Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Lembranças de Natal

Revista – Norte Alentejo

Nº 7 – Dezembro/Natal de 2000

Crónica 

Li, algures, uma frase que fixei e dizia assim: “não se deve voltar aos lugares que a infância mitificou.”

Logo, logo, por vezes, nem sabemos o porquê de fixar coisas que até parecem desligadas de toda e qualquer preocupação ou pensamento que tivesse aflorado alguma vez ao nosso espírito. Porém, o tempo passa, e um dia, sem mais nem menos, a frase volta à nossa consciência e apreende-se-lhe o sentido e a ligação que afinal tem com dúvidas e apreensões em que o nosso pensamento já se detivera, embora um pouco à margem da nossa vontade determinada de o fazer.

Mais uma vez assim aconteceu.

          

O Natal aproxima-se. Quer queiramos, quer não, essa vizinhança, mais ou menos intensamente assoma a todos os espíritos. Ocupa e preocupa, alegra ou ensombra ou ilumina todos os corações.

Todos os dias são dias. Têm as mesmas horas, minutos e segundos. Amanhecem e anoitecem dentro dos tempos previstos, mas...

Mas...basta que a um deles, um apenas, se designe por: - NATAL – para o tornar diferente.

        

É como que um toque de alarme, uma veemente chamada de atenção, um alerta, um grito de alvorada que acorda em todos os corações o sentido do Bem, da Fraternidade, da Paz, da percepção intima de como seria a Vida se fossemos capazes de ser Irmãos do nosso próximo...e, ao mesmo tempo, da esperança de que isso ainda possa acontecer – sempre possa acontecer...

Então afluem-nos à lembrança memórias antigas, de Natais passados, de Natais de infância quando a inocência traçava os horizontes do nosso pequeno mundo de crianças e o pai Natal era um personagem de verdade e, todos os meninos tinham sapatos para por à chaminé, e, a nenhum deles era recusado o brinquedo dos seus sonhos...

        

Natais de ilusão, Natais como se sonham, Natais como se desejam, Natais em que se crê e, que, quem sabe! Talvez ainda possam vir a acontecer...porque, todos sabemos que é da massa dos Homens que se fazem os Santos...

Mas o que me prendeu a atenção, o que me deteve e fez pensar foi a recordação daquela frase: “não se deve voltar aos locais que a infância mitificou”

Penso que mesmo quando alguém de entre nós, diz, com a maior convicção: estou a ver como se fosse agora, ou, lembro-me exactamente como tudo se passou; acima de tudo o que recorda é a emoção que a sua sensibilidade guardou. Não propriamente toda a minúcia do acontecimento em si. Cujos contornos se esfumam num passado por vezes já bem distante.

               

A grandeza das casas, as dimensões gigantescas que tudo parecia ter, tudo isso tem muito mais a ver com o nosso próprio tamanho de então do que com a realidade existente.

Ainda agora me apareceu com uma nitidez impressionante a cena repetida em cada ano do cantar das janeiras. Era sempre na véspera de Ano Novo e na véspera do dia de Reis.

Era sacramental ir verificar à dispensa o ponto de “desgaste” estavam dos alguidares das filhós e dos “borrachos” Sobre bancos de madeira, lá estavam, como nos dias da amassadura, enormes, vermelhos e brilhantes na belezura singela do barro vidrado... Levantava-se o” panal” avaliava-se se a quantidade existente chegaria para as “molhaduras” aviava-se melhor o prato do açúcar com canela para a farta polvilhadela, que perfumava e adocicava a massa frita. Fazia-se balanço à canastra das laranjas, ao prato dos chouriços, cuidava-se para que tudo estivesse a postos pois era certo e sabido que de tarde viriam os ranchos de crianças, e, à noitinha mulheres e homens embiocadas em xailes elas, em capotes e mantas, eles.

