Domingo, 6 de Janeiro de 2008

A Carta

        

    

      Por muito engraçado me passaram para as mãos um documento significativo de uma pobreza de espírito flagrante que pretende ser uma carta dirigida por uma mulher alentejana, a um filho seu, algures, na Bósnia.

            Segue a transcrição:

          

            “Mê crido filho

           

Escrevo-te algumas linhas p´ra saberis questou viva. Estou-te a escrever devagari  pois ê sei que nã sabes ler depressa

           Nã vais reconhecer a nossa casa quando voltares, pois nós mudámo-nos.

            Temos uma maquina de lavar rõpa mas nã trabalha muito bêin; a semana passada

pus lá 14 camisas, puxe a correti e nunca mais as vi!

Acerca do tê pai, ele arranjou um emprego, tem 1500 homens debaixo dele pois está cortando relva no cemitério.

A magana da tua irmã Maria teve bebei esta semana, mas sabes, é nã consegui saberi sé menino ó menina, portanto nã sei se és tio ou tia.

O té tio Patricio afogou-se a semana passada num depósito de vinho lá na adega cuprativa. Alguns compadris tentaram salva-lo, mas sabis, ele lutou bravamente contra elis, porra! O corpo foi cremado mas levou 3 dias para apagar o incendio.

Na Quinta feira fui ao médico e o té pai foi comigo. O médico pos-me um tubona boca e disse-me p´ra nã falari durante 10 minutos. Atão nã sabis que o té pai ofereceu-si p´ra comprar o tubo ao médico?

Esta semana só chuveu duas vezes, na primera vez chuveu  durante 3dias, na 2ª durante 4.

Na Segunda feira teve tanto vento, que uma das galinhas pos o mesmo ovo 4 vezes!

Recebemos uma carta do cangalhêro que dizia que se o ultimo pagamento do enterro da tua avó nã for fêto no prazo de 7 dias, devolvem-na.

Olha mê filho........ cuida-ti !

 

Nã te esqueças de beber o lêti todas as nôtes, antes de enterrares os cornos na frônha.

 

Um bêjo

 

Joaquina Chaparra.

 

P.S. Era p´ra te mandari 5 contos, mas já tinha fechado o envelopi, nã tos mandei. Fica p´ra próxima, porra! “

--

            Pasmo com a falta de imaginação que permite a meia dúzia de Xicos espertos rir sem se darem conta que da sua própria ignorância, (e de mais alguma coisa...) se estão a rir.

            Penso que é preciso desconhecer por completo o Alentejo e as suas gentes para enfiar um chorrilho de estúpidas asneiras e pretender que do léxico alentejano se trata.

            Explico: o Alentejano (e escrevo a palavra com maiúscula) não diz – pois nós mudamo-nos – diria. - A gente mudou-se...etc. etc, etc,...

            Não é, porém, por aí que quero ir...

            É que, penso, que já era tempo, de nos preocuparmos um pouquinho mais que fosse, em compreender os outros e tentar aprender a rir do que é realmente engraçado e, não de ridículas anedotas saídas da tacanhez de alguns pobres de espírito que não sendo capazes de apreender o pitoresco dum dialecto ou duma situação se atrevem, (ultrapassando os limites do respeito que devem aos sentimentos do próximo), a meter o nariz onde não são chamados.

            Nem todos podem ser, ou ter, o talento – de um Raúl Solnado - para fazer rir falando duma guerra, com o pudor de não ferir o coração de ninguém.

            Fique-se cada qual nos seus limites. E pense que para se rir dum assunto como este; quem o escolheu, teria que inventar a carta como escrita pela sua própria mãe, e dirigida para si próprio! Porque, nesse caso, era opção, só sua, rir ou não rir...

            E, deixem em paz as Mães Alentejanas, tão iguais no Amor e cuidados a todas as Mães e que – ainda que analfabetas, por vezes – não deixam de dar a Vida dos seus filhos para todas as Bósnias deste mundo, enquanto muitos “destes engraçados heróis” pagam para fugir aos seus deveres.

                         

                                                     Maria José Rijo

@@@@@

Revista – Norte Alentejo

Nº 6 – Novembro/Dezembro - 2000

Crónica

 

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 18:28
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8 comentários:
De Dolores Maria a 6 de Janeiro de 2008 às 19:56
Olá boa noite.
Hoje aqui faz um frio imenso, só conseguimos
estar quase dentro da lareira.
Já lemos o seu artigo e rimos (como todos)
mas tem muita razão na sua critica.
Sim Senhora - é mesmo assim.
Concordamos.

Dolores e Avelino


De Luis Coronado a 6 de Janeiro de 2008 às 20:02
Mas este blog está bastante modoficado
(para melhor) desde a última vez que cá
estive e sá faz aí uns dois meses.
Venho deixar-lhe um beijinho de Bom Ano e desejar
que continue a postar desta forma incrivel.
Os seus artigos são de uma genialidade que
por me transmitem espontaniedade, alegria,
tristeza, astúcia, beleza, páz, harmonia e uma
imensa sensibilidade.
Tenho apenas 25 anos mas posso dizer-lhe
que gosto imenso de ler e estar aqui, comsigo,
neste seu dominio on line.
Prometo regressar mais vezes.

