Domingo, 9 de Março de 2008

Remiscência - IV

Acabava de escrever o título desta conversa e já me perguntava a mim própria se reminiscências podem ser parentes de saudades.

            E, se assim for, qual será o grau de parentesco.

            Certa vez, nuns jogos florais em que o tema para quadras era: - a saudade, recebi um prémio colaborando assim:

 

Ter saudades, é sentir

sempre em nosso pensamento

o que nos deu f’licidade

a causar-nos sofrimento

 

Tomando esta afirmação por verdadeira e, acho que, como verdade, se pode aceitar, as reminiscências, podem ou não, ser saudades. Muitas vezes serão apenas recordações e, até divertidas, algumas. Porém, na medida em que lembrar prova que se não esqueceu e se recorda, evocar, é sempre um acto de nostalgia. Muito em segredo no meu coração não me atrevo a negar o tal parentesco. Já que não se considerem como filhas, mães, tias ou avós, visto não provirem da mesma cepa, concedamos-lhe o grau de íntimas, em linha directa nos sentimento com que as imbuímos, que não, nas raízes, pois que, aí, nada têm de comum, já que etimológicamente, nem são vizinhas, nem conhecidas, quanto mais com laços de sangue!... (não têm o mesmo étimo, no caso...)

Gosto de português. Acho o nosso idioma cheio de subtilezas, labirintos, quase mistérios. Até armadilhas! Isso dá-lhe um certo sortilégio.

Partir: - por exemplo, pode também significar quebrar, mas não se dirá nunca  : vou quebrar em viagem - embora partir  e quebrar sejam sinónimos.

Não sei de outra língua, além da nossa, em que se possa dizer sim, usando o não e, não usando o sim.

Se alguém perguntar a outrém: - quer passar? - e a resposta for : - pois não!

Essa negativa significa: - sim. Porém, se a resposta for: - isso sim! - Já significa: não.

Mas, eu andava a cirandar em torno de saudades e reminiscências. Voltemos a elas.

Saudade vem do latim solitate que quer dizer: - solidão, isolamento.

No século XIII dizia-se soydade. De soydades fala D. Dinis “ que soydades de mha senhor ey...”

Reminiscência, também vem do latim, de “reminiscêntia,” relembrança, segundo a minha fonte de informação: - quando alguma coisa sai da lembrança e depois torna a ela por ver algo semelhante.

Já nostalgia vem do francês – nostalgie – e o elemento – nosto - traduz a ideia de : volta, regresso.

Mas porquê esta conversa toda? - Apenas, porque, o que venho contar, é uma “graça” dos meus tempos de escola, que se apoia precisamente no uso desajustado das palavra e, a paródia, é feita com a especulação do disparate.

Daí, que, para contrapor, me viesse a lembrança de mostrar como, por vezes, também nos pode ocupar e distrair a procura do rigor no que se diz.

Cá vai a lenga - lenga :

 

Era, não era

lavrava na serra

com bois de bugalho e arados de palha

Recebeu a notícia

que o pai estava morto

e a mãe por nascer

Pôs os bois às costas

e os arados a comer

Desceu por uma ladeira acima

encontrou uma laranjeira.

Subiu por ela abaixo

a comer marmelos

Veio de lá o dono da loja e disse:

Ó seu malandro!

Você anda a roubar uvas

no faval alheio?

Deu-lhe um soco num olho

feriu-lhe um joelho

e fez-lhe sangue num artelho .

 

...E, com estes velhos contos se encontravam motivos para rir. O que confessemos, é bem fácil quando se é jovem e toda a aventura de viver se encaixa no sonho que cada qual for capaz de sonhar...

 

           Maria José Rijo

 

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.488 – 22 / janeiro/ 1999

Conversas Soltas

 

estou:
música: Reniniscência IV

publicado por Maria José Rijo às 18:26
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4 comentários:
De Gustavo Frederich a 9 de Março de 2008 às 23:27
Boa noite Tiazinha
Como já é um gesto tão habitual cá estou eu
para ler as suas actualizações.

