Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Alçada Baptista e outras lembranças...

Jornal Linhas de Elvas

Nº 3003 – 15 de Janeiro – 2009

Conversas Soltas

 

Elvas, 10 de Janeiro 2009. Olhava a Quinta do Bispo pensando: - faz hoje 84 anos que António Sardinha morreu.

Tinha então – quase – 37 de idade.

Vou reler qualquer texto dele, é a minha homenagem possível.

Abri – Doze Sonetos – Edição de uma Câmara de Elvas que, parece, até, lia poesia...era em 1973.

Na contracapa, com a sua letra miúda, escrita por mão já tremula uma dedicatória para meu marido e para mim, de sua saudosa viúva.

Mentalmente recordava – “vesperal”“se eu te pintasse posta na tardinha...”

Uma notícia, chama-me á realidade.

Decididamente ando fora do mundo.

                               

Então, não é que Alçada Baptista morreu, e eu não me apercebi?

Devo-lhe tantas horas de prazer e encantamento com a leitura dos seus livros que sinto, sinto de todo o coração, que tinha o dever de não chorar em silêncio a sua perda.

                             

Eu tinha começado por ler :- Tia Suzana, Meu Amor -  que de tal forma me encantou que, me lembro de , aqui neste jornal, ter falado nesse livro – já nem sei há quantos anos.

Em relação a isso estou perdida no tempo, o que não admira, tantos são!

Brincando, brincando, devem somar bem perto de novecentos os textos que escrevi para o jornal e para a sua extinta revista

Eu tinha o costume de ouvir na rádio e ler em jornais e revistas crónicas de Alçada, - ou - onde quer que as descobrisse.

                                               [o+riso+de+deus.jpg]

Pois, quando li “O riso de Deus”, fiquei tão curiosa, tão ávida de conhecer Alçada, que me apeteceu escrever-lhe, metendo-me na pele de uma personagem e fazendo-lhe as perguntas e os comentários que essa leitura me sugeriu.

Entre o que se pensa e o que se faz há uma distância pequena, às vezes, mas, onde cabe o: não fazer.

Assim aconteceu, mas ficou-me sempre a frustração da perdida oportunidade de ter procurado entender melhor as subtilezas do fascínio de Alçada - não pela Mulher – se bem que, esse, também – mas, pelo feminino, quase como um culto latente na sua escrita.

                          bubbles_256_640x480_edited

Lembro-me de ter comentado o livro com o Dr. João Falcato que sendo seu amigo de curso, me prometeu proporcionar um encontro , numa das  visitas que dele recebia em Borba.

Porém, isto de promessas entre gente de muitos anos, mete, com frequência, viagens sem regresso que ninguém controla.

Assim veio a acontecer.

António Alçada Baptista- foto d.r.

Encontrei Alçada, uma única vez, no cemitério do Alto de São João no funeral de Helena Vaz da Silva, mas ele estava tão arrasado que seria até, impudico, tê-lo incomodado. 

O que não perdi, foi o contacto com a obra do escritor.

 Fui comprando. Comprando e lendo. Lendo e pensando e, sempre sentindo o “tal” dialogo entre o homem e Deus e o tal fascínio...

“O deus que ri, o deus que joga, no sentido mais lúdico do termo, um deus apaixonado pela pura alegria de existir”

Acompanhei-o em “ Peregrinação Interior”, “A cor dos dias” e pus à minha cabeceira – “O Tecido do Outono” onde retorno, sempre com interesse, para ler coisas tais como:

 - “ Aquilo que vivemos não está no mundo, está na maneira como olhamos para ele.

É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz”

                

Este livro de que acabo de citar um pequeníssimo excerto

abre  - citando  Ruy Belo -  assim:

               “É triste no Outono concluir

             que era o Verão a única estação”

 

De outro livro, respigo também uma citação de abertura, de Martin Buber

“Deus não me pedirá contas de não ter sido

 Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo.

Deus vai pedir-me contas de eu não ter sido completa e intensamente Martin Buber

               

Vou fechar estes comentários parafraseando – para Alçada – uma dedicatória que ele próprio, escreveu – para Alexandre O’Neeill -  com toda a simplicidade da sua enorme dimensão humana e intelectual, em Tia Suzana Meu Amor

 

“ Na recordação de (Alçada Baptista), como sussurro da saudade”

 

Maria José Rijo

 

estou: 2009
música: Escritores

publicado por Maria José Rijo às 21:01
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5 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 29 de Janeiro de 2009 às 22:12
Minha querida Tia
Foi mesmo de lamentar a morte deste escritor.
Também gostei imenso de ler este livro
Tia Suzana meu amor.
Adorei.

