Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Se bem me lembro...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.895 – 7 de Dezembro de 2006

Conversas Soltas

 

Esta conhecida frase, quando proferida por Vitorino Nemésio, numa rubrica de televisão assim também designada, era como que um abrir de portas para espreitar a alma desse humanista, português de lei, que, também foi poeta e escritor universalista. Porém, agora, penso que essa mesma frase, proferida por essa mesma pessoa, só tinha essa abertura porque, Vitorino, já não era jovem, quando a escolheu para evocar, partilhando connosco o que da sua vivência mais aflorava ao seu espírito. Ainda com seu sotaque da ilha Terceira, lá ia soltando como onda atrás de onda, sem nunca se antever exactamente até onde se espraiaria a riqueza armazenada do seu saber – aqueles esparsos da memória que com a palavra narrava e, com as mãos moldava, e, de que, como diriam seus irmãos ilhéus, guardava mistérios. (o que quer significar: incontáveis, imensos, no dialecto açoriano)

                             

Pois não é que, assim como perfilhamos versos de poemas, porque neles encontramos retratados os nossos sentimentos, os nossos mais íntimos e indefinidos anseios, também, talvez mercê do tempo já vivido, eu tenha ganho afecto a esta frase, tão breve na quantidade de palavras, tão expressiva e tão honesta de intenções que nasce pendurada dum condicional – se – que deixa à memória espaço para ser perdoada, no caso de não ser, ela, tão precisa quanto se desejaria que fosse – como sempre se aspira que seja!

 

Pois - “se bem me lembro”-  sempre o nosso Autarca manifestou até agora, a sua piedade religiosa, invocando Fátima e o Patrono da cidade, o Senhor Jesus da Piedade. “Se bem me lembro”, até quando rezou por mim (o que tão bem fica à sua natural generosidade e pendor religioso) para que eu fosse perdoada do meu pecado de má língua, foi o Santo da casa o invocado, ainda com a certeza de que, com o Seu meio perdão, viria da autárquica condescendência a outra metade que me seria necessária para descanso da minha alma... 

Ao tomar conhecimento numa entrevista dada – agora - ao jornal “O Despertador” de que, também era de sua devoção, São Mateus,( eu que pensava que seria o Bom Jesus de Braga, destino , também das costumadas excursões) - reconheci que as pessoas, de má língua, como eu, com tanta propriedade fui apodada, na tal referida circunstância , deveriam antes de emitir juízos críticos, averiguar as origens de certas mudanças, para falar fundamentadas, o que agora tentarei fazer .

Começo - mea culpa -  reconhecendo  as boas e justas razões que ao fim de três anos impuseram crismar o auditório do edifício onde está, meio oculto, o museu de fotografia João Carpinteiro!

Raciocinemos: - se, a palavra auditório, tem como raiz “audi” de “audire”, isto é: ouvir, há pelo menos três anos de atraso nesse contrito acto de reparação: - dedicar um espaço – para ser bem ouvido por Santo de tão entranhada devoção, já que, não sei por perto, de igreja ou orago que lhe seja dedicada. E, o que é justo - é justo!

Reconheço mais: - que essa decisão está na linha de respeito, pelos outros, que fez suprimir a biografia do dono da Fundação e, dono do acervo do Museu, (que da pena do ilustre e saudoso elvense Dr. António Barradas havia saído), e estava na parede lateral esquerda à entrada, como, obviamente, é de praxe, que não ali, porque nesta cidade não se cultiva o protagonismo desbragado

Reconheço mais - que, ao homenagear   agora - São Mateus –se confessa o lapso tremendo, que assim se corrige, de não ter sido o nome de  Santo de tanta fé, dado ao Coliseu, inaugurado durante as suas onomásticas festividades . Mas, se quem peca e se emenda, a Deus se encomenda, a misericórdia Divina terá em conta tão santas quão verdadeiras intenções.

 

 Maria José Rijo

 

estou: 2006
música: São MAteus - 2006

publicado por Maria José Rijo às 22:32
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16 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 9 de Setembro de 2008 às 23:01
Se bem me lembro -- eu até gostava muito de
ouvir este Senhor a falar.
Gosto muito dos livros que ele escreveu.
Gosto muito de ler a Ode ao Mar que ele escreveu.
Acho absolutamente genial.

