Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

O tema do momento

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.738 – 5- Dezembro - 2003

Conversas Soltas

 

                   

Como numa trança, entrecruzam-se três assuntos, a pedofilia, a justiça e a comunicação social, que configuram o inesgotável tema do momento.

Não há revista, jornal, rádio ou televisão, onde qualquer destes temas, ou todos eles, não sejam tratados dia a dia observando-os de frente, de lado, ao viés, de baixo para cima ou de cima para baixo, ou, ainda, virados e revirados do direito e do avesso.

Mas fala-se como?

Discute-se a idade e a indumentária do juiz Rui Teixeira, porque anda de “T-shirt” branca, usa blusão e, com estes argumentos, se procura retirar-lhe a credibilidade, que ao que parece, lhe seria outorgada se usasse fato e gravata...

A comunicação social, coscuvilha e fala da palidez de alguns detidos, dos horários e temperatura da água do banho de outros, do emagrecimento e dos cabelos embranquecidos de A ou B, das visitas de quase todos, e de outros detalhes de “lana-caprina”...

A pedofilia, em si, aborda-se como se fosse um vírus, para o qual, um destes dias, vai ser encontrada uma vacina de esquecimento, porque o “charme”, deste drama, está na circunstância de entre os suspeitos haver pessoas de destaque do nosso meio.

Não fora isso e o assunto seria tratado de relance, como foi até agora...

Quero dizer: - não sei se veja, ou, se não veja, não tenho a certeza do que é mais conveniente, ou dá melhor com o meu vestido ou a minha gravata...

Se calhar o melhor é fingir que não vi, que nada sei e que tenho raiva de quem souber.

Assim, como assim, não tenho ninguém meu na Casa Pia...

Passe o sarcasmo!

É que nestas alturas sempre me recordo do indivíduo que ao dependurar o amigo da forca, troçava por ele ter a língua de fora; e ao ser repreendido pelo desacato, disse: se eu não risse, o meu pranto era tamanho que me cegava, e não seria capaz de fazer este trabalho...

Ás vezes é assim.

Quando se pensa que problemas desta gravidade e importância deviam ser noticiados de forma a dar sempre consciência do drama, da tragédia, que representam, sem lhes desvirtuar a acutilância, banalizando-os com inúteis pormenores e bagatelas...

Quando se pensa que as centenas de vítimas neste caso são – crianças!

Quando se pensa que não é de hoje, mas já de ontem, que a problemática de crianças fechadas em instituições, merece e precisa ser estudada até às últimas consequências, avaliada, sanada e acautelada para o futuro, da forma mais profunda e eficaz possível...

Quando se pensa  que de uma desgraça deste calibre, se fala por vezes com a displicência, com que se trata do preço do pescado ou da fruta. A gente, mesmo sem querer, arrepia-se!

Quando morre alguém de renome, fazem-se chamadas especiais, interrompem-se noticiários, ”engravatam- se”  as vozes, muda-se-lhe o tom, para significar quão dramática é a perda, quão dolorosa é a circunstância...

Como se pode então sem pedir perdão de joelhos à Vida, falar das vítimas da pedofilia!

Porquê frente a este luto, luto nacional, luto de alma, falar despudoradamente, como se fala de uma outra coisa qualquer...

Não entendo.

Como não entendo que se prenda alguém para investigar depois...

Como ninguém entenderá o rapa, tira, põe ou deixa a que são sujeitos os intervenientes deste – arrastadíssimo – processo...

Verdade que não entendo.

Mas, entre as pessoas comuns, - como eu,- alguma entenderá?

Tenho dúvidas.

 

 

Maria José Rijo

 

estou: 2003
música: Tema do momento

publicado por Maria José Rijo às 20:37
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15 comentários:
De Xavier Martins a 20 de Janeiro de 2009 às 21:37
Minha Boa amiga
Bem visto este seu olhar sobre este tema - que
continua AINDA no momento.
É como uma grande Anaconda que parece não ter
fim...
Mais e mais... tudo é culpado... tudo inocente...
Nada se sabe e sabe-se de tudo...
Dizem assim... e mais assado...
Aponta-se a este e mais aquele...e aquela e a outra...
mas tudo na mesmo...
Já chega a cansar tanta miseria, tanta mentira ou
verdades pelo meio...
Tu dizes e eu digo e aquele diz...
E já lá vão anos e anos...
deixe ver quando se vê o fim do tunel...???

Um abraço Sra. d. maria Jose Rijo.
Realmente o seu blog - É um blog de OURO.

Parabens

Xavier Martins


De Maria José a 22 de Janeiro de 2009 às 22:15
Xavier Martins
Meu Fiel Amigo
Parece que esqueci o "tal" blog!
Mas olhe que não. Nem isso, nem a consideração que me merecem os amigos...
Mas há tanta coisa que não dá para contar aqui...
Um abraço grato
Maria josé


De Amilcar Martins a 20 de Janeiro de 2009 às 22:16
Mais um Lucido texto.
penso o mesmo que a Senhora - só não teria
palavras para o "dizer" desta forma tão lucida.

Muitos Parabens
Gosto imenso de ler os seus artigos.

