Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

A missa das onze!

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.850 – 26-Janeiro-2006

Conversas Soltas

                   Missa Tradicional 02

 Era um dia de semana.

Completavam-se dois anos sobre o falecimento de minha Mãe.

Chamei um táxi. Não tive coragem de enfrentar a subida até “à outra margem do rio “ – é assim que designo a estrada que estabelece os limites às minhas aventuras de deambulação pelas cercanias.

É que “na margem de lá” é tudo a subir até ao viaduto, e não há coração que não se queixe de tão violenta prova de esforço em dias em que o termómetro anuncia como temperatura uma miserável meia dúzia de graus.

Fazer estas considerações, mesmo que intimamente, já me predispunha à melancolia.

Juntar a elas a saudade que me pungia tornava mais pesado ainda o meu estado de espírito.

Foi com este tumulto de emoções que me dirigi à igreja e me dispus a rezar. 

        

Reparei, no entanto, antes de entrar, que a minha respiração fazia uma ténue nuvenzinha de vapor.

Sorri, porque se sobrepôs a tudo, na minha lembrança os meus tempos de criança, com as idas e vindas para a escola, na aldeia, e aquele mesmo desconforto, nas manhãs geladas, das mãos e da ponta do nariz frias como sorvetes.

Entrei e sentei-me num banco ao acaso, na igreja quase vazia.

Olhei em redor. Muito pouca assistência. Dez, doze pessoas! Meia dúzia de velhotas. Apenas um homem ou dois e, também idosos.

Ao meu lado, mais uma, veio tomar assento. Tossia. Tossia muito e querendo-se controlar, mais tossia e mais fungava.

Trago, sempre comigo alguns rebuçados prevendo estes percalços. Ofereci-lhe a mezinha. Aceitou agradecida e voltou a instalar-se o silêncio.

          silencio-j.jpg

Quis embrenhar-me nas minhas orações até o Padre entrar e começar a cerimónia, mas a observação dos circunstantes absorveu-me de forma imperiosa. Cabeças brancas. Quase de neve, algumas. Costas dobradas, xailes gastos, roupas puídas, passos hesitantes, algumas movendo-se com canadianas, rostos desbotados sulcados de fundas rugas, olhares mortiços, e, acima de tudo, expressões patéticas, quase de pasmo e medo por estarem vivas.

Gente solitária que procura na igreja a sua última referência de solidariedade. A sua última esperança de encontrar calor humano.

            

A sua única possibilidade de destino para uma visita onde ninguém torce o nariz com a sua presença triste.

Um pouco de companhia, nem que seja pela curto espaço de tempo de duração de “uma missinha” diária.

Que, quem vive só, não morre. Aparece morto! Dizia com aguda ironia um velho amigo também habitante da solidão.

O Sacerdote, entrou na hora certa. A cerimónia teve a brevidade do costume em dias comuns.

Atrasei-me deliberadamente e saí no fim da fila. À porta parei e olhei para trás genuflectindo antes de transpor o guarda-vento.

Já na rua, vi que o frio abrandara um pouco.

                  chuvinha.bmp

Chuviscara entretanto, mas já escampara. Havia umas pocitas de água no chão, mas a temperatura era mais convidativa.

Voltei para casa a pé.

Andar faz bem. E, sentir o ar lavado da chuva bater-nos no rosto, desanuvia a alma.

De resto, a descer, todos os santos ajudam!

Vim então pensando como são diferentes as cerimónias de Domingo, quando a igreja se enche e os cânticos ressoam pelo interior das naves e o ambiente se torna quente e aconchegante pelo calor humano, com a presença heterogénea da multidão dos fiéis.

               

A multidão!...que cria o ambiente de festa, e que, não é mais do que o somatório de muitos indivíduos, alguns felizes, com seus êxitos, suas alegrias, outros, com suas frustrações, seus medos, sua solidão, suas dúvidas, suas esperanças, sua fé, seu doloroso desamparo, que a multidão dilui e nos facilita a comodidade de ignorá-los.

