Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Às três, é de vez...

Jornal Linhas de Elvas

De 31-Janeiro-2003 – Nº 2.695

Conversas Soltas

 

Por vezes, a televisão, a mesma, que tantas náuseas nos causa com os bombásticos desvarios da sua programação, também nos oferece saudáveis motivos de reflexão.

Embora os noticiários, ponham sempre a tónica no polémico, a verdade é que o hábito de tomar conhecimento do pulsar do mundo através da imagem já se arreigou tanto no nosso espírito que se nos tornou indispensável.

Ver o rosto do cientista, do jogador de futebol ou de qualquer figura em voga, confrontarmo-nos com a visão do acontecimento feliz ou nefasto tem sempre um impacto diferente daquele que nos fornece a leitura da sua descrição, por mais exacta que ela seja.

Essa utilidade, essa função de serviço público, teremos todos que a reconhecer e agradecer à televisão.

Foi num noticiário, bem recente, que vi a figura, quase franzina de um homem, um arquitecto célebre, conhecido em todo o mundo que veio a Portugal, a convite da Câmara de Lisboa, para estudar e resolver o problema da remodelação do Parque Mayer.

Escutei com atenção as suas afirmações e verifiquei que a sua sabedoria e a sua experiência o levaram a dar respostas deste tipo: - tenho que estudar, tenho que conviver com os artistas, tenho que falar com o publico dos espectáculos, com o homem da rua, em suma - tenho de aprender a conhecer, de viver o ambiente até o sentir na pele. Só depois, saberei o que fazer.

          De qualquer modo vai levar muito mais tempo esse estudo do que o projecto propriamente dito.

Fiquei a pensar... a reflectir... talvez por já ter presenciado a leviandade com que se mexe, se altera...se macula, aquilo que por não nos estar na pele, deveria ser – ainda – tratado com mais cautelas.

Quase diria:-  com mais pudor!

Numa outra entrevista, um senhor Ministro, falou, e, muito bem, de cultura, de cultura do poder, como único caminho para deter o império da ignorância.

      Escutando-o nasceu-me uma certa preocupação porque já tenho ouvido muitas vezes, até em meios onde isso pereceria impensável, fazer confusão com o sentido, e o significado, que se atribui à palavra cultura.

Desde a queixa resignada de que não têm culpa que os pais fossem pobres, até ao resmungo de revolta de: - estes gajos lá porque andaram nos estudos e são doutores... etc...etc...etc... sobre este tema surpreendem-nos com frequência as mais diversas e desajustadas reacções.

Acresce, como curiosidade, que algumas vezes, quem assim reage não tendo cultura literária (única que parecem considerar) dispõe de uma cultura específica que se pode chamar até de sabedoria em determinados ramos.

Se as pessoas acreditarem, que (como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen)

 Sophia Mello Breyner Poesia Literatura

“A cultura é higiene, defesa do ambiente, defesa da natureza. E, também as boas maneiras, a forma de pronunciar as palavras a forma de construir e habitar a cidade ou a aldeia a forma de cultivar os campos, a forma de entender o trabalho. E, também a consciência da história e a consciência dos problemas e das possibilidades do presente. Não é apenas a atenção que damos à luz, ao ar, à terra, à água, às outras pessoas. O apoio às mulheres grávidas e à primeira infância, a recuperação e a integração dos deficientes são obrigações sociais mas são também actos criadores que definem a consciência cultural de uma sociedade”

Se calhar, se pensassem nisso, agiriam de formas diferentes.

Até me atrevo a acrescentar:

Se cada um que chega a qualquer forma de poder não começar a sua actuação por destruir a obra do seu antecessor, sem cuidar se era boa ou má, útil ou inútil, apenas com a finalidade néscia de mostrar quem manda...

Se o quadro com o parecer de Sophia de Mello Breyner, ao invés de ter sido tirado da parede da sala de leitura da biblioteca - só porque manda quem pode! - Tivesse sido copiado e multiplicado para fazer parte da decoração de outras salas onde muita criançada aflui, ou adultos se juntam, e servisse de motivo de reflexão...

