Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Falando de Centenários

Ele já era um homem quando entrei na sua vida. Ele foi meu Pai e eu a sua terceira filha.

As conversas sobre ele pareciam padre-nossos rezados de enfiada, tão semelhantes se afiguravam aos meus ouvidos de criança.

O Pai dá. O Pai ensina. O Pai disse. O Pai leva. O Pai trouxe. O Pai ganha o pão. O Pai contou à Mãe. O jornal do Pai. Os livros do Pai. Não se faz barulho que o Pai está a descansar – a ler. O Pai saiu. O Pai voltou. Dá a mão ao Pai. O Pai gosta – não gosta – fez – aconteceu…

Havia o Pai do Céu, que é Deus distante e havia o Pai dentro da nossa casa, que era o deus próximo, que tudo resolvia – directamente – e era o centro do nosso universo doméstico.

Se, porém era o Pai a falar, o eixo do mundo deslocava-se para a Mãe – que ficava então no centro de tudo.

Havia a família envolvente – Avós, tias – e a minha irmã, em cuja sombra eu me deslocava. Havia também “a filha que Deus tem” e estava connosco – principalmente – num quadro pendurado na parede à cabeceira da cama de meus Pais.

Era pequenina, vestida de rendas. Tinha um sorriso de estampa e, embora parecesse, na sua quietude, uma boneca, não era. Todos se comoviam só de olha-la. Estava no céu. Longe, portanto, embora exposta, noite e dia, na parede.

Mas, os adultos são tão grandes que, mesmo perto, estão sempre distantes e acima das crianças.

São precisos anos para os filhos descobrirem (e os pais consentirem em confessar) que os adultos também foram crianças. E isso é tão surpreendente que, na altura têm que ver fotografias e pedir a comprovação dos Avós para crerem na descoberta. A partir daí os Pais ficam menos distantes e quando vamos à escola já não são deuses, é ainda com a figura deles que se esgrime. São então os nossos heróis.

O meu Pai disse. Já lá esteve. Já viu. Hei-de contar ao meu Pai o que o disse o professor, porque o meu Pai sabe melhor…

Pai e Mãe são ainda as rodas dentadas que, encaixando-se, fazem girar o Mundo. São o relógio onde os filhos são os segundos, dos minutos, das horas, dos dias, dos anos da vida dessas figuras bíblicas de – Pai e Mãe.

Corre veloz o tempo. Um dia, formados, casados, solteiros, fardados, empregados, certinhos, desvairados – cada qual, parte à procura dum caminho à medida do seu pé – pé de filho – difere, de pé de Pai. “A procura do futuro” – é a frase usada na circunstância.

Como se o futuro fosse flor de corte ou, simplesmente, estivesse, ali, sentado à esquina, à nossa espera, para ser colhido. Só, se colhido de surpresa por ver gente, a passar, à procura “do amanhã” sem reparar que a existência é a soma de “hojes”.

Meu Pai teria feito 100 anos neste mês de Julho.

Há vinte que não o encontro senão em mim, onde permanece. Em mim o canto, o louvo, o conto, o choro, porque em mim vive consubstancialmente e em mim o preservo de ser esquecido.

Pensei, por isso, que era justo falar daqueles que, abaixo de Deus, estão no começo das nossas existências, estão lá com as mais nobre humildade porque nos aceitam antes de nos conhecer, e se propuseram receber-nos, amar-nos e proteger-nos até para além da esperança que porventura possam ter tido, de que lhes enchêssemos a vida de alegrias.

Mesmo desencantados, não se demitem da esforçada afeição que nos devotam até ao fim das suas, ou das nossas, vidas.

Comemoram-se centenários de Poetas, Artistas, Sábios e Santos.

Comemoram-se os centenários de todos quantos marcaram, pela poesia, pela arte, pela sabedoria, pela santidade os caminhos das nossas vidas.

Lembre-se também, cada um de nós, daqueles que nos receberam quando nascemos, nos embalaram, cuidaram e deram a mão enquanto crescíamos com o sonho de que descobríssemos, pela força do seu amor, que o Bem é um limite, tão possível quanto outro, e desejaram que fossemos capazes de dar testemunho honrado das vidas que nos transmitiram.

