Domingo, 27 de Abril de 2008

Ciência de Almanaque I

In illo tempore, era tão vulgar comprar ano após ano os famosos almanaques, como hoje se compram semana após semana as revistas das telenovelas ou de modas.

Ninguém os dispensava. Eram encadernados, com capas duras, tinham apresentação gráfica muito cuidada eram profusamente ilustrados.

Eram indiscutivelmente cativantes à vista e estavam sempre à mão porque desde as crianças que se deliciavam com os bonecos e a solução dos labirintos, até aos mais idosos que procuravam outros interesses, tinham assunto para entreter toda a gente.

Eles forneciam receitas de culinária, sugestões sobre moda, informações sobre o tempo, anedotas, adivinhas, uma série infindável de passatempos, conselhos sobre jardinagem, de higiene e saúde, de como tirar nódoas, truques de ilusionismo, enfim, uma infinidade de coisas que nem lembrariam ao demónio, mas que não escapavam aos especialistas em entretenimento que os elaboravam.

Divulgavam a anedota elegante, que se podia repetir diante de velhos e novos e que não deixava por isso de fazer nascer um saudável sorriso.

O senhor Bule com altivez: - A sua voz não seria tão má, senhora Dona Chaleira, se não cantasse pelo nariz...

Havia então um, o Almanaque Bertrand, que era o que eu conhecia melhor, e que fazia as minhas delícias.

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É que para além da variedade de assuntos, e das imensas histórias, contos e curiosidades para ler, tinha em rodapé de cada página um ditado popular, pensamentos que sempre me encantam e surpreendem pela sabedoria empírica que encerram.

Eram na verdade uma fonte quase inesgotável de interesse para os longos serões em que se bordava, jogava às cartas, se fazia música se conversava ou estudava.

Como hoje também ainda se faz em moldes da nossa época, claro!

Quem ameaça, sua ira gasta.

Maio come o trigo, Agosto bebe o vinho.

Quando chupa a abelha, mel torna; e quando a aranha peçonha.

O gosto danado, julga o doce por agro.

Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil.

Amigo de bom tempo, muda com o vento.

A adversidade é pedra de toque da amizade.

...E mais um sem número deles que seria agora fastidioso enumerar.

 

 

Mas...vem isto a talho de foice porque encontrei ao arrumar papelada um espécimen desses com data de 1908.

Claro que este é anterior a mim mas encerra o mesmo encanto daqueles outros que eu recordo e, tem ainda o sortilégio de eu não saber quem a guardou e porquê o que desafiou a minha curiosidade.

Pus-me então a folhea-lo na esperança de encontrar alguma pista,uma assinatura, um comentário...mas nada, nada mesmo que me leve a concluir se foi minha mãe, ou minha avó quem o preservou de modo a chegar até mim quase um século depois consegui descobrir. Foram baldados os meus esforços.

Mas, folheando-o encontrei uma série de curiosidades que li com interesse e me pareceram engraçadas para divulgar.

Por exemplo: quem saberá exactamente como apareceram as cartas de jogar! – Pois o velho almanaque conta assim:

 Há muita gente persuadida que as cartas de jogar foram inventadas para distrair um certo rei de França, mas o que parece provado é que este jogo foi importado do Egipto para a Europa. A significação simbólica e astronómica das cartas parece confirmar esta origem.

O baralho de cartas primitivo tinha duas cores, branco e preto, como ainda hoje têm os baralhos franceses e ingleses.

Estas duas cores correspondem aos equinócios. O número de cartas dum baralho é de 52, como as semanas do ano. São quatro naipes, como as estações.

O desenho de cada naipe corresponde a cada uma delas. O que chamamos ouros são em verdade rosas arquitectónicas: correspondem à Primavera; as espadas, simile de Verão, à época da ceifa; as copas representam o Outono, tempo em que se faz a vindima, e os paus simbolizam o Inverno.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Será verdade? Será fantasia?

Confesso que não sei, porém tem sua graça pensar que era assim que se acreditava há quase cem anos.

 

                   Maria José Rijo

 

@@@@

Revista Norte Alentejo

Nº 24 – Janeiro/Fevereiro - 2003

Crónica

estou:
música: Ciencia de Almanaque - I

publicado por Maria José Rijo às 00:31
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6 comentários:
De Luis carlos Presti a 27 de Abril de 2008 às 01:50
Oh tia mas eu gostei imenso do seu texto
porque acho muita piada a almanaques.
O meu avô paterno adorava coleccionar alguns
que eu levava horas a folhear e a ler aqui e ali.

