Sábado, 29 de Novembro de 2008

O labirinto

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.696 – 7 Fevereiro de 2003

Conversas Soltas

 

 

Tinha conjecturado falar sobre Sebastião da Gama – poeta cuja obra não me canso de admirar, porque o Linhas de Elvas sai esta semana precisamente a sete de Fevereiro data do aniversário da sua morte, acontecida em 1952.

Tinha...mas não contava ao compulsar o nosso jornal, ser surpreendida pela notícia do falecimento de Mestre Laranjo.

Não o sabia assim doente...

Os dias têm estado de sol, bonitos, cheirosos já de Primavera e, falar de morte, quando a Vida canta hossanas ao Criador em redor de nós, quase parece uma irrealidade.

            

Com aquela vaga sensação de que nos falta o ar sempre que o inesperado de uma notícia dolorosa nos atinge, abri a janela, olhei a Igreja do Senhor Jesus da Piedade – Que é minha vizinha - como gosto de pensar e para ali fiquei enredada num labirinto de lembranças .

Logo à direita, no meu horizonte, pertinho, pertinho, as persianas da casa do Xico Pereira, descidas como pálpebras em olhos fechados que chorassem em silêncio, porque também ele já partiu...

Tão pequeno, tão frágil de figura, como pode deixar tão grande vazio...

À esquerda, a célebre Quinta que vi esfacelar, fala-me ainda que dolorosamente de Amigos Queridos que se sumiram num passado em que ainda, cada palmo daquela terra fértil, floria em amendoeiras, laranjeiras, lilases, roseiras, olaias, tílias seculares, nespereiras, amoreiras, e tudo o mais do mundo vegetal, que em flor, canta promessas em cada Primavera...

Num plano mais recuado, também à minha direita o Aqueduto, que em passadas de gigante (ainda?) vem das nascentes para as fontes dar de beber á Cidade...

O Aqueduto que generosamente tenta furtar dos meus olhos o que o meu coração adivinha e sabe, perto do cipreste que se entrevê através dos arcos...

Este é o meu cenário desde há décadas.

Dentro dele mexiam-se os personagens do meu mundo real. O mesmo mundo que está aí, e já não é o mesmo.

Tudo isto se me impôs, com mais veemência frente à notícia, essa sim, bombástica, das acusações que impendem sobre Carlos Cruz.

Não venho tomar posição, nem a favor nem contra.

Espero e acredito que a Justiça reponha a verdade.

Também não vou falar dos danos morais e do sofrimento que estas situações causam a quem as sofre.

Venho, sim, falar da atroz força que tem o boato. E, faço-o com conhecimento de causa.

Quando da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República, houve pessoas na nossa cidade que disseram no então café Alentejo que me haviam posto fora de suas casas quando lá fui deixar os votos para o Senhor General!!!

Aprendi, com esse facto, que a fantasia da infâmia é ilimitada!

Conto este episódio – Hoje – porque sinto que pode ser esta a minha maneira de estar solidária com o advogado de Elvas, – que não conheço - e com o apresentador de televisão, e com todos aqueles a quem cai na lotaria do azar, ficar, por qualquer razão nas bocas do DIZ-SE.

Verde!!! - Ilha Terceira, Açores

Eu sei por experiência própria o que é a impotência frente a essa calamidade, é tão violenta, tão subjugante, tão aniquiladora, como um terramoto, experiência que também já vivi nos Açores na ilha Terceira em 1980.

 

 Maria José Rijo

 

estou:
música: Texto de 2003

publicado por Maria José Rijo às 23:37
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7 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 30 de Novembro de 2008 às 01:35
Olá tia
Boa noite - como sempre passei para ler a sua
conversa solta.
SEMPRE interessante, LUCIDA e actual.
Gosto muito do seu blog porque - mesmo sendo
textos de anos antigos consegue sempre estar
actual.

Gosto muito de si.
Ahhh e tem sempre fotografias muito bonitas.

Muitos beijinhos e que tenha um bom domingo.

Gisa


De Xavier Martins a 30 de Novembro de 2008 às 01:41
Mais um texto excelente nesta sua colecção
de escritos fabulosos.
Parabens

Xavier Martins


Adoro esta sua lucidez.