As cantigas eram sempre as mesmas: - viva a menina Fulana – raminho de salsa crua – aos pés da sua cama nasce o sol e põe-se a lua!

e-natal.gif

A garotada depois de cantar repetia em coro: - trago um saco, trago um saco. Não me dê bolotas que caem pelo buraco!

Estou a ver as carinhas, sujas, às vezes, com os narizes vermelhos de frio e um jeito pedinchão no olhar humilde.

Entravam acanhados, contrafeitos, na cozinha. Comiam de pé, enchiam o chão de migalhas. Bebiam café de cevada quentinho e levavam no saco figos secos, laranjas e rebuçados.

Os homens. mais afoitos não deixavam de pedir cantando : daqui d’onde eu estou bem vejo o canivete a bailar - para cortar a chouriça que a senhora me há-de dar. Ou: - a patroa desta casa - está sentada ao rés do lume - para dar esmolas se alevanta - que é esse o seu costume.

Porém, antes, desfiavam um sem número de quadras, mais ou menos de pé quebrado, de que as festividades natalícias eram o tema.

Cantamos os Santos Rezes – que é a nossa tradição - para saudar o Deus  Menino - que é a nossa salvação! -. Esta noite é de janeiras – é de grande merecimento – por ser a noite primeira – que Jesus passou tormento! - Juntaram-se os três reis magos, – todos três em romaria, – para adorar o deus Menino, - filho da Virgem Maria

Caminham os três reis magos, – para Belém em silêncio, – a oferecer a Deus menino, – mirra, oiro e incenso!

          chegada_reis_magos.gif

Terminada a cantoria, sempre impressionante pela qualidade das vozes que em coro espontaneamente afinado, quebravam o silêncio da noite, naquele misto de prece e pranto que é o cantar do Baixo Alentejo, era chegada a vez de darem entrada na cozinha. Traziam nas roupas cheiros da noite, de lume de lenha, tabaco de onça, vinho... Falavam com vozes grossas. Só o suficiente para agradecerem. Bebiam a aguardente de um trago só. Raspavam as gargantas, cuspinhavam! - Mal petiscavam dos fritos. Partiam para cantar a outras portas, só das casas que de antemão sabiam os iriam receber e lhes dariam uma ou outra peça de fumeiro, ou naco avultado de toucinho das matanças do Natal.

       postal de Natal.jpg

Vão anos que nem quero contar entre estas lembranças e os tempos de agora.

Pela lembrança revejo-os.

Voltar aos mesmos lugares, seria matar, destruir de vez o que o tempo, sempre nos permite conservar: - a recordação.

Sim. Concordo plenamente: - não se deve procurar reviver o que a infância mitificou...

 

Maria José Rijo

                             

estou: lembranças de Natal

publicado por Maria José Rijo às 23:12
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9 comentários:
De artesaoocioso a 19 de Dezembro de 2008 às 00:11
Ateu confesso não encontra forma de conciliar a natureza humana com as histórias sobre Belém
Reis em Belém, quais?
Outra coisa era a tradição que refere no seu belo post .
É um prazer visitar o blogue e apreciar a escrita que desliza, suave, elegante.
Cumprimentos... e Feliz Natal é o meu voto sincero.


De Maria José a 26 de Dezembro de 2008 às 21:38
Artesãocioso
Meu Pai costumava dizer por graça: ateu, graças a Deus!
Lembrei-me disso e enterneci-me
Boas -festas e obrigada pela presença
Maria José


De Adalgisa Alexandra a 19 de Dezembro de 2008 às 00:44
Concordo com o comentario anterior.
Realmente o blog da minha Tia é uma linda
Maravilha.
Muitos e muitos beijinhos


Gisa


De Dolores e Avelino a 19 de Dezembro de 2008 às 01:51
Ohh Tia tiazinha
Mas a Tia tem com cada texto mais lindo que o
outro.
Parabens minha querida.
Que linda maravilha.

