Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

Encarecidamente

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.724 – 29 – Agosto - 2003

Conversas Soltas

 O único acesso que resta, ainda com alguma arborização, para fazer a pé visitas ao Santuário do Senhor Jesus da Piedade, é um velho troço de estrada, onde as olaias aí pelos fins de Fevereiro, começos de Março, cantam hosanas em flor.

Fatalmente as recordações, as lembranças de como era e como é, impõem-se como presenças vivas a quem a percorre.

Desde a memória daquela velha e querida Amiga, Senhora Dona Maria José Ferreira que me contava que seu pai, sendo Irmão da Confraria, fizera parte da Mesa que mandara construir, (como rezam as lápides), aqueles 810 metros de estrada, entre os anos de 1860 e 1863, aquele caminho, – ao longo, já de muitas gerações, – tenho a certeza, tem assento no coração de todos os elvenses, com fundas raízes de afecto.

Como é óbvio, eu, não sou a excepção!

Assim que, já por mais do que uma vez, tenho reparado no envelhecimento das árvores que fazem alas sabe Deus, se desde essa “tal” data, à passagem dos devotos, ou simplesmente, de quem gostando de caminhar, aproveite da beleza e da paz, que por aqueles lados ainda se pode usufruir.

E, recentemente, dei comigo pensado, e dizendo em voz alta para quem me dava companhia: - é urgente pedir encarecidamente a quem de direito, que cuide de repovoar com árvores novas, tapando as falhas – pelo menos – esta estradinha ensombrada e bela que faz parte do imaginário de todos nós.

E, porque, como diz o poeta: “não há machado que corte a raiz ao pensamento” que é capaz de encadear, lembranças soltas e perdidas da nossa consciência, a palavra “encarecidamente” levou-me para um Alentejo rural, hoje inexistente, talvez, a não ser na memória de pessoas de idade, como eu.

Então, achei curioso, recordar aqui, outras palavras e expressões que fixei ao entrar para a escola, quando tinha seis, sete anos, e tomei contacto com uma realidade tão diferente do meio em que eu vivia, que, talvez por isso, não mais as esqueci.

Que mais não seja como curiosidade lexical, parece-me certo, dar nota de vocábulos arcaicos, que o homem do campo, naquele tempo, ainda usava no seu dia a dia.

Termos medievais, alguns dos quais se podem encontrar em escritores dessa época, por exemplo.

Pranta-te quedo! - Era a advertência para mandar aquietar alguém.

Não coles por aí! – Não passes por aí.

Ter avondo! – Ter suficiente.

Estar empalagosa! – Estar adoentada.

Estar doente era sofrer de moléstias.

Morrinha ou morraça era chuva miúda.

Esquilas, eram guisos.

Rir, era galhofar, ser curiosa ou bisbilhoteira, era ser calhandreira e penisca.

Brincar, era retoiçar;

Para além destes, e outros termos arcaicos, usavam expressões de uma beleza tão simples que mais pareciam pinturas feitas de palavras.

Para referir o anoitecer, toda a gente dizia – ao acender das candeias.

            À estrela d’alva  ou ao romper da aurora, se dizia - amanhecer.

Não saber como mostrar gratidão pela satisfação dum desejo que nos tornava felizes era:

        Não ter boca avondo que encareça!

E, com esta frase, bela e genuinamente alentejana, termino este apontamento, onde, a quem de direito, encarecidamente peço mais árvores, para a velha e poética estradinha por onde se pode passear devagarinho, a caminho do altar da nossa terra – O Senhor Jesus da Piedade.

 

 

     Maria José Rijo

 

estou: Sr. Jesus da Piedade
música: Encarecidamente - 2004

publicado por Maria José Rijo às 21:49
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11 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 17 de Setembro de 2008 às 22:47
Gosto sempre dos seus textos.
Este é excelente.
Parabens.
Está mesm a chegar o dia H.
Que tudo seja um êxito.
A tia merece.
Gosto muitoooo de si.

Gisa


De Avelino a 17 de Setembro de 2008 às 23:08
Dona Maria José
Hoje vim primeiro e deixo um garnde beijinho
com desejos de que na 6ta feira a sua exposição
seja um êxito.
Se vivesse mais próximo enviava-lhe um bouquet
das minhas orquideas.
... assim...
Um abraço e um beijinho

Avelino


De Flor do Cardo a 17 de Setembro de 2008 às 23:29
Que saudades do São Mateus...
Nem imagina o que sinto... as memórias...

Cara Maria José está aproximando-se o dia H, o
dia da sua exposição e recordando as anteriores
só posso pensar que será um estrondoso êxito.
Acredito piamente que esteja excelente... como
sempre estão as suas exposições.

De longe um abraço e desejos que tudo seja um
longo sorriso...