 

Maria José Rijo

estou: Missa das onze...

publicado por Maria José Rijo às 22:03
| comentar | Favorito
partilhar
8 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 19 de Novembro de 2008 às 23:45
Ohhh Tia Tia
Que LINDO este seu texto. ADOREiiii de verdade.
A tis escreve tão bem que muitas vezes me comovo
com o que aqui nos diz.

Muito, muito obrigado Tia por ter este blog on-line.
É a minha melhor parte do dia - sempre que entro
aqui para a "ouvir".

Sempre grata tia.
Beijinhos de MUITOS PARABENS Tia querida

GISA


De Amilcar Martins a 19 de Novembro de 2008 às 23:48
Mais um texto excelente
De uma imensa sensibilidade.

Gosto imenso da sua forma de escrever. Gostaria eu
de conseguir escrever apenas metade dos textos
que a Senhora aqui tem - e não e inveja é admiração,
admiração total por este blog tão bem feito e de uma
beleza sem igual.

Tem imensa qualidade a sua PROSA e POESIA -
Adoro os seus artigos de opinião.

Muitos Parabens
SEu admirador
Amilcar Martins


De Maria José a 23 de Novembro de 2008 às 21:39
Amilcar Martins
Venho deixar-lhe um abraço grato pela simpatia da sua presença amiga
maria José


De Gustavo Frederich a 20 de Novembro de 2008 às 01:24
LINDO tia
Este seu texto é uma prosa poética (para mim)
de grande qualidade e beleza.
A D O R E I
................. do inicio ao fim.

A tia tem o dom (de muitas vezes) me deixar sem
palavras, só emoção...
Muitos Parabens por mais este texto tão especial.
É sempre bom - voltar a casa...

Muitos beijinhos Tia Querida
Espero que se sinta e esteja muito bem.

Gosto muito de si
Muitos beijinhos do seu sobrinho

GUS


De Maria José a 23 de Novembro de 2008 às 21:11
Meu sobrinho querido - já esteve doente, já se curou e, nem sequer lhe pude fazer um chàzinho de limão, ler um poema, o jornal ou qualquer outra forma de companhia! - paciência! a tamanha distância apenas fica a mágoa da incapacidade.
Mas... mesmo a esta distância participo da alegria de saber que encontrou outro Padre amigo, que tem com quem conversar a gosto e falar da saudade do "nosso Amigo" e do mais que lhe der paz ao coração.
Desde que mudou para Estocolmo que tenho mais dificuldade em imaginar o seu meio.Afora as cartas e uma amiga minha , agrónoma que fez uns estágios por essas paragens e, por cartas me contou imensas curiosidades, ninguém das minhas relações viveu por aí e saber que tem empregados alentejanos intriga-me. Fialho dizia que o alentejano se enforcava na trave do Monte, mas não emigrava! - como não ficar intrigada com esses lá tão longe...
Beijinhos... Tia Zé


De Xavier Martins a 20 de Novembro de 2008 às 01:26
É mesmo como diz o seu sobrinho...
Cara D. Maria José Rijo
Tem aqui textos excelentes, surpreendentes pela
Lucidez, beleza de temas e pela forma especial de
os oferecer a quem os lê.

As suas palavras - são imagens - imagens que eu
gosto de olhar.
MUitos Parabens

SEu amigo e admirador

Xavier Martins


De Maunuel Maria Carmo a 20 de Novembro de 2008 às 13:28
D. Maria José Rijo
Daqui do Porto vai um abraço de Parabens por
ter on line um blog tão LINDO e tão bem feito, em
especial e claro - os seus textos são muito Lucidos e
plenos de um Português optimo.

Gosto imenso da sua Poesia .
Muitos Parabens


Manuel Maria Carmo


De maria José a 23 de Novembro de 2008 às 21:35
Manuel Maria Carmo
Obrigada pela visita e pelo apoio.
o blog só vale a pena se tiver amigos.
Um abraço grato
Maria José


Comentar post

.Maria José Rijo


. ver perfil

. seguir perfil

. 53 seguidores

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
19
21
22
23

24
27
28
29
30


.posts recentes

. São Mateus 2017

. Participação - Programas ...

. Programa de São Mateus 20...

. Carta aos meus queridos A...

. Aniversário do Linhas - 2...

. Viagem a Fátima

. Reportagem do Jornal Linh...

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@