Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

A voz do sangue

Jornal O Despertador

Nº 214 – 22-Agosto-2007

A Visita 9

 

Nesta pasmaceira do meu dia a dia, de que não me queixo, mas reconheço, como quem petisca numa mesa farta, indecisa na escolha definitiva, pegava e largava, em “pontas” ao acaso, sem eleger tarefa que me seduzisse.

Punha a mim própria hipóteses, que à partida interiormente recusava, umas, atrás de outras...

Com a consciência nítida e crua de que o tempo não é presente que, na minha idade, se possa esbanjar, atormentava-me.

Não me conforta pensar no que já fiz, se é que alguma coisa de préstimo terei feito. O que sempre me preocupa e pesa é o que posso ter deixado de fazer e era parte da realização do meu trajecto.

                

Avaliava decisões difíceis que tive que tomar e, embora delas não me envaideça, sentia um certo orgulho pela coragem de as ter tomado com sentido de justiça e honra.

Entre a coragem, o orgulho, e a vaidade, as fronteiras são por vezes tão frágeis que podem ofuscar o natural sentimento de alegria íntima que se ganha, quando, mesmo que se erre, se tem a coragem de fazer o que cremos certo, na hora certa.

E, bom, é, à distância, reconhecer com toda a humildade de consciência que, se pecou por defeito – não por excesso.

Saber que deliberadamente não se hostilizou ninguém – é bom.

Saber que sempre se assumiram os nossos actos e, deles, e por eles, sempre se deu o rosto, nunca se usando de traição, ou cobardia, é bom, é muito bom!

É reconfortante, dá paz.

Não nos sentirmos santos nem demónios, mas saber que entre esses limites se faz o percurso de ser gente, torna-nos tolerantes com os demais e exigentes connosco próprios.

           malmequer 2.jpg

Distraída com os meus pensamentos tinha esquecido a televisão que, aberta fornecia o ruído de fundo que sempre ajuda a situar-nos no mundo real.

Foi então, que, como uma pedrada que quebrasse um vidro, a minha atenção despertou por inteiro, pela voz da Tonicha a cantar à moda da minha terra na etapa da volta a Portugal em Beja.

Curioso, como apenas uma cantiga., nos pode situar num contexto de lembranças, carregado na alma, onde a terra tem a força e a voz do sangue que sustenta a nossa vida.

Decididamente, não aprovo Saramago nem qualquer iberista, seja lá ele, quem for...

Impossível! – Absolutamente impossível!

                   restolho.jpg

Pois se até uma cantiga nos traz os cheiros do restolho, o cantar das fontes, a imagem das casas caiadas, os horizontes imensos, e acende em nós a voz da terra e a luta e sofrimento dum povo humilde e trabalhador – como não saber, como não sentir, que a Pátria, está na nossa alma!

 

 

 Maria José Rijo

 

 

 

estou: a Visita - nº 9
música: Jornal O Despertador

publicado por Maria José Rijo às 21:19
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4 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 14 de Fevereiro de 2009 às 22:52
Que lindo o seu texto minha querida Tia.
Gosto imenso do que escreve.
Gosto desta forma especialmente bela de dizer...
de falar da vida.

Gosto muito de si.
Muitos beijinhos e desejos de Bom Domingo.
Muitos beijinhos também para a sua mana.

Gisa


De Miguel de Barros a 14 de Fevereiro de 2009 às 23:00
Minha querida Tia
Na vespera do meu 21 aniversário
deixo aqui um grande beijinhos e escrever aqui
que este texto tem uma imensa beleza.
Que admiro bastante a forma linda como escreve.
Gostaria eu de saber escrever assim - desta sua
forma tão especialmente bela.

Gosto me me sentir seu sobrinho, sobrinho de uma
grande Senhora das letras.
Aprendo imenso com os seus textos e creia que me
são importantes.

Muitos beijinhos Tia
até amanhã

Miguel de Barros


De Xavier Martins a 14 de Fevereiro de 2009 às 23:59
Lindo este seu texto
Quando eu penso que já conheço a sua obra
magnifica - aparece sempre MAIS UM - artigo
fascinante - de grande beleza e significado.

Gosto mesmo muito do seu blog e tantas vezes
como agora - fico sem palavras para dizer o
que deveria - mas não tenho esse dom especial
para escrever a maravilha que os seus textos
me despertam.

Parabens D. Maria José Rijo
Por mais esta Maravilha
Cumprimentos

Xavier Martins


De Dolores Maria a 15 de Fevereiro de 2009 às 00:31
Tia
Gostei mesmo muito deste seu texto.
É muito bonito. Como outros dizem por aqui e com
toda a razão - a Tia escreve maravilhosamente.

Parabens SEMPRE por ter este lindo blog, tão
visitado e tão comentado.
Muitos beijinhos
para si e para a sua mana.

Bom domingo

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