Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

O CURINGA

JORNAL LINHAS DE ELVAS

Nº 3002 – 8 de Janeiro de 2009

Conversas Soltas

 

Às vezes, sem quê, nem porquê, ocorre-nos pensar cada coisa mais inesperada que, se bem que no primeiro momento, pela surpresa, nos possa divertir, depois, até nos faz reflectir e pensar.
O ano, de 2008, terminava.
Por escolha minha, estava só, como já estivera no Natal.
À medida que o tempo vai passando, cada vez mais, estas e outras datas, ganham tão profundo significado, que o acto de as comemorar requer uma intimidade connosco próprios que só se consegue no silêncio e na solidão.


Minha Avó, frente aos grandes acontecimentos, tristes ou alegres, recolhia-se dizendo: - vou rezar!
Lembro-me de não entender, o que agora se me afigura tão evidente como reconhecer que as nascentes brotam do misterioso interior da terra.
Claro que, estando só, podia, escutar dentro de mim, como numa sinfonia, o eco, amalgamado, de tudo o que a Vida já me deu.

Joaquim Muniz de Almeida Filho e família, 1917 (c) Fabio M. Said
Assim, dei comigo lembrando o costume antigo das famílias quando se reuniam, nas tardes, ou aos serões, para conviver, jogar damas, cartas, dominó, xadrez, mah-jong, ao assalto, à glória...
As escolhas eram feitas de acordo com o número de pessoas, as idades e os gostos.
Então, em épocas de festividades, nas grandes confraternizações familiares, quando as presenças eram bem
heterogéneas, ou se escolhiam os jogos,
de acordo com as preferências, por pequenos grupos, ou, se fazia uma grande mesa para envolver as crianças e lá aparecia a bolsa - quase sempre - de veludo - com as bolinhas numeradas e os cartões para o loto que dava para entreter muita gente ao mesmo tempo.

        Loto
Recomendava-se apenas: - quem amua, por perder, não pode jogar e, assim, se estimulava o brio da garotada que não querendo fazer má figura - entre os grandes - aprendia a suportar esses 'pequenos desaires' com dignidade.
Neste fim de ano de 2008, fiz, para meu conforto íntimo, uma retrospecção de memórias acumuladas até onde a lembrança me pôde, ainda, levar.
A certa altura, evoquei as 'paciências ' de cartas que tinham, então, uma função calmante, benéfica, apaziguadora do nervosismo das inevitáveis esperas, sempre que alguém faltava ou se atrasava criando preocupação.

                  THELAX(Cartas do jogo) por
Como um reflexo do que recordava, agarrei, ainda hesitante sobre o que fazer, na caixa das cartas. Esvaziei-a sobre a mesa sem vontade definida.
Entretanto, fui manuseando--as, quase a olha-las uma a uma, como quem revê esquecidos retratos de família.
Parei, nem sei quanto tempo, com as reservadas para jogar
o 'crapaud,' segurando-as como um leque.

               
Crapaud é jogo para dois. Não poderia ser.

Uma paciência era a solução possível.


Assim decidi.
Impunha-se, para isso, tirar as cartas que, muito embora, sendo do baralho e completando-o, nestes jogos, de entretenimento, ficam de fora, porque, não são necessárias.
Melhor dizendo: estão de sobra, estão a mais.
Até se podem guardar à parte para evitar que atrapalhem.
Às vezes, se calhar perderem-se, até se poderá lamentar o facto dizendo: foi pena! faziam parte do conjunto...
Mas, logo se aduz, serviam tão pouco! Nem se vai dar por isso.
Fiquei a olhar os pobres curingas. Coisa estranha!
Chamei-lhes pobres, porquê?
São os menos comuns. Nalguns jogos até os mais importantes. Valiosos. Há casos em que até exibem um certo mimetismo!
Fazem as vezes de outras com igual préstimo, são, digamos: -poli- valentes...
Estranha na sociedade das cartas, a situação do curinga... Onde pode valer tudo, ou nada...
Pode ser imprescindível ou absolutamente inútil, como sorte de gente.
De muita gente. De tanta gente...nestas
jogos de família.

