Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

Uma tarde diferente

Na festa do seu aniversário, a Sofia, disse que o nome dela era cinzento e, que, por isso, não gostava dele. O primo consolou-a dizendo que só lhe chamaria Sófi e que abrindo a pronúncia do – O - era como se lhe abrisse uma janela  no nome, e, com essa janela aberta no tom cinzento, já o sol poderia entrar e  o nome ficaria iluminado. Logo houve quem discordasse porque para entrar o sol deveriam trata-la por Solfi.

Então outra das garotas começou a rir porque com: sol, entrava era a música, e, se lhe chamassem Solfá, já eram duas notas, e então, já era solfejo.

Por essa altura as gémeas começaram a barafustar porque alguém chamara a atenção por estarem vestidas de cor de rosa. As gémeas ainda nem tinham quatro anos e, a que se chamava Rita fazia birra porque não queria o fato cor-de-rosa, (nome da irmã), mas sim cor de Rita que era o seu próprio nome. Então o Jacinto, solícito, pacientemente ensinou-lhes os nomes das cores e, ambas acabaram rindo divertidas. Só que no meio da explicação, outras, se deram conta de que Jacinto era nome de flor. Ficaram preocupadas porque se era nome de flor, se calhar não deveria ser nome de rapaz.

             Talvez fosse mariquice!

            O Jacinto, já estava crescidote, andava a mudar a voz, já não estava na fase de ligar a essas brejeirices de “crianças”, e, logo disse que não, que não tinha importância, havia mais nomes de flores em pessoas.

             Puseram-se à descoberta.

             Lembraram: - Narciso, Dália, Orquídea, Eufrásia, Violeta, Flor, Margarida, Graciosa, Artemísia, Angélica... no auge do entusiasmo chegou a notícia da merenda.

              Decidiram que a merenda não deveria esperar e a descoberta de nomes, sim.

              Foi a entrada do senhor Oliveira, pai da Sofia, que marcou com a sua chegada, como a mãe prevenira, o começo da etapa mais desejada da reunião, o assalto à mesa repleta de bolos, doces e toda a espécie de gulodices. Então a mousse de chocolate sofreu tal ataque que era impossível duvidar do apreço em que era tida. Se entre as lambarices houvesse competição ela teria sido eleita como rainha indiscutível.

             Já com a assistência toda em condições de se candidatar a uma bela duma vomitona (embaraço gástrico – como dizia no seu jeito precioso, a tia Dulce), começaram a dispersar-se pela casa, e, a pouco e pouco recomeçou a conversa já que a tarde chuvosa não dava para aventuras no quintal ou passeios fora.

            Respondendo ao pai da Sofia, que queria saber do que tinham conversado até ele chegar, veio outra vez à baila a saga dos nomes. Começaram em oliveira, e foram por aí fora citando árvores que tinham nomes comuns a apelidos de pessoas.

            Lembraram laranjeira, carvalho, pereira, pinheiro... etc. etc. etc... Passaram depois para nomes de profissões que também são usuais em apelidos. Então, o senhor Oliveira explicou que muitas vezes se juntava a

designação da profissão ao nome próprio para melhor identificação da pessoa, e que, com o decorrer do tempo ela começava a fazer parte do nome verdadeiro. Eram os chamados “anexins”. Outras vezes, razões mais graves, trágicas até, provocavam essas designações. Era o caso dos cristãos novos, assim eram chamados os judeus convertidos, desde os fins do sec. XV, que para se furtarem a perseguições, e expulsão do país, por exemplo, adoptavam nomes de árvores e de plantas, nos seu baptismo cristão.

              O Vicente estava a vestir o abafo para sair, mas antes, com ar de santo de pau carunchoso, disse ao Domingos: - se eu escolhesse um anexim para ti era, fazendo honras ao teu amor ao movimento, entre aspas – o Descansado! - E porque não: - o Não te Rales, ou...

               Em que ficamos? - Perguntou o Domingos sem se incomodar minimamente com a provocante brincadeira.

              Não ficamos! - Respondeu outro a rir.

              Vamos!

              Vamos, mas é todos embora que já está mais do que na hora das despedidas

              ...E, assim, aconteceu.

              Debandaram!

                               

                          Maria José Rijo

@@@@@@

Norte Alentejo

N º 17 - Janeiro/Fev. 2002                            

Crónica

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 13:03
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2 comentários:
De DOLORES a 9 de Janeiro de 2008 às 00:49
Muito interessante esta história.
Gostei mesmo muito.

Com amizade

DO LO RES


De Gabriel Vasco de Lima a 9 de Janeiro de 2008 às 01:59
Passei para ver as suas actualizações e devo de dizer que tem aqui textos de acentuada importância.
São muito bem estruturados e de grande actualidade
mesm que as datas de publicação já tenham
anos de distância do presente.

Sabe, gosto muito da sua forma - brilhante - de
referir a vida, a dor, a paz a politica - gosto da
generosidade das suas palavras.

Devo dizer-lhe que é enlevo que sinto ao le-la.
E que ficaria muito contente - se a Senhora
fosse minha parente - tia por exemplo.
Seria uma honra para mim.
Acredite.

Com imensa amizade

Gabriel Lima


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