Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Rescaldo...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.628 – 19-Outubro-2001

Conversas Soltas

 

O São Mateus já lá vai.

Agora, só para o ano.

Perdeu-se o jeito de referir - a Romaria de Nosso Senhor da Piedade .

Perdeu-se, e – é pena. Porque a feira, nasceu a reboque dela. Da tal romaria que começou a acontecer antes de Maio de 1737 que foi, a data em que se fez a ermida.

A romaria, essa, surgiu quando “o Beneficiado Manoel Antunes, que ali tinha uma horta (refere-se a Horta dos Passarinhos) mandou fazer uma cruz nova e um pintor lhe pintou um Senhor. Começaram a dizer que fazia milagres, e por ser perto da cidade a ir lá muita gente, e dar esmolas, de que se fez a ermida”( excerto, com ortografia actualizada, do diário de João  de Quental Lobo   ) 

Pena, pesar, como dizem os açorianos, que se perca o fio da meada.

Porque, se não fora essa circunstância, apesar da evolução própria dos tempos, sempre havia de persistir bem evidente, ressaltando por cima de tudo a feição de nascença das nossas festas. Alem das cerimónias religiosas A romaria com seus bailes e cantares populares, suas manifestações de fé e de alegria em honra de Nosso Senhor Jesus da Piedade. 

  

Mas, não é assim que caminha a vida...

Os altifalantes, os carrosséis, o barulho infernal, tomaram conta do espaço.

As bandas, já não dão mais concertos nos coretos, não se ouvem as pandeiretas das camponesas e as filas de cadeiras onde o povo se sentava conversando, escutando a música e esperando o fogo, deram lugar a barracas e mais barracas.

Não se preserva o mínimo espaço para salvar o clima de romaria tão especial, tão repassado de fé que está na origem dos festejos.

Tudo é absorvido pela feira igual a quantas feiras se fazem de norte a sul do país, igualmente ruidosas, cheias de bagatelas coloridas, algodão doce. Torrão, pechisbeque...

As feiras têm indiscutivelmente o seu fascínio, mas, são o complemento, o acessório profano que vem, como neste caso, no rasto da força motriz, do acontecimento principal que foi, desde o inicio, o milagre e a consequente romaria.

Mas, as minhas mágoas, não ficam por aqui. E para que fiquem escritas, enumero , pelo menos, algumas.

Todas as terras, têm seus encantos particulares; seus mistérios, seus segredos, Elvas, tinha pequenos tesouros, como flores raras dispersas por aqui e acolá.

Uma gracinha que eu costumava apontar aos visitantes e ,(  sempre fazia sucesso) era um pequeno portão trabalhado em ferro, que rematava uma escadinha que fazia o acesso ao olival que, noutros tempos, povoava o cabeço que delimita o espaço da Igreja de Nosso Senhor Jesus da Piedade.

Era um portãozinho pintado de verde, estilo arte nova, onde as iniciais do dono da propriedade, semi deitadas, faziam parte, como ornamento, do delicado desenho.

Era uma pequena obra de arte.

Também isso se sumiu.

Foi na voragem que delapidou as árvores, frondosas algumas, que ladeavam os pequenos trajectos que ainda existiam das estradas rurais que mantinham o carisma daqueles lugares.

Havia um telurismo latente naquele caminho de peregrinos.

Talvez, eu morra sem entender qual é a necessidade de se chegar ao Santuário em velocidade de rally...

Talvez eu não entenda jamais porque não se preservaram aqueles escassos metros de caminho antigo que poderiam ter sido embelezados, mas, nunca despojados das suas árvores!

Coitadas, podadas como tinham sido... a muitas delas tinha acontecido o mesmo que, àquelas outras, frondosas, centenários, que se encostavam ao Aqueduto, antecedendo as que guarneciam a estrada fazendo alas para todos os elvenses no seu caminhar para a última morada.

Algumas, já mortas, ainda por lá, permanecem de pé, como espectros, lembrando aos homens a sua ingratidão...

Confesso que não entendo. Confesso.

Mas: - uma coisa entendo eu. É que as opiniões divergem.

Não serão umas, nem melhores, nem piores, do que outras, serão, apenas, diferentes.

          E também sei, o tempo mo ensinou, que a idade dá outra perspectiva das coisas, e ensina-nos a valorizar pormenores que quando ainda se tem toda a vida pela frente, nos parecem, por vezes, insignificantes.

Valha-nos isso. Pelo menos, esse mérito, a velhice tem!

Junta lembranças, guarda memórias, evoca minúcias, e ergue a história das pessoas, das coisas, dos lugares...

De algumas recordações, sempre nos haveremos de orgulhar. Por outras sofreremos sem remédio com um travo amargo de saudade.

 E...assim nascem as sagas dos povos...

 

Maria  JoséRijo                                                                                                        

 

estou: 2001

publicado por Maria José Rijo às 22:56
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6 comentários:
De Gustavo Frederich a 19 de Novembro de 2008 às 01:33
Tia querida
Desculpe esta minha ausencia - dirá que ando de
passeio ... mas não - tenho estado muito doente,
com uma gripe enorme, muita febre ... um estado
calamitoso - mas hoje, Graças a Deus e ao Padre Pio
sinto-me muito melhor e vim ver de si.

