Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Achega para uma nova toponímia

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1733 – 4 de Maio de 1984

Achega para uma nova toponímia

     

Muitas vezes me perguntei se seria necessário, para que as árvores vivessem, tratá-las de forma tão cruel como acontece todos os anos com as “nossas árvores de cada dia” as árvores que ornamentam, as ruas e avenidas da nossa cidade.

          

Um dia fiz esta pergunta a um agrónomo, que sabia estar a dirigir cursos sobre limpeza e poda de arvoredo. Fiquei assim a saber que não, NÃO é necessário tão “zeloso” exagero.

Logicamente a minha perplexidade renova-se em cada ano e a minha angustia, também, quando vejo cortarem até quase matar, árvores que deveriam querer-se frondosas para amenizar um clima como o nosso onde o Verão é sufocante.

       

Vi, outro dia, com enlevo, com que inteligência, foram limpos os plátanos que em Badajoz, na praça frente ao Simago, convidam, com a sua sobra murmurante, naturais e forasteiros, para saboroso descanso, enquanto as crianças espalham alegria com brincadeiras e correrias.

Vi! Vi e percebi como poderia e deveria ser por cá se tivéssemos igual critério de bom censo.

        

A não ser que queiramos ter que chamar à bela estradinha que vai da frente do Morgadinho até à Piedade e desta, até à avenida António Sardinha – “Estrada dos Vasculhos” ou “Avenida dos Espanadores” – isto não se entende!

            

Ou teremos que admitir que como “vanguardistas empenhados” nos programas criar uma “zona modelo” de calamidade onde se possa aprender como em pouco tempo – sem respeito por um bem que é de todos – se desfeiam a matam por amputação sem critério, vidas vegetais, que levaram anos e anos a crescer e a formar-se.

     

Como as aves do céu, as árvores vivem apenas do que o céu lhes dá, e oferecem o conforto da sua sombra e abrigo até a quem nada faz para o merecer.

Sabe bem meditar as vezes…

 

Nós não “somos” por parecer

Nem parecemos o que somos

“somos” só o que fizermos

Que só por actos ficamos

 

Maria José Rijo

 


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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Ora, não é que …

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.048 – 28 de Junho de 1990

Ora, não é que …

         god-bless-america

- Ora, não é que vinda da América – país, de onde emanou um conceito de liberdade e um estilo de vida que provocaram uma verdadeira rotura nos velhos costumes e preconceitos das sociedades, ditas conservadoras, convencionais e hipócritas, nos chega agora o alerta!!!

            

- Ora, não é que se recomenda, como único remédio eficaz contra o avanço da Sida – a monogamia, o casamento só após atingida a maioridade (para haver hipótese de uma escolha consciente para toda a vida), o culto da castidade, antes do casamento, para homens e mulheres e, tudo o mais que foi “insultado” como atraso de vida – no mais doce dos epítetos!!!

        

Assim que, muito embora não se possa confundir virgindade com dignidade, nem casamento com amor e fidelidade – porque – cada coisa é o que é, e não é do rótulo exterior que lhe vem a virtude ou a qualidade, por caminhos dolorosos, quase apocalípticos, a humanidade é obrigada a confrontar-se com as consequências da promiscuidade e permissividade que, com a designação de “modernismo”, “liberalização” e mais não sei o quê – tão levianamente institui como leis de avançada civilização!!!

Homens e mulheres näo têm opiniöes muito diferentes sobre sexo

- Ora, não é que se chegou agora à conclusão de que, pelo respeito de cada qual, pela sua condição de gente capaz de assumir corpo e alma como unidade indissociável, não devendo a alma ofende o corpo nem o corpo ofende a alma – só assim – se poderá conservar a esperança de viver e transmitir vida, como é do bíblico destino!!!

Parece chegada a hora de reavaliar o significado de expressões tais como: - namoro, casamento, compromisso, promessa, dignidade, felicidade, dever, brio, palavra, honra, … etc, etc, etc…

Bem o sentia aquela velha analfabeta – chamada Carolina – essa “Catedrática” da vida, quando às glicínias chamava: - “delicínias…”

É que, também, as palavras que se dizem, precisam de ser respeitadas no seu mais profundo significado, para valer a pena que sejam ditas.

                                   

Glicínia, para ela, não era nada – mas – “delicínia” envolvia a delícia do perfume, da cor lilás dos cachos de flores e, toda a beleza que encantava a sua alma de mulher, ao ponto de, subjugada, confessar: - “até p’ros pobres c’umã mim – viver é bonito!...”

… E, assim, falava verdade porque através da palavra inventada podia sentir o que dizia…

 

Maria José Rijo

 


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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
Instantâneo de rua…

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1953 --  12 Agosto de 1988

Instantâneo de rua…

      

Vi a mulher surgir, da viela, repentinamente, esbofetear o garoto e começar a arrasta-lo consigo puxando-o por um braço.

Aos tropeções, chorando e respondendo às injurias da mãe, iam-se afastando do local da cena, quando um observador gritou a mulher:

-- Deixe o miúdo brincar!

-- Você não tem vergonha de humilhar a criança batendo-lhe aqui à frente de toda a gente?

Pálida de raiva a mulher largou o garoto, pôs a mão na ilharga e encarou o homem dizendo:

-- Olhe lá!? – Donde o conhece?

-- Gosta mais dele do que eu?

-- Fui eu que o pari, sabia?

-- Não sabia que vocês, só os sabem fazer e as mulheres que os carreguem e se lixem para os criar.

--Deixe-o brincar! Se você o governar eu até o meto a doutor.

-- Deixe-o brincar! – Deixe-o brincar!...

     

Leio nos jornais, ouço na rádio, vejo na televisão a campanha contra o trabalho infantil.

Reconheço a necessidade de evitar que a cada criança seja negado o direito a fruir a sua própria infância.

          

Reconheço a urgência de cada criança ter acesso à vivência dos dez direitos que lhe são reconhecidos internacionalmente, porém…

Porém, recordo esta e outras cenas de rua em que transparece a miséria e o desespero das famílias e fico a pensar que não é a proibir que se encontra a solução – é a dar…

         

-- E a criar condições de trabalho e remuneração que permitam a cada Pai – a cada Mãe – não ter que conseguir na venda das débeis forças dos corpinhos ainda em formação dos seus filhos para provarem ao próprio sustento.

-- Se proibir apenas, fosse remédio, proibia-se a fome e a miséria e tudo estaria naturalmente sanado.

          

Quando uma mulher espanca um filho e o proíbe de brincar – já fez certamente a jornada de sofrimento inteira, que a levou a esse calvário onde a brutalidade é, no seu desespero, a única forma de manifestar preocupação pelo seu futuro e uma trágica maneira de ainda expressar Amor.

 

Maria José Rijo

 


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Sábado, 14 de Novembro de 2009
Nem já Sonho…

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.823 – 7 de Fevereiro de 1986

 Nem já Sonho…

                

Desde os meus velhos tempos de rapariguinha de Liceu que me habituei a dizer – ou a repetir – apenas os primeiros versos do poema de Manuel Bandeira:

                   

“ Vou-me embora pra Passargada

Lá sou amigo do Rei…”

 

Como quem dá o grito do Ipiranga, quando preciso libertar-me de qualquer pressão premente.

Só que, a minha Passargada, o meu reino do Ipiranga, não tinha nada que ver com o império de Ciro da velha Pérsia.

                       

Não! Nada disso!

Tudo quanto eu pudesse aliar à ideia de liberdade e de felicidade na terra – tudo quanto tivesse a ver com evasão do dia a dia rotineiro, se passava lá para os mares das Caraíbas – lá para as Antilhas – lá nessa ilha que o cinema da época tornava idílica com as canções, lânguidas,

                          

entoadas por mulheres indígenas, lindas como a Dorothy Lamour, vestida de folhas de plantas e enfeitadas por colares de flores, tão coloridas, como se tivessem ao pescoço o próprio arco-iris. As praias tinham areais dourados e macios como tapetes finos e, para comer, bastava estender o braço porque logo se achava um fruto gostoso, sumarento e perfumado, para que a mão com negligente elegância o recolhesse.

              

Assim, o cinema, vinculava a imagem de que no Haiti a única obrigação era a de ser feliz e todos os desejos se resolviam de forma tão mágica como o “Abre-te Sésamo” de “Ali Bábá” nas “Mil e uma noites”.

              

E, assim, cresci inventando a minha reserva, sempre que dela precisava, e, quando li (de um poeta cujo nome esqueci) “Poesia dos mares do Sul” apenas: Eu nunca lá fui!”

Intimamente fiquei feliz porque eu, que nunca fora à minha Pasárgada, dava-lhe de cada vez que a reinventava, um toque novo de Paraíso imaginado.

Li agora nos jornais e ouvi nos noticiários: - “Guerra no Haiti”.

                

Fiquei defraudada.

Devia ser proibido haver guerra, dor e morte no mundo dos sonhos da gente.

Qualquer dia não fica um espacinho, sequer, por mínimo que seja, onde se possa situar a “nossa Passárgada” e será inútil o nosso grito do Ipiranga.

            

Se ao menos eu fosse Vinícios – abraçava-me ao violão – pitava um cigarrinho, tomava uns tragos de whisky e trauteava em canto bem choradinho:

Ai que saudade…

 

Maria José Rijo

 


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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Uma frase – Um achado

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1863 – 21 Novembro de 1986

 Uma frase – Um achado

    

Não fui ao jogo.

Não está nos meus hábitos ir ao futebol, porém, informar-me se “O Elvas” venceu ou não, depois de cada desafio já é uma preocupação que não descuro.

Daí que, quando numa destas últimas manhãs ouvi na rádio o Manuel Carvalho dizer que o nosso Clube “Venceu o árbitro e empatou com a Académica”, me tenha divertido e deliciado.

Uma frase simples, aparentemente só de bom humor, e aqui está como toda a gente ficou a saber o que se passou lá por Coimbra – onde “O Elvas”, para empatar com o seu natural

         

 

adversário daquela jornada, teve que vencer um opositor inesperado… dado que se tratava do homem… que podia e devia colaborar com ambas as equipas desde que exercesse, apenas, criteriosa e justa actuação, como dele, todos esperariam.

          

E assim que, por vezes… um só… desde que mal intencionado…destrói o equilíbrio duma equipa e prejudica toda a colectividade.

Mas, ao que se sabe… talvez porque o Mundo e a bola têm ambos a forma redonda… acontece o mesmo em todos os futebóis desta vida.

E, porque falo de futebol e aproveitei o intervalo para o meu próprio comentário… é tempo da segunda parte.

Não é a primeira vez que comento a graça, a frescura, a frontalidade que o Manuel Carvalho usa no que escreve e diz. A ele próprio, já algumas vezes o terei dito, mas esta frase, desta vez, foi na verdade um achado.

E que para mim, a reportagem é isso: o comentário curto – conciso, irónico ou jovial até, mas, objectivo, colorido e bem focado, como o instantâneo apanhado no momento certo – como a pincelada que fala do pintor antes que se lhe leia a assinatura… como a clareza de quem assume o que diz.

        

Penso que é esse o segredo que faz o mérito dum repórter.

 

Maria José Rijo

 


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música: Uma frase – Um achado

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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
O EQUIVOCO

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.967 – 2 de Dezembro de 1988

O EQUIVOCO

         

Quase todas as tardes antes que a sombra envolvesse a varanda, eu costumava gozar o sol lá, naquela linda casa perto da Serra da Estrela, onde então vivíamos.

Por baixo, no rés-do-chão, havia um jardim com um arbusto alto, cortado em redondo por cima, que, como soldado posto de guarda crescia frente ao portãozinho da entrada.

Era bonito. Deve ainda ser bonito de ver, se não mudou. Da varanda avistavam-se as serranias em redor. Como o clima por lá, era mais frio, a Primavera era tardia, mas as rosas de toucar que se debruçam nas grades de ferro e muros de pedra dos quintais faziam-na perfumada, com seu ar, de alturas, leve e fino.

