Terça-feira, 7 de Outubro de 2008

Interlúdio

Jornal linhas de Elvas

Nº 1972 – 6 de Janeiro de 1989

A lá Minute

            musica.JPG

 Ouvir música, ao meio da tarde, especialmente concertos de piano, em casa, à hora em que lá fora se trabalha – é bom!

Pode ser até um presente de consolação que as gripalhadas oferecem às suas vítimas.

Há outras hipóteses! – Não fazer nada, dormir, pensar, pôr o correio em dia, arrumar gavetas… passajar!...

Passajar! – Reminiscência de outras épocas.

Passajar meias e ler poesia eram duas actividades complementares, não há muitos anos.

Passajar meias era prosaico, chato, mas… necessário. A poesia requer tempo para ser lida e intervalos para ser pensada depois de sentida. Assim que somadas as duas actividades cobria-se a chateza de passajar com a subordinação do pensamento a outro “mote”, e alternadamente os olhos liam ou seguiam a agulha – as mãos obedeciam e o espírito, livre, viajava.

    

Um pouco de música para fundo – piano de preferência, e cada qual tinha o jardim das delicias que soubesse inventar – o lago que sonhasse, os cisnes mudos e mistérios que evocasse as árvores de paz que recordasse – a tristeza que sofresse o arrojo que desejasse, as lutas, as vitórias e as derrotas que assumisse…

Hoje, já não se passaja – os tempos do nylon oferecem as resistências precisas para as pressas que nos consomem. O que se rompe vai para o lixo.

O lixo, disputa ao homem o espaço de semear e viver, o lugar dos lagos, das árvores e dos cisnes…

O lixo corre nos rios, desagua nos mares, empesta os ares, irrompe pelos céus.

Nas florestas fechadas onde as aves esvoaçam furtivas e cantavam nas altas ramarias – assobiam triturando as serras mecânicas e a vida natural recua onde a vida inventada avança, blindada e brilhante de aço frio, onde não se escuta em bater de coração.

 

 

 

Nesta pausa de acaso, aqui, no meu mundo de ontem – hoje vivo – sinto que permaneço e me desloco como sobrevivente temerosa e simultaneamente deslumbrada e curiosa – das passadas largas como pontes que ligam ontem e amanhã.

E no veste, despe e deita fora de roupas, moveis e modas que se sucedem e a que ninguém se prende porque o tempo de atar faz falta para mudar e seguir em frente – sinto-me em relação a este momento como um objecto de cantareira a que alguém atribuísse uma alma e um passado – e, neste desajuste consciente – acolhe-me a música, voz dos tempos, nela me liberto sem medo e encontro, afinal, lugar para mim neste interlúdio entre séculos.

 

Maria José Rijo

estou:

publicado por Maria José Rijo às 21:56
| comentar | Favorito
partilhar
8 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 7 de Outubro de 2008 às 22:52
Que lindo texto Tiazinha
Parabens, sempre Parabens.
Gosto imenso de si.
Beijinhos

Gisa


De Maria José a 8 de Outubro de 2008 às 10:15
Gisa querida
Ainda estou de roupão. á tomei o pqueno almoço e já rezei o terço, como todas as manhãs. Agora vim aqui dizer olá aos meus fieis Amigos para não me sentir ingrata e viver o resto do dia com paz de consciência.
Um beijo tia Zé


De Adelaide Matias a 8 de Outubro de 2008 às 01:56
D. Maria José
Cada texto seu é uma delicia e aparecem sempre com mensagens de grande importância. Adorei
todo esta maravilha.
A sua exposição é uma beleza , toda ela uma
maravilha, só tenho pena de estar tão longe senão
iria ve-la - não só uma , mas 2 ou 3 vezes para poder
e conseguir olhar tudo com a calma e a delicia que
dá ver tanta maravilha junta.

Um grande abraço de Parabens.
A Senhora é uma alegria na minha vida tal como
este blog faz a s minhas delicias.
Parabens

Sua muito admiradora

Adelaide Matias


De maria José a 8 de Outubro de 2008 às 10:21
Adelaide Matias - venho dizer-lhe, minha Amiga, que no meu bilhete de identidade não está registado - dona - está só Maria José!
E já que nos estimamos ... não iremos precisar de acessórios...
Um beijo grato - Maria José


De Aristeu a 8 de Outubro de 2008 às 02:13
lá Tiazinha
E como está a tia?
Espero que esteja bem e feliz. Este seu texto é uma
deliciosa visão da realidade e da sua alma.
Gosto de olhar o mundo através dos seus olhos.
De sentir a sua realidade pelas suas palavras.
Gosto muito de si, sabia.

Ah o Senhor meu Pai, o Sr. Luciano está indignadissimo
até a pressão lhe subiu porque diz que a Tia merecia
que o Linhas informasse de outra forma, como teria
feito o Ernesto.
Concordo com o meu Pai, porque não serão muitos
os jornais que tenham, hoje em dia, colaboradores
com mais de 50 anos de colaboração em artigos e
que talvez nem ganhe um único euro. Ganha tia?
Não sei porque mas não me parece, talvez só na
capital ganhem - nos grandes jornais. Não sei,
penso eu...
Tia continuação de muito sucesso na exposião e
muitos beijinhos
deste sobrinho que tanto a adora.

