Terça-feira, 11 de Março de 2008

Requiem por um Rio – Noticias de Juromenha

Dias 5 e 6 de A gosto – ou seja: sábado e domingo próximos – Juromenha vai reviver a sua tradição de honrar com festejos religiosos e populares a Santa Padroeira da sua Igreja e povoação.

Assim, oferece às pessoas que durante todo o ano, lá habitam e por lá labutam, dois dias de intervalo no rame-rame das suas honradas vidas modestas e pacatas para de forma mais alegre e aberta conviverem.

De todos os lados chegam familiares, forasteiros e amigos, por esta altura do ano.

Vêm matar saudades e abrilhantar as festas.

Fazem-se touradas, petisqueiras, solta-se fogo de artifício. Dá-se largas à alegria.

Baila-se nas ruas. Conversa-se e ri-se.

Vivem-se revivendo-as, amizades, tradições, recordações comuns.

Mas… se as festas têm o nome de Nossa Senhora do Loreto – a cujo culto – o nosso rei D. Dinis consagrou a então muito importante Praça de Juromenha – lá por esses longínquos, séc. XIII/XIV – a componente religiosa a tudo o mais se sobrepõe.

No Sábado, dia 5, ás 16 horas, a Missa será celebrada por alma dos filhos da terra que Deus já chamou a si.

No domingo, dia 6, às 16.30 será a Missa solene seguida de procissão.

A vila é pequena. Aninha-se num alto, à sombra dum castelo, como nos contos de fadas. Vale a pena ir espreitá-la!...

A procissão, segue o percurso dos passeios turísticos de qualquer forasteiro.

Afasta-se um pouco das casas e caminha pela estradinha modesta que se desenha entre os campos e a Fortaleza – separando-os.

Cenário constante do quotidiano dos seus naturais.

Depois, lá ao fundo, num pequeno largo do Arrabalde de S. Lazaro – dá a volta para mostrar o rio à mãe de Jesus e regressa pacatamente ao povoado para repor a imagem no seu altar – que o seu culto – esse - está  entronizado no coração de toda a população.

A Banda, solenemente toca e o sol acende faíscas, como brasas, nos metais reluzentes dos instrumentos musicais…

Só que, este ano…

Este ano – não há rio!

No seu leito vazio – como numa cama de hospital, onde a morte recentemente tivesse passado, restam as marcas de quem a ocupou – então, neste caso, metros sem fim de grossas mangueiras a dar testemunho das tranfusões que o rio suportou até exaurir.

O rio foi sugado até dele restarem apenas poças, como rastos de chuvadas em terras de lama, ou manchas de sangue em locais de crime.

O rio foi morto na pátria onde nasceu vítima do uso desabusado do seu sangue – a sua água.

Nas suas margens, glorificando o crime, vicejam exuberantes pomares cuja sede excede as generosas capacidades de dádiva do rio.

Na geografia da Península – aprendia-se assim:

Guadiana – nasce na Lagoa da Regedora em Espanha e corre, beneficiando terras, gentes e bichos, até ao Atlântico, que encontra em Vila Real de Santo António, no Algarve – Portugal.

Os seus afluentes principais, no nosso país são, Xévora, Ceia, Degebe, Vascão e Odeleite na margem direita. Na margem esquerda: Ardila e Chanca. Porém …

Em nome de um desenfreado progresso – Será progresso, meu Deus? – O Homem que inventa necessidades que ultrapassam as suas reais necessidades e, até, a generosidade da terra, do mar, dos rios da própria atmosfera – tudo modifica.

Prende os rios.

Sufoca-lhes o destino.

E, em lugar de neles se deleitar, pescar e dos rios beber – bebe-os!

Inverte tudo.

Brinca aos deuses.

Faz pomares em terras de Oliveiras sóbrias e chaparros protectores da humidade dos solos…

Determina as árvores que são proscritas; como se alguma vez, alguma árvore, não tivesse sentido de existir… e, delirante, glorifica o excesso de outras.

Se em democracia se afirma que as regalias de um indivíduo acabam onde começam os direitos de outro indivíduo…

As regalias de todos os habitantes do planeta acabam, necessariamente, onde começa a perigar o equilíbrio da própria Natureza.

É tão lógico, tão evidente como: não estender o pé além do lençol – coisa que o Povo ensina, apenas, por intuição.

Requiem por um rio, que morre com seus peixes, seus cágados, seus mil bichos de água…

Requiem por um rio, que Deus criou também para embelezar a vida espelhando, árvores, tufos de loendros, céus, sóis e luar e, do céu, beber as chuvas.

Requiem por um rio, onde o gado bebia, de onde os pobres sustentavam o verde dos seus hortejos nas margens… e perfumava as noites quentes do Alentejo com cheiros de hortelã, mantrasto e poejos…

Requiem por um caminheiro que sonhava o mar e, a má-fé, cruelmente interrompem o seu destino…

Mas… Requiem, também, pelo Homem que quer aprisionar o sonho de seu Criador para o acomodar à sua precária medida.

Ámen!

 

Maria José Rijo

 

estou:
música: Juromenha- 3

publicado por Maria José Rijo às 09:27
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4 comentários:
De jts a 11 de Março de 2008 às 12:34
Minha querida amiga, cada vez que mergulho no seu blog, encontro sempre extraordinárias lições de portugues e de portugalidade. Então hoje, com essa lição sobre a história de Évora, deixou-me encantado.
Infelizmente, porque sou do norte, nem sempre há possibilidade de nos deslocarmos ao alentejo , que eu sei que é muito bonito.
Os monumentos, as igrejas, a paisagem, tudo é lindo por aí. Quem sabe se um dia, rumarei em direcção a essa linda província portuguesa... para a visitar e conhecer melhor, nunca é tarde para aprender.
Um abraço amigo, JTS


De Maria josé a 11 de Março de 2008 às 21:04
JTS....pois meta-se ao caminho quando lhe aprouver que o Alentejo e as suas gentes, são hospitaleiros e gostam de receber ...
Daquilo que a gente tem
Se reparte em amizade
É assim a nossa gente
Pode vir - esteja à vontade
um abraço grato
Maria José


De jts a 11 de Março de 2008 às 22:37
D. Maria José, é para mim uma honra muito grande, poder conversar sobre história e cultura com uma tão grande senhora...
Tenho lido com o maior empenho as suas lindas poesias, os seus textos históricos e a magnífica prosa, que nos inebria e nos torna tão felizes...
Muito obrigado pelas suas palavras e Deus a guarde...
Um grande abraço, JTS ( Teixeira da Silva ).


De poetaporkedeusker a 11 de Março de 2008 às 22:49
Minha querida amiga, estou sem tempo. Mas o que é "o meu tempo" perto de um rio que assim agoniza?
Venho subscrever o seu Requiem. Pelo rio e por todos os rios que a nossa alma se vai esquecendo de preservar.
Bem haja. Continuemos a criar os nossos rios de palavras... na esperança de poder matar a sede que nos vai nos olhos.


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