Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Por uma ninharia

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.931 – 23-Agosto-2007

Conversas Soltas 

Cada um de nós – ou se debruça sobre o seu próprio umbigo, e, necessariamente anda à roda, à roda, e entontece o que sempre ameaça a verticalidade de qualquer posição – ou - olha em redor, observa, escuta,  explora lembranças, faz comparações, colhe ensinamentos e procura ajuizar de tudo quanto vive, com serenidade.

 Depois, modela os seus actos, não por impulsos, mas pela ponderação das lições que da vida vai recebendo e das quais, então, quase instintivamente recolhe ilações e consequências.

                 [MªJosé-6anos.jpg]

Quando eu era criança, fazia sempre o trajecto da nossa casa para a escola pela mão de alguém capaz de dar protecção. Não sei de que perigos! Mas, nesse tempo, criança, não saia à rua sem companhia respeitável.

 Havia até umas senhoras, já de certa idade, da chamada pobreza envergonhada, que tiravam desse serviço os seus parcos recursos.

           76el-alegre-rostro-de-la-pobreza.jpg

 Lembro-me, que com a desculpa de encurtar caminho, sempre conseguíamos ir por uma rua chamada “Do Ulmo”, que embocava num larguinho, para onde convergiam portões de quintais de grandes casas senhoriais.

Era rua mal afamada. Era suja e pobre. Só tinha casas de um lado. Do outro era um paredão alto. Era escura. Tinha dois largos pontões por cima, formando uma espécie de túnel, que, faziam num nível superior, pontes de entrada para duas casas amarelas, grandes, situadas, mesmo em frente à Praça do Mercado Diário. 

Nesses tempos em Beja não havia esgotos.

As carroças da limpeza, como eram designadas, percorriam de madrugada as ruas da cidade recolhendo para despejar os latões que junto das portas se perfilavam impregnando o ar da noite de um odor pestilento

Na Rua do Ulmo as valetas imundas pareciam vazadouros.

A coberto do escuro faziam delas o pior uso. Só no Inverno as chuvadas que a transformavam quase em açude mostravam o brilho das pedras da calçada.

Mas, dizia-se que ali apareciam “avejões”

Por isso, e pelo contraste que aquele ambiente representava nas nossas vidas sempre um apetecido arrepiozinho de curiosidade e medo nos impelia a escolher tal trajecto. Porém, embora, receosas, apressássemos o passo, nunca deixávamos de ir por ali.

Aquela circunstância de ser mal afamada, de aparecerem avejões na zona, despertava a nossa imaginação.

Então, quando o mulherio se injuriava e se batia agarrando-se pelos cabelos, a ordem que recebíamos era de apressar o passo, arrumar á parede e olhar para o chão!

Mas, de pouco valiam os raspanetes ou as ameaças de sermos acusadas de desobediência, porque, nada, nos afastava da tentação daquela bisbilhotice de roçar um mundo escuro que desconhecíamos e que tanto nos intrigava como assustava.

É que toda a nossa esperança consistia na possibilidade de avistarmos um “avejão”.

              

 Nos serões, pelas cozinhas enquanto o pessoal, esfregava a louça nos farelos, para aproveitar a gordura para “os bicos,” nas conversas, fervilhavam referências a esses tais fantasmas que cobertos de mantos brancos soltavam gemidos lúgubres e arrastavam correntes pelo chão como almas penadas.

Os anos correram, os tempos seguiram-se a outros tempos, e uma vez, por uma qualquer ninharia, veio à tona, no meu espírito, esta reminiscência de infância.

Foi então que percebi que os avejões como tudo que se faz e não se assume, nada têm de poético ou romântico.

Aqueles romances de adultério que a cobardia encapotava, criavam os fantasmas que afugentando dos seus trajectos, possíveis curiosos importunos, deixavam libertas de desagradáveis encontros as entradas de serviço por onde se esgueiravam os comparsas das tristes aventuras.

Já não há avejões. São outros os costumes. A moral do nosso tempo, cresceu em condescendência, ou decadência, aqui, a questão – até – se pode considerar pelo critério de cada qual.

             

Mas os “valentes” anónimos que insultam, espalham atoardas, denúncias, mentiras que inventam, emporcalhando mais a sua própria Vida, que, não dignificam, do que os alvos que perseguem, como os avejões fantasmas, sem sombra de dúvida continuam a desprezível senda dos infames.

Escutem-se os “apitos”, os “papéis timbrados”... E tudo o mais que se vê e ouve, por perto ou longe...