      

Eu tinha tempo para gastar em pequenas tarefas que se tornavam mais agradáveis quando já não havia neve e a temperatura convidava a fazer sala na varandinha alta.

Foi assim, que em certa ocasião depois já de muitos dias passados desde o começo do bom tempo comecei deliciada a acreditar que dois passarinhos que sempre via nos fios do telefone se tinham habituado de tal modo à minha presença que já os poderia considerar meus companheiros amigos.

E, aqui, começo eu, no meu encanto, a ficar mais tempo ainda na varanda a falar-lhes, a arranjar-lhes comedouros convencida, como andava, que lhes ganhara confiança.

Tanto bem lhes queria, que não me parecia possível não ser entendida e continuava confiante a viver o meu sonhado enlevo.

Os passarinhos, também não arredavam dali.

Ora um, ora outro, ou ambos, lá estavam olhando para mim, pipilando como interessados em manter aquele namoro que foi durando, durando, até que, a certa altura sem razão que eu entendesse, pela ausência deles, terminou.

Bem voltava à varanda espiando as redondezas na esperança de rever os meus alados amigos.

Mataram-nos! – Pensava! – E, tanto de isso me convenci, que aceitei a mágoa de deles me ter perdido, por esse triste fim.

O tempo foi rolando, a serra mudava de cores, as tílias floresciam, o vento espalhava pela cidade ondas de perfume e, a certa altura, o Outono, apresentou-se com o seu cortejo de folhas caídas que ia arrancando de árvore em árvore.

Então, um dia, olhando o arbusto da entrada, nu e triste, vi um pequeno ninho vazio preso entre os ramos.

Percebi então o equívoco.

 

Maria José Rijo

 


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música: O EQUIVOCO

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Domingo, 8 de Novembro de 2009
As Professoras e eu...

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.964 – 11 Novembro de 1988

 As Professoras e eu

            

Quando se aposta em alguém a quem se ajuda, se apoia, (ainda que contra a corrente) com desinteresse, estima e consideração, e em troca, dela aparece, lustroso e agressivo – o bico do sapato – é hábito as pessoas que nos rodeiam dizerem com ares de sabida segurança:

-- Eu já sabia!

-- Eu bem disse!

-- Eu avisei!

-- Não se esperava outra coisa! – etc, etc, etc…

                            

Acontece que sempre achei suspeitas este tipo de sentenças com juízos definitivos sobre as pessoas.

Para mim, ainda que me digam, já me tivessem dito, ou continuem a dizer… Ainda que bem me avisem, ou já tivessem avisado… de cada vez – eu não

sabia, não sei, nem quero saber, porque ainda  que as professoras muitas vezes pareçam dar certas – a minha verdade é diferente.

     

Aquilo que eu sinto em relação às pessoaspessoa que sou – aquilo em que eu acredito, aquilo porque vivo – chama-se Fé.

Sabendo, como todos sabemos, que a toda a gente é possível – trair, comprar, intrigar, maldizer, destruir, apedrejar, profanar, mentir, invejar e tudo o mais que pode formar o cortejo, quase sem fim, do que é negativo – todos sabemos igualmente que há sentimentos e atitudes positivas que às más se podem contrapor – sempre!

      

Ninguém nasce feito – fazemo-nos evoluindo pelo caminho – com serenidade.

Basta, até que um dia, uma vez, num aparente acaso, aqueles que se negam à lealdade de ser que impõe deveres e sacrifícios – olhando uma coisinha de nada quase como um grão de poeira – se dêem conta de que estão frente ao milagre da vida, contado que seja, em linguagem para crianças:

         

 

“Da pobre semente preta

Ninguém diga: ficou nada!

Tão triste,

Tão só,

Tão delicada,

Ai violeta!”

(como escreveu Matilde Araújo)

 

Todas as coisas, chegam até nós, na hora certa.

As que julgamos boas e as que entendemos por más. Queiramos nós entende-las.

Há muito pouco tempo, voltou a aparecer na televisão o Professor Agostinho da Silva que deixou no ar esta frase:

       

“Deus criou o homem à sua imagem e semelhança para que vivesse

 – como um poeta à solta.”

 

“Da pobre semente preta

Ninguém diga: ficou nada.

Ai Violeta!”

 

 

Maria José Rijo

 

 


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música: As Professoras e eu

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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Pontuação

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.037 – 6 Abril de 1990

Pontuação

 

Quando era garota e frequentava a instrução primária, era costume exemplificar a importância da pontuação com uma frase que julgo, era usada em todas as escolas nesses velhos tempos.

        

“Um caçador tinha um cão e a mãe do caçador era também a mãe do cão”

Lia-se tudo isto duma assentada e depois com a pontuação nos sítios certos. Aprendíamos assim a conhecer que bastava esse “pequeno truque” para não ser possível pensar que a mãe do caçador era a mãe do cão – mas que o caçador era dono de um cão e da cadela-mãe desse dito cão.

      

Divertida com a confusão a criançada gravava a chamada de atenção que lhe era feita para assunto tão importante, na linguagem escrita e falada – a pontuação.

Ora acontece que já ando longe da escola há mais de meio século e que, portanto, não sei se agora essas histórias ainda valem, se não há outras, ou, simplesmente não há nenhumas para servir tal efeito.

O que sei é que é muito frequente os locutores das rádios, no meio de um noticiário, chamarem outro pelo nome e deixarem as coisas tão baralhadas como a história do caçador.

        

Numa destas manhãs de passado recente – prestava eu atenção ao noticiário (que uma senhora lia) quando ouvi mais ou menos isto:

“Em Coimbra foi inaugurado um novo sector da universidade Pedro Mesquita”.

Na pausa, que se seguiu, fiquei a cogitar quem seria o Pedro Mesquita, que dera o nome à universidade, quando ouvi uma voz de homem retomar a leitura dos acontecimentos e, divertida, reconheci que se tratava simplesmente do locutor que tinha a seu cuidado comparticipar na locução.

Lembrei-me então de muitas vezes em que isto já acontecera e achei engraçado trazer aqui esta observação.

               

Alguns comentários se podem tecer sobre este assunto – mais ou menos razoáveis – a meu é este:

O facto de os profissionais estarem à vontade uns com os outros, não deve permitir que os noticiários se processem como conversas de família entre eles.

          

Os ouvintes estão do outro lado e não estão interessados nas “palmadinhas nas costas que se trocam inter-pares” – mas sim, nas noticias que deverão ser transmitidas com clareza – isenção e distanciamento do “tu cá, tu lá”, no dia a dia entre parceiros do mesmo ofício.

 

Maria José Rijo

 

 


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música: Pontuação

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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Olivença e eu…

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.038 – 13 de Abril de 1990

Olivença e eu…

          

Luís Afonso Píriz – investigador cheio de mérito – escreveu um livro intitulado – “Olivenza entre Espanha y Portugal” – publicou-o e teve a amizade e a delicadeza de me oferecer um exemplar.

Li-o de um folgo (curiosa), depois reli-o devagar pensando-o.

    

Entre estas duas fases encontrei o Luís, e falamos da obra.

Pediu-me ele, que gostaria de ouvir a minha opinião. São assim os Amigos – até nos atribuem importância que não temos – talvez por isso seja tão bonita a amizade.

Quando disse ao Luís que achara a primeira parte do livro bem amadurecida, ele contestou – olha Maria José que a escrevi num ápice.

Não retiro o que disse.

A velocidade do nascer nada diminui aos meses de gestação. Pelo contrário – a rapidez pode evitar mazelas e ajudar à perfeição.

Depois… depois, Luís, lá me fui perdendo e achando entre tratados – interpretações – puxa para cá a brasa – deixa que venha a mim que também tenho sardinhas para assar… e, chegada ao fim, encontro-me tão perplexa para dar opinião como os juízes que têm que decidir a quem entregar a criança que uma mãe deu à luz e outra criou – tantas são as justas razões que se podem atribuir a cada uma.

              

Eis porque, à parte felicitar-te pela tua bela obra, pela honestidade da tua investigação, pela minúcia do teu trabalho exemplar – nada mais posso dizer…

A tua linguagem é tão fluida, que até eu, que estou do lado de cá, a entendi perfeitamente, e a achei tão suave como o correr do Guadiana que tu, vês da margem de lá.

Quase me apetecia que, depois de reerguida a Ponte da Ajuda, se pudesse acrescentar ao título da tua obra duas palavras intercaladas para que se lesse e fosse como tal:

 

Olivença – Cidade Aberta – entre Espanha e Portugal

 

Obrigada Luís!

 

Maria José Rijo

 


estou: Olivença e eu…- 1990
música: Luís Afonso Píriz

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Domingo, 1 de Novembro de 2009
UTOPIA

A La Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.766 – 28 de Dezembro de 1984

 UTOPIA

       

A beira das estradas, pelo menos aqui no Alentejo – é frequente encontrarem-se bonitas casinhas de cantoneiros a esboroarem-se ao abandono, como coisas sem sentido.

Todas as ruínas me confrangem!

E se as ruínas de outras civilizações suscitam interesse apaixonado, curiosidade, estudo e dão testemunho da vida e da história dos povos que se foram sucedendo até chegar ao nosso tempo e merecem admiração e respeito – as ruínas das “nossas” casas abandonadas também testemunham – mas, talvez – a nossa incapacidade, a nossa falta de imaginação.

     

Casinhas à beira da estrada, com quintalinhos anexos – com roseiras ainda em flor rente aos olhos fundos das janelas já sem caixilhos rente às bocas escancaradas dos umbrais já sem portas…

        

- Terá mesmo que ser assim?

- Tera, só porque estão no rés da entrada?

- E… quando as estradas entram pelos povoados? – Não passam ao rés das casas?

E… as ruas onde são? – Senão entre filas de casas?

Porque não foram essas casinhas modestas, mas acolhedoras, aproveitadas?

Transformadas em abrigos de estradas?

Talvez para caçadores! – Talvez para escuteiros!

A Junta Autónoma poderia ter facultado as chaves mediante aluguer – a quem as solicitasse…

Uma chaminé – um lume de chão – uns toscos bancos – que mais faz falta para reunir escuteiros? – Caçadores? – Quem quer que desejasse um fim-de-semana diferente numa “quinta” de faz-de-conta”, longe de tudo e perto da estrada que nos leva ao destino desejado!

Utopia! – Talvez!

        

Mas, se nas ruínas as rosas persistem em florir e os gerânios ainda ousam mostrar a sua cor – eu preservo para mim este jeito de acreditar nas pessoas e nos sonhos possíveis.

 

Maria José Rijo

 

 


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música: UTOPIA

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Terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Como nasce um Poema ?

 

Como nasce um poema?
Não sei!
Sei que a flor, qualquer que seja
nasce de semente
mas, como acontece.
Não sei!
Que caos desarma aquela estrutura
insignificante ao olhar,
estranha, feia, escura
e, dela faz surgir beleza viva e pura?
Não sei!
Como nasce um poema?
Não sei!
Que caótica convulsão se aglutina
nessa emoção semente
nesse grito de amor e de lamento
nesse canto de hossana, raiva
e deslumbramento
que faz o poeta
ter a semente na alma
e nunca alcançar a meta!
Isso sei!

·

Maria José Rijo

 


estou:

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Domingo, 25 de Outubro de 2009
O preto no branco

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.924 – 22 Janeiro de 1988

 O preto no branco

 

-- Escreve? – Mas escreve sobre o quê?

-- Valerá a pena?

-- Quem escreve, escreverá para os outros, ou para si próprio?

      

-- Talvez que o acto de escrever seja a forma mais clara e irrefutável de compromisso.

-- Pintar, esculpir, são formas de expressão e comunicação com um tremendo peso de carga subjectiva, susceptíveis, por isso mesmo, de interpretações diversas. O mundo das sensações não é igualmente lido ou legível por cada pessoa.

