Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Reminiscência --- A Sedução

Uma das maiores seduções da infância, sempre foi e será, o aconchego do colo da mãe, do pai das velhas tias ou dos avós, muito principalmente quando os seus abraços se tornam – ainda - mais amplos pelo acrescente dos xailes com que se abrigam pelas costas nos serões de Inverno. É que, então. Os seus braços abertos, parecem enormes asas protectoras que se fecham quase plasmando as crianças junto aos seus corações.

Quando pequenas, minha irmã e eu, nessas circunstâncias, sempre explorávamos a oportunidade de ficar, ouvindo contos ou histórias e família, até à hora de ir para a cama, que implacável não consentia adiamentos...

(Era a avó corajosa que, da janela, tinha disparado para o ar, a espingarda do avô para afastar os ladrões que rondavam a casa. Era o avô que levava o dinheiro dentro dum cinto tecido em malha de meia, enrolado à cintura quando saía em negócios...eram as suas próprias reminiscências, acordadas do sono da alma para nos entreter e encantar...)

Seguia-se depois o ritual das despedidas, e, antes de deitar, as orações, o aconchegar da roupa, e o apagar do candeeiro de petróleo seguida da última recomendação: - durmam sem medo que estamos aqui e a porta do quarto fica aberta...

Assim acontecia e os risos misturados com o som das vozes no entusiasmo do decorrer do jogo da “sueca” com que, a feijões, “os crescidos” se distraiam nos serões, faziam o embalo para o nosso descanso tranquilo de crianças.

O outro deslumbre da minha vida, eram, as idas ao mês de Maria, à novena do Sagrado Coração de Jesus e outras cerimónias a que nossa Avó decidisse que poderíamos, ou deveríamos ir, e, aí era a sua vez de pedir aconchego no Regaço Materno.

Das idas à missa, também gostava. Minha avó tinha cadeira e genuflexório privado, na Igreja de Estombar, no Algarve, onde isto acontecia. Tinha ela, e tinham todos os frequentadores habituais, porque as Igrejas, pelo menos nas terras pobres, como aquela, então, era, não dispunham de bancos, ou tinham-nos em muito pouco número.

As pessoas assistiam de pé, ou de joelhos às cerimónias. Mais tarde, aí pelos anos – 50 – ainda vim encontrar essa mesma situação na Igreja S. Miguel de Seide, quando visitei a casa de Camilo. Aí, eu própria, me sentei no soalho como os habitantes locais. o que me deu o gosto de uma outra espécie de comunhão na autenticidade da Fé que coabita com a humildade de, em qualquer circunstância se saber dizer – Amem !

Mas, eu vinha contar da maravilha que, na minha infância, era a reza do terço.

Verdade, verdade, eu nem saberia então o que verdadeiramente o terço significava. Só sabia do encanto que era ver as bocas todas a bichanar um palavreado misterioso com as mãos a deixarem correr as contas, com um Cristo crucificado, a balouçar, e os olhos atentos, fixos no sacerdote, de quem  se repetiam as frases.

Algumas contas, de alguns rosários tilintavam como pequenas campainhas, mormente se eram de vidro, e, eram esses sons a causa do meu enlevo, do meu comovido deslumbramento.

Minha avó orgulhava-se do nosso comportamento e, por essa razão levava-nos com ela. O padre até nos ofereceu uns pequenos livros de missa. O meu tinha capa branca, com uma cruz dourada em relevo, e foi prémio da exemplar compostura dos meus escassos cinco anos, o de minha irmã era azul e mais volumoso.

Ainda hoje, que Deus me perdoe, me perco das rezas a olhar as bocas e as mãos dos penitentes – as mãos gastas e calosas, quantas vezes quase enclavinhadas, como que convulsas, lado a lado com outras cheias de anéis com unhas pintadas por onde as contas, também escorrem, uma a uma como lágrimas contidas de súplicas de fundas angustias que só à misericórdia da Mãe, de coração para coração, se confessam, mas que as mãos, muitas vezes, indiscretas, indiciam...

Talvez as crianças de hoje, guardem a memória do tilintar de copos, da música que fazem tinindo em toques de saudações nas reuniões que, quer em casa, quer em bares, já só se fazem de copo na mão como se essa fora a única expressão possível de conviver e mostrar alegria.

Talvez guardem não as confidências dos familiares idosos que fechados no silêncio, definham enfileirados em Lares - nem a lembrança do brilho das contas dos rosários, mas sim a memória dos reflexos das luzes no colorido dos vinhos e licores a escorrer para as bocas de quem - fora de si –se procura...

Talvez! - É que vi – e comparei – o ontem e o hoje, numa reportagem de tirar o sono – a um País - sobre meninos, querendo parecer grandes, no que os grandes têm de pior – (o vício como distracção) – o vício - do álcool...neste mesmo País – o nosso - onde a reforma da educação acaba de  excluir do currículo escolar a disciplina de Moral, por desnecessária- deduz-se!

                         Maria José Rijo

 

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Jornal O Linhas de Elvas

Nº 2.893 – 23-Novembro-2006

Conversas Soltas

 

 
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publicado por Maria José Rijo às 00:36
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2 comentários:
De Gustavo Frederich a 16 de Janeiro de 2008 às 09:09
LINDO !
Adorei este seu texto.
Adoro as suas reminiscencias - esta forma tão
bonita de falar da infância deixa-me muito
enternecido.
Realmente o mundo dos Avós é um mundo
único - onde as crianças são o centro dos seus
mundos.
Tenho boas recordações dos meus avós e estes
seus textos trazem-me bonitas recordações -
embora eu fosse incapáz de escrever - assim -
com esta beleza e subtileza que a Senhora, tem
para escrever, contando, pedaços da sua alma
das sua vivências de criança, tão marcadas, tão
vividas e sentidas.
Obrigado por partilhar com todos ( comigo ) este
seu bonito mundo da infância.
Fico sempre emocionado ao ler estes seus textos
tão belos e cheios de vida - da sua vida.
Grato.
Muitos beijinhos de Bom dia
Seu muito admirador
Gustavo Frederich


De leoneljoao a 16 de Janeiro de 2008 às 12:26
Dª Maria Jose todos os dias espreitamos e nos deliciamos com o seu blog , que Deus lhe dê saude
e animo para continuar pois pa nos e já um ritual diario que nos anima muito .
beijos nossos tambem para a Paulinha

Leonel


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