Sábado, 19 de Janeiro de 2008

Reminiscências 7

     @

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.497 – 26 / Março / 1999

Conversas Soltas

Reminiscencia nº 7

 

Num dia seis de Março, há vinte anos, faleceu, já então, muito velhinha uma pessoa maravilhosa, cheia de sabedoria e bondade, que encheu a nossa infância e adolescência (de minha irmã e minha) com contos, poemas, histórias e orações. Era irmã de meu Pai e, tal como a dele, a sua vida foi, para nós, lição de coragem, trabalho, dignidade e caracter.

            Como era muito inteligente e generosa tinha sempre a preocupação de encontrar forma de ensinar o que achava necessário da maneira mais subtil e mais divertida que pudesse.

            Daí, que usasse o célebre poema de João de Deus – Militarão - para nos precaver contra a gula. Quando na via irresistivelmente tentadas a comer doces em excesso, com um bondoso sorriso de condescendência ela repetia: - daqui a pouco nem vos cabem dois dedos na boca, como ao militarão, e sorrindo ia recordando:

 

                        Um valente militar

                        Ficou tão abarrotado

                        N’um opíparo jantar

                        A que fora convidado,

                        Que o que fazia era impar,

                        E estava dando cuidado.

 

                        Diz - lhe aflita uma das manas:

                        “Meta dois dedos na boca,

                        Provoque as ânsias, a ver!

Dois dedos na boca... louca?

Se eu os pudesse meter,

Metia duas bananas.

 

Também jamais poderia esquecer a delicadeza com que nos estimulava a coragem que ás vezes é necessária para cultivar a lealdade.

Contava que quando Nossa Senhora fugia com S. José para salvar o menino Jesus da fúria de Heródes encontrou duas aves, um pisco e um chasco.

Assustada, receando encontrar-se com os seus perseguidores, perguntou Nossa Senhora aos passarinhos: pisco! - Indo por aqui encontrarei os soldados?

Sem sequer pensar, o pisco respondeu: pis, pis, por í, bem is e, foi à sua vida fugindo às confusões, sem mais se importar com a aflição daquela Sagrada Família.

            Foi então que o chasco muito aflito começou a voar por todos os lados até que avistando os soldados voltou, para alertar, piando: chás, chás, por í, mal vás e os carrascos encontrarás .

            Agradecida, Nossa Senhora, abençoou o chasco para que fizesse o ninho nos buracos das rochas, bem alto, para que as suas crias ficassem mais protegidas

 .          Seguiu Nossa Senhora o seu caminho e ao passar junto do mar perguntou a um linguado se a maré enchia ou vazava. Sentindo-se muito seguro pela sua cor de areia que

o dissimulava aos olhares e pela facilidade com que na água se deslocava, permitiu-se o peixe , sem saber com quem falava, troçar  da pergunta fazendo uma careta e repetindo-a com desdém , em lugar de dar a resposta que lhe tinham solicitado.

            Que a boca te fique de lado, disse-lhe então a Senhora, para sempre te lembrares que quem pede ajuda deve ser ajudado e não arremedado.

            Ao perceber com quem falara quis o peixe desfazer o mal pedindo desculpas.

Mas, Nossa Senhora, avisou:- assim te lembrarás que o bem se faz sem olhar a quem.  Outra pequena história, engraçada, servia para que fixássemos que tudo na vida está nas mãos de Deus e que nunca deveríamos ser arrogantes.                 

            Era assim: - em certo dia, Jesus disfarçado de mendigo perguntou a um vaidoso: - aonde vais montado no teu burrinho? - Vou à feira; foi a resposta.

            Se Deus quiser, – acrescentou Jesus.

            Logo o outro com arrogância retorque: que Deus queira que não queira, com o meu burro vou à feira.

Calou-se Jesus e o feirante seguiu o seu caminho. Porém, logo adiante ao passar por um riacho apareceram tantas rãs aos saltos que o animal se assustou e deitou o homem ao chão. Lamentando-se, com o fato todo molhado, como uma sopa queria o arrogante segurar o burro que só escoiceava e não dava mão. Então, passa de novo Jesus que volta a perguntar: aonde vais? - À feira, disse o outro voltando a escorregar.

            À feira? Insistiu Jesus.

            Sim! Desde que Deus queira. E, dizendo assim, imediatamente se levantou agarrou o burro e retomou a marcha tendo-lhe o fato secado como por milagre.

            Olhou então em redor para ver se avistava quem lhe falara. Já não viu ninguém, mas havia por todos os lados uma música tão suave, um ar tão lavado e fresco, uma tal paz na Natureza que o homem percebeu que Deus dele se compadecera e lhe mostrara que é erro grave viver com o coração tão cheio de soberba.

 

 

                           Maria José Rijo

 

                       

estou: nº 2.497
música: Reminiscencia nº 7

publicado por Maria José Rijo às 00:11
| comentar | Favorito
partilhar
2 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 19 de Janeiro de 2008 às 01:43
Olá olá...
Vim ver o seu lindo blog.
E como sempre gostei imenso dos textos.
Esta foto está linda. As meninas encantadoras.
A Senhora e sua irmã.
Gostei imenso, gosto sempre muito de andar por
aqui - na sua casa - na sua companhia.

Beijinhos
Gisa


De Amilcar Martins a 19 de Janeiro de 2008 às 02:08
Gosto muito muito de ler os seus artigos.
Gosto de todos mas as reminiscências
levam-me ao mundo da infancia, do
antigamente - que muita saudade eu tenho.

Grato pela existencia deste blog.
Bom ano e em especial a nivel de continuação
da boa prosa e da poesia.
Se eu fosse editor - editava-lhe as reminiscências
que tanto me agradam - como não sou leio-as
e volto a ler e a reler.

Um abraço
Amilcar Martins


Comentar post

.Maria José Rijo

.pesquisar

 

.Agosto 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

. Cá Estou ... - 2

. CORAL PÚBLIA HORTÊNSIA DE...

. CRIANÇA - 1990

. Parabéns

. A afilhada da Tia Zé

. Páscoa - 2017

. Homenagem a Maria José Ri...

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@