Sábado, 24 de Janeiro de 2009

VOLTEI A CUBA

JORNAL O Dia

1994

Os caminhos do tempo são, fatalmente, em frente. Não se volta ao passado.

Há no entanto, um instinto irresistível que nos obriga a olhar para trás com frequência.

Volta-se a lugares. Procuram-se vestígios. Encontram-se pessoas. Surpreendemo-nos com “estranhos” que nos foram íntimos em épocas passadas e que vivencias diferentes de nós distanciaram.

                   

Voltei a Cuba. A Cuba de Fialho – não a de Fidel.

Lá está ainda, no largo do Tribunal, o prédio que ele desdenhou comentando em tertúlia de amigos - (onde o proprietário gabando-o, impava de vaidade).

-“ A fachada é original! é! – parece uma secretária de pernas para o ar”.

   

Nós vivêramos na casa marcada pela lápide porque fora de Fialho de Almeida. Isso tornou-se um estigma ou um sortilégio, para mim. Não sei mesmo se ambas as coisas.

Na vizinhança as pessoas de mais idade haviam-no conhecido. Repetiam-lhe os ditos, contavam-lhe as histórias.

De contos de gente crescia eu ávida.

                        

Ia sentar-me junto da bordadeira já idosa, ou talvez, só murcha, pálida, serena, e bonita como uma imagem de cera, que, com gestos delicados, paciência e linhas de filosela de seda fazia florir as roupas do meu enxoval de moça casadoira e, enquando bordava – contava, contava, contava…

           

-- “O Senhor Doutor” – referia-o sempre assim.

--“O Senhor Doutor” – dizia à minha Mãe – põe meias de cor à rapariga! Ela é tão branca que toda a gente vai dizer que a trazes de pernas ao léu…”

-- Havia aí um homem que era muito vaidoso e, porque era rico e benemérito da terra, a tudo, ou quase tudo se referia dizendo: - isto fiz eu.

Ora ele era solteiro e um pouco esquisito. Aqui o tom de voz e a cor lhe subia ao rosto é que faziam a definição de equívoco.

Um dia, surgiu no grupo com um menino ao colo – era um afilhado. Logo Fialho sarcástico:

-- Oh, fulano – tu não me vais dizer hoje: - Isto fiz eu! “

Eu bebia estas histórias que arquivava com o tom de deferente enlevo em que sempre era referido o Senhor Doutor.

Depois, havia o jazigo, com os gatos de pedra, enroscados rematando a pequena abóbada. A frase ao lado da porta “miando pouco, não temendo nunca, arranhando sempre”.

Era tudo isto e era habitar a casa que lhe pertencera.

 

Respirar o perfume melado da acácia espinhosa que floria em cachos brancos logo ao lado da cisterna, no quintalzinho sombrio onde as violetas, que espontaneamente alastravam debruando as paredes rente ao chão, davam ao conjunto um toque de nostalgia tristeza como se o quintal fosse um claustro onde se evocasse uma qualquer soror Mariana consumida de desejos de amor.

Nunca liguei aquele ambiente ao perfil que criara de Fialho. À sua argúcia, ao seu destemor brigão, à sua mordacidade, à quase irracional brutalidade da força com que por vezes queima a sua prosa.

- “A coira esticou o pernil”. Com esta frase que põe na boca dum personagem fecha a história dum estupro, que ali em rapariga e, ainda hoje sangra na minha sensibilidade.

Mas… o que eu vinha a contar e já se me escapava era uma graça que teria divertido Fialho, penso!

Após o 25 de Abril, ali por Dezembro, andaram uns aviões a fazer piruetas lá por aquelas paragens. Com seus rastos de fumos coloridos deixaram desenhadas no ar enormes foices que o povo olhava fascinado – apelidando a habilidade de milagre. O menino, 5 anos espertos, viu também e comentou no mais castiço vernáculo alentejano:

-“Ò menino Jesus dum cabrão, atão voceia também já é comunista?”

-“Ai, nino! Já não mamas nada no Natal – vais a ver! – aí o que tu dissesti” – respondeu a irmã um nadinha mais velha e já cautelosa com as coisas do sobrenatural.

- Dêxa! – desabafi”

Porém, pelo sim, pelo não, entrou em casa sorrateiro, foi à chaminé – que sempre será o único telefone directo para o Céu – e disse:

- “Olhe lá menino Jesus – aquilo quê dissi foi a brencari…”

Também se nasce génio em política e diplomacia – digam lá o que disserem.