Obrigado por me fazer recordar o que parecia estar
esquecido.
Gostei imenso do seu poema anterior.
A tia é o máximo.
Muitos beijinhos

Luis Carlos presti


De maria José a 27 de Abril de 2008 às 20:23
Luis - o máximo é a sorte que eu tenho de ter encontrado gente nova, tão interessante e generosa que se compraz a alegrar a vida de uma tia velhota.
Achei muita graça à coincidência de ambos apreciarmos almanaques. Também eles fizeram parte do meu entretenimento na infãncia.
Já tem outro gato?
Beijinhos, meu querido sobrinho e obrigada pelas suas visitas
tia zé


De Virgilio Fernandes a 27 de Abril de 2008 às 02:13
Olá
e hoje - como é o meu primeiro comentário
nesta maravilha de blog português - devo dizer
que é muita menerinho - que eu gosto bastante
de ler e até de me actualizar - em muitos temas.
Mas o meu pedido é de coração - e sei que não me
nega - posso chamar a Senhora de Tia ?
Sabe é que é tão mais fácil do que usar os termos
de meu Pai ou de meu avô.

Sabe Tia (sabe-me bem dizer Tia ) ( uma Tia que
tem um blog tão bom e tão bonito e escritora e
poetisa)
mas não queria fazer rapapé - mas eu me afeiçoei
a si só de ouvir falar o meu avô - a contar histórias
de outros tempos, depois com ele aprendi a gostar
de ler o seu blog - como quem lê história, Poesia,
literatura e tantos outros assuntos de interesse -
costumava também ouvir certas conversas entre
o meu pai e meu avô - acerca de assuntos dos
seus textos e comecei a gostar - com quem ouve
musica e sonha com coisas e lugares que nunca
vai olhar.

Tia ainda sou novinho - como sabe - mas gosto do
seu blog.
No hospital - quando eu pedia - o meu pai recitava
alguns poemas seus - gosto do som das palavras
no meu ouvido.
devo estar a parecer-lhe uma pessoa de mais idade
( é o que me diz a Débora - a minha namoradinha)
mas eu gosto de me parecer com o meu Pai e meu
avô.
Não sei...

Mas já estou em casa e o dengue parece ter
passado... só não sei se é de vez...
Não gostei de me sentir perdido dentro de mim,
sem saber qual a porta que me levava à minha
consciência - devo confessar-lhe tia que foi um
tormento, um desatino bem molesto - como diz
a nossa empregada Denise Maria.

Não esteja preocupada Tia (obrigado pelos
seus comentários e preocupação por mim)
É bom ter uma tia que pense em nós...

Grato e prometo escrever de vez em quando.
Já gosto muito de si Tia.

Beijinhos apertadinhos vice (à moda da Denise)
Virgilio Fernandes


De Maria josé a 27 de Abril de 2008 às 21:07
Bem-vindo - Virgílio.
Bem-vindo!- por ingressar nesta família de coração , onde ser sobrinho, é um privilégio - para a tia...
Bendito seja Deus pela sua presença muito, muito querida e, pelo regresso da sua saude.
Obrigada pela oferta da sua estima que vem afinal retribuir o sentimento que tenho por si desde que seu Avô me falou da sua existência.
Adorei, saber de si, por sua vontade, e sinto-me
encantada por merecer o seu aplauso nas minhas escritas.
Peço a Deus, como faço para meus sobrinhos netos e bisnetos que lhe abra caminhos de Luz na Vida, porque merece todo o bem do mundo quem sendo jovém tem disponibilidade de coração para pretar atenção a gente de outras gerações.
Também eu lhe quero muito bem até porque o que me parece natural é gostar de si.
Um beijo grande da tia Zé


De Dina a 27 de Abril de 2008 às 19:41
Dos almanaques lembro-me mal, a não ser o que chegou aos nossos dias o Borda d'água mais virado para a agricultura e afins mas também com informação variada, mas lembro-me na perfeição do Crónicas e Bordados uma revista que andava sempre lá por casa quando eu era miúda e também da Flama.
Pensando nesses tempos parece que foram há um século...e ainda nem meio passou.
Beijinhos!


De Violante a 28 de Janeiro de 2009 às 15:25
adorei isso tudo e eu até estou a trabalhar em almanaques em língua portuguesa.






VIANA DO CASTELO, 28DE JANEIRO DE 2009


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