo, é a alcatra – acepipes afamados! – é o cozido nas furnas, são os queijos, tudo, mais ou menos provem da mesma origem.
Da vaca até as partes menos nobres se utilizam na gastronomia
Assim que a mão de vaca que guisada com batata, com feijão ou grão também por lá se faz e é devidamente apreciada, já não tenho conhecimento que com ela também seja usual entre nós prepara-la como sobremesa em especial para crianças.
Foi-me ensinada assim:
Aproveita-se o caldo da cozedura da mão ( que deve cozer até que a carne se despegue dos ossos) e se vai sempre limpando da espuma e, na medida do possível também da gordura que vem ao de cima enquanto ferve.
Côa-se esse caldo por um passador de pano.
Mede-se e junta-se 250 de açúcar (de preferência de cana) por litro.
Adiciona-se bastante casca de limão e paus de canela
Volta ao lume para ferver em cachão e retira-se.
Guarda-se em louça ou vidro e come-se como qualquer gelatina.
Costuma utilizar-se como suplemento alimentar.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.914 – 13 de Novembro de 1987
A Lá Minute
Até quando…

Uns dias de forçado lazer deram-me uma visão actualizada do que é
fazer graça, em algumas estações de rádio, presentemente.
Um actor credenciado, a nível nacional, como muito engraçado, disse, eu ouvi,
um chorrilho de ordinarices de fazer corar a própria cor escarlate.
Será que se pode aceitar pacientemente tal conceito de graça?

Como se estivesse em sua casa, gastando do seu próprio
dinheiro e usando o seu próprio tempo a seu bel-prazer – e não estivesse, como
estava, falando para as gentes de um país, gastando dinheiro que não lhe
pertence mais do que a todos nós, e com obrigação de dignificar o tempo em que
é pago para trabalhar, distrair, mas não insultar a inteligência e dignidade de
um auditório – telefonou a uma colega doente e perguntou-lhe por nabos ou
qualquer outra hortaliça com um tom de cumplicidade velhaca a que ele próprio
acho um humor delicioso.

Seguidamente inquiriu se ela estava sozinha na cama, com comentários
também edificantes…
Perguntou depois o nome dos medicamentos que ela estava a tomar e ao saber que
a doente tinha problemas de ouvidos, fez mais “graça” ainda, falando das trompas
de Eustáquio e depois das trompas de Falópio.

Farta de “tanto espirito”, desliguei a rádio como quem sustem um vómito de nojo e
fiquei a pensar que era tempo de decidirmos se queremos ou não este tipo de engraçados.
Era bom que lhes lembrassem que são pagos por nós todos, e se é verdade que
“a cavalo dado não se olha o dente” –
nós que estamos habituados a tudo pagar por bom preço –
temos pelo menos o direito de exigir que respeitem a nossa hijiene mental e a nossa dignidade.
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.910 – 16 de Outubro de 1987
A La Minute
Palavras e palavras…

NÃO e NUNCA, são palavras muito diferentes.
NÃO, pode ser mutável, pode transformar-se em talvez, ou até em sim.
NUNCA, é definitivo, pesa como a morte!
Pensava nisto a propósito duma carta de criticar bem intolerante que me foi dirigida.
Contrariamente ao que o seu signatário possa pensar, não rejeito os reparos que faz.
Repudio sim, e com veemência, a influência que a minha atitude possa ter tido na formação da criança referida, que por não ter recebido na hora aprazada o prémio prometido (que já recebeu) disse “nunca” à sua fé na minha palavra.
É que – NUNCA – e repito, NUNCA fiz deliberadamente fosse o que fosse para ferir alguém; menos o faria a uma criança.

É que – NUNCA – e repito, nunca me julguei e afirmei – infalível, ou detentora privilegiada de qualquer verdade que me tornasse acima do comum.
Reconheço assim a minha falha, embora involuntária, e dela me penitencio pedindo publicamente desculpa às crianças que magoei e a seus pais pelos danos causados.
Assumo pois o erro, e reconheço que deveria ter dado na altura esta explicação:
A companhia de Bailado chegou a Elvas ao anoitecer para descarregar o material no Cine-Teatro, e porque outro espectáculo ia ali decorrer e o espaço disponível era exíguo para tão volumosa bagagem, a camioneta foi pernoitar, carregada, na abegoaria da Câmara.

Acontece que às 6 horas da manhã todo o material tinha que ser descarregado no palco para que às 7, pontualmente, como se verificou, começasse o trabalho de montagem de cena.
Frente a esta circunstância, aceitei a sugestão “que me sopraram” para se encurtar a permanência no Cine-Teatro, não fazendo ali a distribuição dos prémios às crianças, para que o Senhor Massano (que homem ímpar!) pudesse, ainda que sem descansar sequer umas escassas horas,preparar o espectáculo .