O que me “diz” uma cor – é diferente do que dirá a outrem. Talvez até, o amarelo leve a uns a sensação de luz, que outros extraíam porventura do vermelho, do branco ou do laranja. Sabe-se lá os caminhos que percorrem as emoções para que se diga: - gosto, ou não gosto! Frente à mesma circunstância!

“Os gostos não são iguais” – garante-se a cada passo.

Da sensação e do sentimento falam de forma directa a palavra e a expressão fisionómica – porém – são sempre estas, susceptíveis de retoque conforme o agrado ou desagrado do mais ou menos interessado entendedor.

Escrever – assinar um escrito – é um acto de consciência tremendamente e vinculativo. A palavra escrita – é a palavra emancipada.

Vai só.

Corre os seus próprios caminhos mas leva implícito o compromisso de honra de quem a produziu – daí que a sabedoria exija para confiar: “ Põe o preto no branco”

 

Maria José Rijo

 


estou: O preto no branco
música: O preto no branco - 1988

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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
Os novos rituais

 

 Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1926 – 5 de Fevereiro de 1988

 Os novos rituais

       

Por vezes, acontece que ao repetirmos um gesto ligado a uma qualquer tarefa, mais ou menos rotineira, que ao longo dos tempos sempre vimos executar por alguém, temos a impressão de “ver” a pessoa de quem herdamos esse conhecimento.

           

Pois numa destas tardes escuras e chuvosas, porque me lembrei de como era bom, com tempo assim, chegar da escola e sentir à entrada da porta o perfume das maçãs assadas, da canela no arroz doce ainda quente, ou das compotas a fervilhar em lume brando, nos tachos de arame, brilhantes como ouro, dei-me à fantasia de repetir, para meu goso interior, esses rituais domésticos, quase perdidos.

           

Só que, no fim do último acto da minha encenação, faltavam os destinatários da empreitada.

Faltava o “público” que gulosamente vinha rapar tachos, lambuzar-se e confundir, até ganhar o seu pratinho de arroz doce ou a sua fatia de pão de trigo colorida pela fruta melada de açúcar vidrado.

Então, como num teatro vazio, ali fiquei arrumando os acessórios da cena e fechando a fila dos frascos como quem fecha os camarins desertos dum teatro onde eu encenara, interpretara e fora a única espectadora.

         

Eu, que, olhava tudo com o ar de distância, de quem faz uma investida a um mundo passado e irrecuperável.

Agora, para os novos, mesmo os mais novos, a sedução do paladar não se exerce com cores ou perfumes de compotas.

               

Agora são as garrafas, são os refrigerantes, e as colas, que abrem o apetite para toda a espécie de bebidas, que ocupam definitivamente os espaços onde coexistiam boiões de frutas e latinhas de chá. E o mundo evocador da toalhinha de renda e do bule fumegante, da torradinha estaladiça com compota, e do bolinho caseiro que se fazia contando com os amigos certos – deu lugar à garrafa.

         

Agora em qualquer sala de qualquer casa, rica ou pobre, se tomam “uns copos” e para “uns copos” se convidam velhos e novos e serão portanto outros e bem diversos os rituais a recordar…

 

Maria José Rijo

 


estou: Os novos rituais - 1988
música: Os novos rituais

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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Para a Tia Zé

A Rosa da Tia Zé...

 

.

Que está quase a voltar

para casa com o seu

“Marca-passo”

 

.


estou:

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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Dá para pensar…

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.052 – 20 de Julho de 1990

 Dá para pensar…

 

Uma garota, de 13 ou 14 anos, pretendendo convencer a família a mudá-la de ambiente escolar que frequentava, esclarecia, justificando-se:

-- “Falam, uns com os outros, dando palmadas nos ombros e empurrando-se…

- Cumprimentam-se dizendo: - Estás bom meu!? – Malta está tudo fixe!?

       

- Os professores tratam os rapazes por putos!

- Em lugar de dizerem sim, dizem: - Okei! Etc, etc, etc”

E, concluía, com um ar muito infeliz, perguntando:

“- O que tem isto que ver comigo?

- O que faço eu no meio desta gente?”

 Não sei o que a família da garota terá decidido.

Sei que pus a mim estas questões:

-- Quando na televisão alguns locutores, “entram em nossas casas” de casaco desabotoado e mãos nos bolsos das calças…

      

-- Quando se ouvem pronunciarem nomes de pessoas e localidades com acentuação mais do que exótica…

-- Quando se fazem citações latinas com silabadas de ranger os dentes…

-- Quando os ditos de espírito consistem em se chamarem entre si de: bêbados, bêbadas, anormais e elefantes…

-- Quando apresentadores de concursos, com larga audiência, exclamam, sem constrangimento: - que gaita! – e provocam e encorajam o palavrão e a grosseira ambiguidade como forma de fazer rir…

-- Quando tudo isto acontece…

Se, nas escolas o ambiente é como a menina referia!...

Valerá a pena ensinar boas maneiras às crianças?

--Será que não basta proferir, com destreza, algumas inglesadas, em lugar de falar em português, para sermos muito cultos, muito poliglotas e muito finos?

-- Especialmente se os fatos fossem de costureiros de moda!

Verdade, verdade, dá para pensar.

E, mais, dá até para concluir que, quando a igreja tiver o seu canal próprio, a nossa, a nossa T.V. tem muito que se cuidar…

 

Maria José Rijo

 


estou: Dá para pensar…- 1990
música: Dá para pensar…

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Sábado, 17 de Outubro de 2009
Ai se eu mandasse!

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.760 – 16 de Novembro de 1984

 Ai se eu mandasse!

          

Não sei o que as outras pessoas pensam que fariam se mandassem.

Sobre algumas coisas, eu já tenho opinião formada.

As máquinas de jogo – por exemplo! – Essas que populavam por aí, por tudo quanto é sitio!

        

Para mim elas não são mais do que a moderna encarnação do velho: toma!...

Nesta época de fibras, plásticos, cromados e sintéticos, computadores, satélites artificiais, radares, sondas espaciais e robots – as máquinas de jogo são uma replica actual, metálica, policroma, automática e desumanizada – ao vigoroso e sadio Zé Povinho – nascido da mão e da mente criadora de Bordalo Pinheiro.

           

Á sua maneira electrónica de sofisticada mecânica – a maquineta – dá ao “cliente” de dinheiro fácil – a mesma resposta que o risonho e rubicundo “Zé” dava a quem pedia fiado: - ora, toma!...

Daí que, se eu mandasse, reconhecendo que é impossível evitar o “flagelo” do convite, que esvazia os bolsos dos incautos enquanto os donos do negócio esfregam as mãos de contentes e prosperam com as suas “ratoeiras” programadas para piscar muitas luzinhas e sinais a fazer que dão – mas – sem dar mais do que o gesto descarado mas franco, do boneco de Bordalo…

            

Daí que, dizia eu – actualizaria também a célebre história da velha que tinha um gato e debaixo da cama o tinha. O gato miava, o pinto piava e a velha dizia: …etc, etc…

            

 

Vendo que aqui também há gato…

Sobre cada máquina eu poria o busto duma velha.

Poderia até, parecer-se com a Dona Branca…

Depois, quando o jogador metesse a moeda e apostasse forte

 

-- o gato, não miava – mas… a velha sorria, os olhos piscavam, a luz acendia e… o braço mexia… mexia… enquanto uma voz, docemente, repetia:

 

Queria dinheiro fácil? – Queria? – Queria?

E, de novo, o “tal gesto” – surgia!...

 

Assim, quem insistisse, já sabia a figura brilhante que fazia.

Isto, era uma das coisas que, se eu mandasse, certamente faria.

 

 

Maria José Rijo

 

 


estou: Ai se eu mandasse!- 1984
música: Ai se eu mandasse!

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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Não lavemos as mãos

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.759 – 9 de Novembro de 1984

 Não lavemos as mãos

 

Tenho andado a querer falar duma árvore que vicejava aqui na Av. da Piedade, antes das Festas do São Mateus.

Quando saia, pelas noites de verão, em procura do fresco, olhava-a e, cá por dentro “torcia” por ela:

       

--Aí, sua valente! Cresça. Não se mostre aos vândalos! Veja se escapa mais um aninho ou dois e talvez já aguente algumas inscrições a canivete sem morrer, como aconteceu a algumas das suas companheiras já de mais idade. Estas e outras coisas diziam-lhe os meus olhos contentes por a ver, frágil, mais viva, nesta nossa terra, onde o uso de partir e estropiar árvores já vai tomando ares de feição – quer dizer: - deformação aceite!

  

A policia anda a multar viaturas mal estacionadas (no que faz muito bem) e, como isso origina um apertado circuito de ronda, porque os carros mal arrumados estão sempre nos mesmos conhecidos lugares – as árvores são plantadas e arrancadas também nos mesmos conhecidos lugares em velocidades paralelas, pelo que os autores das proezas nunca se cruzam ou encontram com a aludida actividade policial.

Eis aqui, explicado, porque ao segundo dia de feira, alguém impunemente, terá feito um bordão com o tronquinho tenro e vivo duma pequena árvore que queria crescer enfeitada de folhas e pássaros em cada primavera.

         Pouso para pose

Escusada violência! Escusada brutalidade!

Nesta terra que é nossa, situada num país que é nosso também, todos temos um quinhão de responsabilidade em tudo quanto acontece.

Quem nos governa são as pessoas que contaram para si e maior número de votos que nós lhe demos.

          

Tenhamos disso consciência e a coragem de o reconhecer.

Tenhamos o bom senso de reconsiderar no pouco, muito ou nada, que colaboramos para o bem comum, e, façamo-lo pelo menos antes de … lavar as mãos… fingindo que não contribuímos em nada para a sorte que nos cabe e de que nos lamentamos…

 

Maria José Rijo

 


estou: Não lavemos as mãos
música: Não lavemos as mãos

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Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
Amores e Amor

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.014 – 27 de Outubro de 1989

Amores e Amor

 

Por alguma razão a humanidade é formada por indivíduos. Quero dizer: um, mais um, mais um até à soma dos milhões de milhões, de milhões de seres, que mesmo que morressem todos juntos num só instante, teriam que morrer como também se nasce – a um, mais um, mais um, mais um, cada qual da sua morte.

        

Parece que, se não houvesse outras razões, esta, só por si, já seria bastante indicadora do valor que deverá ter na vida o íntimo, o privado, o secreto, a marca da sensibilidade que faz cada individuo diferente de outro individuo, e torna cada um responsável pelo seu comportamento próprio.

      

Penso, que os maiores erros dos nossos dias, provém da excessiva uniformização, da negligência das pessoas em se assumirem nas suas diferenças, nos seus gostos, nas suas ideias, em lugar de aparentarem uma igualização, uma normalização de comportamentos, que degrada a qualidade de ser.

            

“Decreta-se” que parece bem, é moderno, é símbolo de desinibição e… toca de fumar, beber, jogar, namorar como nas novelas aos beijos a este e a mais aquele, de fazer experiências sexuais com este e, mais aquela, utilizando o corpo como um objecto de que se fosse proprietário, destruindo a alma, inteligência, espírito, ou como se queira chamar-lhe.

         

Com arrogância, provocação, ou apenas falta de senso ou de educação – em nome dum estatuto de progresso e niveladora modernidade ou desembaraço europeu – recusa-se qualquer hierarquização e trata-se todo o mundo por vocês – como quem põe rótulos de preços de saldo em produtos mal acabados.

        

E a recusa de ceder ao fácil, ao vulgar, ao abandonar de valores, que forja a força de vontade, a dignidade, a honra, a deferência ou a veneração para com os mais idosos, são valores relegados para o esquecimento.

       

- E a ligação íntima e, secreta que une em exclusivo duas pessoas que podem sorrir ou tocar-se com uma cumplicidade de conhecimento e afecto de que mais ninguém compartilha e geram, no casamento, a devoção que obriga à lealdade no bem e no mal, à mutua e recíproca protecção que fundamentam os laços de família, caiem em desuso.

