Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Casimiro Abreu

Em dezanove de Fevereiro de dois mil e três, com oitenta anos, faleceu em Elvas este Poeta, que, também em Elvas tivera o seu berço em vinte e dois de Janeiro de mil, novecentos e vinte e três.

Foi a enterrar há três anos discreta e apagadamente.

Não deixou heranças fabulosas em dinheiros e bens materiais deste mundo.

Nada do que torna importantes, as pessoas, nesta vida.

Nada do que torna as pessoas colunáveis e condecoráveis.

Nada!...

Nem sequer foi jogador de futebol!!!

Nem ganhou o totoloto!

Não teve, por isso, um aceno de saudação, oficial, da sua terra, nem foi capa de jornais.

Não está na toponímia da cidade – não é nome de rua, nem de praça!

Nem de estádio!

Foi apenas um Poeta!

Um poeta que fez Elvas crescer na área em que o ser humano, realmente vale – em ideias, em iniciativas que tornaram a cidade conhecida por eventos culturais que alargou até Espanha.

Um poeta que idealizou progresso através de empreendimentos que outros aproveitaram para prosperar!

Um poeta, que com inteligente ironia, glosou em poemas satíricos os símbolos do conservadorismo e do atraso parolo, que impediam a sua cidade de olhar em frente...

Um poeta, cujo capital era massa cinzenta e, a coragem de a usar...

Um poeta que, está também, na génese dum jornal que dirigiu, e que foi lutador, valente e ousado, quando era difícil e perigoso sê-lo.

Um homem que sabia que a Vida, também é risco, e arriscava sem medo.

Um homem que não consentia que atacassem qualquer dos seus colaboradores, e considerava como feita a si próprio, qualquer beliscadura que alguém ousasse contra eles...

Um poeta com alma e coragem, que não virava costas a quem estivesse ao seu lado, lutando por valores que ele entendia como justos e promissores para o bem das gerações futuras.

Um poeta talentoso, que publicou livros onde evoca lugares e usos da sua terra natal, e reminiscências de infância que fazem história, porque referem costumes burgueses hoje, já quase desaparecidos.

Um poeta que encabeçava um pequeno “clã” - de amigos e admiradores - que manteve viva a chama da resistência à ditadura, sem esperar contrapartidas de cargos, honras ou regalias – mas que pelo contrário, lhes punha, a cada passo, a segurança e a liberdade em risco.

Um elvense, que, como outros, também hoje esquecidos, ajudou à instauração da democracia de que, outros “clãs” em proveito próprio, sem ética, nem pudor, (porque não basta à mulher de César, ser séria, é também preciso que o pareça!) se aproveitam afoitamente como se fossem monarcas com direitos de sucessão congénitos!

Enfim ! - fruto dos tempos! – Por certo!

Mas, falta de idealismo, também!

E, falta de outras coisas mais...

Às vezes, apenas egoísmo e apatia das “plateias” que – uma vez instaladas - adormecem frente aos acontecimentos, sem interiorizar o que escreveu Michel Quoist :“ Eu, sou o outro!”

 

Termino com dois versos, apenas, de um poema do livro “Pórtico” de Casimiro:

 

“Depois de ter escutado lamentos fora de mim,

Senti o peito repassado de ais, só iguais,

A choros que vêm de mim!”

 

 

                       Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.855 – 2/Março/2006

Conversas Soltas

estou:
música: Poeta - Casimiro Abreu

publicado por Maria José Rijo às 22:24
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2 comentários:
De Flor do Cardo a 13 de Março de 2008 às 23:57
Minha querida Amiga.
Bonito texto para o nosso amigo.
Certa vez estivemos juntos, numa recepção, mas
não me pergunte onde, é que a minha cabeça
ultimamente já não serve para muito, mas a
Senhora lá estava, tão linda, junto do seu marido,
o meu amigo Zé Rijo.
Estava também o Casimiro e creio que com duas
meninas, bonitas, pequenas - já não me recordo
muito bem.
Mas gostei desses bocadinhos,gostava imenso de
a ouvir falar.
Mas eu não quero falar do passado - não quero
deixa-la triste com as minhas memorias do
passado - agora tristes...

Parebéns pelo texto e poema MAGNIFICOS.

Flor do cardo


De Maria José a 14 de Março de 2008 às 12:56
Meu Amigo
Se falar de Elvas o conforta, fale à vontade, que gostarei de o escutar.
Não receie entristecer-me.Isso não irá acontecer.
Pelo que conta, algumas vezes nos teremos cruzado por este velho burgo que, deduzo,conhece bem.
Eu, gosto de Elvas. Vim para cá com 17 anos. Todas as recordações da minha vida adulta estão aqui enraízadas, embora, por dever de ofício tivessemos corrido Seca e Meca...
Sempre me arripiou até à alma a injustiça. Meto-me nestas "guerras" e, às vezes ganho. O Casimiro, já tem o seu nome numa rua. Outras vezes perco...o Dr Joaquim Tomás Pereira, ainda não. Porém o importante para mim é não desistir quando penso que é justo.
Um abraço - Maria José


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