Beijinhos

Luis Coronado


De Gustavo Frederich a 6 de Janeiro de 2008 às 20:22
Minha boa amiga.
Hoje dia de Reis - espero que esteja bem de
saúde e Feliz.
Que os Reis lhe levem um pouco de tudo e em
especial a alegria de viver, a força para continuar
e levar a sua caminhada até ao fim.

Através da escrita tem feito um caminho de
rosas.
Não basta apenas dizer-lhe que escreve bem,
não
isso é curto - a Senhora está dotada de uma
capacidade incrivel para escrever e de uma
sensibilidade especial - com que Deus dotou
apenas algumas pessoas.

Hoje estou particularmente triste porque me
morreu uma tia - já velhinha - que vivia em
portugal. Era a tia Alice, irmã de meu Pai.
Era muito querida - telefonava-me uma vez
por semana e era uma querida.

Por favor - desculpe - falar da minha tristeza
mas é mais fácil falar com uma "tia virtual"
que nos escuta - lá longe... com o coração
do que falar sózinho.

Beijinhos e vou concluir dizendo que esta sua
cruzada - deste artigo - está (como sempre)
muito bem observado.
É uma critica bem construtiva.

Beijinhos Tia

Gustavo Frederich


De Maria José a 7 de Janeiro de 2008 às 18:03
Por uma destas coincidências de acaso,chegou até mim o seu desabafo - que senti e agradeço - no dia em que se completam quatro anos sobre a morte de minha muito amada Mãe, que partiu a escassos dois meses de completar 104 anos.Daí, que entenda como se sente e me apetecesse estar perto de si para falarmos, e quem sabe se- rir - e chorar juntos.
É que na saudade que os nossos queridos nos deixam, cabem tantas lembranças de momentos especiais que também dela faz parte a alegria de lhe termos podido chamar - nossos.
Creia que essas presenças ficam como parte das nossas vidas e sempre estarão connosco.
Também é verdade que não mais seremos iguais.
Tudo quanto vivemos nos molda e dá feição...
Deixo-lhe aqui um beijo grande - com a ternura acrescentada de quem é tia e sente que são felizes os que são chorados - é sinal que colheram o melhor da vida - foram amados.
O Frederich é um encanto de pessoa - creia!obrigada pela fidelidade da sua presença.
Um abraço
Maria José


De Gustavo Frederich a 8 de Janeiro de 2008 às 01:22
A Senhora é mesmo - só pode ser - uma
pessoa
muito querida, agora compreendo esta sua
sobrinha - que ao dedica-lhe o seu carinho - o
faz aqui neste bonito blog - onde a alma -
através
da palavra e da sensiilidade - dá a conhecer
um
pouco de si - que se dá ao mundo.

Grato pelas suas sentidas e sinceras palavras.
Foram um afago para a minha tristeza cravada
no coração.
Sua mãe deixou-lhe uma mágoa profunda pela
partida - mas deixou-lhe também esse amor
que só as mães são capazes e têm natureza
deo fazer.
Ao olhar esta foto sua de criança - noto
no seu olhar vivacidade e inteligencia -
que com o tempo
se somou a essa tão IMENSA e BELA
sensibilidade que tem hoje,

Maria José Rijo - é para mim (apasar da distancia
kilometrica) um ser que me transmite luz, paz,
sabedoria, calma, animo e me afaga
tranquilizando o coração - como uma mão que
enchuga uma lágrima no meu rosto.

Obrigado Tia - pelo carinho das sua palavras.
Deixo-lhe aqui um pedaço de dois poemas
que me tocam profundamente - com um
beijinho de gratidão.
Gustavo Frederich
---

"Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte,
estranho e duro,
Que dissesse a chorar isto que sinto!"
Florbela Espanca

------

"Um pouco mais de sol - eu era brasa,

Um pouco mais de azul - eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...



Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num baixo mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

... "
Mário de Sá carneiro


De Ana Maria Lourenço a 7 de Janeiro de 2008 às 15:47
Gostei muito deste artigo.
Concordo com as suas palavras porque
a maioria das pessoas "goza" inclementemente
com esta situação, aliás o porteguesinho "goza"
com tudo neste pais.

E assim anda o mundo!

Ana Maria L.


De Malaquias Beirão de Sousa a 7 de Janeiro de 2008 às 15:53
Muito Boa Tarde
Gostei de ler este seu artigo.
Vai com a razão toda. As pessoas deviam de
pensar três ou mais vezes, de verdade que
deviam, mas não pensam e esta é uma prova
disso mesmo.
As suas palavras:
"Penso que é preciso desconhecer por completo o Alentejo e as suas gentes para enfiar um chorrilho de estúpidas asneiras e pretender que do léxico alentejano se trata."
Fazem todo o sentido e é mesmo verdade.
Parabéns pela sua abertura de espirito e
sensibilidade.

Cumprimenta-a
Malaquias Beirão de Sousa


De Renata Macedo a 15 de Julho de 2008 às 06:39
Paula, meu nome é Renata Macedo, sou Brasileira e estudante de Teatro. Procurei no google alguma imagem referente à palavra "CARTA" e apareu a imagem do seu post. Achei essa imagem linda e gostaria de poder usar em um flyer para uma peça na faculdade, porém, gostaria de saber se você conhece ou sabe o nome do artista desta obra. Desde já agradeço se você puder me ajudar. Obrigada! Beijos.


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