Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Reminiscências -30 – Não me apetece...

Quando assim dizia querendo desistir de qualquer tarefa que me era proposta, minha Mãe, retorquia: - pois é filhas, mas a Vida não é feita de apetites. A vida é também feita de deveres e, de os cumprir, colhem-se muitas alegrias.

Não as obrigo a nada, mas quem não sabe fazer, não sabe mandar.

Agora é com vocês. As vossas cabeças são o vosso guia.

Pensem!

Para completar a “pregação”, como então dizíamos, (baixinho uma para a outra) vinha meu Pai, acrescentar mais uns pózinhos repetindo sempre que surgisse oportunidade: gosto tanto de as ver estudar, como de as ver ocupadas nos trabalhos de casa. A vida não é só isto ou aquilo, - a vida é a soma de tudo!

E, lá nos iam ocupando a fazer o que decidiam ser útil que aprendêssemos

Logo minha Avó, ou minhas velhas Tias, deitavam água na fervura dizendo: deixem as garotas, que ideia, para quê esses trabalhos para elas, coitadinhas, já lhes bastam os livros. E, muitas vezes, assim, nos salvavam de tais empreitadas.

Minha irmã com a sua fina intuição, desde muito cedo descobriu, que circular “na orbita” da nossa Avó era tão seguro como estar agarrada à corrente para os condenados da Rainha Santa Isabel e, acolhia-se a essa protecção.

 Meus pais não gostavam do expediente – nem estavam de acordo com a “redoma” para as meninas – mas, naquele tempo as pessoas de idade eram – veneráveis – e, como tal, respeitados os seus pareceres e atendidas nas decisões de assuntos familiares, assim, se minha irmã se escapava, também eu ficava liberta.

Nessas alturas, ela, com seu natural pendor de requinte feminino, ficava a ouvir histórias antigas que a Avó recontava com prazer e, eu, (“esta Maria rapaz”, como meu Pai dizia, com a mágoa latente de não ser só rapaz) se pudesse esgueirava-me para o campo subia às árvores, procurava ninhos – que jamais destruía – tocas de bichos, camas de lebres, e outras maravilhas que ia descobrindo e me emocionavam. Ia em procura dos pastores, mulheres na lida dos Montes, gente afogada em solidão e sempre ávida por falar, para me contarem histórias de bruxas e lobisomens, rezas nas encruzilhadas e as mais inimagináveis superstições.

Outro dos meus encantos era visitar os locais onde os ciganos tivessem estado acampados.

O cheiro de gado e palha ainda presente, a cinza ainda morna no chão queimado, alguns trapos velhos tresandando a fumo, deixados para trás ou esquecidos, aquele ar de abandono de quem não está preso a nada e, deixa no encalço um rasto de liberdade, que me fazia lamentar não ser cigana, aguçavam-me a fantasia.

Uma vez achei por lá um bordão. Levei-o comigo e escondi-o. À socapa ia afaga-lo. Era liso, brilhante de lustro e polido como espelho e eu ficava a idealizar por onde teria andado quem a ele se arrimara. Foi durante anos e anos o meu talismã...

Depois, como a máxima que presidia à linha de conduta era: - “a maior liberdade, dentro da maior responsabilidade”, tudo se ia ajeitando sem sobressaltos de maior porque a norma encaixava em todas as idades, e a “soberba” do: - “não me apetece”, não era resposta que se admitisse em muitas repetições...

Ora, todas estas reminiscências se encadearam por alguns programas que, de quando em vez, vejo na televisão e me fizeram pensar em velhos conceitos de moralidade e na abertura com que hoje se fala de sexo, prostituição, nos novos estados civis aceitos

“ficar” “estar com”, etc... de maternidade como produção independente – e um mundo de coisas que atropelam tudo que assimilei como certo.

                           (Tela óleo- Ciganos - Pintura de Maria José Rijo)

 

Daí, recordei o dia em que a lavadeira entrou esbaforida na cozinha, ofegante pela emoção da coscuvilhice e, muito espevitada disse: “meninas vão à janela do quarto se querem ver duas maganas a desassossegarem- nos os homens, que estão ali no largo, a jogar à malha .”

Então minha Avó, com sua voz, fraca, mas ainda segura, disse: Não! - Não têm que ir – desgraça não é divertimento, e com um ar condoído acrescentou: - Não zombes da prostituta

                                 Ó casta e pura donzela

                                 Ela já foi como tu

                                 E tu podes ser como ela.     