  

 Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:20
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7 comentários:
De Dina a 23 de Outubro de 2008 às 00:22
Mais um belíssimo texto...


De Amilcar Martins a 23 de Outubro de 2008 às 00:29
A Dina tem imensa razão.
Realmente a Senhora D. Maria José - neste blog -
tem sempre belissimos textos - eu falo no plural
porque a grande maioria são extremamente belos
e acho que de uma lucidez extrema - o que a mim
muito me agrada.

Concordo consigo - os anónimos são gente que
conspurca os blogs, atirando-os muitas vezes
para o lixo... mas é esta a sociedade que temos...

Um abraço
Muitos Parabens e boa continuação de escritas
fantásticas

Seu admirador

Amilcar Martins


De Sonhadora a 23 de Outubro de 2008 às 00:42
Parabéns por mais este texto...sempre tão rico de pormenores. Na verdade esta sociedade entristece- me, não só pelos anónimos que grassam por aí e não se assumem, como outros que declaradamente afrontam colegas. Apenas se emitem opiniões...mas há pessoas que se julgam senhoras da verdade e do entendimento e desatam ao ataque, de baixo nível, surpreendendo tudo e todos...Desculpe este desabafo. É bom saber que há gente lúcida por aí...
Beijinho
Sonhadora


De maria josé a 24 de Outubro de 2008 às 21:28
Se sonha - acredita.
Eu, também acredito e, por essa razão não fujo ao "combate"
Creio, que muitas vezes , quando as pessoas param para pensar as coisas melhoram e, uma só que assim faça, já tudo fica menos mau.
Não desista de sonhar e, acredite na Vida - vale a pena - creia.
um beijo muito amigo - maria josé


De Gustavo Frederich a 23 de Outubro de 2008 às 01:22
Folhas caídas no chão
Vem o Outono confirmar
As árvores ficam despidas
Até a primavera chegar

Suas folhas em tons verdes
Bem no alto nos mirando
Agora que a ouro passaram
Nossos pés as vão pisando.

Agora são tapetes em ouro
Pisadas por qualquer um
Eram um grande tesouro
Hoje não vos dão valor nenhum

Pisamos vossas vestes majestosas
Nem lembramos que vos vimos dançar
Esquecendo o quanto eram formosas
E quando no calor nos deixavam refrescar.

Para convosco é a crueldade
Porque todos os anos é assim
Vos pisamos sem dó nem piedade
E sua bondade não tem fim.

O céu irão tentar alcançar
E o verde de novo vestir
Só quando a primavera chegar
O sol de ouro as irá cobrir.

Anónimo/a

____________

LIndo Texto o de hoje tia.
Deixo-lhe aqui um poeminha de ninguém... ou
antes de alguém que não deixou rasto.

Beijinhos Tia.

Gus


De Luizinha a 23 de Outubro de 2008 às 01:39
Boa noite tia
Passei para deixar um grande beijinho de amizade
e agradecer as suas queridas palavras.
Gostamos imenso de si.

Seus amigos
Luizinha, Dolores e Avelino

Ah - a minha mãe manda um beijinho mt grande
e especial - está com uma grande gripe e ja está
na cama.

beijinhos

Luizinha


De Damasio Teixeira a 23 de Outubro de 2008 às 18:30
Belissimo texto.
Como sempre BRILHANTE e de uma Lucidez aguçada.
Gosto imenso da sua forma de chegar ao assunto.
Realmente sobre as pessoas que escrevem sob o
anonimato, normalmente, se estão defronte dessas
mesmas pessoas, que desancam nestes meios
- são submissos, serviçais, quase capachos
e incapazes de ser... essa
pessoa enorme, cheia de força - que falam muitas
vezes sem saberem o que dizer.
Uma vergonha de gente incapaz... mas é isto minha
Senhora, em que a sociedade se está a
transformar. O melhor nos blogs é apagar imediatamente esses comentários, cortar-lhes o
pio ou então só aceitar pessoas que tenham
um blog aberto, que se possa observar.
Não se se me fiz entender.
Mas é isto a minha opinião.
Quem quer falar mal - que dê a cara - se é que a tem.
Eu não dou nada a favor desses métodos e podem
apelidar-me de antiguado que não me importa.
Mas... cada um cada qual, cada um sabe de si...
mas na verdade "a vida do outro é melhor para se
olhar e até invejar para sujar" diria um Senhor de 98
que é o meu Pai.

Um abraço e os meus Parabens

Damasio Teixeira


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