E entre tanta facilidade sucedem-se amores e outros amores porque afinal se desconhece o amor.

      

Há pouco tempo acompanhei no desgosto da viuvez um homem de avançada idade que chorava o fim do seu casamento de mais de 60 anos. Sofria com uma dignidade respeitável. Só quando viu partir para sempre a sua velha companheira, mais murmurou do que disse, duas frases simples: - “Santa da minha alma”.

Comoveu-me aquele “pranto” que envolvia no seu contido pudor, uma poética declaração de namorado antigo.

    

Nunca mais o esqueci, e agora, sempre que encontro “meninos” e “meninas” de suas mães, pelos cantos, numa gula irreflectida pela vida que devoram e os devora sem que a tentem saborear – fico a pensar se alguma ou algum deles, algum dia, por aqueles antepassados caminhos, colherá da vida uma plenitude a dois, que lhe faça brotar do coração o sentimento profundo de amor que lhe permita murmurar no fim – “ adeus, amor da minha vida – santa ou santo da minha alma…”

    

Maria José Rijo

 


estou: Amores e Amor - 1989

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Sábado, 10 de Outubro de 2009
"desabafo"

Para todos vós, como um aceno dirigido em especial a cada um, aqui fica este –

.

 "desabafo"

Dizer - eu dizia
- quero, não quero...
e, queria e não queria...
e, fiz o que fiz
- e o que queria
nem sempre fazia
- e ganhei perdendo
e perdi ganhando
dia após dia!
- que a luta é a Vida!
- e o sonho o caminho
que tenta e encanta...
e, só contra o vento
o vôo se alevanta!

saudades

-

Maria José Rijo

 


estou: "desabafo"

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Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
O Rico e o resto...

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.864 – 28 de Novembro de 1986

 O Rico e o Resto

            

Na televisão, uma cena que não convence ninguém, cativa a minha atenção. Dois actores muito conhecidos, fazem a apologia da maravilha que é ter uma pensão de velhice que acrescida agora de mais 13 por cento (e é o motivo de regozijo) fica tão tragicamente miserável frente à realidade do custo de vida, que a cena sugere em ensaio de qualquer quadro de revista, onde o humor negro marque o tom.

       

Talvez por estas e outras razões que rir é cada vez mais difícil. O riso para ser franco, aberto, saudável, livre como é a água que brota na fonte, tem que ter, como ela, força e ímpeto para vencer distâncias, obstáculos, romper a crosta e surgir á superfície, viva e fresca na nascente…

      

Talvez porque a vida vai depositando em nós sedimentos sem fim de pequenas grandes misérias que se sofrem e sentem, a gargalhada fácil e espontânea da criança e do adolescente… vão sendo no adulto… cada vez mais difíceis…

Talvez seja cada vez maior, a resistência oferecida à força, cada vez menor, que o riso tem para se impor, aflorar ou estalar em gargalhada acesa e viva, como borbulha rompendo a rocha.

          

Talvez seja por estas e outras razões que o sorriso e a ternura sejam as formas que exprimem mais de perto os sentimentos dos adultos, à medida que o tempo passa.

Talvez o sorriso seja esboço do riso, ou o que do riso resta…

Talvez a ternura seja o indicio ou o rastro que fica dos sentimentos fortes, vibrantes, quase agressivos, com que a juventude se embebeda de vida… como o Outono é que fica do Verão e, o Inverno, o tempo em que melhor se saboreia um dia de sol…

       

Maria José Rijo

 


estou: O Rico e o Resto - 1986

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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Contos de Lembranças

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.935 – 8 e Abril de 1988

 Contos de Lembranças

                 

Há umas dezenas de anos, não muitos, durante a Quaresma, alteravam-se profundamente a vida das famílias portuguesas.

Especialmente na Semana Santa, em Sexta-feira da Paixão, nenhum homem saía de casa sem gravata preta.

Por essa altura, as mulheres vestiam de luto rigoroso e iam às igrejas ou acompanhavam as procissões com as cabeças cobertas por longas mantilhas de rendas negras, que lhes caíam sobre os ombros como véus de viuvez.

       

Nas casas, as janelas conservavam-se meio fechadas, os pianos, os gramofones e as grafenolas emudeciam e a vida corria numa meia-luz de meditação e tristeza.

Falava-se mais baixo. Suprimiam-se sobremesas, e as pessoas responsáveis jejuavam e ciciavam orações sem fim.

         

Criava-se um ambiente de pesar que era explicado aos mais pequenos, com veneração e mistério: “revive-se a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Com o relato doloroso do Calvário do Salvador misturavam-se histórias de família que eram recordadas e vividas como ritos. “Noutros tempos…” era a frase introdutória que trazia já implícita um jeito de parábola – e lá vinham os contos de devoções e sacrifícios presenciados nas Páscoas das suas vidas, às gerações já passadas.

                  

Na penumbra dos quartos as lamparinas de azeite alumiavam os Cristos pregados na cruz dos oratórios, e os ramos de alecrim e palmas benzidas em Domingos de Ramos, ainda verdes, mas já murchos perfumavam vagamente o ambiente. As pequenas chamas tremelicavam sob o bafo das respirações e rezas, emprestando às gotinhas de sangue que pareciam escorrer das feridas do martírio das mãos e pés cravadas, e da coroa de espinhos.

             

Os corações sufocados de angústias ansiavam a hora do toque das Aleluias.

Com ele retomava-se a alegria, as visitas à família e aos amigos, os presentes de amêndoas e, dos fundos das casas, das cozinhas e das frescas dispensas, apareciam os folares coroados de ovos, as pombinhas e os lagartos de massas fintas, cheirosas de erva-doce, com olhinhos de pimenta preta e cravo de cabecinha.

       

- Lá vinham as travessas de arroz doce rescendente de canela…

- Lá vinham as queijadas, o pão-de-ló e as “amêndoas confeitadas” que haviam de adoçar a boca a toda a gente depois do chazinho digestivo de “cidreira” ou “Lúcia lima” que iria amenizar embaraço provocado pelos abusos de ensopados e assados no forno, bem servidos de especiarias – provocações tentadoras das mesas fartas – com que cada qual, à medida das suas posses e usos, celebrava com familiares e amigos a festa da alegria e da esperança – a Ressurreição de Cristo.

 

Maria José Rijo

 


estou: Contos de Lembranças
música: 1988

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Sábado, 3 de Outubro de 2009
Alvitres

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.053 – 27 de Julho de 1990

Alvitres

              

Alvitre – não é conselho! – Nessa, não caio eu! Toda a vida ouvi dizer que conselhos e copos de água só se dão a quem os pede e – confesso – a mim, nada me pediram.

Assim, de moto própria, atrevo-me a alvitrar a quem por ventura o queira tentar, que escute aos domingos, a seguir ao noticiário das 10 – na rádio Renascença – um programa todo especial – que se chama: “Um bom domingo”.

            

A responsabilidade desse belo programa – belo, e bom – é de um Padre que, ao que penso, tem um nome fácil de fixar – Eloi Pinho.

Já há bastante tempo que, sempre que posso, o sigo. Os assuntos, não têm continuidade de programa para programa – aqui a continuidade está no interesse e na importância e actualidade do que ele conta, comenta e ensina. Até já me habituei a tomar notas, para depois, quando me é possível, por minha vez, complementar, à minha conta, os caminhos que a ouvi-lo se abrem na nossa frente.

           

Outra sugestão que aqui me atrevo a deixar, também se refere a um programa que por acaso detectei.

Foi no domingo dia 15 (cheguei a casa, depois das 19h15’), abri o televisor, e ainda fui a tempo…

Era um programa daqueles com que se teme que não existam. Mas, existem, graças a Deus. Chama-se “Teatro dos Sonhos”.

       

Tinha música excelente, bailado, tinha todos os condimentos que o homem usa para criar beleza. Fora feito em Estugarda em 1987 e pela voz pausada dum boneco com ares de sábio do mundo da fantasia, e terminava assim:

            

 

“ Não investiguem tanto!

O enigma da vida permanece!

Lembrem-se da arte e dos sonhos

E tornem-nos realidade.

A ciência é bela, mas a arte é

protegida pelos anjos!”

            

Dá para entender o clima!

Fico contente se pensarem que sim.

 

Maria José Rijo

 


estou: 1990

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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Partidos, partidas e desafios

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1732 – 27 de Abril de 1984

Partidos, partidas e desafios

       

Depois de se terem separado e repartido por partidos com a mesma cega paixão clubista, o mesmo entusiasmo com que militavam nos velhos futebóis – tinham adeptos das diferentes cores – que se alhear, por cansaço, dos novos desafios, ao reconhecer a evidente falta de lógica com que decorrem as modernas partidas…

       

Não que se negue a semelhança que persiste… continuam as negociações… não se recusa compra ou venda… fazem-se cálculos sobre os resultados possíveis depois das novas aquisições… estudam-se surtidas pela direita… e pela esquerda… calculam-se avanços e recuos…

          

Pára-se, jogo ao centro … multiplicam-se ataques e contra ataques… há cargas! Há caneladas! Jogo alto e jogo rasteiro… toques duvidosos em áreas perigosas…

Sofrem-se impensadas lesões traiçoeiras… exibem-se vistosos lances individuais a procurar o ângulo certo para o pontapé ou a cabeçada que gera o golo almejado…

      

Caiem jogadores no campo. Precipitam-se ávidos os possíveis substitutos. Surgem os estímulos de circunstância – as palmadas nas costas, as palavras encorajantes, os apoios…

Há perdas e recuperações imprevistas. Aparecem ameaças nas cores com que se acena – amarelo – vermelho! Alguns mudam com o aviso e reencontram o equilíbrio no jogo. A outros nada os detém.

      

Há rubros de raiva. Há cores de medo.

Realmente as leis não mudam…

Porém no futebol tradicional o jogo – o tira teimas – é à frente de todos num rectângulo limitado, e a assistência julga, aplaude, apupa, em cima da refrega. Vê perder e ganhar – “ganhava ou perdia” – sabendo da lealdade da contenda – da sorte – do acaso – que sempre conta, também.

Nos novos “futebóis” é tal a subtileza de meios e intenções que muito embora se “goze” em directo da vista de certos lances, perde-se o fio à jogada e vêem-se tropeçar e cair jogadores com tal rapidez que as cores se baralham, não se notou a rasteira, e não se percebe de imediato onde começou ou vai acabar a jogada. Mas… o resultado fica a evidencia.

       

Não admira pois que o povo saiba distinguir entre “futebol” e “futebóis” e soberanamente decidida quando quer que o apito mude de boca…

 

Futebol é uma festa

“Futebóis” uma festança

Já que o povo anda na roda…

Que ao menos comande a dança.

 

 

Maria José Rijo

 

 


estou: Partidos, partidas e desafios
música: 1984

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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
AMANHÃ

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.767 – 4 de Janeiro de 1985

AMANHÃ

           

Curiosamente, no princípio de cada ano, todos estamos de “peito feito” para um recomeço de vida em moldes diferentes.

Todos sentimos um reforço de confiança e de fé – como se a alvorada do dia primeiro de Janeiro não fosse apenas a alvorada de mais um dia! – Como se cada dia, não fosse – ou não devesse ser, sempre – amado e respeitando – como um dia novo – como um único dia.

       

Mundo fora – monte em monte

A cantar, rompendo a noite,

Já o galo o repetia!...

Dia que nasce – é sempre hoje,

É sempre um único dia!

 

É sempre um único dia!

