Terça-feira, 17 de Março de 2009

Contra-luz no Alentejo

Conversas Soltas

Nº 2.328 – 8 de Dezembro de 1995

Jornal Linhas de Elvas

 

 alentejo-FLobo.jpg

Há dezenas de anos que tento contar esta história.

Porém, à última hora, não sei que sentimento inibidor me detém a intenção e não o tenho feito.

Hoje, porém, decidi-me.

É uma história de vida. De vidas tristes.

Onde perpassa a miséria e a frustração, mas, também plena da luz que irradia de sentimentos fortes como a bondade e a delicadeza de alma.

É uma história de verdade.

Foi-me contada em condições especiais.

Certa noite, numa cozinha grande, escura e inóspita, uma garota com as mãos cheias de frieiras, entrapava dolorosamente os dedos para lavar com menos sofrimento (se possível) tachos e panelas numa barrela de cinza e potassa.

Sem saber muito bem como afastar a garota do suplício sem criar atritos com os patrões da rapariga – ausentes na circunstância – a mulher inquiriu:

-- A Água está quente?

-- Muito quente! – Foi a resposta

-- Tenho as mãos geladas – insistiu a mulher – deixas-me lavar essa louça para as aquecer?

A rapariguita olhou a mulher bem nos olhos e sem dizer palavra afastou-se dos alguidares cedendo o posto à visita da casa e foi sentar-se observando a cena.

Então, volvidos alguns momentos com uma voz decidida, anunciou, sem aparente emoção:

-- Vou-lhe contar a estória de ti Ana das migas.

     

Manifestando, assim, secamente o seu propósito – começou:

-- A gente morava numa barraca lá no Olival

-- A gente criava gado.

-- O porco amanheceu com mal.

-- O mê padrasto disse à nha mãe pró trazer ó alveitar.

-- A nha mãe disse: - atão e o mocinho?

-- Que o mê irmanito andava com fevres.

-- Moços é o ca gente faz mais depressa – disse ele – e o porco custa denhêro.

-- A nha mãe veio para a cidade com o porco.

-- O mê padrasto foi précurar trabalho.

-- E cá fiquei a coidar do mê irmanito e do mê burro.

-- Desatou, atão, a chover. Pracia que o céu desabava desfeito em água.

-- Ospois vieram-nos os trovões.

      Chuva fina

-- O burro assustou-se, soltou-se a fugiu.

-- A gente teve medo de apanhar porrada por mor do burro e abalamos debaixo de água a ver se o agarrávamos

-- Fazia escuro, pracia noite e a gente já nâ sabia por dende haveramos de ir.

-- A gente perdemos e começamos a chorar alto e a bradar.

-- A ti Ana das migas óviu a gente e veio ver.

-- Dêtou o xaile por cima da gente e levou a gente prá barraca dela.

-- Mandou a gente assentar-se ao lume pra enxugar e disse assim:

-- Nã chorem qué faço umas miguinhas e uma penguinha de café e voceis aquecem.

-- Chamavam-lhe Ti Ana das Migas porque ela adorava migas.

-- Ela fritou os alhos, no lume de chão, fez o comeri e o caféi e deu à genti.

-- A mim deu-me os alhos fritos todos e, ê cá comi-os.

-- Amargavam!!

-- Então, se não gostas porque comeste - interferiu a mulher, com um ar quase de malícia e os olhos húmidos de terna compreensão e bondade a garota disse com sinceridade.

-- Ela deu-me o quela mais gostava!

Um silêncio incómodo pairou na lúgubre cozinha após o relato.

A loiça já estava lavada.

A chuva que provocara a visita – havia cessado.

     

A mulher aproveitou a “aberta” e esgueirou-se para a rua onde a calçada molhada luzia como espelhos quebrados em mil estilhaços, sob a luz das lâmpadas.

Sentia o rosto em chamas.

O coração batia-lhe descompassado.

Não sabia se havia de rir ou de chorar.

Qualquer sentimento lhe parecia legítimo.

Sabia que beirara fundo a beleza duma alma de criança com uma experiencia tão grande de sofrimento que se tornara sábia no entendimento das pessoas.

Tão sábia que respeitava o pudor da alma dos outros e da sua própria.