Aristeu


De maria José a 8 de Outubro de 2008 às 11:40
Meu querido Sobrinho
Acabei de ler o seu comentário, que, junto com o do seu Pai me fizeram sorrir, pela forma como abordam o caso - jornal.
Por norma escuso-me a falar disso. O que não quer dizer que não sinta com mágoa a situação, mas, hoje vamos mesmo encarar o assunto.
Como sabem, estou no jornal desde antes de ele nascer. Desde que era um sonho vivido em longas conversas e reuniões com o Casimiro Abreu,o Marciano Cipriano, o Ernesto, a Tita, mulher do Casimiro, Meu Marido, muitas vezes o João Falcato e , eu. Havia pouco trabalho na Tipografia do Pai do Ernesto e a criação do jornal garantiria o emprego dos tipógrafos.
Assim, entre Amigos unidos por um sonho de fazer imprensa livre - nasceu o Linhas, com a coragem e irreverência desse grupo de gente nova.
Hoje, o jornal é diferente.
Os tempos são outros. Já nem há tipografias... O Linhas é uma empresa que gere negócios e Tem que dar dinheiro.
Do tempo da aura romântica, em que todos juntavamos os "tostões" para pagar as multas da censura - resto eu.- até porque a filosofia de vida não é mais o que então era.
Nessa época eramos um por todos e todos por um.
Ai de quem beliscasse qualquer um de nós os outros caím-lhe em cima como os tres Mosqueteiros.
Ficou célebre a resposta do Casimiro- em minha defesa - quando da candidatura de Humberto Delgado.
Depois que o Ernesto faleceu e a direcção mudou, começou a mudança. Muito aflita, a minha amiga Lourdes, viuva do Ernesto veio-me avisar que a nova direcção não queria mais o meu retrato na primeira página etc,etc...até as cartas de luto que dirigiram - ao jornal, por meu intermédio pela morte do Ernesto - só vim a receber com atraso de meses e, mais uma vez pela mão da minha amiga Lourdes...
Dicidi então, que, contra ventos e marés, ficaria "ao serviço" do jornal, quando passou para as mãos do filho de Amigos tão leais e queridos, e, que afinal, vi crescer .
Vou continuar a ser franca ao ponto de subscrever, publicamente, os vossos reparos.
Também eu os senti como a desatenção que muitas vezes se tem para aqueles com quem mais se conta.
Sei que não é desamor.é apenas fruto da nossa época onde - muitas vezes - só se valorizam os cargos, não as pessoas e o amor que delas se recebe.
Já agora, também respondo à sua pergunta - nunca recebi dinheiro pelos meus artigos de opinião.
Também só vendi trabalhos quando precisei de dinheiro para ir ao Brazil e a Itália.Preciso de muito pouco para estar contente e,aliás, pela graça de Deus nada do que preciso me faltou.
Confesso que não tenho uma relação fácil com o dinheiro.Reconheço a sua necessidade, mas amargura-me pôr preço ao que se ama.
O meu problema - e grande - é não saber a quem dar - de forma a perservar- tudo junto.
Beijinhos, beijinhos, beijinhos
Tia Zé





De Josefina Duarte Lima a 8 de Outubro de 2008 às 12:28
Cara Maria José
Por um doce acaso de sorte, estive em Elvas neste fim de semana e por lá permaneci até ontem.
Fui a um casamento da filha de uma amiga daí o
motivo do meu passeio.
No turismo foi-me indicada a sua exposição e eu
resolvi não perder a viagem e fui ver.
Adorei, mas é uma exposição feita de milagres - de
preciosidades, de um encanto que me deixou
deslumbrada.
Fui recebida por uma menina tão simpática que ainda
fez da minha visita uma alegria maior.
Muitos Parabens por esta maravilha e agora vou-lhe
contar que por outro golpe de sorte - vim para a
net e pensei que tanta beleza teria, obviamente, que
ter uma página e não é que acabei de a encontrar
neste momento.
Estou radiante e aqui, escrevo o meu LOUVOR a
Maria José Rijo e ao Museu por receber tão grande
e valorosa artista.
Vejo também que escrever - fáz parte dos seus dons
- e agaradou-me IMENSO a sua parte literária e
poética.
Vou continuar - aqui - neste seu maravilhoso blog
e ver e ler tudo o que publica.

Um grande bem haja
Muito êxito e alegrias com muita saúde para si

Com muita admiração

Josefina Duarte de Lima


De Dina a 8 de Outubro de 2008 às 12:49
Mais um texto belíssimo.
Quanto ao usar e deitar fora...é a sociedade que temos e que cada vez mais nos aprisiona. Já não são só os bens materiais também cada vez mais as pessoas se usam e deitam fora quando deixam de ter valor para quem as usou.


Comentar post

.Maria José Rijo


. ver perfil

. seguir perfil

. 53 seguidores

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
19
21
22
23

24
27
28
29
30


.posts recentes

. São Mateus 2017

. Participação - Programas ...

. Programa de São Mateus 20...

. Carta aos meus queridos A...

. Aniversário do Linhas - 2...

. Viagem a Fátima

. Reportagem do Jornal Linh...

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@