Com amizade

Anilcar Martins


De Maria José a 25 de Janeiro de 2009 às 11:46
Amilcar Martins - só hoje,dia 25 consegui espaço no meu tempo para vir à net agradecer a presença, sempre muito estimada, dos meus amigos
Nunca saberei dizer como vos estou grata
Um abraço - Maria josé Rijo


De Armando Franco a 20 de Janeiro de 2009 às 23:26
Parabens
D. Maria José Rijo
Mais um excelente texto - lúcido e verdadeiro.
Muitos Parabens

Armando Franco


De MariaJosé a 25 de Janeiro de 2009 às 11:49
Obrigada Armando Franco ! - aquece o coração ter quem nos entenda
Um abraço
Maria josé Rijo


De mgraça a 20 de Janeiro de 2009 às 23:36
Boa noite!.Bela reflexão sobre esta impotencia geral ou então , um deixa p`ra lá ,pois é assunto incomodo e ninguém resolve, como é que vou resolver eu sózinho?-Depois a raiva de ninguém fazer nada, mas só a raiva muda,calada.Deviam haver comissões fiscalizadoras da própria Justiça.Dói-me particularmente.Um grande beijo por este texto de ouro.


De Maria José a 25 de Janeiro de 2009 às 11:55
Mgraça - pressinto que esta tragédia também marcou a sua vida.É angustiante , às vezes encarar a realidade que nos cerca.
Um beijo - maria José


De mgraça a 26 de Janeiro de 2009 às 18:49
Por Deus querer, passou mesmo ali ao lado, quase ombro com ombro, de quem me era muito querido, tanto é que cheguei a levar bolinhos para aqueles meninos de olhos tristes e vazios, que não tinham ninguém que perguntasse por eles ;que os visitassem muito menos que os levassem a casa passar algum fim de semana, e nas férias ?-muito menos; muitos não sabiam se algum dia tinham tido mãe ou pai!...
Então ficaram-me sempre na retina essas carinhas vasias ,de olhar muito vago e triste; e que depois soube que levaram descaminho.Esses meninos a quem ninguem ia visitar , a quem ninguem procurava porque não tinham ninguém, era a esses mesmo que os PREDADORES dizimavam a sangue frio!!
A quem é humano , isto marca muito e sente-se no coração a tal falha da nossa Justiça...
Um abraço e muito grata.


De Cilene a 20 de Janeiro de 2009 às 23:42
Olá Tiazinha
Já cá estou e estou muito contente.
Muito obrigado pela sua preocupação por mim.
É bom saber que a Tiazinha pensa em mim.

Aqui na firma onde estou a trabalhar - estava eu a
olhar o computador quando vi a florzinha - que
aparece sempre que a tia comenta (com o blog
das maravilhas que a tia faz tão bonitas.)
Conheci é claro - conhecia mesmo de longe
então pedi a minha colega que me deixasse escrever
um comentario para si .
E cá estou eu.
Obrigado tia - gostomesmo muito de si.
Adoro a sua linda flor - é um mamequer não é?
e desenhado por si?
Estou certa?? :)

Muitos beijinhos minha Tiazinha

Beijinho no seu coração

Cilene


De Maria José a 25 de Janeiro de 2009 às 11:59
Cilene - que bom tê-la de volta filhota!
A sua história que segui com muita ternura não me permitirá jamais afastá-los do meu coração
Seja feliz - beijinhos tia Zé


De Ernesto da Costa a 20 de Janeiro de 2009 às 23:50
Também concordo com o seu texto.
É uma boa e lucida observação sobre um assunto
em que ninguém sabe se é ou não é...
Excelente observação - aliás todo o blog tem
grandes e lucidos artigos.

Gosto de seguir o seu blog.
É muito interessante, muito mesmo.
Muitos Parabens minha Senhora.

Cumprimentos

Ernesto Costa


De Maria josé a 25 de Janeiro de 2009 às 12:04
Ernesto Costa - mostra-me a minha experiência de quase 83 anos de vida , que há assuntos a que ninguém se pode esquivar a tentar entender - este é um deles.
Um abraço grato
maria José Rijo


De Damião José Carvão a 21 de Janeiro de 2009 às 01:01
Boa noite
Senhora D. Maria José Rijo

Gostei imenso do que li. Gosto da sua forma Lucida,
e brilhante de avaliar este caso que parece não ter
fim.
É verdade que é um texto de 2003 mas continua
na verdade, na sua brilhante lucidez.

Quero dizer-lhe que desde que tem este blog (ou
antes) desde que o descobri -não tenho aqui falhado
nem um dia - nem sempre escrevo, ou deixo o
rasto da minha passagem.
Peço perdão - mas leio todos os dias.
Gosto dos blogs que são actualizados todos os dias.
Gosto de estar aqui nesta sua casa.
Sempre bonito e agradavel ao olhar - que mantem
um certo numero de comentarios dentro de uma
"familia" que muito gosta de si e aprecia o que aqui
nos mostra.

Muitos Parabens
por ser a Mulher com M grande que é.
Grato por ter a oportunidade de poder ler e
reflectir nos seus artigos.

Bem haja
Bom ano e que muitos artigos continue V. Exª a
escrever.

Cumprimenta-a

Damião José Carvão


De Maria José a 25 de Janeiro de 2009 às 12:15
Damião José Carvão
Acredite que me surpreende sempre que o que escrevo possa ter tanto eco na sensibilidade de quem lê.
Talvez por isso cada dia me sinto mais grata a presenças tão generosas como a sua, tanto mais que no meio onde se vive as coisas funcionam muitas vezes ao contrário...
mas isso são outras histórias...

Um abraço muito grato Maria José Rijo


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