Confesso que não medi a repercussão que iria ter o facto de não ter explicado, de imediato, o sucedido – o que lamento.
Sem azedume, todos poderemos aproveitar a maré para pensar e repensar…
-- Os pais das crianças (que são já tão radicais na apreciação dos outros para afirmarem tão indignamente: NUNCA! ) – se terá chegado o momento de lhes incentivar o sentido da tolerância que se deve à condição humana – ou – se para tal já perderam onze anos …
Por mim, que de quanto sonho, sempre fico aquém e me recuso a radicalismos fico com as sensatas palavras do Tio de Beethoven que o consolava dizendo:
“ Meu filho! – so és obrigado a fazer o que podes.
Quem diz que querer é poder, quer muito pouca coisa”
Maria José Rijo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.901 – 14 de Agosto de 1987
A Lá Minute
A História da formiguinha

Olhar o mar dá o sentido de vastidão do horizonte sem fim, faz meditar na vida.
Ver e ouvir correr a água de um rio, é bom, conforta, embala, dá sentido à reflexão.
Ver e ouvir a água
despenhar-se em cascatas é belo, mas assusta, arrepia, impressiona como nascer
e morrer.
Escutar continuamente o pingo da torneira mal vedada, desgasta – é irritante – perturba,
alucina.

Pensava estas coisas,
como fundo de outras que se me impõem dia a dia.
O sentido da distância, de passado e do futuro, é como um mar onde é largo o horizonte.
Para o mar, vai o rio sem o saber. Vai, apenas, porque nasceu para ser rio, e é rio sem querer.
Atropela-se, gorgorejante e esgueira-se ligeiro na garganta apertada entre os montes.

Espraia-se largo e manso nos vales convidativos que se abrem no caminho.
Quase se para, então, e se finge logo pachorrento.
Deixa-se espelhar à superfície – que a aceitação consola e descansa – mas, lá no fundo,
a corrente mantém-se viva – que quer ser rio – é isso mesmo de procurar o mar à força,
para o ser.
Nada lhe tolhe o caminho. Atreve-se em
saltos. Despenha-se de alturas com fúria suicida, para precipícios insuspeitos.

Deixa que lhe chamem cascata, açude – mas não pára – segue. Segue porque foi rio
que nasceu do ventre da terra e a sua vida, se bem que inscrita num leito de percurso
sobre rochas, montanhas ou vales leitosos, só pode e sabe contar a história do rio
que sonha o mar.
Trava-o a barragem, o dique, a mão do homem que o escraviza a destinos novos por ele
inventados para o domar e dele se servir.

Só o homem lhe tira a alegre paz de correr.
O homem, que, às vezes deixa sossobrar em si próprio o sentido da vida e de largo, de
horizonte sem fim, que colhe do rio…

E é o pingue, pingue, irritante e persistente da torneira que goteja, lembrando que pouco
a pouco se pode poluir o rio que corre, e o mar que o espera – que faz do dique, que estanca o
sonho da vida do homem, que é capaz de travar o rio que segue para o mar que o aguarda…
E foi então que pensei na formiguinha frágil que interroga o mundo com pasmo:

“ … Oh, sol! – tu que és tão forte que
derretes
a
neve e a neve tão forte que gelou
a
minha patinha”
E assim, numa
lenga-lenga de dor, pergunta a pergunta, resposta a resposta, a história de
espanto da formiguinha acaba como todas as histórias desta vida:
“
Mais forte é Deus que tudo cria!”
Maria José Rijo
Não sei se ainda recebe o Linhas de Elvas para estar a par
das inovações que por cá acontecem.
Elvas está no Guiness com um bacalhau dourado de dimensões faraónicas.
Foi um sucesso!
Inesperadamente a nossa cidade pode voltar ao Guinness porque
não consta que se festeje o Carnaval nos Santos Populares, como no sábado- 18
de Junho – por cá aconteceu.
Não acredita? Aqui está o testemunho fotografico.
Aqui fica este bom motivo para se rir no dia dos seus anos.
Com muitas saudades, um grande abraço de Parabéns
da sua velha amiga
Maria José
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Quando o homem se render à força que o amor tem
e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate
um coração.
Maria José Rijo
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(pc)
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Ser semente do futuro,
é a mensagem de esperança,
Que como um recado antigo,
A vida nos dá a herança.-
Maria José Rijo
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(gato)
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Eu penso, que é saudável e
honesto reconhecer e respeitar
as diferenças que nos
individualizam no campo, também
dosi deais.-----
Maria José Rijo
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(6 anos)
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Há uma tal comunhão entre a obra e o autor
Que até Deus concebe o Homem e o Homem
- o Criador!
Maria José Rijo
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(19)
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(30 anos)
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()
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Sei para onde vou-
pela ansia de galgar
a distância-
de onde estou-
para o que não sou.
Maria José Rijo
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A solidão é o que preenche o vazio
de todas as ausências.
Maria José Rijo
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Quando na vida se perde,
Um amigo ou um parente,
P’ra que serve a Primavera?
Se o frio está dentro da gente.
Maria José Rijo
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Nas flores como nas pessoas,
ás vezes a aparente fragilidade
também pode
esconder astúcias
e artificiosos bluffes ”.
Maria José Rijo
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Coisas e loisas esparsas-
Como a ferrugem – se pica-
Como a lama dos caminhos-
Se pisada… nos salpica.
Maria José Rijo
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Todos os dias
amanhecem
Crianças
Pássaros
Flores !
Sobre a noite
das crianças
Pássaros
Flores
que já não amanhecem
Amanhecerá!
Maria José Rijo
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Jornal da Beira -
(Guarda)
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Jornal da Ilha Terceira
(Açores)
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Jornal O Dia
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Jornal O Despertador
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Revista Norte Alentejo
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