Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Lembremos Sebastião da Gama

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.293 – de 31 de Março de 1995

Conversas Soltas

                                               o poeta, o professor, o homem 

Desde que, há anos – que já nem posso contar -me caiu sob os olhos um poema de Sebastião da Gama, ganhei o gosto de ir lendo tudo quanto dele, se fosse publicando.

Depois, por acaso, cruzei-me, nestes caminhos de viver com grandes amigos seus profundos conhecedores e apaixonados da sua obra.

Pelo Sonho é que vamos

Antigos companheiros de Faculdade que, se recordavam do Poeta pela qualidade dos seus poemas, amassavam sempre essas lembranças com a qualidade do Homem que Sebastião era – que Sebastião – foi.

Pelo que dele ia sabendo, quer através da saudade da Matilde Araújo, quer pela evocação de João Falcato, colhi a certeza de que toda a gente – toda a gente sem excepção – que um dia conheceu Sebastião da Gama – à sua maneira – amou esse Homem Poeta – mesmo quando dele não sabia dizer, de cor, qualquer verso.

 

Para completar esta “devoção” tivemos, meu marido e eu, a oportunidade de privar durante algum tempo com os Pais e irmão de Sebastião que tinham uma “Estalagem” na Serra da Arrábida para onde costumávamos ir no Verão.

               Arrabida

Foi através das pequeninas histórias da infância de Sebastião que sua doce Mãe me contava que “aprendi” a ver o menino me contava que “aprendi” a ver o menino que ele fora, ali mesmo, no coração da “Serra Mãe” que tanto sustentou a sua alma de Poeta.

Ora, não é que um dia, o acaso trouxe até mim: - Joana Luísa - sua mulher!

Pois, foi agora, de suas mãos, que recebi, enternecida e muito grata, um exemplar do primeiro volume das suas cartas.

Cartas que se lêem a correr, a correr, com pressa de chegar ao fim. Para depois serem relidas, uma e outra, outras vezes, com vagar – para lhes tomar melhor o gosto.

 

Cartas, de que se decoram sem dar por isso, retalhinhos – palavras – versos – intenções, que nos ficam no coração e nos adoçam a vida.

A edição é: “Ática”.

A introdução, selecção e notas é de Joana Luísa da Gama.

O prefácio é de Maria de Lurdes Belchior que a certo passo diz:”… O poeta tem a consciência da “diferença” e o leitor das suas cartas admira nelas a espontaneidade, a beleza, a generosidade, e vai decifrando, deslumbrado, o itinerário de um homem bom”

“… O seu convívio quotidiano revelano-lo como um extrovertido, em certas horas esfuziante de alegria, sempre atento aos outros, em especial os mais humildes”.

“…Mas por detrás do homem comunicativo, brincalhão, há o outro, o que sofre interiormente as agruras de medos e pavores que só Deus serena.”

Há nestas cartas/textos de autologia sobre o conceito ou conceitos de poesia que são os meus, há alusões aos poetas que admira e que considera seus mestres.

Apenas duas ou três citações que o testemunham assim:

Cheguei à conclusão de que a missão do Poeta é, não só explicar aos outros a grandeza da Criação Divina, – e nisso há também grandeza ou, antes bondade de Deus em no-la mostrar mas tentar o aperfeiçoamento do Homem.

Ou

Os meus versos são uma espécie de montra onde eu exponho toda a minha alma.

Ou ainda:

Sabes qual é o único projecto que eu tenho no campo da minha Poesia?

É conservar-lhe sempre a honestidade e o tom íntimo…

 

… O leitor terá de entender ou pelo menos respeitar os códigos por que se pautou a vida do poeta que se propunha:

Converter as coisas, procurar toda a beleza contida nas coisas, para se não viver em vão”.

- Julgo que se alguém esteve comigo nesta Conversa Solta – até aqui – só terá agora que ler o livro de que estivéssemos a falar e abre com este pequeno poema:

 

Aconchega-te, Amor, em minha vida

Entra na minha vida e fica lá,

Sem ocupar lugar.

Que eu te não veja com os olhos querida,

 

Que não sinta sequer que tu ficaste,

Mas adivinha que sem ti ali

À minha vida, quarto aonde entraste,

nem ao menos podia chamar vida

 

Sebastião da Gama

Azeitão, 25 de Julho de 1944

 

Acho.

Acho, mesmo, que este é o recadinho do mais íntimo da nossa alma que, qualquer um de nós – sem disso se dar conta – quis, pelo menos uma vez, enviar a alguém…

Ser poeta é também isso: anseio de mais alto, entrega e cumplicidade com o mistério das coisas.

Das palavras que Joana Luísa escreveu – nada direi.

Fixo-me apenas no que ela fez.

Ela, deu-nos estas cartas.

Rendo-me à sua corajosa generosidade tão à medida de Sebastião Artur e abraço-a:

Obrigada!

 

 

Maria José Rijo

.

 

Biografia de Sebastião da Gama

estou: 1995
música: Lembremos Sebastião da Gama

publicado por Maria José Rijo às 16:58
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8 comentários:
De Gustavo Frederich a 19 de Janeiro de 2009 às 21:44
Sebastião da Gama
é um Poeta que muito me interessa porque, por
vezes me identifico com o seu sentir.
.
Pequeno poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
.
Gosto deste poema e também
.
O Sonho

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.
.
ou ainda
.
Madrigal

A minha história é simples.

A tua, meu Amor,

é bem mais simples ainda:



"Era uma vez uma flor.

Nasceu à beira de um Poeta..."



Vês como é simples e linda?



(O resto conto depois;

mas tão a sós, tão de manso

que só escutemos os dois).