Sem quase nos apercebermos aceitamos os dias como direito nosso, coisa vulgar e assente…

Daí que vivamos como “milionários do tempo”, esbanjando dias e dias, às vezes é a vida toda que estragamos sem a ter sabido merecer…

Por força de hábito, vamo-los contando… Repartidos por semanas, meses…

      

Quando somamos mais um ano, junto com a alegria e a esperança de iniciarmos outro  - há por vezes, uma percepção incómoda de que o que já contámos, nos foi descontado, e então, tomamos consciência de sermos uma espécie de heróis adiados a sonhar com amanhãs, onde sempre cabem as realizações bem sucedidas – ao que não fizemos – hoje.

         

-- Heróis à noite, da esperança para amanhã…

-- Amanhã farei!... Ai faço! Faço!

-- Amanhã é que é!...

-- Assim o Ano Novo torna-se num “amanhã maior” – é um amanhã com 365 dias…

            

E, se tudo quanto é novo costuma apresentar um ar limpo e apetecível, se tudo quanto é novo cria no espírito a ideia da “festa de estrear”, ou a emoção meio gulosa, meio assustada de provar… experimentar… ousar… - que bom que o dia de Ano Novo nos abra a porta de “o amanhã” tão grande…

         

Que bom…

Se eu tiver amanhã – talvez embarque no sonho do poeta e tente

               

 

“Subir a todos os montes

Beber em todas as fontes”

 

Maria José Rijo

 


estou: AMANHÃ
música: AMANHÃ - 1985

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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
O meu comício!

A lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.824 – 14 de Fevereiro de 1986

O meu comício!

 

A campanha está no auge!

Parece a cantiga; ora agora dizes tu – ora agora digo eu – agora dizes tu – dizes tu mais eu!

E, Deus do céu! – As coisas que me dizem!

E, Deus do céu – As coisas que se insinuam e nem se ousam dizer! – E nem se ousam dizer! E que, como tal, têm apenas a leitura possível da pureza de coração de quem as escuta.

             

É verdade a campanha está no auge. O “cheiro a sardinha assada” – embebeda o ar e, cada um puxando a brasa para o seu lado.

Da minha janela olho. Da minha casa escuto, que por todas as frestas de portas e janelas nos entram os ventos da história que em histórias de verdade e mentiras emaranhadas se aventam como crianças que riem soltando papagaios de papel.

Da minha janela olho. À minha janela penso: deve ser a hora! – É por certo a hora de começar também a minha campanha – o meu recado a Elvas.

Também assim.

Elvenses! Esta é a vossa cidade, tomai-a – como ela é – pertença vossa!

Não a deixeis emporcalhar – não deixeis que a belisquem, sequer! - Cada canto e recanto, é vosso – usai-o com o respeito que a tudo se deve.

Levai os vossos amigos e, ide vós, visitar o vosso museu - as vossas igrejas – os vossos monumentos – com o orgulho de quem sabe e sente que está usufruindo de uma herança que século após século, outras gerações conservaram para vós – para nós.

Ganhe quem ganhar! – Nós é que não podemos nem devemos perder! – É esta a Vitória que está apenas nas nossas mãos porque só depende do nosso empenho e da nossa vontade. Vamos tornar para nós, seus habitantes, a mordomia da nossa cidade. Vamos cuidar e defender Elvas desde as suas árvores, aos seus monumentos, ao seu casario bonito, aos bancos e às flores dos jardins, ao asseio das suas ruas, de tudo em pormenor até aos pardais dos telhados e às pombas branquinhas do parque da Piedade.

Vamos? Vamos de verdade?

Ganharemos se não se perder em nós este espírito de campanha – esta febre de alta de comício em que a fé e a esperança no futuro dão asas e horizontes aos sonhos de ideal que mesmo em segredo todos acalentamos.

“Entregar Elvas a Elvas” pode também ser o grito de um propósito a ecoar de rua em rua…

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Maria José Rijo

 


estou: O meu comício!- 1986

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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
Com a mesma musica

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.801 – 30 Agosto de 1985

Com a mesma musica

 

Desde que surgiram os dois (eu conto dois) partidos novos no nosso panorama político, muitas vezes conjecturo que a maioria dos portugueses deve andar tão confusa quanto eu me sinto.

                     

Até agora havia: (assim que se visse) o CDS, o PSD, o PS, o PPM, o PCP, e mais uns trocos sobrantes que se metiam em bolsos diversos conforme a ocasião ou circunstância!

Dez anos de manipulações constantes deram a conhecer – à sociedade – as componentes das “pastas” usadas e a louça que com elas se faziam.

                           

Agora, porém, com os mesmos barros, passíveis das mesmas qualidades e desfeitos, surgem mais dois compostos: - o partido não sei quê Renovado e o P.S.D. escavacado!

       1763330.jpg image by joycinha

Temos por tanto mais dois elementos susceptíveis de fragilizar a qualidade do material de que já dispúnhamos. De confusões, estamos saturados.

Ditadores, não nos vão a gosto! – Qualquer dia somos levados a descobrir que deve ser melhor ter um Rei do que tantos “reizinhos” regalados ao sol nesta “ocidental praia lusitana”.

           

Enquanto pensamos podemos aproveitar a música com que nos embalam, e trautear:

 

Tanto erro nos separa!

E ninguém quer dar um passo

P’ra que a justiça esperada

A todos dê o seu abraço

 

- Como hão-de as crianças rir,

- Se é choro o que ouvem mais?

- Que é das casas p’ra morar?

- Que é do trabalho p’ros pais?

 

Tanta conversa falaz!

Tanta mentira jurada!

- Mas não há ninguém capaz

De honrar a palavra dada?

 

Que é do Abril de cada vida?

(flor de cada raiz?!)

Passe ao largo a abrilada

Vem Abril! – Ao meu País.

 

Maria José Rijo

 


estou: Com a mesma musica - 1985

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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Aniversário do Gilinho

 

Não nos esquecemos do dia 18

Como não encontramos ninguém em casa

resolvemos deixar

este cartão debaixo da porta.

Parabéns Gilinho

Felicidades

Bons Amores

E muitos anos de vida

Beijinhos da

Tia Zé

e Paula

 

 

 

 


estou: Aniversário do Gilinho

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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
É São Mateus

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.753 – 21 de Setembro de 1984

 É São Mateus

 

Setembro, em Elvas, é o mês das festas da cidade.

Setembro, em Elvas, é por excelência, o mês das tradições.

Se, pelo Natal e pela Páscoa no mundo inteiro se revivem velhos ritos e se procura ressuscitar as centelhas de Amor e de Fé que habitam em cada ser humano, por mais afogadas em cinzas que elas se encontrem…

Com as festas regionais é diferente!

Neste mês de Setembro são os costumes locais que despertam. É a região, em si, que fala pelo alvoroço dos seus habitantes. É o espreguiçar do rame-rame, é o ressurgir das vontades. É o… vamos caiar a frontaria? – Vamos pintar o chão? E… a cortina nova para a porta – que tal? E…, a saia que se desejou? – O lenço que se sonhou, a prenda que se quis dar? – Será? – Não será?

- Talvez! Talvez se torne possível – é São Mateus!

É a magia do sonho a imiscuir-se na dureza da realidade do dia a dia.

É a Poesia. É o vibrar da alma das coisas, das recordações, a acenar, como asa que passe rente aos olhos.

É o contar e recontar dos “cobres”!

- Dará para a carne de borrego? – Para o bolo de que tanto se gosta e de que já quase se perdeu o jeito de fazer! – Com o açúcar ao preço que está!

- E os ovos?! – Mais cara a dúzia do que a galinha, ainda outro dia… É verdade! – Pois é! – Mas é São Mateus.

E o Santo lá vai emprestando o Nome, como aval da coragem que se cria para gastar em extras o que num ano inteiro a rigidez do orçamento garantiu como impossível.

- É o milagre a acontecer. As ruas enchem-se dos cheiros antigos, que irradiam das ousadias das donas de casa…

Cheira a assado! – A “coxo frito”! – a azeite quente fritando costeletinhas panadas… a bolos no forno…Cheira a foguetes, a churrasco na feira, a vinhos e petiscos!

Cheira a alegria, a fé renovada no viver, a sonhos saciados no riso das crianças… a choro de fato novo estragado na queda imprevista…

Cheira a Setembro em Elvas com o Outono a insinuar-se no bailado das folhas secas pelo chão. Cheira a São Mateus!

Vamos ao arraial? Vamos?

Vamos todos atrás dos Pendões.

Vamos que a festa é nossa e … Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade.

 

Maria José Rijo

 


estou: São Mateus - 1984

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Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
FELICITAÇÕES

À Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.059 – 7 de Setembro – 1990

 FELICITAÇÕES

 

Não é sem íntima satisfação que se felicita, pelos 40 anos de vida, um jornal que se acompanhou desde a primeira hora da sua existência.

Se fosse possível, a esta distância no tempo fazer um retrato do pequeno grupo de amigos que se reuniram “conspirando” para dar forma e vida a este sonho, seria um documento notável.

Numa época em que a censura era fronteira difícil e perigosa de transpor – Linhas de Elvas – que foi criado sob o signo da liberdade, propôs-se cumprir e tem cumprido um destino de independência.

Fiel ao seu propósito de ser reverente e colaborante com o que os seus princípios de dever e honra, e, irreverente e incómodo para tudo quanto fosse barbilho que refreasse o seu amor da verdade e da liberdade, ele tem vindo a trilhar a estrada que escolheu.

Vão ficando longe da juventude os “quatro mosqueteiros” deste sonho vivo – Marciano Ribeiro CiprianoCasimiro da Piedade Abreu Ernesto Ranita AlvesJosé de Almeida Rijo.

Porém a idade que desgasta os homens nada pode quanto aos jornais que vivem do espírito e do pensamento servidos pela palavra sempre renovável e recreada através dos tempos.

Assim, ao longo destes quarenta anos muitos nomes ilustres deram ao “Linhas de Elvas” – “ao nosso Linhas” – a preciosa colaboração que o tem feito permanecer novo, dinâmico e actualizado em cada exemplar da sua regular e ininterrupta presença.

Nesta hora de festa – que é também de responsabilidade – pelo bem que quero a este jornal que vi sonhar e nascer sinto-me impelida a confessar que como todos, também eu – penso com gratidão.

Ao Ernesto – seu proprietário e “fazedor” desde a hora do começo – e, desde há longos anos seu ilustre e devotado director – deixo aqui – especiais felicitações.

Manter um jornal na província, um jornal que cada elvense, fora ou dentro da sua terra, espera como a visita dum mensageiro amigo – requer muita coragem e espírito de sacrifício.

Por tudo isso e pela consideração de quem o entende e estima – o meu abraço.

 

Maria José Rijo

 


estou: Felicitações - 1990
música: 40º aniversário do Jornal Linhas de Elvas

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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009
Mote sem Glosa

Á LÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.906 – 18 de Setembro de 1987

 Mote sem Glosa

 

“O Senhor da Piedade

Tem 24 janelas”

Fosse eu pomba, tivesse asas,

Que pousaria na Cruz

Porque fica acima delas.

 

Ás vezes, apetecia-me falar de Amor

do segredo de ser

da paz de quem se dá

e se reencontra limpo e renovado

que o Amor purifica e recria

com a força duma aurora

que da noite rasga o dia…

 

Ás vezes, apetecia-me falar de Amor

como o pressinto e sei

procura de perfeição

que se suspeita e sente

no dia a dia imperfeito

da condição de ser gente…

 

Às vezes, apetecia-me falar de Amor

amor que de si nos solta

e permite dizer; - “eu”

encarar o mundo em volta

chamar: “vida” – “minha vida”

à viagem de regresso

a esse Amor do começo

que foi ponto de partida…

 

Às vezes, apetecia-me falar de Amor

olhando a crista da onda

alta, bela, transparente,

imponente, tenebrosa

e dizer-lhe intimamente

com a inocência da rosa

ou a força da semente

sem palavras

( na cósmica cumplicidade

de me saber – nada –

e saber-me – eternidade )

olá, água! – olá, apenas água!

Vês?

Só na praia, como espuma,

Descansam vidas e marés

 

Às vezes, apetecia-me falar de Amor

sendo diferente

mas ajoelho, rezo o Teu nome bendito

-- Senhor Jesus da Piedade!