 

                                    Maria José Rijo

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Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.054 – 3 - Agosto – 1990

 

estou:
música: Pai - centenário

publicado por Maria José Rijo às 00:05
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10 comentários:
De Luisinha a 19 de Março de 2008 às 00:11
Estou enternecida
com a leitura deste seu texto tão querido.
Oh querida Tia - é o seu Pai a primeira foto
e na outra a Tia e a sua irmã.

Adorei
É um belo texto.
Os meus Parabéns

Luisinha


De maria josé a 19 de Março de 2008 às 18:10
Querida Luisinha
minha doce menininha
É meu pai, acertou.
É minha irmã e sou eu, acertou outra vez.
Meu pai chamava-se Manuel e minha mãe, Ana.
Obrigada pela sua opinião expressa com tanta ternura.
Dou graças a Deus pelas "Luisinhas" das nossas vidas
Desejo-lhe todo o bem do mundo
Um beijo grande
Tia Zé


De Flor do Cardo a 19 de Março de 2008 às 00:17
Olá minha amiga
Foi com muita atenção que li este seu e tão bonito
texto - dedicado à figura paterna.
É sem sombra de duvidas um bom texto escrito
por uma filha que muito amou o seu Pai e agora
sente bastante saudade dele.
Sei como é sentir saudades pela figura paterna.
Eu não me esqueço nunca dele - nem mesmo da
minha Mãe. - Parece que fazem parte de mim,
parte da minha alma desta alma que mesmo
feliz já deseja partir (que o meu Aristeu não
me ouça) mas hoje estou saudoso da minha
esposa.

Dias Tristes e a amargura aparece e floresce
no coração...

Com amizade

Flor do Cardo


De Maria josé a 19 de Março de 2008 às 18:34
Não esteja triste.
Não há texto nenhum que valha um bom abraço, e o meu amigo tem aí, junto de si, a quem apertar num abraço gostoso em cada dia .
Sabe como eu me conforto quando a tristeza quer mandar em mim? - encaro-me no espelho e digo-me olhando-me bem nos olhos: - pelo menos isto, ele não sofreu, e, embora às vezes chore, é sem revolta.
Deixo-lhe um abraço e, se este blog lhe faz companhia, não lhe faltarei sempre que possível
Uma Santa Páscoa e obrigada, sempre peos seus comentários
Maria José


De Dolores e Avelino a 19 de Março de 2008 às 00:31
É com um beijinho de Parabéns que eu e o meu
Adelino
viemos hoje aqui - juntos - já no dia do Pai.
Gostamos imenso deste seu texto - dedicado ao
dia do Pai. Ao seu Pai.

Ficamos sensibilizados pela beleza das suas
palavras, pela ternura com que fala da figura
deste homem - que foi o seu Pai.

Foi certamente a melhor filha que um Pai
pode desejar.
Diz-me o meu coração.

Gosto muito de si e deste seu blog.
Muitos beijinhos Tia
DO LO RES
e Avelino


De Maria josé a 19 de Março de 2008 às 19:17
Meus Queridos
Não queria que ficassem tristes por mim.
Obrigada pelo vosso afecto
Há muitos anos que aprendi a viver agradecendo a Deus, o bem de cada dia, e, se bem que isso não invalide a saudade, dá uma paz interior que ajuda a viver.
Assim, agora, tenho, também, para juntar a tudo o mais a alegria de vos estimar e a esperança da chegada do vosso neto, e tudo o mais que faz a felicidade de uma família de verdade que vou com o coração acompanhando aqui do Alentejo
Um dia destes peço à Paulinha para por on line
umas fotografias com cinco gerações que, graças a Deus ainda juntamos na nossa família.
Vão achar engraçadas tenho a certeza.
Gosto muito de vós.
Um beijo grande para todos
da tia Zé


De Aristeu a 19 de Março de 2008 às 00:49
Muito Boa noite
Hoje - no dia do Pai resolvi, enfim, comentar este
seu formidável blog.

O meu Pai todos os dias fala sobre si, o seu
marido e de outras pessoas de Elvas.

