Domingo, 13 de Janeiro de 2008

Poema - Paisagem

CHOVE!

O céu está cinzento!...

E as velhas casas caiadas,

Da paisagem que eu conheço,

Estão lavadas, repassadas,

Da água que já escorre

Das goteiras dos telhados!

-- Eu não espreito!

-- Ouço somente!

(Desenhos de Maria José Rijo)

...

E vou revendo, na mente,

Velhas imagens de sempre,

Quando a chuva que faz música

Nas coisas que o mundo tem,

Toca as baladas, que eu sei

Já de cor e salteadas,

Nas coisas que me estão perto,

Fazendo: ping! ping! ping!

-- Procuro!

-- E vou encontrando

As imagens aprendidas

Nas paisagens conhecidas

Onde caiu a chuva e eu vi…

 

……………………………

-- Uma vez…

(Como eu me lembro!)

Foi depois da estiagem

Que ela chegou, na friagem

Das suas gotas redondas,

Anafadas, espaçadas,

(Fazendo círculos no pó

Em que a terra se tornara)

Uma aqui, outra acolá,

Como lágrimas contidas,

Muito tempo reprimidas

E choradas quase a medo,

Por um céu triste de chumbo

Numa tarde de Setembro!

Ah!... Então vibrei contente

Ouvindo como estalavam

Em sonoras gargalhadas

As folhas, já ressequidas,

Quando a chuva lhes batia,

Essa chuva que caía

E sem cessar, engrossava

 

Como convulsões dum pranto,

E que a paisagem bebia,

Suspirando seus perfumes

Quentes, quase sufocantes,

Como a arfar de alegria…

Vendo que tudo aceitava

A sua gotinha de água

Eu, que de sede abrazava,

Também quis ser da paisagem!

-- E p’ra ali à chuva

Como terra a estremecer

Num frémito de prazer,

Como árvore sequiosa

Aceitando a gota de água,

Por que vivia, gulosa…

Fui um pouco, um quase nada,

Nessa paisagem de sempre

Onde a chuva cairá

E que paisagem será

Quando eu não for da paisagem!

 

E a chuva caiu… Caiu…

E sempre chuva caía…

E a terra já não bebia…

E quando o dia nasceu

No mar que a paisagem era

Quem tinha sede era eu!

 

Agora, chove outra vez!...

Eu sei que o céu está cinzento…

Eu sei de cor a paisagem

Onde a água já escorre,

Onde tudo já bebeu!...

Já foi tanto o que choveu!...

Ping! Ping! Ping! Ping!...

 

Só a sede, em que eu me afogo,

Nem afogada morreu!...

 

Maria José Travelho Rijo

Inverno de 1955

Poema ---  PAISAGEM

CHOVE

Desenhos de Maria José Rijo

Poema nº 2

Pág- 13-14-15-16

Publicado em 1956

 

estou:
música: Poema nº 2

publicado por Maria José Rijo às 12:26
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5 comentários:
De Gustavo Frederich a 13 de Janeiro de 2008 às 16:14
Minha boa Amiga
A sua poesia encantou o meu coração.
Um tema tão simples tratado de uma forma
tão bela e capz de expressar o seu sentir, os
seus sentimentos.

Já tinha gostado muito do outro e este é também
um belo poema.
Gosto da forma como se dá na poesia.
Como se nos oferece na simplicidade das
suas palavras, no encantamento do seu
sentimento.
Gosto realmente.

Grato por mais este belo poema.
Beijinhos

Gustavo Frederich


De Alberto Mateus a 14 de Janeiro de 2008 às 00:13
Gosto.
Gosto da sua poesia
do desejo de liberdade
do toque da sua imensa sensibilidade.

Parabéns

Alberto Mateus


De Ana Maria Lourenço a 14 de Janeiro de 2008 às 01:43
É muito bonita a sua poesia.
Gosto tanto de ler o seu blog.
Está muito bonito e admiro a forma
encantadora da sua escrita.
Fico contente sempre que tem poesias.
Muitos Parabéns por esta.
A Senhora tem uma alma muito bonita.
Bem haja por este blog e pela sua sensibilidade.
Muitos Beijinhos

Ana Maria Lourenço


De Gustavo Frederich a 14 de Janeiro de 2008 às 01:56
Por esta insónia voltei ao blog.
Sinto-me bem aqui entre poemas e pardais,
encantos seus por esta bela escrita.

Na solidão de mim - procuro saciar a minha
saudade, o mundo da minha infancia, os
afectos das vidas.
Aos meus 35 anos - gosto de sentir companhia
também nos meus livros, na poesia, na musica...
também aqui - na poesia de vida do seu blog, na
companhia das suas sabias palavras.
Maria José Rijo - além de escritora e poetisa tem
uma alma fantastica - de uam beleza impar.
É a tia que se sonha - que eu sonhava e parece
que encontrei aqui - neste blog.
Mais um poema de que gosto - para si:
------------
FIM



Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes ­

Façam estalar no ar chicotes

Chamem palhaços e acrobatas.



Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza:

A um morto nada se recusa,

E eu quero por força ir de burro ...



(Últimos Poemas, 1916)
Mario de sá Carneiro

----
Beijinhos
Gustavo Frederich


De Natália Mateus a 14 de Janeiro de 2008 às 15:36
Gostei muito do seu Poema.
Parabens por este seu bonito blog.

Natália


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