...
Tia acho que precisava mesmo de estar consigo
para a ouvir falar de Sebastião da Gama.
A Tia conheceu-o e à familia?
Que bom, fico feliz em saber isso.
Sebastião teve sorte em a conhecer a si - minha
Tia - eu tenho que ir conhece-la um dia.
A Tia é mesmo uma pessoa muito especial, muito
bonita por dentro e por fora também - as fotos não
desmentem.

Obrigado por esta maravilha de texto.
Obrigado
Seu spbrinho

Gus

..
Da minha janela

vê-se a Poesia.



Não te digo, não,

se é bonita ou feia,

se é azul ou branca,

nem que formas tem.



Queres conhecê-la?

Deixa o teu bordado,

vem para o meu lado,

que já podes vê-la

com teus próprios olhos.



Da minha janela

vê-se a Poesia...



Outro que te diga

se é bonita ou feia.

......
O Menino Grande

Também eu, também eu.

joguei às escondidas, fiz baloiços,

tive bolas, berlindes, papagaios,

automóveis de corda, cavalinhos...



Depois cresci,

tornei-me do tamanho que hoje tenho;

os brinquedos perdi-os, os meus bibes

deixaram de servir-me.

Mas nem tudo se foi:

ficou-me,

dos tempos de menino

esta alegria ingénua

perante as coisas novas

e esta vontade de brincar.



Vida!,

não me venhas roubar o meu tesoiro:

não te importes que eu ria,

que eu salte como dantes.

E se eu riscar os muros

ou quebrar algum vidro

ralha, ralha comigo, mas de manso...



(Eu tinha um bibe azul...

Tinha berlindes,

tinha bolas, cavalos, papagaios...

A minha Mãe ralhava assim como quem beija...

E quantas vezes eu, só pra ouvi-la

ralhar, parti os vidros da janela

e desenhei bonecos na parede...)



Vida!, ralha também,

ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,

como se fosse ainda a minha Mãe...

...



Beijinhos Tia
Gus



De Adalgisa Alexandra a 19 de Janeiro de 2009 às 21:49
OLá Tia
Confesso que não conheço as poesias de Sebastião
da Gama, mas pelo que li aqui no comentário do
Gus.
Sebastião era um grande Poeta.
Vou procurar ler Sebastião da Gama.

Obrigado por esta dica tão interessante.
Como também acho muito interessante a Tia
conhecer o Poeta . Foco contente por isso.

Um grande, grande beijinho

Gisa


De Aristeu a 19 de Janeiro de 2009 às 22:27
LIndo, lindo texto sobre
o grande poeta que foi Sebastião da Gama.
Gosto das suas escolhas poéticas...
Aprendo sempre muito consigo.
Adoro a forma como a Tia expoe os assuntos e nos
conta - dessa sua forma tão especial.

Eu sempre soube e senti que em si havia algo de
diferente (do que eu conhecia) e não me enganei
NUNCA .

Gosto muito de si

Aristeu


De Xavier Martins a 20 de Janeiro de 2009 às 00:10
Minha Senhora
Mais um excelente texto.
Mais um grande poeta citado por si.

Sou mais um a dizer que gosto imenso da sua
forma de escrever - Mas gosto, gosto imenso
deste seu blog (e do outro que está agora
adormecido) . é linda a forma como fala de tudo
da vida.
Forma leve, suave e tão bela.
Muito obrigado por esta maravilha de blog

Xavier martins


De Fisga a 20 de Janeiro de 2009 às 16:18
Olá Sra. Dona Maria José Rijo. É só para lhe dizer que admiro imenso a sua sensibilidade para, homenagear as pessoas da sua terra, A Sra. É uma bairrista de gema, mas não se arrependa, porque lhe fica muito bem esse sentimento. Um grande abraço Eduardo.


De Maria josé a 25 de Janeiro de 2009 às 12:25
Fisga -
Aqui, na Net, também encontramos esta, outra,"nossa terra" - daí que seja sempre agradável rever Amigos- um abraço
Maria José


De Fisga a 26 de Janeiro de 2009 às 17:44
É verdade minha amiga. Eu aprendi bem cedo, pela boca do meu falecido pai, que a nossa terra é onde nós estamos. Eu comecei a treinar isso aos 7 anos de idade. Hoje é diferente, a nossa terra é onde nós quisermos ir através da net. Um abraço Eduardo.


De M.Luísa Adães a 25 de Janeiro de 2009 às 14:32
Mª. José Rijo

Há algum tempo que chama a minha atenção, com o que escreve; neste instante, temos Sebastião da Gama e a "Serra Mãe"; tenho livros meus, no Museu
Sebastião da Gama em Azeitão; um deles, tem o nome "Arrábida, Serra, Mar e Vento " e ficou exposto no convento da Arrábida.
Conheço Joana Luísa e sendo muito miúda, conheci sebastião, o irmão e o pai (já ele tinha morrido, há muito) ; lembro-me dele a saír do "FORTE" com a cabeça toda branca; Sebastião , ainda tive a dita de o conhecer, era ele Professor em Setúbal.
Sou uma amante da" Serra" e por isso, escrevi o livro
em verso, todo dedicado à Serra" ... Publiquei há cerca de 6 anos e lancei em Setúbal, aí contactei Joana Luísa e a conheci - há um tempo que não a vejo. Sou muito mais nova! ...

Congratulo-a por escrever sobre ele, Sebastião e muitos outros que conhecemos tão mal!

Ele disse:

- Eu não quero cantar-te, minha Amante,
Minha Mãe, minha Irmã, minha Senhora:
eu só quero entender-te toda a vida
como te entendo, Serra!, nesta hora.

Parabéns, minha Senhora

Maria Luísa Adães

http://prosa-poetica. blogs.sapo.pt


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