             

Talvez por isso o configurem muitas vezes de clown...
Vá-se lá saber, desse jeito, se está a rir ou a chorar... Nem ele quereria que o soubessem - suspeito!
2009- chegou! - ou tudo, ou nada !-

Como o curinga.  Rir?

          rir.jpg

- Chorar?


Depende - também - de quem baralha, dá cartas e tem o jogo na mão...
Haja esperança!

                  
Embora se saiba que há quem faça batota e ganhe sempre...
Feliz 2009!

 

Maria José Rijo

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 21:01
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5 comentários:
De Dolores a 27 de Janeiro de 2009 às 22:22
Querida Tia.
Mais um excelente texto.
Muitos e muitos Parabens .

Beijinhos também para a sua mana.

Dolores


De Maria José a 30 de Janeiro de 2009 às 22:37
Meus queridos -o dia de aniversário da minha mana, embora chuvoso foi um dia feliz. Apareceram amigas, convivemos, recordamos um mundo de coisas, a Paulinha tirou fotografias e saboreamos os "velha"bola de Bragança, os bolos de família tradicionais e, melhor do que tudo a amizade.Aqui lh agradecemos os parabéns que também quero agradecer à Gisa e com a preocupação de ver se consigo chegar a muitos amigos ao mesmo tempo, até me confundo.
Estamos muito contentes por vos sentir a retomar a normalidade do vosso viver e por a "nossa" Magé crescer em formosura e com saude.
Creiam que já fazem tanto parte das nossas vidas que temos a sensação que sempre vos conhecemos.
Beijinhos grandes - Tia Zé


De Gustavo Frederich a 27 de Janeiro de 2009 às 23:29
Querida Tia
Vou partir amanhã ...
só agora li o seu comentario para mim- pode contar
com as minhas traduções na lingua que quizer.
O nome do novo padre amigo é Anton.

Desculpe sair assim mas... não posso contar mais
nada (por aqui)...

Até qualquer dia.
Fique bem.
Seja feliz.

Gus

::::::::::::
Tédio


Passo pálida e triste. Oiço dizer
"Que branca que ela é! Parece morta!"
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...


Que diga o mundo e a gente o que quiser!
-O que é que isso me faz?... o que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!



O que é que isso me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!


E é tudo sempre o mesmo,eternamente...
O mesmo lago plácido,dormente dias,
E os dias,sempre os mesmos,a correr...
Florbela Espanca
::::::::::::


Ah adorei o poema que esreveu para mim.

.
"Ao meu caro bacilo"

era a morte que espreitava
era o meu corpo que no leito tremia
e o meu "eu", como espectador
que sentado em frente
de perna cruzada
olhava p´ra nós - troçava e ria...
- falei-lhe zangada
como o não fazia
desde que me conheço
e o conhecia...
- retome o seu lugar!
tenha juízo!
pois enquanto o seu corpo treme
você troça e fica tal e qual
como se não desse por tal?
veio a resposta...
meio cínica, assim:
- como a carne é cobarde,
que mesmo à vista do fim
ainda treme por ela
e não por mim!

Maria José Rijo
....

Obrigada tia

Muitos beijinhos


Gus


De Aristeu a 29 de Janeiro de 2009 às 01:40
Olá tia querida
Cá estamos todos bem - no momento começamos
a tratar do Carnaval.
Estamos muito animados.

E por aí já se nota o Carnaval ou é tudo como
sempre? Ainda está tudo no silêncio.
Desde que a Tia se sinta bem e se divirta.
É isso que quero e desejo.

Li aqui nos comentarios que tem aí a sua mana,
que hoje fazia 85 anos (linda idade)
Todos nós daqui:
- Luciano- Gilio - Américo e eu mesmo

Deixamos um grande GRande beijinho
destes seus amigos.

F E L I C I D A D E S


Aristeu


De vania rijo a 16 de Setembro de 2010 às 04:07
olá ter o sobrenome rijo para mim é um mistério sei apenas q ele vem do meu bisavo joão rijo. e,sua familia de onde é? abraços!


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