          

Se...

Talvez, muito “manda-chuva” deixasse de cuspir no chão etc...etc...etc...etc... e, a cultura do poder tornasse o seu exercício tão responsável que muitas decisões só fossem possíveis quando o conhecimento dos problemas fosse tão profundo que fizesse parte da pele de quem as toma.

Talvez, com a consciência da história e a consciência dos problemas e das possibilidades do presentetalvez, com esses valores fazendo parte da pele, se possa entender que – a paz que à noitinha desce sobre a nossa praça maior, com o bafo limpo da respiração do casario adormecido de uma cidade, que tem ali o seu coração desde o recuado ano de 1511, quando El-rei D. Manuel, mandou que ela (praça) “fosse feita e de tal grandeza que nela se possam fazer jogos de canas e correr toiros”- é também património...

Precioso património!

Intocável património!

Já houve a destruição do arco e o acréscimo da Rodoviária... e mais o edifício do Banco...

Às três – se calhar – será de vez...

 

 

Maria José Rijo

 

 

estou:
música: Sophia de Mello Breyner Andresen

publicado por Maria José Rijo às 21:41
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6 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 17 de Dezembro de 2008 às 23:20
Minha e muito querida Tia
Cá estou eu ...
ontem faltei, mas já ca estou de volta.
Adorei o texto de ontem e o de hoje também.

E a tia está bem?
Espero que sim e que esta época de Natal lhe traga
muita alegria.
Eu Adoro o Natal,é uma época tão linda.
A minha mãezinha adorava também o Natal.
Mas então...

Beijinhos tia querida
Gosto muito de si.

Gisa


De Amilcar Martins a 17 de Dezembro de 2008 às 23:23
Mais um belissimo texto.
Realmente a Senhora tem uma vasta obra.
Textos excelentes e de uma lucidez impressionante.

Adoro esta sua forma de escrever.
É sublime.

Os meus sinceros Parabens

Amilcar Martins


De Maria José a 26 de Dezembro de 2008 às 22:00
Amilcar Martins
Venho agradecer os seus generosos comentários e, afirmar que são amigos assim que me dão força para continuar.
Um abraço com desejos de Boas-Festas e tudo de bom para a sua vida.
Maria José


De Dolores a 18 de Dezembro de 2008 às 00:11
Boa noite Tiazinha
Espero que a tia esteja muito bem de saude. Aqui
está muito frio e... não se deixe constipar, nem
adoecer é muita a minha preocupação por si, pode
até parecer-lhe exagero - será - mas para mim não
é.
MAis de um ano que trocamos aqui conversas e
afectos, vidas, alegrias e tristezas - a tia é muito
importante para nós.
Não é a distancia que nos afasta - é o coração
que nos aproxima.

A Magézinha está uma flor, muito esperta e atenta.
Conhece tudo o que falamos. e sorri é muito
simpatica.

O Avelino está deveras contente e como gosta tanto
do que faz - imagine o chefe já reparou na
qualidade e carinho com que ele cuida das plantas
pelo que - quem sabe - um aumentozito não
calhava nada mal...

Cuide-se tia, por favor. Proteja-se do frio.
beijinhos desta sua familia (agora) na França

DO LO RES
Magé
Avelino


De Aristeu a 18 de Dezembro de 2008 às 01:22
Olá tia
Hoje estou mesmo sem tempo...
Passei só para deixar um Grande , grande beijinho
Por aqui tudo Ok.
E por aí, consigo, espero que também esteja de
saude.

beijinhos

Aristeu


De Xavier Martins a 18 de Dezembro de 2008 às 01:28
Sra. D. Maria José Rijo

Como sempre - a que estamos habituados - o seu
blog tem sempre umas postagens especiais - tem
textos sempre - porque é mesmo SEMPRE - textos
de uma beleza, lucidez e forma - que me agradam
bastante.

Mais um nesta bela lista - sem esquecer as imagens
que nos indicam por vezes o caminho e nos levam
no sentido das suas palavras.

Parabens
Um abraço

Seu admirador de todos os dias

Xavier Martins


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