Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Mudanças… São comigo…

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.297 – 28 – Abril – 1995

Conversas Soltas

 

 

Quando abri o último “Linhas” e vi que já não “morava” no mesmo lugar – fiquei a pensar que isto de mudanças tem que ver comigo.

Coisas do destino.

Só de terra mudei: - Moura Faro Santa-Vitória - BejaÉvoraCubaElvasCadas da Rainha GuardaTomar – de novo Beja Elvas Ilha Terceira Lisboa e finalmente Elvas onde conto permanecer até ao fim.

Isto, sem falar nos “entre-postos” onde só ficamos escassos meses.

Mas… continuando…

Durante anos e anos tive neste jornal uma casinha alta, de fachada estreita, numa faceira certa onde um grande Amigo me fez lugar.

Um dia, de combinação com meu marido abriram-me um postiguinho e puseram-me nele a espreitar cá para fora.

Não me agradou em especial. Gosto da meia-luz, um canto sossegado, os livros a jeito, tudo recatado e discreto – música de fundo.

É no segredo da terra que a semente germina sem alardes. Porém, foi assim, foi muito bem e os tempos foram correndo tranquilos.

Eu sabia o tamanho da minha morada e tinha a prudência de não arranjar “mobília” demais para não causar confusões.

Mas a vida é feita de mudança.

               Inês de Castro - estátua jacente ao Mosteiro de Alcobaça

E, tal como a “linda Inês posta em sossego naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito” um dia a tristeza veio para ficar comigo.

Encheu-me a casa.

Fechei a janela e mudei-me – pensando que para sempre – para o meu magoado silêncio.

Lá fora a vida corria.

Não para a vida. Renova-se e recria-se a cada hora – a cada instante – agora e sempre.

E, manda ela, – a Vida – que cada pessoa se habitue ao peso de cada dia como cada árvore se conforma com o peso de cada folha nova ou … a falta delas – e viva com os novos contornos que ela talha e impõe.

Assim fui vivendo.

Assim vou vivendo.

Velhos hábitos, velhos gostos, a pouco e pouco insinuam-se primeiro como lembranças – depois com a força e a persistência – quase de ócios.

Olhem-se lápis, canetas, papéis – que se haviam tornado coisas vazias de sentido e inúteis – com a ternura de amigos que se reencontram…

… O que eu gostava disto – diz a memória.

… O que eu gosto disto – diz a consciência.

E as mãos, descomandadas agarram a molhada de esferográficas – inúteis há tanto tempo.

São bonitas.

São coloridas.

Têm legendas… têm “origens” – comércio, banca, política…

Tantas ainda escrevem! – Que bom!

E, de repente, um arabesco, uma palavra, um pensamento – um poeminha fica no papel:

 

Queria fugir desta saudade

Como quem muda de País…

Mudar de coração

Arrancar-me de raiz

De tudo o que já vivi

Queria sair de mim

E, ser por inteiro

A memória de nós

Sem sofrimento…

 

Reage-se.

Recusa-se a lágrima.

Ajeita-se na jarra um botão de rosa,

Decide-se: - Alternativa – precisa-se!

- Urgentemente!

Tudo serve.

Abre-se a televisão.

“Há sempre uma novela inesperada que espera por si”, - (Bem podia ser o slogan)

Reaprende-se o sorriso.

Reaprende-se o trabalho costumeiro.

Não se volta ao passado – mas – não se foge do passado.

Guarda-se o passado dentro de nós e aprende-se a viver com ele.

E, o ponto de Arraiolos, ou o “crochet” mais da nossa feição – (nem que seja, pintar ou escrever) – reganha os tempos de rame-rame costumeiros e instala-se definitivamente.

Assim, voltei ao “meu Linhas”.

Era agora um prédio novo.

Caiado de fresco.

Gente nova. Remexida. Inquieta.

Receberam-me com afecto. Ternurentos. Queridos.

Mudam-me de sítios todos os dias – quase!

Já moro à esquerda. À direita. Em baixo. Em cima!

Mudanças – são comigo!

Há pouco vivi num rés-do-chão nobre, com vistas para a frente.

E, se “pela andança e pela corda da roupa se mede a vizinhança” – bem avizinhada ali eu vivia… como se sabe!

Agora – eis que – me vejo situada num andar de belas vistas – virado para a nascente – quero dizer: - com o sol pela frente. ( E não me saiu a casa cheia!)

 

Ora, se é verdade que tenho saudades daquele espaço medido, como um lugar no coração dum Amigo com que sempre se contava…

Se é verdade…

Também é certo que já me habituei ao imprevisto – que me oferece a juventude de quem agora comanda o “meu Linhas”.

Malta fixe!

Bué de boa!

 

Maria José Rijo

 

estou: 1995
música: Mudanças...

publicado por Maria José Rijo às 23:26
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5 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 16 de Janeiro de 2009 às 00:20
Querida Tia
Adorei este seu texto, é lindo , muito bonito.
A cada dia tem textos mais bonitos.

Muitos Parabens por mais este.

Mil beijinhos Tiazinha

Gisa


De Adelaide Matias a 16 de Janeiro de 2009 às 01:21
São sempre
Tão interessantes os seus artigos.
Que pena que eu não viva nessa sua cidade desde
sempre. assim tinha tido contacto com estas
maravilhas tão mais cedo.
Mas agora que a conheço estou cá tidos os dias
porque ADORO ler os seus artigos.
Ainda bem que a Senhora tem este blog que pode
levar estas maravilhas a todos os lugares do
mundo.

Muitos Parabens
Desta sua e muito amiga

Adelaide Matias


De Dina a 16 de Janeiro de 2009 às 01:48
Mudanças...também são comigo. Já mudei tantas vezes de casa e de terra...de vida...de sonhos...a única coisa que não mudou foi a minha capacidade de acreditar, sobretudo nos outros, mas lá que tem vindo a diminuir...lá isso tem.


De Aristeu a 16 de Janeiro de 2009 às 02:11
... por isso é que durante tantos anos deixei
de a encontrar...
Mas quando a via... que feliz eu ficava...
O menino de então recorda, hoje, tantos
lugares de passagem - de apenas olhar de longe,
mas sempre aquele sorriso e um adeus , de longe
e aquele lindo sorriso - não me esqueço nunca.

Tia querida
Gostei.
Sinceramente gostei do texto - onde e tão bem
fala da pagina em que esteve, está... lá no jornal.
Eu especialmente gostava de a ver - logo na
primeira página - nos A Lá Minute - o meu Pai
fala muito do Ernesto, o fundador do Linhas, que
muito gostava dos seus artigos, aliás como então
muita gente (como hoje presumo) gostam de ler,
e continuar a ler os seus artigos. Sempre tão bem
redigidos, tão elegantes, lucidos e sempre verdadeiros.
A minha Mãe guardava-os religiosamente, depois
dela partir eu e o mau Pai continuamos com o
mesmo orgulho e podemos dizer que temos todos
os seus artigos do Linhas, Despertador, Dia, revistas
eu sei lá que mais - penso que tudo.
E estamos muito contentes com isso.

Parabens tia por nos ter dado sempre artigos,
belos textos que tanto gostamos.
Obrigado agora por este blog onde podemos
ler e reler tão maravilhosa prosa e poesia.

Muitos beijinhos minha Tia

Aristeu


De António Piedade a 16 de Janeiro de 2009 às 19:30
Minha Senhora
Tem aqui um excelente texto.
MAIS um exceente texto para juntar aos muitos
e especiais textos deste magnifico blog.

Muitos Parabens

António Piedade


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