-- Senhor Jesus da Piedade!

Rezo e repito:

-- Senhor Jesus da Piedade!

e só assim – tudo está dito.

 

Maria José Rijo

 


estou: São Mateus - 1987
música: Mote sem Glosa

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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
Convite !

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.035 - 3 de Setembro de 2009

Convite

 O Linhas de Elvas - faz anos!  - 59!

- Celebremos!

Cada um que só agora chegou ou está a chegar ao seu convívio...

Cada um que o viu nascer, que o viu crescer, que o viu e vê viver.

Cada um que o lê, nele anuncia, nele trabalha ou escreve...

 Cada um que o aguarda semana a semana para que, ele lhe conte, no seu jeito, feito da soma desses vários jeitos, como pulsa e vive a cidade -  que venha à festa !

Está convidado.

Que, para a festa da Vida - com as nossas vidas – somos todos convidados.

Que, Vida, é mesmo isso – estar presente...

E, estar presente é - também - dar testemunho do que se recorda, de quem se recorda, de quem no passado fez o caminho por onde se caminha agora.

Assim que nesta festa, as minhas recordações trazem-me...

Ernesto Ranita Alves e Almeida – o realismo, o rumo – o fundador -  presente em espírito – sempre – e, hoje,  em

seu filho e continuador –

João Alves e Almeida que aqui saúdo!

...Marciano Ribeiro Cipriano – o saber – o bom senso e o bom conselho, a decisão certa, um mentor...

Casimiro Abreu - a criatividade, a aventura, a poesia, o sonho, a fantasia... seu primeiro Director...

José Rijo –o dinamismo, o vínculo ao desporto, trazido da vivência do Colégio Militar.

Sempre, em cada qual de nós - conforme a época - a memória de um ou outro nome dessa plêiade inumerável de colaboradores impossível de mencionar  de cor e que, ao longo destes anos, desde o tempo da perícia dos tipógrafos, revisores... deram vida, com tempo das suas vidas, ao jornal cujo aniversário celebramos.

De quantos lembro, citarei, por todos, apenas de um – um elvense de corpo inteiro – que fez escola – um Mestre – o Senhor José Picão Tello.

                 

Foi ele quem trouxe para o jornal, como figura crítica atenta à vida da cidade -  o “Zé de Melo”- (que ainda sobrevive) .

José Tello foi um homem de cultura e sabedoria. Era a memória viva de uma época. Conhecera, lembrava, sabia, e, contava, ensinava, esclarecia, com generosidade, sobre os mais diversos assuntos da história de vida de Elvas, quem lho solicitasse.

Na sede deste jornal era recebido, com a fidalga deferência que Ernesto lhe dispensava cedendo-lhe sempre o seu lugar à secretária ,  que ele, por amizade aceitava.

Ouvi-lo, era como participar de uma aula de história de Elvas em todos os tempos.

Tanto com ele se aprendia.

Aliás, ele usava também outra “cátedra”- era na Pastelaria “Flor”.

Sentava-se sempre no mesmo lugar, pelas tardinhas, e, era rodeado por amigos e admiradores ávidos de o escutar, aprender e conhecer minúcias de Elvas, dos seus costumes, tradições, gentes...

Foi assim que ouvi que fora ele quem amortalhara António Sardinha - cuja memória venerava – e, de quem tinha uma carta emoldurada, em lugar distinto,  numa parede de sua casa, como muitas vezes vi.

Um jornal, não será jamais – apenas – umas folhas de papel com letras impressas com boas ou más tintas...

Um jornal é – são – essas folhas de papel impresso por onde a vida de uma cidade, de uma região, de um país – se retrata e respira.

Um jornal fala de nascer e morrer, de sofrimento e alegria. Fala do que se ama ou odeia. Do que nos engrandece ou envergonha – porque um jornal tem a medida da grandeza e miséria do que somos capazes de construir...

...Do que somos capazes de ser...

 

Se a cidade dá corpo ao “Linhas,” com a sua vida...

Se a garra de quem reúne os esparsos dessa vivência o lança nas bancas em cada semana...

Se ganha adeptos, amigos, leitores, se com todos convive e por todos é aceito porque é verdadeiro e honesto...

Então o Linhas é, sem dúvida, o nosso jornal, o jornal da nossa terra...

E... o convite impõe-se – que o merece:

Festejemos!

Parabéns!

- Que viva!                 

                             

 

Maria José Rijo                   

 


estou: Convite - 2009
música: Aniversário do Jornal Linhas de Elvas - 2009

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Domingo, 6 de Setembro de 2009
1º aninho da Magé

 

 

 

 "Toutes les grandes personnes

ont d'abord été des enfants"

 

 

Beijinhos, beijinhos,beijinhos

Parabéns para todos

 

Tia Zé

e Paulinha

 

 


estou: aniversário
música: 1º aninho da Magé

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Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
Ser ou Não Ser...

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.958 – 16 de Setembro 1988

 “SER ou NÃO SER “

            

Ir ou ficar, dizer ou calar, fazer ou não fazer, lutar ou desistir e outras, ou todas as demais formas de afirmação, positivas ou negativas, são apenas, rodeios em torno da eterna questão de “SER ou NÃO SER”.

 Quando qualquer de nós, se põe a pensar nestas coisas, surpreende-se, ás vezes, em como é obvio reconhecer que todos temos direito, em qualquer circunstância, ao nosso próprio espaço de ser.

        

O espaço de ser, não é espaço físico, é íntimo e interior por isso se torna tão apaixonante descobrir ou considerar qual é o conceito ou o conhecimento que se tem da nossa própria individualidade. Delimitando exactamente o que se julga ser, ou a meta para que se tende, pode ter-se a perspectiva do caminho vedado ou permitido para lá chegar, como os rios à foz.

         

No rame-rame da vida rotineira, do dia a dia pachorrento, do tempo não pensado, cai-se, ás vezes, de cedência em cedência, na paz pobre da acomodação abúlica e o percurso do rio faz-se sem historia e sem grandeza.

Porém, às vezes, repentinamente, surge o espaço onde o rio se espraia, se faz logo e descansa, outras, vencendo a agressão do ambiente a corrente saltará os obstáculos que lhe barram o caminho e precisará ser açude para não deixar de ser rio até chegar ao mar que lhe está prometido.

        

Independentemente do percurso, contidas pela inquietação de “SER ou NÃO SER” como os rios pelas margens – pessoas e águas sempre, um dia, é fatal, chegarão à foz!

 

Maria José Rijo

 


estou: Ser ou não ser
música: Ser ou não ser - 1988

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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
Subtilezas

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1881 – 27 de Março de 1987

Subtilezas

 

Ás vezes, ouço as crónicas da manhã do Dr. Alçada Batista, e sempre que tal acontece, penso com mágoa que não me tem sido possível ouvir todas.

São apontamentos breves, ditos com ar de quem estivesse sentado a tomar o pequeno-almoço connosco, e falasse apenas por dever de cortesia.

                            

Acontece, porém, que daquela meia dúzia de palavras, aparentemente despretensiosas, sempre alguma coisa nos dá motivo para pensar, nos surpreende ou diverte, pelo desfecho inesperado, ou nos provoca um sorriso de ternura. Ás vezes, até formula, com clareza, pensamentos que nos rondam o espírito e, por incipientes, se perderam. Na última crónica que ouvi, falou de Eça de Queiroz, mas referiu-se-lhe duma maneira que me surpreendeu. Fê-lo contra a corrente generalizada dos aplausos sem reserva.

      

Não é que venha ao caso o estar ou não de acordo com o ponto de vista expresso. O interesse principal, para mim, residiu na novidade, na janela nova que me abriu, no corte feito ao jeito habitual da admiração indiscutível.

Aquela clareza do: gosto menos por isto e mais aquilo, cria a oportunidade de testar o nosso próprio parecer. Resiste? … Não resiste?

      

… Qual é verdadeiramente a opinião que nós temos?

…Teremos mesmo opinião ou teremos aceitado a opinião que nos foi proposta?

E pronto! … Ali estava o abanão. Ali fica uma pessoa com a torrada na mão, sem dar por isso, com o café a arrefecer, relembrando tudo o que de Eça, porventura ainda seja capaz de recordar, e avaliar se sim Senhor… se ele era mordaz e não apenas irónico. Se era trocista ou sarcástico, se cultivava o humor ou explorava o ridículo dos outros. Se havia bonomia e humanidade na sua critica ou apenas desprezo pelo semelhante e, dali a nada… nadinha mesmo… já uma pessoa está apanhada na ratoeira das subtilezas da nossa língua.

            

Mordaz, irónico, sarcástico, cínico… sei lá por quantas razões se pode rir ou provocar o riso e quantas subtilezas assemelham ou distinguem as formas de o fazer.

Evidente fica apenas que rir - nem sempre é - como parecia dever ser -  um sinal de alegria.

 

Maria José Rijo

 


estou:
música: subilezas - 1987

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Domingo, 30 de Agosto de 2009
Tempo

.

.

Restam-me horas paradas, vazias
contraste daqueles dias
luminosos, sadios, envolventes,
agora ausentes
de quando tudo se julga ter, nada tendo...
mas não se aprende
que tudo passa e não se prende
que dizer – eu – ou – meu
não é ser, nem viver
a Vida é a hora – agora
momento que passa – não pára
o tempo não hiberna
nem espera por ninguém
nem de céu – nem de inferno
ele é refém
o momento – é o momento
nada o alarga, nem detém
indiferente à alegria ou à dor
tem a mesma exacta dimensão
sem compaixão
apenas – passa!

Maria José Rijo

 


estou: Tempo
música: Tempo - poemas Maria José Rijo

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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
Coisas Boas

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.842 – 20 de Junho de 1986

Coisas Boas

 

A equipa de televisão de

Francisco Manso que desde há alguns tempos vem fazendo programas de divulgação cultural por todo o nosso Pais – trouxe a Elvas Mestre Lagoa Henriques – que é, como se sabe, o responsável pela orientação artística destes trabalhos.

Foi assim que, a nossa cidade teve o privilégio de ser visitada por “Alguém” que olhando-a a viu e a sentiu, e dela gostou com surpresa e entusiasmo.

Foi assim que, ouvindo Mestre Lagoa Henriques, se nos radicou a convicção de que: - a obra que esta Câmara se propõe em defesa do nosso património artístico, mais do que necessária é urgente e que nos cabe aqui contar a Elvas que o Senhor Professor Lagoa Henriques nos prometeu dar orientação e apoio para reestruturar o Museu.

Foi assim que, nos impôs á consciência a obrigação de contar a todos que:

-- Pela sua inteligência, pelo seu saber, pelo seu natural encanto e delicadeza, pela afável simplicidade do seu trato – conhecer Mestre Lagoa Henriques e contá-lo como declarado amigo de Elvas – é uma das coisas boas – uma das melhores coisas boas que nos podiam ter acontecido.

 

Maria José Rijo

 

 

 

 

 

******

Mestre Lagoa Henriques (1923 - 2009)

 

Mestre Lagoa Henriques era um dos maiores escultores portugueses.

Autor da estátua de tributo a Pessoa, em frente à Brasileira do Chiado, inaugurada em Junho de 1988 e do monumento funerário ao poeta no Mosteiro dos Jerónimos que data de 1985.

 


estou: Coisas Boas - 1986
música: Coisas Boas - 1986

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Terça-feira, 25 de Agosto de 2009
Os pecados dos nossos avós…

À LÀ MINUTE

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.858 – 17 de Outubro de 1986

Os pecados dos nossos avós…

 

Levantar muito cedo – nunca foi o meu forte – se bem que, por obrigação, o tenha feito quase toda a vida… gosto de ficar um bom bocado a ler, a escrever, ou simplesmente a pensar, antes de saltar da cama.