De Gustavo Frederich a 30 de Novembro de 2008 às 10:20
Tia querida
Como é bom caminhar a seu lado, pisar os seus
passos e deliciar-me a ouvi-la "falar".
Não calcula como me sabem bem estes pedacinhos
a conversar consigo.

Gosto quando fala assim. Gosto de escuta-la nestas
conversas entre a lembrança, o presente e o passado
dos seus sentimentos, das suas recordações, algumas
doridas, mas com horizontes rasgados para o
futuro.
Essa sua forma de amar a vida, de a respeitar e seguir
em frente, mesmo pisando espinhos, dá-me uma
certa coragem - para eu próprio olhar para dentro
de mim.

Gostei imenso deste texto, da parte poética, dessa
parte que faz parte de si, essa forma especial de
olhar o mundo e de o conseguir mostrar por palavras,
essas palavras com que gosta de brincar.
ADORO estar por aqui.
Obrigado tia por ter este blog tão querido para mim,
aqui nesta Internet que pertence a todos e não é
de nenhum.

Parabens por mais esta maravilha
Seu sobrinho

Gus


De Raimundo Mateus a 30 de Novembro de 2008 às 10:32
Cara Senhora
Hoje tem aqui um texto fabuloso, especial, destes com
que nos tem habituado em todos os dias.
Vivo, neste momento em Portalegre, e foi uma colega
de trabalho que me indicou o seu blog, por o achar
um belo blog cuja escrita é de muito boa qualidade.
Já ando por aqui desde Maio e já consegui ler todo
o blog, todos os textos, todos os poemas - os seus
643 posts - o que devo dizer que é uma soma
consideravel e que muito me agradou e muito.
Reparei neste instante que está quase a atingir os 150.000 visitantes - e que eu sou o nº 149.607 -
o que é muito bom para um blog que está também
e quase a fazer 2 anos de existencia.
Só tenho mesmo que felicita-la - pela beleza do blog,
pela grande qualidade literária tanto em Poesia como em Prosa.
É Muito agradavel estar aqui por estas suas paginas.
PARABENS por tudo

Um seu admirador que aqui deixa o seu primeiro
comentario.
Resto de bom domingo

Raimundo Mateus


De Maria José a 2 de Dezembro de 2008 às 20:28
Raimundo Mateus
Obrigada pelo seu testemunho de apreço. Sabe que a regiâo de Portalegre está muito ligada à minha vida?
Frequentei esse Liceu. Estive aí internada num Colégio de freiras. Estive em tratamento alguns meses numa casa na serra.Conheci aí José Régio que me ofereceu um lindo terço. - Um mundo de recordações, desde a beleza das cerejeiras carregadas de frutos ao perfume das tílias em flor , até à minha curiosidade de aprender a fazer cestos com varas de madeira de souto...
Que lonje já vai esse tempo de juventude!
Um abraço - Maria José
Renovo-lhe os meus agradecimentos


De Margarida Nunes e Costa a 30 de Novembro de 2008 às 14:08
D. Maria José escrevo hoje para lhe dizer que gosto imenso do seu blog.
Gosto muito mesmo da forma como aborda os
assuntos e fala deles com esta especial naturalidade.
Gosto sempre da forma como mostra o texto,
sempre tão bem acompanhado por imagens.
Recordo dois textos que aqui li e nunca mais me esqueci
que foi um chamado Gavetas e um deste Setembro
passado, sobre o São Mateus de Elvas.
As imagens acompanhavam o texto de uma
maneira que me comoveu.

Parabens D. Maria José por ter um blog que reflecte
beleza tanto na prosa ou mesmo na poesia.
Gosto muito de estar aqui consigo.
Muitos Parabens

Sua leitora diária

Margarida Nunes e Costa


De Maria José a 2 de Dezembro de 2008 às 20:57
Margarida Nunes da Costa
Obrigada por ser minha companheira nesta viagem de viver olhando e pensando no que nos cerca.
Muitas pessoas , como a Margarida acharam engraçado o mesmo tema das gavetas. Quando eu era garota gostava de rebaptizar algumas coisas e, por isso dizia sempre : as algibeiras dos móveis e as gavetas dos meus casacos. Daí que fosse tâo ìntima das confusões que nesse mundo de mistério se pode gerar e, também do sortilégio das lembranças.
Beijinhos Margarida e obrigada por ter aparecido.
Maria José


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