Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Fim de tarde

Jornal O Despertador

Nº 193 – 6-Setembro-2006

A visita – nº 4

 

 

Maria João Pires enche-me a casa e a alma com o seu piano tocando o concerto Nº1 de Chopin.

A música tem também essa virtude, eleva-nos acima de nós próprios e deixa-nos a pairar entre céu e terra.

Distanciamo-nos das coisas e, simultaneamente a “verdade” delas fica-nos mais íntima.

                            

Em horas assim “faço as pazes” com a Vida e deixo aflorar em mim só as lembranças boas que tecem os caminhos do mistério que somos e nos induzem à contemplação do mundo em redor.

Este “faço as pazes com a Vida”, não quer significar que a Vida e eu, estejamos de mal. Não se trata disso! - Quer apenas dizer que desarmo as minhas defesas contra as desgastantes agressões do dia a dia, que por norma, todos valorizamos mais do que valem. Porque, importante é apenas a Vida.

Nós somos ínfimos viajantes a fazer percursos às cegas, carregando bagagens inúteis, para nos convencermos que a importância é nossa e não dela, da Vida, que é eterna e onde passamos de raspão na brevidade das nossas existências.

E, é em horas assim que tudo se agradece a Deus e, até o silêncio e a solidão de que muitas vezes nos queixamos se aceitam em paz como se aceita luz e sombra, dia e noite...

A tarde, hoje, está luminosa.

Parece um daqueles dias do Verãozinho dos Marmelos, com um sol reconfortante a temperar a aragem fresca que vai desbastando, quase sem se dar por isso, o volume das copas das árvores.

Sob cada uma delas, já o chão está salpicado de folhas amarelas como pequenas sardas que sarapintam as ruas e pracetas.

Gosto destes dias.

            

Nada neles é excessivo, opressivo ou violento.

Nem calor de mais. Nem frio demais. Nem, são já, tão longos que nos esgotem de cansaço, nem tão breves que a noite nos surpreenda antes de a desejarmos.

São dias, á medida dos nossos braços. Dias plenos.

Dias que se abarcam como quem abraça alguém que se fecha de encontro ao coração.

São dias de evocações, dias de música, dias de lembranças, dias em que as memórias se libertam, não se sabe como, e se intrometem, fluidas, como fantasmas, como goteira que pinga e que escorre e se espalha entre resmas de papel e  marca todas as folhas indelevelmente. Irremediavelmente.

Estava a ver o noticiário na televisão.

Em Guimarães, puseram ao serviço dos turistas, cassetes onde se conta toda a história da Cidade Berço.

Sorri. Há vinte anos foi aqui levantada essa ideia no programa cultural para Elvas.

Programa que mereceu o elogio de aprovação do I.P.P.C. em cuja representação o Dr. Joaquim Roque Abrantes, se deslocou à nossa cidade para pessoalmente o apreciar e demonstrar.

A única diferença é que estas cassetes, em Guimarães, são todas levantadas no Posto de Turismo, e entre nós, seriam cedidas nas próprias Igrejas, (que veementemente, recusaram a inovação), as referências que lhes dissessem respeito.

E, por noticiário...

Também o jornal “Diário do Sul”, trouxe a público o programa cultural da Câmara Municipal de Elvas.

Não se entende porque sai em Évora e não na cidade onde irá ter execução...

Olhando ao longe, fluem as lembranças neste fim de tarde...

O piano já se calou...

Fixo o meu olhar, mais perto, no que resta desta paisagem que Sardinha cultuou, como mais ninguém, vendo crescer betão onde um olival antigo enquadrava a Igreja do Senhor Jesus da Piedade...

Olho, e rezo, para não ver a Rainha da Fronteira perder os restos da sua majestade...

Até porque à tarde, se segue inevitavelmente a noite e, depois dela está sempre prometida – em qualquer mundo – em qualquer idade -  uma alvorada – para cada um de nós.

 

 

Maria José Rijo.

 

estou: Visita nº 4 - 193
música: Jornal O Despertador

publicado por Maria José Rijo às 22:24
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5 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 9 de Fevereiro de 2009 às 23:58
Lindo texto
A minha querida tia tem sempre estas
surpesas excelentes.
A D O R E I !!!