Para controlar o tempo vou ouvindo “os meus companheiros” certos… a Rádio Elvas.

                        

“Rádio Elvas! … Rádio Elvas! … dia a dia a sua companhia”.

Assim que, às vezes, quando qualquer assunto me alerta – como ao atravessar a via-férrea – paro – escuto e olho!

E … olho, olho, que outro dia ouvi, o meu simpático amigo João Góis, falar com tocante apreço sobre obra desta Câmara.

João Góis é um homem que gosta de coisas belas e faz coisas belas.

As suas mãos – são como duas obreiras obedientes – ao serviço duma sensibilidade que lhe permite talhar na madeira o que a sua imaginação concebe. Com a sua hábil perícia – qualquer tábua dá flor!

Faço ideia de como um homem assim terá ficado incomodado por ver belos móveis antigos, revestidos por grossas camadas de verniz, com olhos de ver e saber, andou pelo Museu comparticipando das nossas festas de S. Mateus 1986.

              

Encontramo-nos por lá e, sobre esse e outros assuntos falamos. Talvez, até, porque falamos de muitas e diversas coisas lhe tivesse passado desapercebido que lhe confidenciei que uma das primeiras medidas que tomámos foi abolir “o tal verniz” e que um dos nossos propósitos, é o restauro do mobiliário lesado.

É bom saber que os munícipes têm cuidados e atenção com o património da sua cidade.

     

É bom saber que as pessoas observam, reparam, defendem…

E , mesmo quando “os pecados” são dos nossos Avós – conforta ainda que paguemos nós…

.

Maria José Rijo

 


estou: Os pecados dos nossos avós…
música: Os pecados dos nossos avós…

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Domingo, 23 de Agosto de 2009
A poesia e a letra

.Ibisco - III
 

A palavra, na prosa é o soldado em sentido
cabeça erecta - atento
compenetrado
senhor do seu dever
pode pois nascer impressa
mas, na poesia, não!
Aí , a palavra é solta, vadia, sofre, morde, ri
inventa, mente, canta, espoja-se
explode, arde, gela, incendeia...
não tem limites - é ela
deslumbra e assusta
como sangue solto a correr duma veia.
vive e morre
renasce como o destino
de quem se diz não ter tino...

escreve-se prosa em máquina
em letrinha certa, desenhada...

para a poesia isso é nada!

Poesia ! - Só escrita à mão
em letra hesitante ou apressada
desorientada, despenteada, emaranhada
enclavinhada na emoção
desse tormento - do sentimento
que a liga ao coração
ainda - quando a lágrima
a afoga
e morre
sem ser lida
num borrão.

 .

Maria José Rijo

 


estou: Livro Poemas - III
música: A poesia e a letra

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Sábado, 22 de Agosto de 2009
Grão a Grão

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.918 – 11 de Dezembro de 1987

 Grão a Grão

 

Tinha um projecto em mente, distraía-me a olhar para a televisão, perdi o fio à meada e dei comigo a fazer comparações entre coisas de ontem e hoje.

Do ponto de vista da técnica e da ciência, o distanciamento para melhor é incomensurável, mas do ponto de vista do comportamento do homem em termos de civilidade tende-se para o mesmo grau de distanciamento, porem, em sentido negativo.

    

Ouvem-se coisas impensáveis ditas em publico com uma naturalidade arrepiante, como ainda há pouco tempo,o que escutei só atribuível a insensatez ou má educação. Agora parece, que se chama a isso franqueza ou, se calhar, coragem.

Ainda não percebi.

O que percebo, vejo e escuto é que estas coisas acontecem tão frequentemente que já nem se vai dando por elas.

Um técnico de futebol, ao dar a sua opinião sobre um outro disse e repetiu que, esse tal era uma “besta”.

        

Penso que esta definição simplista apenas informou sobre a descortesia do próprio entrevistado e que toda a gente alheia ao meio, como eu, nada mais entendeu do despropósito.

As pessoas que vão a televisão, seja porque razão for, deveriam usar uma certa contenção de linguagem.

Ao dizer-se de um indivíduo que é cruel, desonesto, desleal, vingativo, incompetente, qualquer ouvinte ficará com a noção da falta pela qual ele é acusado.

Tendo como informação de que o visado é uma “besta”, fica-se com a noção de que quem insulta em lugar de informar, nada esclarece e dá mau testemunho porque dá mau exemplo.

      

Não me digam que estas coisas não têm importância porque é da soma das pequenas cedências que provem o clima do relacionamento entre as pessoas e, como tal, a qualidade das nossas vidas.

Especialmente no futebol, onde a linguagem é tantas vezes a semente da violência, parece-me que o treino da moderação poderia fazer parte das virtudes do desportista.

 

Maria José Rijo

 


estou: Grão a Grão

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Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
A escolha não é livre

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.973 – 13 Janeiro de 1989

 A escolha não é livre

 

Às vezes, muitas vezes, e por razões variadas pergunto-me: - Valerá a pena?

Depois fico a responder-me e a contestar-me ou a corroborar mentalmente os meus próprios argumentos e razões.

É uma espécie de malabarismo mental que permita, como num caleidoscópio, fazer e desfazer combinações diversas com os mesmos elementos.

Parece um jogo.

      

Que a vida é um jogo – aliás – diz-se à boca cheia.

Mas, que jogo? – Isso ninguém me contou e eu, sozinha ainda não decifrei o oráculo pois que até na “cabra-cega” e no “trapinho queimado” que se brinca com os olhos tapados, se sabe com quem se joga e se para ou recomeça a contento…

Enfim! – isto nem tem nada que ver com aquilo em que eu estava a pensar. Tem apenas ligação com o facto de não se saber como, ou porquê, se ligam coisas tão dispares e se enredam tão emaranhadas no nosso pensamento.

         

A consciência de perda que nos confere quando por uma opção se afastam de nós pessoas, se quebram hábitos e vínculos, que nos são caros, é que estava a magoar-me. O que nos conduz a essas deliberações que nos marcam e o que há nelas de inevitável era a minha preocupação.

Porque se opta por abrir a porta que nos “liberta” do caminho conhecido e fácil, onde é suposto acomodar a ideias de vida tranquila e feliz – como o pássaro saído do ninho quente e fofo – para se lançar no espaço aberto onde se torna o alvo, ainda mais, vulnerável, é o que, às vezes, muitas vezes me pergunto.

                 

Ás vezes, também, inesperadamente acontecem respostas – como agora.

- A guerra era o motivo da entrevista.

Árabes, Líbios, Israelitas… o drama pungente destes tempos conturbados.

Com um olhar de mágoa, num falar sereno e determinado o guerrilheiro respondeu: “Este sentimento de nos sentirmos um povo”.

 

A escolha não é livre – reconheço!

“É esta consciência de nos sentirmos gente”.

 

 

Maria José Rijo

 


estou:
música: A escolha não é livre

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Terça-feira, 18 de Agosto de 2009
Só brincadeira !

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.785 – 10 Maio – 1985

 Só brincadeira

        

Entretanto, de rompante na frutaria cheia de gente, a freguesa com um jornal na mão pergunta em voz alta e risonha, interpelando o dono da casa que serve ao balcão:

 

--Oh, Senhor Fulano, então não se candidatou à Presidência da Republica?

-- Eu? – Retorquiu o visado fingindo achar graça

-- E, porque não? Se já temos o homem dos queijos, porque não havemos de ter no negócio o homem da hortaliça? – insiste a freguesa.

            01jq7.jpg

Curiosamente, ouvindo este dialogo lembrei-me de um outro escutado há uns anos entre dois soldados da guerra do “nosso” ultramar.

--“Para mim o pior era quando a gente tinha que ir apanhar e juntar bocados de corpos dos nossos camaradas espatifados pelas minas”

--“Eu não era capaz, pá! Ainda bem que nunca tive que fazer coisas dessas!”

--“Ora se eras! Fazias como toda a gente que para não rebentamos a chorar aos gritos, fugir, ou a morrer p’ra li dizíamos bojardas e até contávamos anedotas”

       

--Cada um procurava a porta de saída que encontrava para se livrar da angustia…

--Será? – Fiquei a pensar.

A pessoa que me acompanhava ficou calada bastante tempo, como eu.

Mais tarde, com um sorriso onde a ironia bailava comentou:

-- (como se continuássemos uma conversa que não aconteceu) :

-- Talvez o totoloto fosse a solução!

-- Metiam-se todos num saco e tirava-se um ao acaso. Quem sabe?

-- Ás vezes a sorte até poderia estar do nosso lado!

 

Só Brincadeirinha? – Talvez não.

 

Maria José Rijo

 


estou:

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18 de Agosto de 2009

 

 

Será que a Bagé já é capaz de entregar estas orquideas

ao Avô Avelino no dia dos seus 50 anos?

 

Com um abraço grande de Parabéns.

Desejam as maiores Felicidades

à mais querida familia do mundo.

 

da Tia Zé

e Paulinha

 

 


estou: Avelino
música: Aniversário

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Sábado, 15 de Agosto de 2009
Na mesma tecla…

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1882 – 3 Abril de 1987

 Na mesma tecla…

Fala-se de poluição, de defesa do ambiente. Fala-se!

Difundem-se opiniões. Fazem-se colóquios, seminários, congressos.

        

Agita-se a opinião publica através de jornais, rádio, televisão e sei lá que mais!

Parece que depois de tudo isto haveria um mínimo de normas a estabelecer, a cumprir e a fazer cumprir.

Parece! … mas não!

            

Porque depois, sem regras diferentes, ou novas directrizes, entregam-se às mesmas pessoas, os meios para que desgracem e reduzam a espantalhos as árvores… quando já em plena Primavera ousavam a ventura de reverdecer, prometendo aos homens que as agridem a sombra amenizante… benesse almejada… para quem calcularia os caminhos no nosso tórrido Verão.

    

Decepadas… tragicamente sinistras… aí estão circundando a cidade como visões de pesadelo… as velhas árvores que tentaram ser frondosas e generosas de sombra e beleza. Ai estão, talvez, vivas ainda, por mais algum tempo, ou… talvez a morrer de pé… como tantas outras que quiseram florir e foram mortas noutras Primaveras já passadas. Aí estão, escuras como silhuetas de fantasmas acusadores da nossa insensatez…

    

Para que então mais congressos, seminários e palestras, publicações coloridas, ilustrações e filmes se depois de tudo isso, ou apesar disso, se mete o serrote, a podoa, a escada, na mão não especializada, e para cúmulo… depois de passada a época própria… se deixa atentar contra a vida de tão doces e indefesas vítimas?

       

Limpar uma árvore é como que afaga-la e protege-la, não é certamente provocar-lhe a morte.

 

Maria José Rijo

 


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Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
RESPOSTA com retrato

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3.032 – de 6 de Agosto de 2009

 

RESPOSTA com retrato

Ventura Trindade meu respeitado Amigo

 

Li, com carinho, a carta aberta que, há tempo, me dirigiu pelo “Linhas” e, como tive oportunidade de pessoalmente referir o seu gesto, o tempo foi passando sem, como é meu dever, agradecer, também publicamente, a sua amiga “provocação”.

Faço-o hoje juntando-lhe “um retrato”que alguém muito querido na indesmentível sinceridade dos seus cinco anos, pintou, de mim com a lucidez e a verdade que só as crianças sabem usar.

Sei que poderia aduzir milhentas explicações e todas verdadeiras – algumas delas o Ventura Trindade referiu – para o meu silencio, porem, nenhuma delas teria a consistência e o vigor do retrato falado que a Conchinha, minha sobrinha bisneta, tão espontânea e sucintamente, de mim, fez.

Tive-a na minha companhia durante umas pequenas férias de praia no Algarve.

Num dia em que lhe prometi comprar conquilhas – petisco, com que delira – ao regressar a casa depois de mim, dirigiu-se ao pescador que no caminho as vendia interrogando:

-- Senhor homem! – Passou por aqui uma velhota a comprar conquilhas?

