Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

CARTA DE JUROMENHA

Ao longe vejo Olivença

Mais perto, Vila Real

A meus pés o Guadiana

Correndo manso – na crença

De que tudo é Portugal

.

Meu amigo

Quando eu era rapariga, falava-lhe guardando a distância implícita no reverente – Senhor Doutor.

Agora, que os anos, as minhas mágoas e os meus cabelos brancos permitem encurtar um pouco as distâncias, enfrento o seu tu cá, tu lá – de sempre – com um afectuoso: Meu Amigo. Porém, não cuide que este vocativo tem um conteúdo muito diferente.

Isto quer dizer, apenas, que “ouso” tratar o Doutor que é escritor e jornalista de reconhecido mérito – chamando a primeiro plano a amizade que o velho tratamento já envolvia, embrulhado com o rótulo da dignidade oficial.

Situados que estamos, vou então dizer-lhe que: quando hoje colhi do seu espanto a desagradável sensação do “dinossaurico” atraso que representa o meu jeito de só escrever à mão; o meu vício de improvisar; a minha intrínseca aversão pelas máquinas – a cerimónia que faço com o meu próprio carro…

Quando isto aconteceu, lembrei-me que me pediram certa vez para escrever sobre artesanato e vou apoiar-me no que então escrevi para o que pretendo contar.

É que, meu amigo, sou e sempre serei artesã.

- Quando escrevo azul, quereria fazê-lo sem caneta, ou lápis, - apenas com o dedo molhado na cor do céu.

- Quando digo mar… já vou na onda.

- Quando me encosto a um tronco de árvore e o abraço surpreendo-me por não me transformar em ramos, folhas e flores.

- Quando mergulho o olhar num poente a quietude do fim do dia ameaça-me como se fora o meu próprio ocaso.

Sempre me sonhei erva do prado, ave, nuvem, folha ao vento. Sempre. Porém, nunca foi senão o que sou -  apenas eu – empanturrada de emoções como as crianças gulosas fazem com os chocolates – sem conta, peso ou medida.

Impossível com matéria desta natureza fazer obra de estilo com rigor de pormenor ou moldes de fresador.

Destas mãos de obreira – que me comovem porque iguais às de minha Mãe – grandes e ossudas, com unhas curtas, sem verniz, com esfoladelas da lareira e do fogão, mãos que até já amortalharam docemente – gente muito amada – destas mãos, meu amigo, só artesanato pode nascer.

Um pouco ao acaso, como as flores do campo.

Raízes de mim que sou a terra que o sustenta.

Não me queira sentada à máquina, de dedo espetado soletrando de tecla em tecla, aos pulinhos, como um pardal a comer migalhas.

Não queira.

Deixe-me fora desses preceitos de civilização que me são alheios.

Já que me chamou para voltar a escrever – já que o fez – e tem agora a minha família e amigos – todos juntos – a cantar-lhe hossanas – assuma a auréola e dê-me do alto dessa santidade que lhe foi conferida, por tal feito, o perdão de que careço por tanta insipiência, não me espartilhando com preceitos que me constrangem.

Tempos houve, em que não se usavam frigoríficos.

Bebia-se então água da bilha de barro que ficava de noite ao relento para refrescar – e a todos consolava.

Parei aí. Creia. E, como eu me lembro disto!...

Não invente actualizações para mim.

Saiba-me capaz de acreditar em mezinhas, fazer rezas de “cobro” e “quebranto”, benzeduras…

Pense-me tecedeira dessas artes e manhas. Veja-me gastando tintas e pincéis em arroubos de naífe.

Registe que me era mais a feição passear de burro e sombrinha aberta no Chiado – e o mais que no género imaginar – mas – por favor, máquinas não! – a não ser de costura e, à antiga, com pedal.

Já sabe agora em que ponto me encontro… onde quer que me encontre!

E que é frequente encontrar-me sentada no poial, da porta de postigo, da nossa pequena casa de Juromenha, a ver correr o rio e a rezar o terço com as mãos ao sol pousadas no regaço.

Posso estar só, ou acompanhada, a ouvir e a contar histórias.

Nada de erudito.

Qualquer coisa como um último abencerragem duma ruralidade que quadra bem à minha condição de artesã confessa e assumida.

Vale assim?

É que me pareceu ouvi-lo, esquecido do “Poder Local” a resmungar comigo:

“Antes eu fosse sandeu

Ou me embruxassem com ervas

No dia em que me apareceu

Aquela artesã lá de Elvas

 

Deixo-lhe um abraço agradecido e amigo.

.

Maria José Rijo

.

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.249 – de 20 de Maio de 1994

Conversas Soltas

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estou:
música: Juromenha - 1

publicado por Maria José Rijo às 23:53
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5 comentários:
De Gustavo Frederich a 26 de Fevereiro de 2008 às 00:41
Li com imensa atenção
esta bela carta - cujas fotografias conseguem
mostrar a beleza de Juromenha.
Confesso que não conheço Juromenha, no
entanto gostaria de um dia conhecer. Quem
sabe as voltas que a vida dá.
Mas vou informar-me e descobrir tudo o que puder
sobre esta aldeia - que parece tão bonita.

É realmente uma carta cheia de significados.
Presumo que haverá mais, se esta é a primeira.
Estarei atento a mais...

Com IMENSA admiração
desta seu sobrinho

Gustavo


De Dina a 26 de Fevereiro de 2008 às 00:52
Quando cheguei ao fim da leitura já estava há muito sentada ao seu lado no poial da porta olhando e ouvindo o rio...
Um beijinho


De Manuel Fradique a 26 de Fevereiro de 2008 às 13:00
Muito Bom este seu blog.
Os meus Parabéns

Fradique


De Malaquias Beirão de Sousa a 26 de Fevereiro de 2008 às 20:25
Minha amiga
Este texto está excelente.
É uma carta muito bonita e está escrita
de uma forma preciosa.
Os meus sinceros Parabéns.

Malaquias Beirão de Sousa


De Anónimo a 1 de Março de 2008 às 15:08
Para Manuel Fradique e Malaquias Beirão um abraço grato pela visita e pelo comentário amigo
Maria José


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