Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

D. Sancho e eu

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.291 – 17 de Março de 1995

Conversas Soltas

 

 

 

Não se avistava vivalma.

Ia eu, sem mais cuidar, no meu passo ronceiro, a atravessar a praceta, quando ouvi – nitidamente – alguém pronunciar o meu nome, chamando-me com insistência.

Anoitecia.

Olhei em redor! – Tudo deserto.

Bateu-me apressado o coração com a surpresa.

Parei gelada de espanto.

Tivesse eu escutado apenas - Maria…

Marias – há muitas:

Maria José, ainda daria para confundir! – Mas, com apelido e tudo era impossível duvidar que fosse comigo.

Serenei.

Curiosa, comecei a espiolhar à minha volta indagando em voz alta:

- Quem me chamou?

- Aproxima-te! – Vem cá! – Foi a resposta nítida iniludível.

E, surpresa das surpresas! Do alto do seu pedestal – D. Sancho II de Portugal – convocava-me com a autoridade que cabe ao grande conquistador da nossa terra.

Quase descrendo da evidência, correspondi ao apelo – mas, creio incrédula ainda, exclamei com alguma hesitação:

- Fostes vós, senhor, quem me chamastes? E, enquanto no meu espírito, atabalhoadamente, procurava referências para, sem gafes, dialogar com tão ilustre interlocutor – fui dando largas ao meu pasmo imenso e verdadeiro.

- Como é possível, Senhor! – Inquiri: - que concedais a honra da vossa atenção a tão ínfima criatura?

- Vós, Senhor, sabíeis o meu humilde nome? (aqui dei-me conta que “senhor” é também a forma de evocar Deus! – temi a heresia.

Teimosa, voltei a titubear – porém reconsiderei: … e lá no alto, nos poleiros, quem se julgam eles, senão deuses! – Não havia lugar para mais dúvidas – e, a conversa fluiu.

- Embora não me reconheça à altura da vossa real atenção: - Dizei! – Dizei, Senhor – o que pretendeis?

- Quero apenas conhecer-te.

- Mas já tanto me contaste! – Foi de cor? – Objectei…

- Queria apenas conhecer-te – insistiu – (aqui senti-me importante)

- Será ousadia minha, Senhor, indagar porquê? (disse indagar porque me pareceu menos vulgar de que perguntar e, isto de realeza pede punhos de renda…)

Com realíssima condescendência, D. Sancho II de Portugal – respondeu soberano:

- Cala-te! (que decidido, o rei!)

- Calo-me, porquê?! – Titubeei (vejam as palavras belas que o povo gasta com a realeza)

- Porque, aqui, quem fala, sou eu! (que querido! O rei.)

- E, vós sabeis tudo, tudo, tudo? (bisbilhoteiro! O povo).

- Tanto, também não! (que modesto! O rei).

- Eu passo aqui dia a dia, vós sabeis o meu nome, (perguntador e chato o povo!)

- Então achas que tanto basta para te conhecer? (que sensato, o rei!)

- Senhor! – Insisti, eu por vezes escrevo umas coisitas! (aqui, era eu, a dar-me ares…)

- Meu olhar está toldado! Ofuscado pelo reflexo da branca cal, empedernido… (é de pedra a estátua)

- Mas não estais cego? – (preocupado o povo!)

- Governo-me muito com o ouvido! (não é mouco o rei! – olha que bom!)

- Que pena eu não saber cantar mas apenas leio um bocado… (era eu puxando à cultura)

- Permiti-me que vos lembre Sancho I! – Tão dado à poesia:

“ …. Muyto me tarda

         O meu amigo da Guarda.”

- Lá estão vocês a querer dar autorias ao outro! Quem escreveu essas tretas foi Afonso X de Castela!

- Não sejais invejoso, Senhor! (o povo quando perde as estribeiras diz cada coisa…)

 

- Eu também sei que há dúvidas, mas vós devíeis reconhecer que, na circunstância era mais justo puxar a brasa à sardinha portuguesa!

- Não quero falar de pescas! – (retorquiu agastado o rei!) – esse dossier não é meu.)

- O meu reino é de sequeiro. (convicto, o rei!)

- E, como obviais a tais obstáculos (quando se cala o povo?!)

- Que julgais de mim! (altaneiro! O rei)

- Não sabeis porventura que até os que abriram balneários sem cuidar de nascentes abastecedoras vão ter frescos caudais a correr-lhe à porta?! (esclarecedor o rei!)

- Permiti-me então que vos diga: - com grilos, como tendes na consciência, será curial perderdes vosso precioso tempo mandando vossos segréis gastar inspiração e rimas com tão ínfimos servos, indefesos, como eu! Lembrai-vos como já é horrível a estação de muda (estamos no tempo da cavalaria) frente ao maior e mais belo aqueduto erguido em terras ibéricas.

