Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Elos da mesma cadeia”

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.463 – 24-Julho-1998

Conversas Soltas

 

              

Isto de ter fé – fé no sentido de não ter dúvidas de que na vida – (e, aqui apetece-me escrever Vida com letra maiúscula - como me ensinaram que Sebastião da Gama no sua deslumbrada gratidão por esse Dom de Deus, sempre fazia,) – isto, dizia eu, de sentir que até a erva mais rasteira tem sentido na criação – obriga-nos a uma postura de humildade que paradoxalmente nos conduz a atitudes, por vezes muito controversas.

                    SebastiaoGama.jpg

Penso que a coragem faz parte da dignidade de ser humilde!

E, porque assim creio, e creio-o firmemente, obrigo-me, por desígnio íntimo e irrecusável a criar o meu próprio desconforto em troca de um bem maior que considero imprescindível: a minha paz interior, resultante do meu esforço de coerência entre ser e parecer.

Tenho aqui, frente aos meus olhos, pano para mangas, como é de uso dizer-se quando se olha, quer entender o caminho dos acontecimentos e nos obrigamos, por consciência cívica a reflectir sobre o que se vê fazer, e o que se intui como motivação e causa do que vai acontecendo.

Claro que muitas e muitas vezes a dúvida se apossa de nós. Longe que estamos de nos pensarmos melhores do que outros e sempre conscientes da fragilidade intrínseca à condição de sermos gente e, como tal, falíveis.

Então, aí, como conta a oração das” Pegadas ”, Deus, por vezes compadece-se e leva-nos ao colo e a gente entende em vozes com outro eco a justiça de alguns dos nossos reparos e só tem que ajoelhar dentro do seu próprio coração, agradecer e aceitar a ajuda e o ensinamento que com tanta misericórdia nos é oferecido.

Mais uma vez assim aconteceu.

Daí, que, sem comentários, me permita citar alguns excertos de dois artigos insertos na revistaA Grande Reportagem – deste mês de Julho

Está lá escrito assim:

“A especulação imobiliária, a selvajaria urbanística, a devastação ambiental e paisagística, só terão fim no dia em que as autarquias deixarem de receber receitas da sisa e da contribuição autárquica. No dia em que a sua única fonte de financiamento for o Orçamento do Estado e em dependência do cumprimento das leis e dos planos aprovados.

Enquanto isso não sucede, os autarcas continuarão alegremente a autorizar tudo e mais alguma coisa. Porque, quanto mais autorizarem, mais receitas têm; e, quanto mais receitas tiverem, mais “obra” mostrarão; e, quanto mais “obra” mostrarem, mais votos colherão.

Este sistema de gestão local é apenas uma forma de democracia corrompida, na sua essência. Quando falo em corrupção, não me refiro apenas aos que metem dinheiro ao bolso, a troco de contrapartidas. Refiro-me também a este sistema instalado na gestão das autarquias, em que se trocam urbanizações e “contrapartidas” por vitórias eleitorais”.

Espero ter aguçado o apetite daqueles que se interessam pelo futuro e bem-estar das suas terras para a lucidez, coragem e honestidade que transpiram deste texto de Miguel de Sousa Tavares.

Sobre a gravidade destas situações traz a mesma revista um artigo sobre a trágica maneira como a “ferro e betão” se está descaracterizando a lendária beleza de Sintra.

Assina a denúncia Pedro Almeida Vieira.

Vale a pena deixar um pouco de lado o nosso comodismo e tomar contacto com a escrita de quem não se esconde, e, muito pelo contrário, sem ambiguidades afirma:

“Com a maioria absoluta, Edite Estrela ficou com “a faca e o queijo na mão ”.E decidiu fazer renascer das cinzas a versão com maiores índices de ocupação urbana e de solo urbanizável ”

Em tempos chamou-se orgulhosamente à Quinta do Bispo «a Versalhes »

Chamemos-lhe agora piedosamente “a nossa versão de Sintra”

turistas

Depois, pasmemos de como se pode ter a coragem de tentar cativar para Elvas os turistas que demandam a Expo alardeando (como num belo e recente folheto se faz) as maravilhas dos bens que, sem pejo nem mágoa, tão afoitamente se destroem.

