Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

Quem cala - consente...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.627 – 12 - Outubro 2001

Conversas Soltas

 

 

Era numa loja.

A conversa girava em torno do palmeiral.

 - Isto está lindo! - Nem parece Elvas!

Era, o unanime veredicto do pequeno grupo.

Afinal, pensei: - os apoiantes do “desastre”, ao querer fazer o melhor elogio - verbalizam e fundamentam a crítica mais crua e mais objectiva que se pode expressar sobre a desastrada arborização que contribui para confundir a  zona envolvente de  Elvas com visões de praias africanas...

Querer que Elvas deixe de parecer Elvas é pura aberração.

Se Elvas, for deixando de parecer Elvas, porque a procuram assemelhar a outras terras não lhe fazem benefício! - Só a prejudicam!

Sobrepor à sobriedade, – ao respeito que é devido ao que sendo nobre de raiz, não precisa de se mascarar para fruir o merecido apreço, – vulgaridades espalhafatosas, - é erro de palmatória.

Assim pensando, decidi: - Não serei cúmplice.

Recuso-me a permanecer num silêncio que me compromete com este descalabro.

   

Faço questão de deixar escrito e assinado o meu protesto contra o estilo “ francês de Pega” que está desvirtuando a fisionomia da cidade.

Em determinada altura da vida do povo que somos, quando os nossos primeiros emigrantes – lá do distrito da Guarda - começaram a regressar às suas terras de origem , fazia parte do seu legítimo sonho  construir casa própria. Então, cada qual seduzido por ingénuo exibicionismo fazia representar tudo quanto o tinha deslumbrado, nos países onde trabalhara, nas suas “Maisons” em sinal de abastança e distanciamento da pobreza da sua origem.

Foi assim que, ao lado de nobres e vetustas construções de granito, surgiram, desenquadradas da paisagem, as mais incríveis criações que “esse tal estilo” foi capaz de gerar...

A pouco e pouco, porém, as pessoas foram entendendo o desvario, e, muita coisa se compôs. Outras sofreram danos irremediáveis. E permanecem para a “estória”, anedóticas, como o célebre bife com bolachas...

 

Assim vai sendo por cá - agora!

Espero que com o rodar dos tempos alguém reponha a sóbria elegância do centro histórico da cidade e retire de lá aqueles bebedouros disfarçados com jactos de água, até porque já não existindo em Elvas Lanceiros I, nem para turista ver os cavalos irem “à data de água” tal mamarracho serve!

Serve apenas “para meter água” numa realidade histórica, à evidência, de forma bem infeliz.

Como se tal já não fosse mais do que suficiente, surgem agora a propósito e a despropósito - como importunos redemoinhos que afastassem para bem longe toda e qualquer ligação que a cidade tinha com o meio ambiente - rotundas e rotundinhas...

Numa delas erigiu-se um monumento ao bombeiro

Não será o local ideal, mas, óptimo. Foi um acto de justiça.

P1000226

Porquê, então, plantá-lo como se fosse um poejo com os pés dentro de água?

Porque rodear a figura do bombeiro duma serie de repuxinhos, como se um cento de Manneken Pis lá estivessem submersos?

Porquê não aproveitar essa força de água para um jacto vigoroso da mangueira que a estátua sustenta e dar majestade e vida à figura que representa colocando-a em equilibrio sobre rochas que configurassem a valentia e arrojo de que são capazes pelo bem de todos?

É que se uma coisa merece ser feita, merece ainda mais ser bem feita!

Alem do mais, basta de meter água!

É tempo de parar com as cascatas e as fontes, até porque a água não é um bem inesgotável.

Ao contrário! É um bem escasso que deve ser gerido com bom senso e parcimónia.

Melhor fora cuidar a sério do líquido que chega aos domicílios...

           É tempo de escolher com critério os designados “melhoramentos” e não copiar para Elvas tudo o que o olhar cobiça - mas - sim - ser extremamente rigoroso na eleição do que tem realmente que ver com a nobreza e história duma que  cidade pede apenas que a deixem ser igual a si própria para ser, como é, única.

Já na écloca de Jano e Franco - lá pelo  Sec. XVI

 se escrevia assim:

“ Que Alentejo era enxuito d´água e mui seco de prado.”

 

Para quê, agora, tratar Elvas como se fora as termas do Luso ou do Buçaco?

Pior do que nada fazer...é descurar o critério do que se faz.

 

 

  Maria José Rijo

estou:

publicado por Maria José Rijo às 20:43
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4 comentários:
De Xavier Martins a 21 de Agosto de 2008 às 22:27
Muito bem.
Boa defesa de uma cidade que não é apenas
elvense mas de todos - pelo seu rica e maravilhosa
monumentalidade.

Bem haja por haver pessoas como a Senhora
integra e que ama a cidade que a acolheu.
Realmente a cidade de Elvas tem em si, uma grande
defensora.
É sempre necessário que as cidades sejam amadas,
não só de boca, mas de actos de coragem e que
as palavras consigam render o máximo, como as
suas Senhora Dona Maria José Rijo.

Parabéns

Xavier Martins


De Adalgisa Alexandra a 21 de Agosto de 2008 às 22:29
Querida Tiazinha
Os seus textos sãosempre muito bons, sejam eles
que assuntos tenham sido escolhidos.
É maravilhoso o seu dom de escrever assim, desta
brilhante forma.

Beijinhos Tia

Gisa


De Gustavo Frederich a 22 de Agosto de 2008 às 01:35
Querida tia
Vim só agora ver o seu blog, tem uma cidade muito
bonita, as fotos são SEMPRE excelentes e muito bem
escolhidas.
É um blog excelente.
Os seus textos são sempre perfeitos e gosto sempre
muito mas sinto muita falta dos seus poemas, posso
pedir-lhe... um poeminha tia?

Desde já agradeço, adoro a sua poesia.
Gosto muito de si
Com imensa amizade
Gus


De Dolores e Avelino a 22 de Agosto de 2008 às 20:57
Nossa tão querida Tia
Desculpe não ter aparecido ontem, mas estive
doente e não consegui levantarme da cama em
todo o dia, coisas de sempre... as minhas pedrinhas...
uma chatice das antigas, mas a pouco e pouco faço
o meu colar.

A Luisinha lá está em Lisboa a resolver as coisas da
vida dela e mandou saudades para si.

O Avelino anda de volta das orquideas e eu por aqui
estou... que fazer...

Esperoque a tia esteja bem de saúde, que a sua
exposição já esteja muito adiantada - Setembro está
já aqui na esquina do mês.
Que tudo seja alegrias para si.
Gostamos muito de si.

Muitos beijinhos Tia
DO LO RES e Avelino


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