Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Reminiscência -Quem é vocemecê?

Durante as exéquias da Irmã Lúcia, recordou o Senhor Cardeal Patriarca, a ingénua pergunta da privilegiada vidente de Fátima - quando  Nossa Senhora lhe apareceu: – quem é Vocemecê?

Na verdade, em pleno campo -  três crianças que pastoreavam o seu gado - perante a radiosa mas surpreendente aparição, só podiam revelar espanto e estranheza, logo, a necessidade de entender tão impensável acontecimento, impunha a interrogação: - - Quem é Vocemecê ?    

Frente a esta evocação, quase sem me dar conta, recuei no tempo e revivi cenas da minha infância, no campo, lá onde as pessoas, também, eram simples, naturais e expontâneas na manifestação dos seus sentimentos como as crianças são.

Por lá, também, quando algum forasteiro surgia no meio, logo alguém do lugar se abeirava, formulando a pergunta inevitável:

-            é que m’emporte mas vocemeceia quem éi?

Ora é esta reminiscência, acordada pela frase semelhante que

Lúcia proferiu interpelando Nossa Senhora, que nesta hora me ocorre – frente à estranheza do que ouvi pela rádio e pela televisão - para inquirir  também com simplicidade e apenas e tão só pelo desejo de entender - de me situar - como pessoas de alto gabarito intelectual que todos nos habituamos a  admirar e respeitar, fizeram duro julgamento público de outros, por decisões não ofensivas para quem quer que fosse, só porque  lhes pareceu estarem imbuídas de intenções escusas.

  Refiro o Senhor Bispo de Setúbal e o Senhor Padre Milícias.

Pegando no arumento de que se serviu o Senhor Padre Milícias -“ à mulher de César , não basta ser séria é preciso, também, que o pareça”- poderia retorquir:

-          Padre! - É também preciso que assuma que procedendo assim como procedeu, deu sem margem para dúvidas a impressão de estar a fazer campanha partidária.

-          Porque não o fez então abertamente? – Se não era esse o seu desígnio porque deixou que o tivesse parecido?

-          Também ouvi, com a maior atenção, comentário idêntico proferido pelo Senhor Bispo Dom Manuel Martins, que é das figuras mais polémicas da Igreja, mas também mais esclarecidas e corajosas do nosso tempo de cujas entrevistas guardo recortes que são fontes de ensinamentos (até este desabafo, está em consciência, para mim, na linha do seu exemplo), reprovar, também por suspeição o mesmo facto.

-          Fui então reler uma entrevista publicada, salvo erro, no Natal de 97, quando do lançamento da sua biografia escrita por António de Sousa Duarte, prefaciada por Almeida Santos e apresentada por Adriano Moreira.

-          Talvez a consciência dos diferentes quadrantes políticos e o alto gabarito intelectual e moral das pessoas envolvidas nessa cerimónia, me tenha, entre outras demais razões, feito recortar as folhas da revista e arquivar esta memória na minha pasta de “guardados”.

-          Transcrevo algumas frases:-“ pregamos valores, mas não passam de palavras, somos como aqueles que fazem campanhas eleitorais. Por isso o que devemos fazer neste Natal é pedir perdão.”

-          “ Sinceramente acho interessante que o livro de um bispo tenha o prefácio de um socialista e seja apresentado por um homem que dizem de direita. Este é o primeiro sinal da mensagem que o livro quer transmitir. Porque é que havemos de levantar muros entre nós? As diferenças são acidentais e subjectivas. Espero que o livro mostre o retrato de um homem que quis fazer da sua vida o exemplo da aceitação plural da existência.”

Será que criticar quem quer que seja por intenções que lhe atribuímos – ajuda a derrubar muros entre nós?

Concordando-se ou não com o teor de algumas atitudes que, porque são públicas, são postas à nossa consideração, é na linha de coragem e frontalidade que delas emana que ousei este desabafo.

Na verdade, às pessoas comuns, como eu sou, às vezes sucede, frente aos mais responsáveis deste mundo, quer políticos, quer religiosos, desejar também perguntar, por querer entender, a cada um de per si:

- Quem é vocemecê?

                                          

 

                                    Maria José Rijo

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.802 – 24-2-2005

Conversas Soltas

Reminiscência – 14

estou:
música: Reminiscencia - 14

publicado por Maria José Rijo às 23:31
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4 comentários:
De Dolores Maria a 29 de Abril de 2008 às 01:19
Olá Tia
Cá estou eu para deixar um beijinho.
Gostei da sua reminiscênca.
parabéns

e ate amanhã

DO LO RES


De artesaoocioso a 29 de Abril de 2008 às 22:30
Duas mtérias delicadas: o milagre é, por definição , uma «intervenção» que interrompe as leis cósmicas da natureza criadas... pelo próprio «interventor».
Santas a falarem ortuguês , francês ou qualquer outro idioma é coisa complicada.
Mesmo hoje, a linha divisória da Igreja e do Estado (política) é pouco clara.
Cumprimentos.


De Maria José a 1 de Maio de 2008 às 22:17
Artesaoocioso
Tem razão - isto era dava uma bela tarde de conversa
aqui em tres linhas - não dá!
Com as minhas saudações -Grata
Maria José Rijo


De artesaoocioso a 2 de Maio de 2008 às 20:46
Talvez um dia a conversa possa acontecer.
Bom fim-de-semana e cumprimentos.


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