Seu muito amigo
Luciano


De Gustavo Frederich a 17 de Setembro de 2008 às 23:31
... hoje...
não tenho palavras...
a tristeza invadiu-me por inteiro...
o nosso amigo padre faleceu...
...
Desculpe a triste noticia mas tinha de lhe contar
da minha mágoa...

Gosto muito de si tia
Até breve

Gus


De Maria José a 18 de Setembro de 2008 às 03:51
Meu sobrinho muito querido
è madrugada.
Não conseguia dormir e- o que nunca faço - vim espreitar a net.
Talvez o sua mágoa me estivesse a chamar... se assim foi - estou aqui.
Aprendi há muitos anos que - " a dor é porto"
Difícil é o caminho para lá chegar...e, esse, já o fez.
Agora todos os passos o trarão de novo para a luz.
É penoso. É muito penoso mas são esses os caminhos de viver.
Sinta-se fechado num abraço muito carinhoso
Um beijo - tia Zé


De Luis carlos Presti a 17 de Setembro de 2008 às 23:41
Tiazinha tão querida
Ainda bem que voltei a tempo...
para lhe deixar um beijinho -HOJE e já Muito
especial - pela sua exposição que sei SERÁ
extraordinária e um grande êxito.
Tenho uma pena infinita de não poder estar
consigo neste dia tão especial - esta próxima
sexta-feira MAS conto que a sua sobrinha post
aqui algumas fotos para nós.
Põe não põe?

Tia querida desejos de muitas Felicidades e
alegrias redobadas.

Deste sobrinho que a adora

Luis Carlos Presti


De Dolores Maria a 18 de Setembro de 2008 às 01:37
Querida tia
Só agora consegui cá chegar. Estive a fazer uns
quantos bolinhos porque a sogrinha resolveu
fazer amanhã um chá para as amigas dela cá em
casa.
Fiz alguns dos seus e ficaram estupendos. deixe
ver amanhã as Senhoras o que vão dizer. Ainda vou
assar um leitãozito - o janico - mas só amanhã de
manhã.

Pelos comentárias estão todos a desejar que a sua
exposição seja um sucesso e eu claro eu também
desejo isso e muito - especialmente que as pessoas
possam conhecer mais de si.
A Senhonha minha Tia é uma pessoa muito
especial.
É muito agradavel ter uma pessoa assim tão
distinta como amiga... e tia minha...

Muitos beijinhos agora vou para a caminha.
DO LO RES


De Fisga a 18 de Setembro de 2008 às 18:06
Olá Sra. Dna. Maria José. Eu não sei se a Sra. É bem atendida, nos seus apelos. Mas que a Sra. sabe pedir lá isso sabe, o que infelizmente nem sempre acontece, com toda a gente, espero sinceramente que seja atendida, no pedido da florestação do citado caminho. Um abraço. Para Elvas.


De Adelaide Feijó a 18 de Setembro de 2008 às 18:50
Cara Srª. Dona Maria José Rijo
acabei de encontrar o seu blog, este seu cantigo
Lindo.
Devo dizer que levei aqui grande parte da tarde
porque cada um dos textos (poéticos ou de prosa)
deliciaram o meu espírito.

Gostei imenso da sua forma de escrever, de contar,
de falar da vida que que a fez chegar aqui - este
Percurso (por sinal - nome da sua exposição).
Se eu não vivesse tão a norte iria visitar a sua
exposição.
Pois deve de ser especialmente curiosa e cheia de uma
beleza especial - como o é a sua alma - perceptivel
em cada texto, em cada verso, em cada olhar...

Amiga - permita-me que a trate por amiga - gostei
deste pedacinho da sua alma - exposta aqui com
tanta beleza - nestes posts - belissimos e com
fotografias que acompanham as suas palavras.

Bem haja por este espaço.
Bem haja por dar a conhecer esta sua beleza - neste
mundo de encruzilhadas.

Um abraço

Adelaide Feijó


De Maria José a 5 de Outubro de 2008 às 12:51
Minha Amiga - Adelaide Feijó
Por certo, se voltou a este espaço, entendeu a confusão que para os meus oitenta e dois anos, foi meter-me nesta aventura se uma exposição...
Enfim! - agora que tudo serenou um pouco vim agradecer as visitas que aconteceram por aqui.
É sempre enriquecedor ganhar novos amigos, e, creia que bem gostaria de abraçar e conhecer pessoalmente as pessoas que se dão ao trabalho de me prestar atenção. Fico feliz por, mesmo por escrito, nos irmos conhecendo e deixo-lhe um abraço
grande e amigo de muito obrigada - maria José


De Dina a 18 de Setembro de 2008 às 19:44
Já li e reli, entrei e saí, voltei a ler e quando quero colocar por palavras o que senti imaginando-me a percorrer essa estradinha...elas faltam-me.
Hoje estou triste porque apesar de tudo ter feito para conseguir estar em Elvas este fim-de-semana tal não vai ser possível.
Espero que tenha um excelente S. Mateus.


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