Domingo, 22 de Março de 2009

Coisas do destino

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.298 – 5 de Maio de 1995

 

 

“Memorial do Convento” – não foi um daqueles livros que eu tivesse lido sem parar, até perder o fôlego – como é meu jeito.

Não foi, não!

Muitas vezes suspendi a sua leitura e empenhei a minha atenção noutras coisas que a solicitavam, sem o mínimo constrangimento – tão desinteressada dele – venha a verdade, que me regalava “petiscando” de outros livros, os meus eleitos – que tenho sempre por perto.

No entanto,Memorial do Convento”, é, dizem os críticos autorizados – e eu até concordo – sem que por esse parecer alguém se interesse – um livro com fascínio.

                         

Se é verdade que por vezes se pode pensar dele que é mais chato do que a “Légua da Póvoa”, não é menos verdadeiro que uma vez vencida a relutância de nos embrenharmos no seu clima, a leitura ganha um deslizar tão natural que conquista a nossa atenção e dele se guarda depois lembrança duradoura.

Comigo, pelo menos, foi assim.

E, foi-o, de tal forma que hoje, a propósito já nem sei de quê, a sua lembrança se me impôs e me ocorreu falar dele.

Talvez um pouco, porque narra factos históricos ligados a Elvas. Talvez.

Descreve a troca das princesas no Cáia.

Dona Bárbara, para lá – Dona Mariana para cá. Tudo isso que foi vivido aqui à nossa porta com o aparato, o cerimonial e todo o protocolo que sempre coube à realeza.

No seu reinado – primeira metade do séc. XVIII – D. João V – o “magnânimo” fizera promessa, que cumpriu, de que o Convento de Mafra seria erecto se sua mulher concebesse. E foi a princesa nascida, desse “milagre”, que, ao que a história conta, foi “contrabandeada” aqui na nossa fronteira.

Tenho a perfeita convicção de que esta não é maneira muito canónica e referir história e obra tão louvada.

Tenho. E, ainda para mais da autoria de tão galardoado escritor que até já foi proposto para o prémio Nobel.

Tenho essa perfeita convicção. Mas, quando um livro sai da mão de seu autor e se torna obra impressa de folhas e páginas contidas entre duas capas mais ou menos sedutoras e aliciantes – ele passa a ser também de quem lê.

Mantém-se é certo, descendente directo de quem o criou. Porém, quer o livro, a obra de arte concebida pela inspiração, talento, inteligência, criatividade, saber, ou seja lá o que se lhe queira chamar – quer um filho de sangue – têm caminhos próprios inalienáveis. Ainda quando se trate dessa tal princesa que Dona Maria Ana Josefa, vinda de Austrália, deu à luz por via dos amores do Senhor Dom João V – numa cama preciosa bulindo de parasitas. (conta o Memorial).

Assim que, como as pessoas, os livros também grangeiam nos seus percursos mais ou menos fama, prestígio, aceitação…

Pessoalmente, não morro de amores pela escrita de Saramago.

(Vejam que ousadias permite a democracia à minha ignorância!...)

Ora tudo isto porque, relendo aqui e ali fragmentos de “Memorial do Convento” – senti de novo o “bafo” axficiante das camas quentes dos palácios onde reis e princesas dormiam tão assediados por legiões de percevejos, como qualquer soldado ou maltrapilho – todo um povo – que, às claras, se catava de piolhos como símios, entre si, cantam pulgas abrindo marrafinhas na pelagem… E, lembrei-me da carta de despedidas do parasita que, guloso como um vampiro, partiu em demanda de nova cabeça para explorar:

                          

“Se disserem que morri entre unhas:

- arranjai testemunhas…

Se disserem que morri em água quente:

- esperai-me sempre…

Se vos disserem que morri em lume de algum lenho:

- Não me espereis, nem escreveis, que já não venho.”

- Coutos de “ratinhos” entre a poeira e o calor das ceifas que aumentam as coceiras…

Ball-and-stick model of DDT or Dichloro-Diphenyl-Trichloroethane. 

E… não é que de repente pensei com gratidão, quase com ternura, no altamente poluente D.D.T.?

Coisas do destino.

 

Maria José Rijo

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 22:59
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3 comentários:
De Aristeu a 22 de Março de 2009 às 23:30
Querida tia
Concordo consigo. Eu não sou leitor de Saramago.
Cada um gosto do que gosta e nem mesmo por ser
Nobel me modificou o gosto.
Já não gostava antes, depois tudo igual, no entanto
quem gosta, gosta - os meus Parabens.

Gosto sempre muito dos seus artigos e os meus
alunos já me dizem que todos os dias vão ler as
actualizações do Blog. e isso deixa-me muito
FELIZ, creia-me que sim.

Hoje tenho uma novidade triste para lhe dar
é que tio Américo foi mordido por uma serpente
e teve de ser internado no hospital, ainda não
está melhor mas os médicos estão a tentar salvá-lo.
Amanhã darei noticias tia.

Beijinhos para si e as melhoras da Tia Barbara.
Saúde

Aristeu


De Adalgisa Alexandra a 22 de Março de 2009 às 23:59
Tia boa noite
passei para olhar, ler e deixar beijinhos.
Realmente a tia tem um espolio literário imenso.
Uma vida a escrever BELEZA, lucidez, verdade e
amizade.

Gosto muito de si.
Beijinhos também para a sua mana.

Gisa


De Gustavo Frederich a 23 de Março de 2009 às 00:05
Tia tão querida
... a Emma está na Russia...

Beijinhos
Gus
.
Nostalgia

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que plas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca



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