Gosto muito de ler o seu blog porque é um
lugar que me dá alegria e páz de espirito.
Sinto-me Bem aqui - tal e qual como o meu Pai
que se emociona com os seus textos, que revive
o passado em cada post e fica contente em cada
publicação.

É o primeiro dos meus comentários.
Voltarei.

Um abraço

Aristeu


De Maria José a 19 de Março de 2008 às 19:38
Aristeu
O seu pai, não me diz quem é, mas não foi capaz de ocultar o nome do filho.
O amor é assim, salta pelos olhos, e nada, nem ninguém o consegue esconder.
Enternece-me o culto e admiração dele por si , como me enternece a sua ternura e proteção por seu pai.
Obrigada por ler e, até comentar o blog que a Paulinha faz para mim.
Ainda bem que que seu Pai se distrai com ele. Eu, quando em cada manhã o venho ver também fico contente,e grata à Paulinha.
um beijo , e obrigada - Maria josé


De Gustavo Frederich a 19 de Março de 2008 às 01:25
O termo exacto é ENCANTADO, estou verdadeiramente deslumbrado com este
seu lindo Texto Tia.

Gostei imenso de conhecer o seu Pai (presumo
ser ele - na foto primeira?).

Tem aqui um texto excelente para o dia do Pai,
o dia de S. José.

--
Uma curiosidade :
O Dia dos Pais, não foi estabelecido como
feriado apenas para ajudar às fabricas
de cartões a faturar.
Sonora Louise Smart Dodd, de Washington,
foi quem primeiro propôs a idéia de comemorar
a data, em 1909. Ela queria um dia especial para homenagear o pai, William Smart, um veterano
da guerra civil que ficou viúvo quando sua esposa teve o sexto bebê e que criou os seis filhos
sozinho numa fazenda no Estado de Washington.
Foi olhando para trás, depois de adulta,
que Dodd percebeu a força e
generosidade do pai.


O primeiro Dia dos Pais foi comemorado em
19 de junho de 1910, em Spokane, Washington.
A rosa foi escolhida como a flor oficial do evento.
Os pais vivos deviam ser homenageados com
rosas vermelhas e
os falecidos com flores brancas.
Pouco tempo depois, a comemoração já se havia espalhado por outras cidades americanas.
Em 1972, o então presidente Richard Nixon proclamou oficialmente o terceiro domingo de
junho como Dia dos Pais.

No Brasil, a data é comemorada no segundo
domingo de agosto e foi festejada pela primeira
vez no dia 14 de agosto de 1953. A comemoração
foi importada dos EUA pelo publicitário Sylvio
Bhering e teve sua data alterada de junho para agosto por motivos comerciais.
---
Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

---
Estou muito comovido com este seu texto
sobre o Pai.
eu nunca conheci o meu.

Gosto imenso de si Tiazinha querida,
que as saudades ão arterizem muito o seu
coração.
Beijinhos Tia

Gustavo Frederich


De Maria José a 19 de Março de 2008 às 20:19
Falou-me ontem do professor Agostinho da Silva
Quero-lhe contar que, quando fui vereadora da cultura,por imposição do cargo o conheci e, por circunstâncias várias ficamos amigos e, guardo dele, correspondência muito interessante. Daí, ter uma série de livros dele e sobre ele e, guardar do seu contacto uma recordação indelével
Ás vezes, meu Sobrinho, penso que se começassemos a falar nunca mais acabaríamos, de tal modo se entrelaçam os assuntos. Mas, eu vinha-lhe agradecer o mimo que me dispensa , o poema da Florbela e tudo o mais que os seus comentários me oferecem. Não fazia a mínima ideia de como tinha começado a celebração do dia do Pai.
Meu pai, era alourado, com lindos olhos azuis.É dele a fotografia.
Meu marido era louro e lindo com olhos doces, cor de mel, mas, melhor do que tudo : - foram Homens de Bem.
Adivinhou que por vezes a saudade é mais pesada do que posso suportar - mas - é natural !
Quando se enche demais qualquer recipiente, é lógico - entorna.
Um destes dias escrevo por aqui alguns poemas.
Beijinhos- meu sobrinho querido- Tia Zé


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