 

Nem Goya, nem Matisse, nem Medina ou seja lá que Génio fosse faria mais perfeito com menos traços.

Igual em perfeição, só conheço a resposta do lagarto pintado:

--quem te pintou? – Foi uma velha que por aqui passou.

Junto a foto da indesmentível artista e, um abraço grande e grato por ter tido a generosidade de me achar de menos.

Poucos – mas bons – se querem os Amigos.

Estima-o sinceramente

 

Maria José Rijo

 


estou: Ventura Trindade
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Domingo, 9 de Agosto de 2009
Tempo de Avó

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.848 – 1 Agosto de 1.986

 Tempo de Avó

 

Por estranho que pareça… foi na praia… olhando em redor que outro dia me lembrei de Maria Antonieta, de França.

            

Já perdi o conto aos anos em que li a biografia que dela fez Stefan Zweig, que foi um dos autores mais lidos pela

 

juventude do meu tempo. Já se me esvaíram, também, da memória, os dados históricos que, porventura, nessa obra possa, então ter adquirido.

Algumas cenas porém, pelo seu conteúdo humano, retive-as na lembrança e foram dados tão marcantes da minha sensibilidade que, por vezes, ressurgem das sombras e posso revê-los como que colhidos de fresco.

 

Foi assim agora. – Ao meu redor exibiam-se este ano, um número muito maior de troncos desnudados, do que era usual. A inflação neste campo atingiu percentagens que nenhuma estatística refere com precisão.

Serão agora as mulheres e mais triste ainda, as adolescentes – a disputar também o uso apenas do calção para as delícias da praia toda a possível contabilidade cai pela base!

Sem intenção formada para tal, dei comigo – em tempo de avó – a avaliar este sinal de “progresso” na evolução que tem sofrido a noção de recato e pudor. Achei–me então a recordar as velhas paginas que contam a ultima humilhação

                

da Rainha, que sofrendo perdas de sangue e querendo aparecer decente perante a morte se viu obrigada a agachar ao lado do catre para mudar de camisa. Fez-lhe de biombo com o corpo a caridade da camponesa que a tratava na prisão, já que o soldado que a guardava à vista - não se podia afastar. Porém a prisioneira, como mulher, tem vergonha de deixar roupa manchada aos olhos de estranhos e faz com ela um pequeno embrulho que oculta num buraco da parede.

 

Será que as mulheres mudaram assim tanto?

Será?

 

A meus pés um mar

Na praia...

 

– recordo agora Nemésio

“doce e arável como terra de pão”

– murmurava… murmurava!...

“movimento do mar que coaste em mim!”

 

Escuto… olho… pouco ou nada entendo.

 

 

Maria José Rijo

 


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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
Amargas considerações

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1784 – 3 de Maio de 1985

 Amargas considerações

 

Pela sua brutalidade a notícia atingiu-nos como uma bofetada ou um insulto, e ofende

“Adolescente ladrão mata-se por medo”

Adolescente, tanto quanto me parece – quer dizer: - Rapazinho ou rapariguinha que, não sendo já “meninos de mãe” – também ainda estão longe de ser adultos.

Que sociedade é então a nossa, que permite acusar assim uma criança?

A adolescência sendo uma etapa de crescimento na vida das pessoas é porventura, a mais vulnerável, a mais difícil, a mais sujeita a perturbações de toda a ordem.

                     

É na adolescência que todas as funções latentes no ser humano rompem a sua letargia e se anunciam e denunciam com a força e o vigor que a Primavera também tem para criar folhas e flores em qualquer ramo despido.

Na adolescência quebra-se todo o harmonioso equilíbrio da infância. É a voz que muda, é o corpo que cresce, cresce e perde o jeito da inocência, surpreende e quase assusta. É toda um caminho de dúvidas, anseios, descobertas, até reencontrar um novo equilíbrio.

  

Como pode então, alguém que já fez esse percurso, alguém que já atingiu a fase perfeita de adulto – rotular assim de forma tão gelada e definitiva outro alguém que vai ainda nesse bocado de caminho da existência tão perturbador e misterioso.

Um menino que sonha – nunca é um ladrão – é apenas um criança – em fase de formação – que precisa ainda mais de segurança do nosso ombro para chorar, meditar, confiar, aprender, ser confortado no erro e aceitar a penitencia quando esclarecer já não basta.

       

Um adolescente de 13 anos que rouba e por medo e vergonha, a seguir se mata – e alguém cujo comportamento nos acusa.

É alguém em crise, que precisou de nós e não nos encontrou no ponto certo.

Nós adultos é que traímos a sua confiança, o seu direito à esperança, a sua fé na Vida.

  

Uma criança que se mata por medo dos adultos é agluém que ao reconhecer que errou – descobriu – que nós valemos tão pouco que temos maior bitola para a ameaça e o castigo do que para o Amor e o Perdão.

 

Maria José Rijo

 

 


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Terça-feira, 4 de Agosto de 2009
MODORRA

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.845 – 11 de Julho de 1986

 MODORRA

 

Quando o calor aperta, como agora, todas as energias ficam em nós, pulsando, latentes, como o motor num carro em ponto morto, e não há vontade que chegue, por vezes, para provocar o arranque que vença a inércia que o Verão acalenta.

No cérebro entorpecido as ideias passam, turvas como imagens antigas de cinema mudo, com fitas partidas, e, como elas se esgueiram.

Não se fixam.

E o: … vou? … não vou? … faço? … Não faço? … digo?... … não digo?

São as horas a sucederem-se sem que a decisão se firme. É o Verão a comandar, é a vontade mole, como manteiga derretida, ou água choca, são os projectos adiados, a nostalgia da única coisa apetecida: - Férias!

    

Férias! Férias! Férias! … Soa bem.

Talvez seja essa, afinal, a única ideia com força motriz para vencer esta modorra.

Talvez fosse esse, esse o tema … o único em que eu pagaria agora?!

       

Fixo-me na ideia e… não resisto… já que não parto… pelo menos… pouso a caneta e cedo á modorra que… Verão… é Verão!

 

Maria José Rijo

 

 


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Domingo, 2 de Agosto de 2009
Que admira?

À Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.816 – 20 de Dezembro de 1985

 Que admira?

 Elvas escolheu a Câmara que ganhou o direito de a servir e ao seu concelho.

Por larga maioria a população pôs nas mãos de um elvense – João Carpinteiro – a confiança que lhe foi solicitada, no crédito das promessas que lhe foram feitas.

Aconteceu num belo domingo de sol, intercalado nas vizinhanças do Inverno, como um presente de esperança.

A esperança que Elvas tem no futuro que merece para honrar um passado de grandeza, que nobremente testemunha.

Mas… toda Elvas – terá que servir Elvas – como cada um de nós se serve e cuida de si próprio – porque nada poderá a força de amor de João Carpinteiro a lutar por construir-se o desinteresse e o desamor de outros se empenharem em destruir.

Para que o dinheiro – que será sempre pouco – para a largueza do sonho - dê frutos palpáveis, é urgente que cada elvense repense a sua forma de o ser.

É preciso que não mais se juntem (4, 5, 6 pessoas, não avalio quantas foram necessárias) para arrancar e quebrar pesados bancos de cimento e pedra – porque cada um queira ser digno desta terra que o acolhe ou lhe deu berço – tem que sentir  em si, e, saber viver, a consciência do que é estar inserido numa sociedade – do que é pertencer a uma cidade que por sua vez também lhe pertence.

Tem que saber encontrar em si o sentido de dever e justiça que lhe imponha o comportamento exemplar que deve à sua terra e à sua gente.

Tem que saber merecer o trabalho de um homem que – por ser elvense de raiz e de consciência – e homem de dignidade, teve a “heróica loucura” de sonhar repor Elvas no lugar certo da história do nosso tempo.

No segredo do meu coração, adoptei esta terra, aí pelos meus 17 anos. Ao ser chamada, agora, a ajudar João Carpinteiro, qualquer coisa me diz, que esta é a resposta de Elvas, a dizer que o sabe e também me aceita.

Que admira então que eu digo que vou dar o meu trabalho em troca de confiança que me foi oferecida, para continuar a chamar a esta terra, gostosamente, minha?

 

Maria José Rijo

 


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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
Um Sonho – Um dever – Um lema

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.818 – de – 3 de Janeiro de 1986

Á Lá Minute

 Um Sonho – Um dever – Um lema

 

1986, chegou ao calendário com um belo cognome de esperança: - Ano Internacional da Paz.

A criação da Paz. É sem dúvida, um dos maiores desafios que se põe à inteligência e à capacidade do Homem.

                            

Mas a Paz e a Justiça, caminham de mão dada, e a justiça começa na maneira, de cada um de nós estar entre os outros. Começa no segredo de cada consciência.

Ao fazer estas afirmações aqui da “minha” varandinha onde vou, como posso, “assomando à lá minute” – fico confrontada publicamente com elas, como já fiquei, quando também publicamente defendi a presidência da Câmara de Elvas para João Carpinteiro.

Disse então:

“ Uma Câmara é uma casa mãe de toda uma população”

É uma casa de serviço.

É uma espécie de cérebro e coração por onde passam todas as mensagens de um corpo vivo (que é a cidade) – que tem que ser protegido para que progrida e se desenvolva em equilíbrio no seu conjunto sem tumores de miséria, nuns sítios – nem exibições de falsa grandeza noutros.

Uma Câmara terá que repartir dificuldades e bens – com o rigor e justiça de um chefe de família.

Uma Câmara não pode ter enteados porque cada munícipe é um filho da terra e cada elvense, irmão de outro elvense aos olhos da sua cidade “Mãe”.

      

 Incorporo a equipa de João Carpinteiro que começa o seu mandato neste Ano Internacional da Paz.

Se cada um de nós – nos limites da sua medida – criar e viver a sua Paz interior – com a justiça do seu procedimento – estaremos, por certo, todos a colaborar na prática e no espírito desta meta proposta à consciência do mundo inteiro:

A Paz Internacional.

.

Maria José Rijo

 


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Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
A Presença do Poeta…

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.942 – 27 de Maio de 1988

 A Presença do Poeta…

 Muitas vezes me lembro de Sebastião da Gama. Não só como poeta, mas também, e muito especialmente, como pessoa.

Não que o tivesse visto alguma vez, a não ser em fotografias. Guardo, até uma, em que ele veste uma camisa de quadrados largos e usa uma boina na cabeça, tanto ao jeito dos pescadores, que é isso que mais parece – um deles – até pela feição de homem do povo e pelo tom de pele tostada que lhe dava o sol da sua “Serra Mãe” – a sua Arrábida.

          

Durante alguns anos, lá pelos meses de Julho e Agosto, rumávamos ao Portinho e, na Pousada, depois do almoço, ou o pai de Sebastião ou a mãe, ou ambos, por vezes, vinham para a nossa mesa depois das refeições, tomar café e desfiar saudades.

Assim, a pouco e pouco, foi-me possível juntar ao conhecimento da poesia, a descoberta do Poeta, na sua qualidade de pessoa, e entender melhor o todo que ambos formavam.

                                     

Quando anos mais tarde li o seu diário, frente a algumas reflexões nele encontradas, lembrei-me das conversas que sobre Sebastião tivera com sua mãe, porque a cada passo surgia evidente, o seu rigor e honestidade, a sua doçura de carácter, a sua bondade, a sua alegria e gosto pela vida.

Talvez por tudo isto e também pelo deslumbramento, que também a mim, me causava a Arrábida, habituei-me a pensar em Sebastião da Gama como uma presença viva junto de mim.

            

Talvez também por isso quando quaisquer circunstâncias me confundem digo para comigo:

- Vou fazer como Sebastião nas aulas com alunos desatentos, e pergunto-me:

- O que deveria eu ter feito que não fiz?

E é partindo de mim, como ele fazia, que procuro e encontro – quando encontro – o caminho que me leva aos outros.

 

Maria José Rijo

 


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