A tia é realmente um ser muito especial.
Muitos beijinhos


Dolores Avelinos
e muitos beijinhos para si
da Magézinha


De Gustavo Frederich a 19 de Dezembro de 2008 às 01:55
Olá tiazinha
Cá estou eu... de volta...
é que tenho tido tanto trabalho nas galerias
que nem tenho tempo para mais nada.

Agora que a calma regressou já li tudo o que tinha
direito e estou Feliz porque o seu universo é pintado
de lindas estrelas - que eu gosto tanto de olhar.

Este seu texto é um hino, mais um , tem muitos.
Gosto do Natal assim - como recorda, genuino e
lindo...
Parabens Tia
Gosto muito de si.

Seu sobrinho

Gus


De aquimetem a 19 de Dezembro de 2008 às 10:57
Só para desejar um Santo Natal e Feliz 2009, com saúde, paz e alegria! O resto vem por acréscimo . Felicidades e sempre a brilhar na blogosfera .


De eva a 19 de Dezembro de 2008 às 18:24
Cara Maria José, por vezes há razões que, por mais que as alinhavemos, não explicam coisa nenhuma e as que eu pudesse ir aduzindo para a minha ausência quer do seu blog, quer da sua obra, nem a mim satisfazem porque, em verdade, não existem de todo a não ser por uma razoável indisciplina de tempo.
Mas o que é passado já só pode ser melhorado no futuro pelo que espero que assim seja.
Aproveito para lhe dizer que tendo sido solicitada a indicar alguns blogs da minha preferência, referi também o seu, que continua a ser um acolhedor cantinho de lucidez e carinho.
E aproveito também para desejar um Santo e Feliz Natal para a Maria José e todos os que lhe são queridos.
E que assim possa ser!
Abraço


De Xavier Martins a 20 de Dezembro de 2008 às 01:01
Minha Boa Amiga
Desculpe a minha ausencia deste seu Lindo blog.
Mas parece que a tristeza anda na perseguição da
minha gente.
No inicio desta semana uns familiares sofreram um
acidente de viação e faleceram numa estrada do
Porto, na quarta feira, aqui mesmo em Lisboa, o meu
cunhado sofreu um avc e morreu sem conseguir
auxilio eficaz...
Desgraças - três pessoas só numa semana...
Estou muito triste como pode calcular, mas parece
que a vida tem destas coisas, quando menos se
espera vem um destes golpes e a vida roda 360 graus
...
Mas...
Estive a ler este seu texto e todos os dos dias
anteriores.
É um prazer poder ler esta sua prosa. É maravilhosa
e posso dizer-lhe que transmite paz, esta sua
segurança, não sei como expressar - mas uma certa
tranquilidade se absorve nestas leituras.

E a Senhora está bem de saude?
Espero e desejo que sim.

Ter estes seus blogs para ler e ver e sorrir - é muito
bom para mim.
Grato e não deixe de postar.

SEu amigo e leitor assiduo

Xavier Martins


De Maria José a 26 de Dezembro de 2008 às 11:37
Xavier Martins
Desde que li a sua mensagem que desejei deixar-lhes aqui um abraço de solidariedade para sua mulher e para si e, dizer-lhe como desejei que o Natal vos desse a paz interior e a aceitação de que os vossos corações precisam - mas...uma coisa é o que se deseja , e, outra, aquilo que por vezes conseguimos realizar.
Resolvi este ano, passar estas festas, sòzinha na minha casa. Foi um pé de vento com a família e com os amigos que me queriam forçar a desistir do meu propósito, mas... logo que consegui a anuência de minha irmã, ganhei a causa.É que ela , tal como eu, sabe como é difícil andar de Herodes para Pilatos ,com as nossas idades, especialmente no Inverno.
Assim que fiz uma espécie de hibernação que, tal como desejava, me soube bem.
Desliguei do mundo exterior, ouvi música, revivi interiormente lembranças e saudades e passei bem, graças a Deus.
Explicada que está a minha aparente falta de estima, resta-me agradecer-lhe toda a atenção que me dispensa e desejar-vos tudo de bom
Maria José


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