Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

A TIA FANCHINHA

Não sei bem como, tive num repente consciência de que era minha Tia quem inventava as histórias que nos contava a propósito de tudo e de nada.

Tinha que ser! – Percebo agora.

Tinha mesmo! – Porque não é possível que qualquer pessoa tenha tão vasto arquivo de memória para na hora exacta ilustrar qualquer acontecimento inesperado com a narração que lhe dava significado.

No que ela era mestra.

Foi assim também com as filhós.

… Toda a gente sabia na família da “secreta” mágoa de meu Pai porque eu, a nº três da prole lhe saíra também rapariga.

Da primeira estava cheio o seu coração duma saudade nunca esquecida. Feliz o fizera a chegada da segunda. Rapaz era o que ele queria daquela vez em que eu apareci frustrando a sua esperança – ora, não sendo possíveis as reclamações – lá se consolou com a partida do destino e ficou com duas filhas.

Não era que ele não se desvanecesse de ternura a olhar para mim. Não! Não era isso!

Mas, sabia-se que conservava aquela tal secreta magoazinha que o fizia comentar nostálgico: que desembaraçada que é esta criança! Podia bem ser um rapaz…

Daí que para lhe manter e cultivar o enlevo, eu me tivesse especializado a subir às árvores, ir aos cágados na ribeira, espetar cobras e lagartos com paus, encher frascos com rabos de lagartixas, conhecer os ninhos dos pássaros, enfim! – Uma série de coisas “maravilhosas” – que abrangiam a selvagem morte pelo fogo dada aos lacraus enquanto gritávamos como índios para disfarçar a emoção e o medo das nossas cruéis ousadias…

Estas e outras coisas semelhantes devem ter estado na origem das aflições que durante quase 90 anos foram dilacerando de espantos e aflições o coração mais doce do mundo – o da tia Fanchinha.

É verdade! – Era dela que eu vinha falar.

Naquele Natal a cozinha recuperara para o celebrar os portuguesíssimos cheiros de todos os Natais – canela e fritos.

A mesa já tinha a toalha das festas. Minha irmã e eu, crianças ainda, atrapalhávamos tudo e todos, sem falhas, aparecendo sempre, onde mais incómoda fosse a nossa presença como é direito e qualidade da garotada quando há azáfama de festas em casa.

Meu Pai sorria, olhava por cima dos óculos e insistia, com pouco êxito, na leitura do jornal.

Então, minha tia, avançou sala de jantar a dentro com uma travessa acastelada de filhós meladas, ainda quentes, rescendendo a mundos de lembrança e tradição; olhou meu Pai e perguntou:

Já te disse que quem tem filhas come filhós e quem tem filhos não as prova?

E, perante a curiosidade de todos nós, contou:

 

Havia um homem que privilegiava o seu afecto pelo filho descuidando um pouco as atenções para com a filha.

Uma vez, no Natal, combinou com a mulher fazerem filhós ao serão, de porta fechada, para não serem perturbados por visitas ou familiares com quem não as queriam repartir.

Nessa cumplicidade estendiam e fritavam massa enquanto a invernia, lá fora, dominava varrendo os ares com o vento.

A certa altura bateram à porta.

Era a mãe dele que, arrostando o temporal, vinha saber notícias do filho em noite tão santa.

Responderam, como o combinado, fingindo-se deitados. Feliz por os saber bem, afastou-se a velhota recomendando: não se levantem! – Que está muito frio. Amanhã nos veremos. Saber que estão bem já alegra a minha alma.

Galhofando, pelo logro conseguido prosseguiram a secreta tarefa.

Eis que, de novo, batem à porta.

Era, desta vez, a mãe dela, que sofrendo da mesma aflição viera também, noite dentro, saber notícias.

Então, condoída, diz a mulher:

É a minha mãe, coitadinha! – Vamos deixa-la entrar – está tanto frio!

E sem mais hesitações, correu à porta que abriu, sentou a mãe ao lume, serviu-lhe café e filhós quentinhas e ainda lhe fez um avio para que comesse mais, ao outro dia.