Também gosto de Maria João Pires, o toque no
piano é diferente dos outros que se ouve, não sei
explicar - mas é mesmo especial.

Beijinhos tia querida

Gisa


De Aristeu a 10 de Fevereiro de 2009 às 01:17
Tia Gostei imenso do seu texto.
A sua prosa poetica faz as minhas maravilhas.
O meu Pai, gostava sempre de ser dos primeiros a
ler os seus artigos e muitas vezes, o vosso amigo, o
Tio Ernesto - deixava-o ler, então ele chegava a casa
e falava do artigo.
Contava a minha Mãe o que nele constava, eu
ouvia sempre tudo em silêncio e sabia de quem eles
falavam, era claro que sabia, e ficava sempre na
espectativa de ver o jornal e a fotografia que estava
lá, todas as semanas.
Era quase sempre assim na minha casa, creci com
os artigos a chegarem a casa, sempre antes do
jornal ter saido, e achava formidavel que o meu Pai
fosse amigo do dono do jornal. (coisas de criança).

Beijinhos Tia.
e muitos Parabens por esta sua maravilha

Aristeu


De Gustavo Frederich a 10 de Fevereiro de 2009 às 17:21
Sem sombra de duvidas
o estilo poético da sua prosa deixa-me tão
emocionado, que dou por mim seguindo, na surdina,
as suas passadas, olhando para onde os seus olhos
olham, para o que os seus ouvidos escutam...
Gosto de tentar sentir a emoção que a levou a
percorrer este caminho de sensibilidade e de
conseguir deixar este rasto de luz.
Adoro a forma como nos leva pelos trilhos dos seus
caminhos feitos de esperança e sensibilidade.
Gosto das imagens que nos proporciona e nos
mostra um pouco do que a sua alma alcança para lá
da linha simples - de uma leitura simples - apenas
vendo o que as palavras podem mostrar.

Gosto de perseguir o seu entusiasmo pelas palavras
e sentir ( pelo menos sentir) o sorriso de quem
consegue brincar com as palavras conseguindo
fazer delas - esta maravilha - que são os seus
textos.

Gosto de verdade da "paisagem" que mostra em cada
uma das suas janelas para o mundo.

Muitos Parabéns e muito grato
por esta maravilha de blog

Seu sobrinho
agora na Rússia

Gus


De Flor do Cardo a 10 de Fevereiro de 2009 às 17:42
Cara amiga
Excelente este texto seu, aliás, são sempre textos
interessantes, de temas actuais - mas sempre foi
assim.
Disso não tenho duvidas porque desde sempre que
os seus textos são desta forma - que muito me
agradam.
Não é só a mim - talvez até a todas as pessoas que
pensem verdadeiramente nas coisas, acredito que
muita gente goste, mas existe aquele "medinho" de
de dizer que se gosta - é mais fácil e mais cómodo
dizer que se não lê - quando é a primeira opção do
dia.
Perguntar-se á porque digo isto, simplesmente
porque me lembrei de tempos em que vivia em
Elvas. No entanto, não acredito que muito se tenha
alterado.

É assim...

Um abraço e boa continuação.
Luciano


De poeta da paz a 31 de Julho de 2009 às 14:10
NÃO ESQUEÇA SEUS SONHOS

Faça uma oração,
seja a fé que vive
em cada momento da vida,
viva de lembranças da felicidade,
entregue seu coração
ao supremo poder da criação,
liberte sua vontade de amar,
abrace seu mundo,
voe pelos seus sonhos,
descubra o prazer de viver
do arrependimento,
para a vida ser prazerosa...

Não esqueça seus sonhos
ao acordar, levante a cabeça,
não deixe a tristeza te visitar,
sinta prazer pela vida,
sinta o solo que você pisa,
para conhecer a beleza de um jardim...

Viaje pelo luar,
contemple o céu estrelado,
veja seus sonhos vivendo
no infinito de seus desejos,
sinta seu coração pulsar
no silencio da existência....

Rogério Miranda
poeta da paz







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