        

 Era assim em velhos tempos...                                                                             

 

                                          Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.958 – 20 Fevereiro de 2008

Conversas Soltas

 

estou:
música: Reminiscências - 30

publicado por Maria José Rijo às 18:51
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4 comentários:
De Gustavo Frederich a 3 de Março de 2008 às 22:56
Mas que reminiscência LINDA.
Adoro as suas reminiscências, como esta
que falam de si, onde a Tia conta pedaços
do passado. O ouro das suas memórias.
Por vezes ao le-la - recordo histórias que a
minha Tia me contava - pedaços de vida -
que não ficaram apenas no passado - há
sempre quem fique com elas no coração
e depois as saibam contar assim - assim
desta forma especial.

Nos ciganos - nas suas vidas e histórias -
há uma de que eu gosto muito e vou-lhe
contar.
É mais ou menos isto.:

Santa
Sara Kali é a padroeira dos ciganos.

Existem diversas lendas a respeito
da origem de Santa Sara.

Algumas falam que ela seria serva
e parteira de Maria, e que Jesus a
teria em alta estima por te-lo trazido
ao mundo. Outras, que era serva de
Maria Madalena. Seu centro de culto
é a cidade de Saintes-Maries de la Mer,
na França, onde ela teria chegado
junto com Maria Jacobina ou Jacobé,
irmã de Maria, mãe de Jesus, Maria
Salomé, mãe dos apóstolos Tiago e
João, Maria Madalena, Marta, Lázaro
e Maximinio. Eles treriam sido jogados
no mar em um barco sem remos nem
provisões, e Sara teria rezado e
prometido que se chegassem a salvo em
algum lugar ela passaria o resto de seus
dias com a cabeça coberta por um lenço.
Eles depois disso chegaram a Saintes-Maries,
onde algumas lendas dizem, foram
amparadas por um grupo de ciganos.


A imagem de Santa Sara fica na cripta
da igreja de Saint Michel, onde estariam
depositados seus ossos.

O epíteto "Kali" significa "a negra",
porque sua tez é escura. Seu culto
se liga ao culto das Madonas Negras,

Fontes variam: se sua canonização consta
de 1712, ou se é uma santa regional.
Sua festa é celebrada nos dias 24 e
25 de maio, reunindo ciganos de todo
o mundo.

Sua imagem é coberta de lenços, sendo
ela uma protetora da maternidade.
Mulheres (Romi) que não conseguem
engravidar e mulheres que pedem por
um bom parto, ao terem seus pedidos
atendidos, depositam aos seus pés um
lenço (diklô). Centenas de lenços se
acumulam aos seus pés.

As pessoas fazem todo tipo de pedido
para Santa Sara, por sua fama de atender
todos os que depositam verdadeira fé nela.
Mas perseguirá os opressores, os racistas,
aqueles que vão contra seus protegidos
prímevos, que são os ciganos. Santa
Sara é a santa dos desesperados,
dos ofendidos e dos desamparados.

---

Gosto desta história.
Também - gostei Gostei muito deste
quadro de ciganos - pintado por si.
Também tem muita força - a força e
vida de liberdade dos ciganos.
Como também a foto da bonita Senhora,
presumo ser a Tia - quando menina nova.
Muito Linda . Gostei muito, de verdade.

Adoro estar por aqui.
Beijinhos Tia - vou reler o texto e o poema.
Seu sobrinho

Gustavo Frederich



De Dolores Maria a 3 de Março de 2008 às 23:04
Mas que querida esta sua reminiscência
Tiazinha.
Adorei a sua fotografia, tão bonita de menina.
É a Tia não é?
Achei parecida com estas fotos aqui da barra
da esquerda.

É mesmo muito bonita esta sua reminiscencia.
As suas histórias são muito bonitas.

Gostei imenso, imenso.
Tia já tenho a minha pedra de azeviche
pendurada no fio. E está muito engraçadinha.