Calado, o marido observava.

Mas, daí em diante, mudou o seu comportamento e começou a acarinhar a filha de que parecia, orgulhar-se mais.

Surpreendida com a mudança que não entendia indagou a mulher o porquê de tal transformação.

Então, muito sério e grave o homem esclareceu: Sabes? – Descobri que: quem tem filhas come filhós – Quem tem filhos não as prova.

 

O que nunca saberei é como teria ela contado a história… se nós fossemos rapazes… ou sequer se a história teria acontecido…

  

                                                        Maria José Rijo

@@@@

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.280 – de 30 de Dezembro de 1994

Conversas Soltas

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 15:21
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5 comentários:
De Dolores Maria a 13 de Dezembro de 2007 às 18:40
Que belas lembranças.
Que infância bonita a sua.
Esta sua tia tem mesmo um aspecto doce
é daquelas queridas velhinhas que apetece
abraçar e apertar e dar muitos beijinhos.

ADOREI
ADOREI

Beijinhos Tia virtual
Desta sua sobrinha (de todos os dias)

DO LO RES


De Gustavo Frederich a 14 de Dezembro de 2007 às 00:05
Li e reli este seu texto umas cinco vezes
e estou boquiaberto pela sua beleza na
forma brilhante de traduzir as suas reminiscências
... fico deveras boquiaberto, estupefacto pela
forma tão bonita como fala da vida, das suas
vivências e da forma querida com que fala dos
seus queridos seres.
Acredite que fico sempre emocionado, encantado
e então começam a faltar-me as palavras
para poder expressar-me e falar do que sinto
ao ler as suas belas palavras.

Tenho sempre que agradecer-lhe e muito
a beleza e encanto que os seus textos
trazem à minha vida.
Acredite que gosto e a admiro de verdade.
Esta sua Tia Fanchinha deveria ter sido uma
pessoa muito querida para si. A foto dá-me
a ideia de ter sido uma alma muito boa e
querida.

É importante, que na meninice se tenha gente
querida que nos ame e nos faça entender o mundo.
Bem haja
por estas maravilhas que me fazem (também)
reviver a minha infância.

Beijinhos
Gosto IMENSo de a ler

Gustavo Frederich


De Nicolau Demetrio a 14 de Dezembro de 2007 às 01:36
Minha Senhora
Permita-me que a cumprimente e a Felicite
por este bonito texto de Natal.
Aliás, tem aqui vários bem bonitos.
As suas memórias deixaram-me saudoso
das minhas próprias reminiscências...
A minha avó Cremilde era um doce, uma alma
gentil que me amava e me ensinava, como
só ela sabia. Devo-lhe o que hoje sou - ao amor
que me deu em criança.
Tinha rituais semelhantes o que agora ao ler
os seus belos posts me trouxe à lembrança
a minha infância.

Parabéns pela forma com encara a vida
e pela forma como mostra que viver - não é
só tragédias, há pequenas coisas - como
o mundo da infância - onde temos coisas boas
no dia a dia.

Bem haja Sra. D. Maria José
por este blog maravilhoso e dotado de um
lucído sentido da vida, da escrita e do que é
ser português.

Com admiração

Nicolau Demétrio


De Julieta Malaquias a 14 de Dezembro de 2007 às 01:51
Estive a ler atentamente estes seus textos de
Natal e tive de comentar porque estão uma
autentica maravilha.

Ler Maria José Rijo - é para mim - uma delicia
porque mesmo tendo textos com alguns anos
de publicação - não perdem a actualidade.

Gostei imenso.
Parabéns
desta sua leitora de Leiria.
Cumprimentos

JuJu


De Ernesto Braga a 14 de Dezembro de 2007 às 14:18
Belissima história de Natal, aliás tem aqui
várias e todas elas de grande beleza, não só literária
mas de gosto pela época e pela forma de contar.

Gostei imenso.

Parabéns por este mundo (ainda estranho para
mim) mas que me fascina pelo mundo - aqui
nas nossas mãos.

Boas Festas

E.Braga



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