Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

“A palavra exacta”

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.904 – 8 Fevereiro – 2007

Reminiscência -- 29

Conversas Soltas

 

 

Tinha estado a prestar atenção a um programa na televisão onde se falava de correntes literárias, e referia com particular ênfase o Romantismo.

Fiquei a pensar na influência que as vivências de cada época têm na arte e, talvez de forma mais evidente no romance e na pintura.

Detive-me a “revisitar” interiormente o pouco que sei do assunto e a “digerir” com o máximo de benevolência possível o confronto com a minha ignorância, saboreando algumas lembranças e referências que persistem em coabitar comigo.    

Recordei a descoberta de alguns autores, um, em particular, porque o li “cedo” e, portanto às escondidas – Emile Zola com a sua Nana e a sua Therese Raquin, livros, retirados à socapa da biblioteca do “Avô” como também eu, entre suas netas, assim tratava o Dr. Aresta Branco – pai– figura quase lendária dos tempos da implantação da Republica, que, tendo sido companheiro de escola e amigo de meu avô paterno, me mimava como neta .

A verdade é que nem os olhares daquelas figuras austeras, de colarinhos engomados , “plastrons” sob as casacas negras, monóculos, bigodes retorcidos , barbas de fino recorte, quietas nos retratos enormes, de tamanhos e molduras iguais que revestiam as paredes da seu  escritório, e que o Avõ referia familiarmente como:  o Manuel de Arriaga, o Teófilo, o Bernardino, o António  José de Almeida  o  Teixeira Gomes  - e pareciam fixar-nos acusadoramente, nem eles, nem a média luz, imposta pelos espessos cortinados, que tornava os moveis escuros de tremidos e torcidos um tanto fantasmagóricos nos detinham a mão atrevida que  surripiava das estantes, os exemplares, que, às escondidas, íamos devorando

(From left, seated at table) Joseph Schildkraut, Paul Muni, and Gale Sondergaard in The Life of &[Credits : Courtesy of Warner Brothers, Inc.]

Mas, isto de Zola, que ouvíramos dizer ao Avô, ser amigo de Paul Cézanne, e estar ligado à defesa do caso Dreyfus,( que não sabíamos o que era) mas, de que o Avô, falava com admiração,  era o máximo!

Podíamos até nem perceber grande coisa do que liamos, nem ter a mínima noção do que era o naturalismo, ou, alguma vez olhado um quadro de Cézanne, quanto mais distinguir – aos doze , treze anos, se era clássico ou  impressionista! - Mas, a emoção de lhes pronunciarmos os nomes dava-nos o conforto íntimo de nos “sentirmos entendidas”, gente adulta, que sabia “das coisas” , o que nos fazia presumir de “importantes.”

Decorávamos poemas, títulos de romances, nomes de autores, e, claro está, das suas heroinas.

Chorávamos, agonizávamos e quase morríamos de emoção com o drama da Dama das Camélias, como nem ao próprio Dumas, teria acontecido. Porque, então, com tal torrente de lágrimas ter-se-ia afogado sem conseguir escrever o romance...

Pasmo do mundo de lembranças que acabo debulhando a propósito de quase nada. E, desta vez, afinal, porquê!

Uma nesga de sol entrando pela vidraça iluminou de forma repentina um bocado de tecido sobre a minha mesa de trabalho. Fiquei a olha-lo seduzida pelo tons vibrantes das cores sob o efeito da luz.

Então, alguns versos que retenho, de um poema que o tempo foi varrendo da minha memória, levaram-me a pensar, em como, até nos desenhos das tapeçarias, as correntes literárias e poéticas das diferentes épocas marcavam a sua presença. O tecido imita as tapeçarias francesas “Gobelin” que primavam pelas delicadas figuras românticas desse universo paradisíaco feito de beleza e felicidade, verdadeiros delírios de elegância em cenas de Watteau próprias dos sec. XVII/XVIII

Julgo lembrar, que o poema se intitulava, “Passo de Minuete”e referia, um raio de luz (com agora) que acendia as cores de uma bela gravura representando uma dança de salão, em cujo verso final se dizia -: “graciosa mesura – e acaba o minuete.”