Vejo que tem postado todos os dias, o que é bom,
muito bom ter um blog tão activo como o seu, como
é bom ter novidades todos os dias.
As actualizações fazem do seu blog um "lugar"
feito de surpresas - como ir a um jardim olhar uma
roseira e todos os dias encontramos folhas novas.

Este texto é uma maravilha. As suas palavras
conseguem mesmo levar-nos ao sítio, e se não se
conhece - pelo menos temos um olhar seu, cujas
palavras nos indicam o caminho e pisando nos
mesmos lugares - olhamos o que a tia olhou...

Gosto de tentar encontrar o caminho que percorreu
em cada texto - confesso - que os que tocam os
assuntos de politica não me interessam muito.
Confesso e desculpe mas... gosto mesmo é de
poesia... no entanto devo dizer-lhe que as suas
abordagens dentro de alguns temas da politica -
estão muito bem pensados e escritos - realmente
a sua lucidez é imensa - como diria o nosso amigo
padre. O nosso e inesquecível padre.

E por padre quero contar-lhe que encontrei, por um
acaso do destino, um novo amigo que estudou o nosso amigo - é o padre Anton - velhote mas que
tem um gosto especial pela poesia.
Imagine esta surpresa.
E já falamos de si, ele ficou interessado na sua
poesia. Depois darei noticias.

Muitos beijinhos Tia Querida

SEu sobrinho (doentinho :) )
Gus


De Dolores a 19 de Novembro de 2008 às 01:41
Querida Tia
Nem imagina como tem sido os nossos dias - depois
do nosso passeio começamos na tarefa de vender certas coisas de casa - e outras coisas - pronto
tentar levar o menos possivel - vamos recomeçar de
novo em FRança.
E seja o que Deus quizer...
Todos os dias temos ido ver a nossa menina e está
a melhorar bastante e rápido parece que não tem
nada daquele problema da mãe (entende -me não é
tia?).
Sei que sim.

E a Tia está bem? Está feliz? Espero e desejo que sim,
que esteja bem de saúde.
Desculpe o nosso silencio mas nem tivemos tempo
para nada.
A nossa menina está a engordar devarinho - mas está
linda - aquele rebento de flor.

Muitos beijinhos Tia e estou contente, posso dizer
qssim - porque tudo acabou - não há mais sofrimento
... mais angustias e impotência...

Beijinhos tia gostamos muito de si

Dolores

Ah é verdade já tenho mais uma pedrinha - no meu
colar - outra pedrinha das tais.

Becitos tia

Dolores


De Xavier Martins a 19 de Novembro de 2008 às 01:45
Mais um excelente texto.
Estou a habituar-me a este seu estilo de bem escrever
e esclarecer quem a lê.
Gosto imenso desta sua forma culta e lucida de
comunicar - de contar - de falar.
Bem haja D. Maria José por ter este blog on line,
onde todos podemos aceder a ele e apreciar
tanta beleza.

Grato sempre

Xavier Martins


De Aristeu a 19 de Novembro de 2008 às 01:56
Oh tia TIA TIIIA
Desculpe o nosso silencio, imperdoavel mas com a
visita do Tio Américo não paramos em ramo verde.
Ora vamos aqui, ali e mais além - os meus velhotes
parece que têm agora 18 anos - não dou conta
deles...

Mas hoje regressamos a casa - finalmente - o Gílio
não saiu - resolveu ficar para acompanhar os
nascimentos dos bezerrinhos da boiada - nem imagina
como ele se transformou - embora os estudos os
tenha jogado para o alto...
Gostava mis que ele estudasse - mas não quer...

O tia Américo vai voltar para Portugal mas gostou
imenso disto e diz que volta - imagine - que vende
tudo o que tem e volta para aqui... - imagina ?!

E a tia como tem passado todo este tempo?
Já terminou a sua exposição?Claro e como foi?
Gostou de tudo, as pessoas apreciaram e suponho
que teve imensas pessoas que aproveitaram a
oportunidade de ver a exposiçaõ, Claro!
Conte-me tudo - se tiver paciência, claro, não quero
sacrifica-la - sei que nem sempre apetece estar de
castigo a responder a tantos comentarios.
Mas - cá fico à espera.

Muitos beijinhos
da sua familia do Brazil
do seu sobrinho especial

Aristeu


De Miguel Batista a 19 de Novembro de 2008 às 01:57
Excelente texto.
Adoro a sua Lucidez e a escolha dos temas.

Muitos Parabens pelo blog é encantador

Miguel Batista


De maria José a 23 de Novembro de 2008 às 21:54
Quando eu era jovem tive uma amiga , idosa como eu sou agora. Era viuva do marechal Gomes da Costa. Então ela dizia : se não querem que eu conte, não falem na minha frente.
É um pouco isso : - os assuntos é que se metem à minha frente...então eu não me calo.
Um abraço
Maria josé


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