Bem haja Tia
por este texto maravilhoso.
Parabens

Gisa


De maria josé a 10 de Setembro de 2008 às 21:27
Gisa - já viu a tertúlia que se arranjou em torno do nome de Nemésio?
Quem é grande, é sempre grande e, nem a morte que o gasta lhe desgasta o esplendor da alma
beijinhos da tia Zé


De Mafalda Gomes a 9 de Setembro de 2008 às 23:03
Acho muito Interessante o seu Blog.
Tem aqui textos especiais - poesias lindas e
sempre acompanhadas de belissimas fotografias.

Gosto imenso do seu blog.
Parabens por este belo lugar que criou.
A sua poesia é muito boa.

Sua admiradora

Mafalda Gomes



De Maia José a 10 de Setembro de 2008 às 21:35
Mafalda Gomes
Quem faz o meu blog é a minha sobrinha Paula
Ela escolhe os textos e as fotografias. Algumas são dela. Quase sempre as referentes a Elvas e, outras mais. Se ela me deixasse eu dava a entrada para onde ela esconde essas maravilhas...
Só o apreço dos textos me diz respeito, e, esse agradeço de todo o coração.
Um abraço
Maria José


De Nuno Prazeres a 9 de Setembro de 2008 às 23:09

Vitorino Nemésio
Um grande escritor que eu admiro e agora aqui
um belo texto onde fala deste Senhor.

Gostei muito de ler o seu blog.
Boas fotografias e temas excelentes até a nivel
nacional. Gosto imenso da sua prosa literária e
muito da que toca a politica nacional.
É muito lucida, nas suas apreciações e tem
inteligência bem definida na exposição dos assuntos.

Bem haja por ter este blog on-line porque
assim muitas pessoas, como eu, têm acesso aos
seus textos.

Um abraço

Nuno Prazeres



De Maria José a 10 de Setembro de 2008 às 21:49
Nuno Prazeres
Nuno Prazeres
Creia, que, grata sou eu, por ter quem leia o que escrevo,
Obrigada de verdade.
Confesso que tenho um certo pendor para comentar a política local. Escuso-me muitas vezes a faze-lo porque dum modo geral,o que impera é o insulto e a grosseria o que, convenhamos não é bom para nada nem ninguém, nem é do meu jeito.
Um abraço
maria josé


De Dina a 10 de Setembro de 2008 às 00:15
Se bem me lembro...há coisas que nunca mudarão...


De Maria José a 10 de Setembro de 2008 às 22:06
Minha querida Amiga
Eu não sei, não saberei jamais agradecer a sua generosa amizade.
Também é verdade que a amizade - ao que se diz - não se agradece - retribui-se - e, isso , eu sei que não tem dúvidas, faço, por inteiro.
A Paula, com as suas responsabilidades e afazeres, pouco tem aparecido e, eu sem ela sou uma analfabeta nos computadores.
Hoje resolvi vir aqui à conversa para dizer aos amigos como é bom te-los comigo
Um grande, grande abraço
Com saudade sou a Maria José


De Gustavo Frederich a 10 de Setembro de 2008 às 01:33
Ode ao Mar...
É um dos poemas que me apaixonam além da
compreensão humana.
O mar é também a minha paixão... sei que também
é uma das suas, não é tia?
.
A CONCHA
.
A minha casa é concha. Como os bichos,
Segreguei-a de mim com paciência :
Fachada de marés, a sonho e lixos ;
O horta e os muros – só areia e ausência.
.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se as vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera – oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
.
A minha casa... Mas é outra a história :
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio
.
Gosto muito deste poema para mim
Nemésio era uma figura fascinante porque era
uma enciclopédia viva, sem máscara.
Recordo-o na televisão, naquela sua voz
inconfundível ( a tia sabe e sei que se recorda).
Que bem que o recordou aqui.
.
NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente
Em cada pausa e pulsação, um verso.