E, foi essa pequena frase que me fez sentir como às vezes, só uma palavra pode fazer a diferença. E. Na circunstância, evocando o ambiente, o meio e a época, para estar perfeito, tinham que ser aquelas e não outras: -“ graciosa mesura e acaba o minuete”. É que não é preciso dizer qualquer coisa mais para se “ver” que a dança terminara, o cravo emudecera e os pares de cabeleiras empoadas e gestos peralvilhos e artificiais e as damas decotadas e cheias de frufrus a esconder o rubor do falso cansaço por detrás dos preciosos leques, se dispersavam pelos salões...

“Graciosa mesura” – nem demais, nem de menos – a forma exacta – apenas.

Preciosa como uma jóia, nostálgica, como uma reminiscência...

                                                 

Maria José Rijo

 

estou: A palavra exacta
música: Reminiscencia - 29 - 2007 - de 2.904

publicado por Maria José Rijo às 23:19
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6 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 21 de Fevereiro de 2009 às 00:39
Oh tia
Mas eu Adoro as suas reminiscencias.
São sempre tão bonitas Tia, gosto tanto quando
fala de si e conta episódios do passado.
Obrigado Tia querida.
Adoro o seu blog

Muitos beijinhos Tia e espero que esteja bem.
Fiquei preocupada com o comentario da Dlores.
A tia está bem?


Beijinhos Tia querida

Gisa


De Maria José a 21 de Fevereiro de 2009 às 11:45
Meus queriíssimos Amigos e Sobrinhos
Venho todos os dias aqui recolher os sinais do vosso afecto e, com ele me vou confortando. era bom que se pudesse ver como as vossas palavras amigas me acompanham em cada dia e fazem bem.
Minha Irmã já regressou a sua casa em Lisboa, uma das netas foi para a neve e ela aproveita para ficar a estragar os bisnetos com mimo.
Como sempre fiquei só no meu canto. Quando ela está comigo absorve a minha atenção por inteiro o que, aliás me agrada, pois quem perdeu a única filha e o marido em escassos três meses, e já conta 85 anos, está sempre carente de atenções e cuidados.
Quando ela parte, por via de regra tenho dificuldade em recuperar o meu ritmo porque a sensação de vazio aviva a saudade de todo o nosso mundo passado, o que pesa imenso na coragem que sempre se precisa para seguir em frente.
Agora os dias já são maiores e mais luminosos,já voltei às minhas caminhadas,e espero da graça de Deus "genica" para sacudir estas ondas depressivas que muito pouco têm a ver comigo.
Até ao jornal, tenho faltado.
um abraço grande, sem fim, como a minha gratidão por todos vós
Beijinhos tia Zé.


De Adalgisa Alexandra a 21 de Fevereiro de 2009 às 13:57
Tia Tiazinha
Muitos beijinhos para si.
Uma certa magoa nota-se na escrita.
Gosto muito de siiiiii.
Muitos beijinhos


Gisa


De Gustavo Frederich a 21 de Fevereiro de 2009 às 14:07
Querida Tia
desde Veneza venho deixar um grande GRANDE
Beijinho.
Atentamente ao ler o seu comentario senti dor, pela
dor que nele está contida.
Não gosto de sentir, mesmo de longe, esse desanimo
de dias de chuva.
A Primavera está na porta e com ela vem a cor e o
perfume desses tempos mais soltos e mais alegres.
Que as caminhadas a possam a ajudar .
Beijinhos

Gus


De António Piedade a 21 de Fevereiro de 2009 às 22:47
Minha Senhora
é um privilégio poder ler os seus artigos neste
blog especialmente bem construido.
Um abraço

António Piedade


De Aristeu a 21 de Fevereiro de 2009 às 00:51
OLá boa noite
Hoje que esperava algo ainda na linha do anterior
post, fiquei muito contente porque EU ADORO as
suas reminiscências.
São sempre tão interessantes.
Sou da opinião da Gisa - gosto muito quando a Tia
nos conta da sua infância e este texto é Fantastico.

Muitos Parabens Tia
Aqui anda tudo num reboliço - esta época do Carnaval
é uma revolução.
O Gílinho deixou muitos beijinhos para si e saiu
para os carnavais...
Eu cá estou com o pai e o Tio Américo que hoje
se vestiram de padres e andaram todo o dia a
divertir-se com as amizades deles.
Só eu é que não participo - hoje tenho visitas - a
Magnolia que veio passar estes dias.
É uma amiga do trabalho, uma professora de
Filosofia.

Um grande beijinho Tia
Feliz Carnaval

Aristeu


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