Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Reminiscência – Caligrafia e ortografia

As garotas não têm uma caligrafia capaz.

Foi (mais ou menos há 70 anos) a sentença de minha Avó, ao passar em revista a arrumação e o asseio dos nossos cadernos escolares. Daí à decisão de termos que fazer uma cópia por dia em cadernos de “duas linhas”, para apurar a letra, não houve distância no tempo.

Apurar era um verbo muito usado nesses tempos.

Veste-te com apuro. Arranja-te com apuro.

Lava-te e penteia-se com apuro.

Lava os dentes com apuro. (usa pasta! – era marca Couraça. picava na língua e era cor de rosa vivo)

Lava muito bem as mãos e, vê lá o apuro dessas unhas! – Olha que, mãos limpas, distinção certa.

Não te sentes de pernas cruzadas. Nada de atitudes desmazeladas...

Como porém tudo o que se relacionava connosco tinha sempre algumas segundas ou terceiras intenções na manga; a oportunidade de apurar a letra, serviu, já que era trabalho de casa, para nos espicaçar a curiosidade escolhendo para a circunstância um romance (próprio para “essas” idades) e assim ir provocando o vício da leitura.

Foi então que ao copiar a palavra “pároco” escrita com “ch” indaguei: - o que é um parocho?

Foi-me dito – entre gargalhadas - que era a forma antiga da palavra que eu muito bem conhecia com outra grafia – pároco.

Comecei então a reparar que enquanto meu Pai actualizava a sua escrita, minha mãe, e tias continuavam a escrever aí, com h, ahi, farmácia, com ph, fotografia, também com ph, e um sem número de termos que – modernamente – como elas acusavam, não se escreviam como haviam aprendido e se recusavam a alterar porque assim mantinham o orgulho de escrever sem erros.

Vão anos e anos que não saberia quase, contar, sobre estas decisões familiares de como enfrentar mudanças tão profundas no que tinham por verdades adquiridas.

Pois, naquilo que nos parecia (a nós, agora) quase intocável também um novo acordo ortográfico reacende uma certa relutância às alterações impostas como novas regras.

E, não é que o tempo me põe a mim e aos da minha geração na obrigação de decidir como fazer.

A caligrafia, aprendida a preceito, com apuro, não resistiu, – não resiste em ninguém - à interferência, da personalidade, da velocidade com que se pensa e escreve, ao calor , ao entusiasmo, ao amor ou à raiva com nos damos à vida , como vibramos com cada circunstância que se nos depara , e muito naturalmente à frequência com que se escreve – de tudo isso se define o jeito peculiar de cada qual escrever.

Mas, a ortografia, não. Escrever à pressa pode provocar má caligrafia, gatafunhos pouco legíveis, mas escrever com erros é sinal de ignorância.

A minha geração já tinha sido ameaçada de ser considerada analfabeta se não aprendesse a utilizar computadores...

Também teremos agora que nos sujeitar a que sejam os computadores a assinalar a vermelho, cada palavra, como faziam a lápis as exigentes professoras doutros tempos,

Apraza a Deus que a perfeição da técnica não seja tal, que lá de dentro, não espiche um ponteiro ou uma régua para castigar os refractários a tanta modernidade, ou, nos cole à cadeira até escrever dez vezes cada palavra errada.

O correio, agora traz facturas, saldos de Bancos e coisas afins.

Dantes, mão a mão o carteiro entregava porta a porta as cartas que se identificavam antes de abertas pelas letras que conhecíamos de cor, de pais, filhos, família e amigos.

A letra de minha Mãe era certinha, inclinada para a direita, muito elegante. Antes de fechar os cabazes de fruta que nos enviava cobria tudo com flores do quintal. Rosas, de Santa Terezinha, sempre que as havia e rematando pequenos bilhetes.

Era profunda, mas discreta nas manifestações de afecto

Tenho um, no meu missal, que diz apenas: hoje recebi notícias tuas e de tua irmã. Foi um dia feliz. Beijos Mãe.