Vitorino Nemésio
.
Obrigado Tia
Levaria aqui toda a noite a falar deste grande
GRANDE autor.
Ainda bem que também gosta dele. Mais um ponto
que nos aproxima.
Beijinhos tia

Gus


De maria josé a 11 de Setembro de 2008 às 01:03
Meu sobrinho Querido
Se não o admirasse antes, depois de viver na Terceira, ter feito a travessia do Canal para conhecer
o Pico, conviver, conhecer o meio, sentir o abraço do mar a cercar-nos por todos os lados, frequentar famílias onde Nemésio era ìntimo - seria impossível não admirar tudo quanto dele falasse - quanto mais a sua obra...
Depois...depois...são dele - também - aqueles versos:

" Esta vontade de cantar que pulsa no pessegueiro
E cria no poeta o indício de alguns versos
Que antes de serem voz hão-de doer primeiro!"

Sabe como é, não sabe?

Beijinhos - tia Zé


De Flor do Cardo a 10 de Setembro de 2008 às 01:37
Cara MAria José
Que saudades do nosso São Mateus, do nosso Setembro...
Do cheirinho do ar... só mesmo quem é elvense de
gema percebe o que é o São Mateus.

Aqui tem um belissimo texto.
Nemésio - um grande autor, a minha mulher
declamava a Ode ao Mar muito bem. Era uma
alegria poder ouvi-la.
Que saudades me trouxe este seu artigo.
Até estou emocionado.

Um abraço

Luciano


De maria josé a 11 de Setembro de 2008 às 13:23
Luciano - Esta é a terceira vez que tento falar-lhe, porém a minha"perícia" neste meio apagou-me a conversa.
Volto agora mais descansada para lhe contar de "esta Elvas - esta Elvas..."
As festas estão à porta. Já se sente a inquietação latente em todos e tudo. Nesta altura minha Irmã vem para junto de mim. Vamos passar 13 e 14 a Fátima, com uns sobrinhos de meu Marido que nos levam de carro. Faria, agora 61 anos de casada e, esta mudança, mesmo breve ajuda-me a viver.
Hoje fui já mudar as flores ao seu Amigo. Se soubesse onde está a sua Saudade ter-lhe-ia, levado algumas em seu nome. Mas...
A exposição será montada depois de regressarmos de Fátima. Pouco tem de novo.É apenas uma retrospectiva do meu percurso de artesã, e pouco mais.
É capaz de resultar porque não tem nada de erudito.
São, na sua maioria, trabalhos de expressão popular que se casam com a época das festas da cidade.
Depois darei conta.
deixo-o com um forte, forte, abraço de parabens por ter mais um belo motivo para gostar de viver.
É verdade! a "ode ao mar" de Nemésio é uma das minhas paixões.
Já a gravei várias vezes em programas de poesia em que colaborei. Mas, sempre lendo. Já só fixo esparsos...
Saudades - Maria José




De Lucas Marquês a 10 de Setembro de 2008 às 01:41
Minha querida Senhora
Este seu artigo trou-me à memoria a Grande
Vitorino Nemesio - Se bem me lembro...
Grandioso este Senhor, grandioso poeta e escritor.
Um Homem que tinha a viva consciência do que
queria dizer ser ilhéu...

Que bom te-lo recordado aqui, neste seu mundo
bonito que é este seu blog.
Parabens pelos textos magnificos

Lucas Marquês


De Maria José a 11 de Setembro de 2008 às 13:35
Lucas Marquês - obrigada pelo comentário. Sabe que ao ler a palevra ilhéu me lembrei da casa de uns amigos de Nemésio, que, também, frequentávamos , em Porto Pim e era justamente o local que mais me fazia entender o sentido dessa designação.
Talvez Tabucchi tivesse sentido o mesmo ao escrever "A mulher de Porto Pim" - que sei eu?
Um abraço
maria josé


De Arnaldo Gonçalves a 10 de Setembro de 2008 às 10:10
Bom Blog.
Belissimos textos
Boas escolhas.
Boas poeias.

O seu blog é o paraiso das letras.
Gosto muito de andar por aqui.
Os meus Parabens.

Arnaldo Gonçalves


De Maria josé a 11 de Setembro de 2008 às 13:40
Arnaldo Gonçalves - obrigada pela visita e pelo comentário.
Que poderei dizer, lendo-o. senão que fico feliz por ter tão bons amigos?
Um abraço
Maria José


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