 

Maria José Rijo

 

 

 

 

 

 

VOLTEI A CUBA

estou: 1994
música: Jornal O DIA

publicado por Maria José Rijo às 22:55
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5 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 25 de Janeiro de 2009 às 13:34
Oh tia
Bom dia neste domingo feio e frio.
Tia
adorei este seu texto .
Para mim é como uma reminiscência - é que eu
ADORO as suas reminiscências.
Eu pouco me lembro de quando era criança, mas
tenho duas ou três amigas que estão como eu.
Parece que muitos factos da vida infantil se apagaram
.
Será??
Ainda bem que a minha Tia se lembra para nos
mostrar estas maravilhas.

Já li por aqui que tem a sua mana consigo.
Também não conheço - infelizmente para mim -
mas deixo aqui um grande GRANDE beijinhos
a duas Senhoras
de quem eu muito gosto.

Beijinhos Tias

Gisa


De Maria José a 30 de Janeiro de 2009 às 21:46
vim aqui numa escapadela às minhas tarefas para começar a agradecer as queridíssimas presenças da minha família da net.
Começo pela Gisa que tão boa companhia me tem feito sempre, e, com a maior generosidade do mundo gosta sempre do que escrevo.
Beijinhos - muitos da tia Zé


De Ana Maria Lourenço a 25 de Janeiro de 2009 às 13:43
Olá
Boa tarde Dona Maria José
Adorei o seu texto - é especial (desculpe mas eu
gosto de todos)
adorei aqui os seus gatinhos - em movimento.
Conheço Cuba (a de Fidel também) - certa vez
fui a esta sua Cuba porque fui a uma inauguração,
a de um monumento que fizeram ao escritor Fialho.
Não gostei muito do monumento, na verdade esperava
algo MUITO especial - mas então - não se pode
agradar a Gregos e Troianos - como se costuma
dizer.
Achei uma linda coincidencia - a Senhora ter
vivido na Casa de Fialho - também conheci - por
sorte deixaram-nos entrar - para ver o seu interior.

Gosto MUITO do seu blog
Gosto muito da sua sensibilidade, da sua educação
tão especial que se sente em quem lê os seus
artigos.
Devo acrescentar que muitas vezes sinto Paz aqui
no seu blog.
É tranquilo, sem gente estranha que venha apenas
denegrir (por inveja) o que em cada dominio se
apresenta.

Gosto de pertencer a esta sua familia (blogueira).

Um grande beijinho
(também para a Sua Mana)

Ana Maria Lourenço


De Maria José a 25 de Janeiro de 2009 às 16:41
Ana Maria Lourenço
Fiquei feliz por saber que visitou locais onde decorreu a minha juventude.
Muitas vezes penso que recordo vivamente algumas situações desses tempos, pela necessidade de esquecer outros difíceis que se lhe seguiram.
Talvez sim - talvez não. Certo é que por vezes desenvolvemos mecanismos de defesa cuja origem nos escapa.
Achei interessante dizer-me que o meu blog às vezs lhe dá paz.
Meu pai quano eu me lamentava, dizia sempre: já viste se tens uma estrelinha de oiro na testa ( como a princesa eleita num conto de fadas)- não tens pois não?
Então, cabe-te da vida o mesmo que a toda a gente.
É apenas aceitação - creia.
Beijinhos das manas
M. Bárbara e maria José


De Aristeu a 25 de Janeiro de 2009 às 14:09
Minha tão querida Tiazinha

Gostei mesmo muito deste seu texto.
Também gosto de Gatos - não me esqueço do
outro seu texto do Gato Pias - achei Lindo.

Sabe Tia, não é muito facil dizer - gosto deste ou
daquele (dos seus artigos) - cada um é um - e
em todos aprendemos algo - de muito importante
para nós.
Só quem não os olha - como deve de ser - é porque
se sente invejosos e queriam para si - essa forma
de escrever - essa lucidez - que muitos nem por
sombras sabem do que se trata.
( bom aqui neste ultimo paragrafo - há muito da
opinião do meu Pai - em relação aos elvenses e aos
seus artigos. Ele lá saberá do que fala - e dos
elevenses que ouvia falar - enquanto se vivia na
cidade)
O que é verdade é que eu sou um apaixonado
pela sua forma bela de escrever e sentir.

Obrigado pelos seus comentarios - para nós.
O Gílinho (como a tia diz) - mesmo de longe
- comanda os trabalhos na fazenda - sinto-me
muito orgulhoso por ser tão trabalhador e quero
que saiba que ele disse - que voltou aos estudos
porque a Tia certa vez - lhe disse para não deixar
os estudos.

Quero - por isso - AGRADECER-LHE.
Obrigado Tia - por fazer parte - assim - das nossas
vidas.

Gosto muito de si.

Aristeu


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