Como já disse outras vezes gosto imenso das
suas reminiscencias. Esta também é muito bonita.
Eu conheço estas desde criança:
--
Era uma vez um velho
bodelho sericamontelho
casado com a velha bodelha
sericamontelha, que foi à caça
bodaça sericamontaça
e apanhou um coelh
bodelho sericamontelho
...
Era uma vez
um gato maltês,
tocava piano
falava francês.
A dona da casa
chamava-se Inês
e o número da porta
era o trinta e três
Queres que te conte?
Um. Dois. Três.
Queres que te conte outra vez?
....
Aqui está a casa
que fez o João.
Aqui está o saco do grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.
Aqui está o rato
que furou o saco de grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.
Aqui está o gato
que comeu o rato
que furou o saco de grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.
Aqui está o cão
que mordeu o gato
que comeu o rato
que furou o saco de grão e feijão
que estava na casa
que fez o João.
----
O tempo pergunta ao tempo
Quanto tempo o tempo tem.
O tempo responde ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.
----
Sola, sapato,
Rei, rainha
Foi ao mar
Buscar sardinha
Para a mulher
do juiz
Que está presa
Pelo nariz;
Salta a pulga
Na balança
Que vai ter
Até à França,
Os cavalos
A correr
As meninas
A aprender,
Qual será
A mais bonita
Que se vai
Esconder?
----
Esta burra torta trota
Trota, trota, a burra torta.
Trinca a murta, a murta brota
Brota a murta ao pé da porta.
----
Um ninho de mafagafas
Com sete mafagafinhos
Quando o mafagafa gafa
Gafam os setes mafagafinhos
----
Tenho um colarinho
muito bem encolarinhado.
Foi o colarinhador
que me encolarinhou
este colarinho
Vê se és capaz
de encolarinhar
^tão bem encolarinahdo
como o encolarinhador
que me encolarinhou
este colarinho.
----
Bichinho gato
que comeste tu?
sopinhas de leite
Guardaste-me delas?
Guardei, guardei
Onde as puseste?
Atrás da arca
Com que as tapaste?
Com o rabo da gata
Sape, sape, sape gato
sape, sape, sape gato.
---
O que está na varanda?
Uma fita de ganga
O que está na panela?
Uma fita amarela
O que está no poço?
Uma casca de tremoço
O que está no telhado?
Um gato malhado
O que está na chaminé?
Uma caixa de rapé
O que está na rua?
Uma espada nua
O que está atrás da porta
Uma vara torta
O que está no ninho?
Um passarinho
Deixa-o no morno
Dá-lhe pãozinho.
----

Já não me lembro de nenhuma mais.
Talvez já as conheça todas, mas são as que
eu conheço de sempre.

Vou ler a poesia.
Beijinhos Tia
Gustavo


De Dolores Maria a 10 de Março de 2008 às 19:06
Querida Tiazinha
onde nem quase tive tempo de ler estes dois textos
maravilhosos.
Gosto imenso das suas reminiscencias, esta com as lenga-lengas está fantastica.

Eu sei apenas uma lengalenga que é esta:
Sarabico bico bico,

Quem te pôs tamanho bico,
foi a velha chocalheira que
come ovos e manteiga,
os cavalinhos a corre,
os meninos a aprender,
quem será o mais bonito que
se á de esconder.

Não sei se a conhece.
Beijinhos Tia, agora vou ler o poeminha,
(parece que o Avelino vem cá dizer a que
ele sabe) - estou a dizer baixinho para ele
não me ouvir.

Beijinhos

DO LO RES


De Avelino a 10 de Março de 2008 às 20:52
Cá estou eu o Avelino
Venho comentar para lhe contar que adoro
o seu blog - que aqui me sinto muito bem.
A minha Mãe diz que a Senhora escreve muito
bem e que sabe contar histórias numa perfeita
perfeição (refere-se ás reminiscências).

A minha mãe disse (para si esta lengalenga):
Pico, pico, maçarico
Ó menino, não se pique...
Pica a abelha
Pica o galo e a galinha
Pica a mosca e o mosquito
Pica o ouriço-cacheiro
Pica o ouriço-do-mar
Pica a espinha do peixe
(Pica mais o peixe-agulha)
Pica a pulga
Pica o azevinho
Pica o cardo
Pica a gilbardeira
Pica a laranjeira
Pica o ouriço da castanha
Pica a pita
Pica a rosa
Pica a silva das amoras...
Pico, pico, maçarico!
Ó menino, não se pique...

E eu sei estas:
Uma criança pergunta,
outra responde.
Que está na varanda?
Uma fita cor de ganga.
Que está na janela?
Uma fita amarela.
Que está no poço?
Uma casa de tremoço.
Que está na pipa?
Uma casca de malhacita.
Que está no telhado?
Um gato-pingado.
Que está na chaminé?
Uma preta a coçar o pé.
Que está na rua?
Uma espada nua.
Que está a porta
Uma velha morta.
Que está no minho?
Um passarinho.
Vamos ver se ele chia

--

Espero que goste desta achega.
Muitos beijinhos
Dos amigos
Avelino
e sua Mãe Dulce


De Maria José a 11 de Março de 2008 às 21:56
Adorei a colaboração de Mãe e Filho , pela alegria das vossas presenças e, também pela achega pois não conhecia algumas destas lenga-lengas.
Se, eu ainda tivesse tempo para fazer um livro de reminiscências havia de as utilizar citando, também os nomes de quem as ensinou.
A Dolores preveniu que estaria ocupada e nada diria hoje.Fico contente que esteja distraída, mas a presença dela já faz parte das nossas vidas e,sentimos-lhe a falta.
Que a Luisinha esteja mais bem disposta e que sejam ainda mais felizes por estarem juntos
Um beijo grande da tia Zé


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