- Fazei que cantem com voz troante o semelhante e tremendo evento que se avizinha!

- Cantai o arraso que fazeis a belas memórias…

- Cantai o aquartelamento que há-de assombrar a luz gloriosa daquela clareira antiga onde o povo vai rezar…

- Cantai o desprezo a que foi votado o espaço onde se homenageiam e guardam ecos do passado que se esfumam sem deixar rasto…

- Cantai os peregrinos que por lá aboletastes… e nos seus “êxtases” de tudo são capazes…

- Cantai tanta ousadia e glória para que fique na história.

- Nós sabemos Senhor, que vos mostrais em campo aberto – exposto aos ventos – e contrários eles são!

- De um lado sopram leis emanadas do senado, do outro, emanam das albergarias o perfume gostoso dos tachos…

- Às costas pesa-vos a história – em frente – transparente, transparente a ânsia de glória!

- Difícil é ser rei, Senhor!

- Mas… será que! (disse eu, reticente, me calei)

- Diz! Diz o resto! – acaba a frase R.S.F.F – (insistiu o rei inclemente)

- Isso não farei! – (aqui, ambos irritados já éramos tu cá, tu lá…)

- Não ouses contrariar-me! Olha! Olha! Olha!...

- Olha, o quê?

- Olha o cartão – não lês R.S.F.F.?

 Pois se não respondes – não terás lugar  à mesa do banquete.

- Que banquete?

- Há sempre fina recompensa para quem assiste aos torneios.

Ora, não é que de repente acordei ao som das minhas próprias gargalhadas!

Então, perguntei a mim própria porque ria.

Talvez porque rir é o melhor remédio.

Pensei.

No chão, em meu redor, revistas e jornais exibiam retratos de reis e príncipes de Espanha, do herdeiro do trono de Portugal.

Era evidente – a realeza é o tema do momento.

Influenciada sonhara.

“Honny soit qui mal y pense”

 

Maria José Rijo

 

estou:
música: Rei D. Sancho II

publicado por Maria José Rijo às 21:13
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4 comentários:
De Flor do Cardo a 13 de Junho de 2008 às 23:50
BRILHANTE!!
Que posso eu dizer mais perante um texto como este,
um texto excelente.
Recordo bem em que parte da história da cidde em
que ele entrou - ou antes - saiu a publico - e deixe-me
que lhe diga - que ri tanto agora como então.
Realmente a Senhora tem um dedo especial para
escrever - mais que um dedo - tem uma alma
enorme de escritora - uma sensibiliade BRILHANTE
- a mesma que sempre nos habituou .
Os meus Parabéns por mais este texto.
.
Queria dizer-lhe que estive em Elvas na Quarta-feira
dia 11 de Junho e fui bater a sua porta - mas não
estava ninguém, no predio alguém me disse ter
saido - ou coisa do género.
Fui com o Aristeu consumar a venda da nossa casa
de Elvas e visitar o tumulo de minha adorada e
saudosa esposa Lucinda, da minha Luci.

Sempre pensei que agora teriamos o honra de a
encontar, a si, em Elvas, o meu filho estava
encantadissimo, mas... quem sabe se outra vez...
caso eu viva ainda - mas penso que não passarei
deste 2008.

Com muita amizade
Os meus Parabéns

Luciano


De Fisga a 14 de Junho de 2008 às 09:35
A Sra. Para alem de uma grande patriota e Bairrista, é também uma grande escritora, pena é que não viva virada para essa ária no mercado comercial do livro.
Os meus parabéns e bom fim de semana.


De Aristeu a 14 de Junho de 2008 às 17:46
É emocionado que venho hoje ao seu blog,
acredite que o facto de estar ali defronte da sua porta
me deu uma alegria imensa. Não calcula a alegria
que tinha comigo.
É verdade que foi falha nossa - deveriamos te-la prevenido
ou mesmo ter aqui deixado uma mensagem - mas foi
tudo tão rápido que nem tempo tivemos para nada,
apenas a alegria de a podermos reencontar já era
a felicidade maior.
Perdoe-nos - se poder mas quem sabe se numa
outra ocasião essa alegria se realize.

ELvas está diferente - já nada ou quase nada tem da
minha infância... mas está a Senhora - que me dá
sempre aquela alegria primeira - "tens uns olhos
muito bonitos!" - não esquecerei nunca...

Gostei imenso deste D. Sancho e eu.

Com muita ternura
Aristeu


De Adalgisa Alexandra a 14 de Junho de 2008 às 17:52
Querida Tia
Só ontem voltei a casa - tenho estado muito doente
com pedra no rim. Estive no hospital... uma chatice
mas agora estou em casa.
Aqui o seu blog é surpreendente - tem sempre
posts da melhor qualidade e de um português que
me fascina.
Gosto imenso de estar por aqui, sempre.
Muitos beijinhos

Gisa


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