Terça-feira, 10 de Março de 2009

Reminiscencias - 11

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.685 – 22- Novembro-2002

Conversas Soltas

Reminiscências - 11

 

Chove que Deus a manda!

O vento desassossega a alma de qualquer cristão.

A casa arrefeceu de um dia para o outro como se tivéssemos mudado para países de neve.

As portas e janelas estremecem, sacodem-se como que em arrepios de morte incontroláveis. E o vento, insistente, experimenta a cada passo a resistência de tudo o que se opõe à sua fúria desenfreada e zurze enlouquecido o que encontra e se lhe atravessa no caminho.

chuva[2]

Sempre, com estas primeiras tempestades do avizinhar do Inverno me reporto aos meus Natais no Algarve em casa de meus tios e meus avós.

Éramos sete primos irmãos tão unidos que costumávamos brincar dizendo que éramos mais do que primos, já que, também, éramos irmãos.

Vivíamos em cidades distantes mas, pais e avós enredaram-nos de tal modo no arreigado sentimento de família que os unia que festas e aniversários só se consideravam se fossem vividas com o rancho dos sete completo reunido na velha casa de família frente ao adro da igreja onde os nossos pais se tinham casado e todos nós fomos baptizados.

chuva-na-janela3

São recordações antigas.

Coisas de há quase, setenta anos...

Mas foi o vento, agora, que mas trouxe...

Foi o vento que me tornou presente os nomes dos livros que me induziram no vício de ler.

É que nas férias de Inverno, pelo Natal, quando os serões se alongam noite dentro; deitávamo-nos cedo.

Jogava-se um pouco ao “loto”, ao “bom dia senhorita”, “à glória”, entretengas inocentes que reunindo velhos e novos davam para aprender a perder “sem prender o burro” e a ganhar sem arrogância.

As braseiras, não eram então, usuais entre os algarvios e, deitar cedo era um costume bem aceito por todos, até porque a leitura, era mais do que um costume: era um vício!

Lia-se à luz dos candeeiros de petróleo.

Depois de já bem abafadas no aconchego das camas, até que o sono chegasse, a distracção era a leitura.

Eu dormia no quarto de minha prima mais velha, por ser das mais novas, vivia sob a sua protecção.

Era costume ela e as suas amigas lerem ao mesmo tempo as obras que escolhiam em conjunto e que depois nos nossos passeios e encontros comentavam, para meu deleite, comparando opiniões e pareceres, discutindo enredos e personagens.

Havia tanto entusiasmo nessas conversas que, às tantas, parecia que se estava a falar de amigos comuns ou conhecidos

Elas, já eram moças casadoiras, eu, apenas uma garota de doze ou treze anos que pelo gosto de ler tinha ganho acesso ao grupo das grandes.

Nesses tempos que hoje recordo, não havia ainda electricidade nas casas, nem nas ruas.

Ao anoitecer, vinha um homem, (então, ”lá” era o senhor Queitano) de escada às costas acender pelas esquinas os lampiões de petróleo.

Frente à janela do nosso quarto, estava um, mesmo na esquina da casa onde vivera João de Deus, o poeta de Messines, cuja memória também lá está assinalada numa lápide, nessa mesma parede.

Queitano, chegava e cumprimentava: - boa noite meninas! E, nós muito espevitadas respondiam: - boa noite “Quaitano!”

Porque era assim que ele queria ser chamado por achar “menos visto”

E, estava dado o sinal do começo da noite...

O Queitano, não era o sol no ocaso. Nem era a lua nos céus!

Pois não, mas era quem marcava o começo dos serões, porque sem luz nas ruas, ninguém se atreveria a ir a casa de ninguém.

Ás vezes, e o que nós delirávamos com isso, nessa hora do lusco-fusco íamos com minha tia a casa do senhor Prior levar um mimo para a ceia. (minha tia era eximia a fazer doces!)

Depois voltávamos felizes e abençoadas para o recomeço das nossas vidas cheias de paz.

E, tudo recomeçava...

Foi assim, revezando com minha prima mais velha, a ler em voz alta, à luz da chama do candeeiro de petróleo, que conheci “o drama de João Barois” de Roger Martin, as obras de Pearl S. Buck, e “entrei na família” das irmãs Bronté...

Foi assim que me arrepiei de encanto e medo com o Senhor Heathcliff e não esqueci mais “O monte dos Vendavais” que este “xaroco” de hoje me trouxe em saudosa memória...

 

 

Maria José Rijo

 

estou: reminiscencias - 11

publicado por Maria José Rijo às 23:57
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2 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 11 de Março de 2009 às 00:11
Lindissimo este texto tia.
Adoro as suas reminiscencias.

Gisa


De Gustavo Frederich a 11 de Março de 2009 às 20:10
Olá Tia
Venho repetir o que muitas outras vezes eu disse
- que gosto imenso desta sua forma de contar o
passado, de contar as suas reminiscências.
Gosto mesmo muito.
Fico desde já a aguardar o texto de hoje.
Um grande beijinho
e até já

Gus


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