Parabéns ADOREI
DO LO RES


De maria josé a 4 de Março de 2008 às 17:18
meus queridos sobrinhos - a minha visita de agradecimento é para os três, e vamos ver se não me esqueço de referir as coisas que me vão contando, que muito me interessam e a que por vezes acho imensa graça. Como por exemplo o encastoamento em ouro, da pedra que a fez sofrer.
Meu marido costumava dizer que eu o surpreendia com algumas coisas que fazia - pois desta não me lembraria - pode crer que no seu caso quereria esquecê-la, mas já que a tem como fetiche que ela lhe recorde a água que a pode ajudar a que, ela, seja única. Se assim for, qualquer um de nós a achará preciosa, quanto mais a Dolores.
Enternece-me verdadeiramente acompanhar em espírito o cumprimento dos deveres Pascais pela sua família.Julgo que vivem na cidade de Braga. Não sei se estou errada, mas, em qualquer cidade que seja é bom cumprir rituais que o coração e a fé nos pedem. Mais ainda, quando eles representam também tradições das famílias portuguesas.
Pessoalmente, já não cumpro quase nada. a solidão não é boa conselheira, nestas casos. Depois, como a igreja, generosamente dispensa as pessoas de idade, acolho-me a esse benefício e...dou asas ao comodismo. Vou fazendo como minha Avó e minhas velhas tias faziam : acendo a luz aos Santinhos, e rezo. às vezes até sorrio porque me parece estar copiando um ritual e já não sei se mais gosto de rezar
ou de recriar o que, em criança, via fazer...
Minha irmã, então, rodeia-se dos retratos de todos os falecidos para assistir à missa em casa, e temos um hábito, pelo tefone, desejamo-nos a Paz de CRisto, prque combinamos assistir à mesma celebração. Ela em Lisboa, eu em Elvas.
às vezes gostaria de ficar por aqui na conversa, mas depois falta-me o tempo para outras obrigações, e agora, com os dias a crescer, tenho mesmo que tentar cumprir tarefas que com o frio ficaram hibernando...
Um beijo grande para os tres pai, mãi e filha da
tia Zé.
Importa-se de dizer as vossas datas de aniversário e idades? - se não lhe apetecer, por favor - não diga.
























De Dolores Maria a 4 de Março de 2008 às 23:55
Os seus comentários são tão interessantes
quanto os posts.
É como falar consigo pessoalmente minha
queridissima tia.
Este comentário enorme - para nós - é uma
ternura da sua parte.
Sabe que a minha pedrinha - a que o meu
santuário produziu - com tantas dores e sofrimentos
Mas eu libertei-me dela - pelo que o triunfo é
meu e ela minha prisioneira. Exposta para
que todos a conheçam - a condenada que
tanto me fez sofrer.

O Avelino não acha piada- porque isto,
porque aquilo, e mais assim, e mais assado...
sei lá... mas eu nem lhe ligo apenas levo
o tempo a rir.
A luisinha telefona e ralhar - porque assim,
porque as vizinhas assado, porque o não sei
quê... - bom eu volto a sorrir e continuo
a rir com a pedrinha entre os dedos.

Só a Dulcinha - a minha sogrinha - uma
velhinha de 75 anos - muito magrinha -
como uma erva - se ri à gargalhada por
nunca antes ter assistido a uma surpresa
destas.
Mas eu abano os ombros e deixo-me rir.
É que eu gosto muito dela, ficou uma belezinha.

Sobre os assuntos da Igreja somos realmente
muito religiosos, adoramos estar sempre na
linha da frente.
Eu não perco nenhuma missa, nenhuma
cerimónia - e arrasto a familia toda.
Canto ainda no coro da igreja - não sou lá
nenhuma voz especial - mas gosto de cantar
e louvar o Senhor em todos os dias da minha
vida.
Bonito é a tia e a sua irmã (também é claro -
a minha Tia) se telefonarem pela a
Paz de Cristo. É muito bonito e até estou
emocionada.

A Senhora minha Tia é muito querida. Gosto
muito de a ouvir falar dos seus rituais. São
Lindos e gostaria imenso - que eu com a
sua idade possa fazer exactamente a mesma
coisa.


Os nossos aniversários?
É claro que sim, aqui vão eles:
-- Eu -- nasci a 21 de Março de 1962 e serão
46 anos.
-- Avelino -- 18 de Agosto de 1958 e tem mais
4 que eu - ou seja que este ano vai fazer 50
aninhos o meu velhote.
e a minha princeza é de 18 de Maio de 1986
e serão 22 primaveras.

É assim.
Beijinhos Querida tia e vou ler o texto.

DO LO RES









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