Ao enumerar as belezas de Elvas pode ler-se assim:”a paisagem preservada dos arredores da cidade”

Vou só fixar a minha atenção no que da minha janela os meus olhos abarcam.

Será que se referem ao cabeço pelado onde havia um velho olival (testemunha viva da história do Santuário) – destruído sem ressalva de uma faixa que fazendo fronteira mantivesse o carisma do local e, para onde, se sonha agora, um loteamento que há-de permitir que se sacudam os tapetes das habitações para cima da procissão dos Pendões?

Será que já se evoca o desequilíbrio da qualidade de vida que os prédios projectados para a Quinta do Bispo – violentamente morta à sede – vão gerar com a sua sobrecarga da densidade populacional – para alem do mais já dito e redito?

          Será que meu filho usa drogas

Será que o nosso brio de cidadãos pode permitir mais horrores como aquela monstruosidade cortando a linha do horizonte a quem alargar o olhar para os lados do bairro Europa?

Tudo isto e muito mais se encadeia. Só que os elos desta mesma cadeia são fundidos com a nossa complacência...

Quem somos nós afinal?

Soubera eu a resposta! - Que vo-la daria já.

Isso posso assegurar.

 

 

Maria José Rijo

 

estou: 1988
música: Elos da mesma cadeia...

publicado por Maria José Rijo às 21:27
| comentar | Favorito
partilhar
1 comentário:
De Flor do Cardo a 6 de Janeiro de 2009 às 23:35
Minha Boa amiga
Hoje em dia de Reis cá estou eu.
Li o seu belo texto e lembrei-me de que quando
vibia em Elvas, muitas vezes ouvia pessoas que
a criticavam - e sempre pensei - que quem criticava
sem motivos -
afinal nos seus textos existe muitas
verdade que muitos (ou por não terem cabeça ou
consciencia de nada da vida) -
- tudo reside na inveja - é pois - invejam
a sua frontalidade - porque diz o que tem a dizer,
sem se esconder por detras do anonimato, nem
por estupidos pseudónios (o que acontece
actualmente pela internet) - sei porque até leio -
ou antes lia alguns - uma miséria de gente invejosa.
- enquanto que a Senhora escreve e assina tudo o
que é de seu punho.
Os jornais são testemunhas disso - eu também e
parte da cidade que tem consciencia também.
E isto porquê - porque estou eu a escrever esta
minha opinião.
Porque me apetece dizer a verdade - porque é a
verdade e ponto final.

Pareço-lhe zangado? - Mas não estou é apenas um
pedacinho de raiva que veio com algumas lembranças
antigas... e modernas...
São coisas da vida... só que anda embuçado é que se
não molha...

Mas... mais um belissimo texto - como sempre.
Muitos Parabens .
Seu muito amigo
Luciano

Ah - já estou perfeitamente de saúde, o sono
passou-me e estou novamente um rapazinho de
18 anos.

Um grande abraço

Luciano


Comentar post

.Maria José Rijo


. ver perfil

. seguir perfil

. 53 seguidores

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
19
21
22
23

24
27
28
29
30


.posts recentes

. São Mateus 2017

. Participação - Programas ...

. Programa de São Mateus 20...

. Carta aos meus queridos A...

. Aniversário do Linhas - 2...

. Viagem a Fátima

. Reportagem do Jornal Linh...

. Parabéns Avelino

. Parabéns Luciano

. CONVITE

.arquivos

.tags

. todas as tags

. Dia de Anos

. Então como é ?!

. Em nome de quem se cala.....

. Amarga Lucidez

. Com água no bico

. Elvas com alguma rima e ....

. 28 de Fevereiro...

. Obras do Cadete

. REGRESSO

. Feição de nobreza

.links

.Contador desde- 7-2-2007

Nova Contagem-17-4-2009 - @@@@@@@@@@@@@@@@ @@@@@@@@@@@@@@@

@@@@@@@@@@@@@@@ A Seguir-nos por aqui. Obrigado @@@@@@@@@@@@@@@@ free counters
Free counters @@@@@@

.Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

.ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@

.LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@