É verdade, já me esquecia de dizer que aprendi a escrever saudade, acentuando o – u - com trema, que, como se sabe, também caiu em desuso.                          

 

                               Maria José Rijo

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.962 – 27 Março de 2008

Conversas Soltas

 REMINISCÊNCIAS - 31

estou:
música: Reminiscência - 31

publicado por Maria José Rijo às 22:54
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6 comentários:
De Gustavo Frederich a 29 de Março de 2008 às 00:00
Uma Reminiscência...
Que bom, sabe a tia que eu gosto imenso dos
textos que sejam de reminiscências, porque nos
dão dados biográficos do qutor, lembranças,
recordações que ficam em cada um de nós.
As suas são muito bonitas e esta é especial,
não sei... mas gostei muito, muito mesmo.
Estas fotografias também são muito bonitas,
a tia em pequenina.
Obrigado por me mostrar estes pedacinhos da
sua meninice.
Beijinhos Tia

Gustavo


De Flor do Cardo a 29 de Março de 2008 às 00:16
Cara amiga
Mais um dia neste lugar que parece pertença do
dengue, acho que esta praga se alastrou por todo
o Brazil, temo pela vida de meu filho e neto que
andam pelas ruas nas suas vidas de trabalho.
Este texto trouxe-me recordações também da
minha infância. O meu Pai foi professor de
instrução primária e sempre estive habituado ao
seu rigor. Lá em casa não era só o meu Pai, mas
era também o Senhor Professor Sebastião que
além de ser rigido era um homem justo e ensinava
como os professores da velha guarda.
A Senhora percebe o que eu quero dizer. O
ensino de então era bem melhor do que o de hoje
em dia.

Minha amiga o meu netinho acabou de chegar.
Voltarei e até breve.
Parabéns por mais esta reminiscência.

Um abraço

Luciano


De Adalgisa Alexandra a 29 de Março de 2008 às 00:26
Oh Tia
Até fiquei emocionada com esta reminiscência
acho que foram também as fotografias .

Gosto muito desta sua forma ESPECIAL que tem
de contar estes pedacinhos da sua vida, estes
pedacinhos do seu passado - que conta de uma
forma tão feliz, tão bela, tão sua e por isso tão
unica.

Um abraço muito apertado Tia
e um beijinho muito especial pela pessoa
linda que é.
Gosto muito de si tia.

Gisa
A minha mãe contava imensas histórias da sua
infância e eu adorava sentar-me a seu lado,
ouvindo-a contar as histórias que fizeram a sua
história.
Agora ao ouvi-la a si fiquei emocionada com a
mesma intensidade que acontecia então


De Bernardo Oliveira a 29 de Março de 2008 às 17:12
Cara Senhora
Este a ler atentamente o seu blog - em especial
esta reminiscência e deixe-me dizer-lhe que
estou encantado.
O seu blog está muito bonito, muito interessante
e os temas estão muito bem escolhidos, como
as fotografias que os acompanham.

Os meus sinceros Parabéns pela obra que aqui
nos apresenta em cada dia.
Gosto imenso de me perder aqui neste seu blog
onde a palavra é rainha.

Com admiração

Bernardo Oliveira
desde a Invicta


De maria josé a 29 de Março de 2008 às 17:25
Saudo o Porto, na pessoa de um Portuense tão simpático que até lê o nosso blog
Muito grata pelo apreço
Maria José


De Dolores Maria a 29 de Março de 2008 às 22:58
Oh Tia mas que linda menina.
É mesmo a tia - nao é?
Mas que queridinha que era em pequenina.
ADOREI.
E este texto é uma maravilha. Adoro ADORO
quando conta as suas memórias.
Parabéns Tia querida.

Li o seu comentáeio para mim e fiquei tão
contente, mas sabe hoje andei todo o dia a
na jardinagem, quero dizer que eu e o meu
Avelino andamos a cuidar do jardim cá da
nossa casa, praticamente todo o santo dia.
O Avelino tem a mania dos Bonsai e tem
imensos numa pequena estufa que ele fez.
É o nosso paraíso.

Beijinhos Tia querida
DOLO RES e Avelino


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