E a tia e a sua maninha estão boazinhas?
Espero e desejo que sim.

Muitos beijinhos

Gisa


De Malaquias Beirão de Sousa a 29 de Janeiro de 2009 às 22:21
Minha boa Senhora
Mais um arigo excelente, mais uma opinião especial.
Reamente Alçada Baptista era um Grande escritor
e agora existe uma grande lacuna no espaço que ele
ocupava.
Mas a vida não perdoa - um daqui - um dali - mais
cedo ou mais tarde
todos vamos nessa direcção - que desconhecemos
mas que daqui nos arranca.

É a Lei.
Sabe que eu penso que estamos todos numa fila,
e quando chega a hora - daí não podemos fugir e
lá vamos nós.

Sabe, Senhora dona Maria José Rijo - que este
pormenor de actualizar o seu ESPECIAL blog
todos os dias - faz dele um Grande Blog - onde o
número de visitas é bem importante.
Eu - neste momento sou o seu leitor
Nº 168 744.
Estes numeros significam algo. Não acha?

Muitos Parabens
(é que eu sempre vou ver o meu numero de visita)

Um beijinho

Malaquias Beirão de Sousa


De Maria José a 30 de Janeiro de 2009 às 22:14
Malaquias Beirão de sousa obrigada pela sua presença, sempre apreciada.O seu comentário dava para falarmos uma tarde inteira, mas...o tempo...
Conto-lhe apenas que eu costumo dizer que estou sentada num apeadeiro e que nalgum comboio hei--de entrar quando for a minha vez porque a viagem é irrecusável.
Quem faz o meu blog é a minha sobrinha de coração Paula que com imagens faz uma versão paralela de cada artigo. Que eu "disto" nada entendo.
Um abraço grande e grato
Maria José


De Xavier Martins a 30 de Janeiro de 2009 às 00:56
Cara amiga
Hoje li o seu texto Curinga a uns amigos e eles
gostaram imenso, acharam muito apropriado.
Realmente há pessoas assim, que passam pela
vida como curingas - reparamos - na politica - no
futebol... por exemplo, para não falar de outros.
Concluimos achando que o que ainda há mais são
aqueles que andam no rasto de outros - os
verdadeiros curingas que riem e são capazes de
chorar para fazer a vontade de quem "amam", não
sei se me faço entender.
Mas é assim.
Eu não me sinto curinga - muito outros haverá que
usam o barrete e nem o vêm - mesmo quando se
acham lindos no espelho.
Foi esta a nossa conclusão - de uma tarde de
conversa.
Achamos também - eu particularmente - que a
Senhora deveria sempre ter escrito num meio
maior - como Lisboa (por exemplo) - os meios rurais
ainda não estão aptos para receber textos de uma
qualidade tão boa.
Mas foi assim, é assim...
E agora sobre este texto devo dizer que também
conheci Alçada Batista - numa festa em Lisboa,
era um homem excelente - na sua narrativa ele
fazia uma viagem pelas preocupações do ser
humano que cativava. O que mais realçava na sua
obra era realmente a mulher e mundo dos afectos.

Grato por este texto formidavel.
Deixo-lhe aqui uma frase que muito me agradou:

"É muito dificil abarcar um universo onde as nossas
rotinas andam misturadas com os nossos sonhos
e com a tal harmonia do mundo onde espero esteja
prevista a nossa alegria"
Alçada baptista

..

Com amizade

Xavier Martins


De Maria josé a 30 de Janeiro de 2009 às 22:23
Xavier Martins
Já tenho dito e redigo que este blog me trouxe os amigos que eu precisava ter tido quando ainda tinha fôlego para fazer coisas. Agora, trazem-me algo de muito bom - que é o conforto de me fazerem acreditar que, apesar de tudo valeu a pena, mesmo na sombra, fazer o que se crê ser o nosso caminho.
Deixo-lhe um abraço amigo, grande e grato
maria José
Registei a frase que muito agradeço


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