Andando à toa pela rua, a mulher percebeu que acima de tudo sentia medo.

Medo, vergonha, revolta, desespero e raiva por não saber onde encontrar as mãos que é preciso estender às crianças que choram perdidas, à luz dos relâmpagos, e ao som dos trovões, pelos caminhos enlameados pelas tempestades – que colhem – sem que as tenham semeado.

Narrou-se então esta história que, afinal, hoje, deliberadamente, contei.

 

Maria José Rijo

 

 

    

onde está a liberdade?

estou:

publicado por Maria José Rijo às 21:57
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6 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 17 de Março de 2009 às 23:18
Maravilhosa esta história.
Triste mas muitas vidas passaram por momentos
como este.
Gostei imenso da forma como a contou, esta
história verdadeira.

Muitos Parabens Tia
Beijinhos e boa semana

Gisa


De Aristeu a 18 de Março de 2009 às 00:10
Gostei SIM, gostei imenso deste texto tia.
Uma história verdadeira contada da melhor forma.
Uma história do Alentejo profundo, que aconteceu e
acho que por algum cantinho do Alentejo ainda se
poderá encontrar.

Os meus Parabens por mais este texto fantástico.
Um grande beijinho
do
Aristeu


De Gustavo Frederich a 18 de Março de 2009 às 00:33
As aldeias


Eu gosto das aldeias sossegadas,
com o seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...

As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.

Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.



Gomes Leal, Claridades do Sul
..................

Gostei imenso do seu texto.
O Aristeu tem razão, sao histórias verdadeiras
de tempos dificeis e tristes que, concordo, possa
ainda existir nesse Alentejo profundo.

O seu blog, minha Tia
Informa - aqui também se aprende nesta imensa
sensibilidade para apanhar os nadas e ainda os
todos que a vida proporciona - muitas vezes passam
tão ao lado do cidadão comum (especialmente
daqueles que apenas encaram a vida com o
simbolo do dinheiro, do estar por cima dos outros
e por aí fora... seria uma lista algo grande...)...
São poucos os que ligam aos pormenores, ao
bonito, ao sensivel...
Mas o que eu quero dizer é que é um BOM texto
onde uma história, aparentemente simples, está
cheia de quadros que se podem ler nas entrelinhas.
Quem não consiga entender... é melhor sair...
Euu fico
Eu gosto e muito me diz este belo texto.

Obrigado Tia
por mais esta pérola de história.

Com muita amizade
e orgulho deste sobrinho


Beijinhos
Gus


De Dolores e Avelino a 18 de Março de 2009 às 00:53
Nossa tão querida Tia
Que texto lindo.
Gostamos muito da mensagem que nos dá neste
texto fabuloso.´
Tem artigos muito bons, bons de verdade e tem
também sobrinhos muito seus amigos e que sabem
tão bem fazer leituras bonitas .
Realmente a minha tia é mesmo muito querida.

Tia este fim de semana fomos a um baile especial
de danças de salão e eu e o Avelino fomos dançar,
claro, e imagine gostaram tanto que nos
convidaram
para que no proximo sabado irmos dançar um
tango e uma valsa a prémio.
Estou muito contente.
Também já cortei o meu cabelo e pintei-o de
negro e imagine ao sol até parece azul.
A minha prima diz que lhe faço lembrar a Beatriz
Costa ... ai chega chega chega a tua agulha...
Já sabe qual é?
pois imagine. Fartamo-nos de rir.

A nossa Magé está linda - já tem os dentes de fora.
Adora chocolate.

Beijinhos tia
desta sua familia em França
Ah o pediatra da Magé gosta do seu blog e gosta
em especial das reminiscencias e das poesia.
Não é português mas tem imensos clientes
portugueses e aprendeu.

Beijinhs Tia
e beijinhos de melhoras para a sua mana

DOLORES
Avelino e Magé


De poetaporkedeusker a 18 de Março de 2009 às 15:44
Minha querida amiga, quase lhe peço desculpa por vir dizê-lo aqui, perto dessa criança e da Ti Ana das Migas, mas venho oferecer-lhe um premiozinho florido e primaveril que publiquei no http://premiosemedalhas.blogs.sapo.pt/.
Um grande e respeitoso abraço.


De Dina a 19 de Março de 2009 às 16:42


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