Terça-feira, 31 de Março de 2009

O meu compadre

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.880 – 20 de Março de 1987

  

Enquanto nos levava para a escola, na carrinha que uma velha e pachorrenta mula puxava, o compadre Miguel contava histórias, ensinava coisas ou cantava.

Era sua estratégia para nos manter, a minha irmã e a mim, sentadas e quietas.

Ás vezes, com tempo bom, parava, prendia a “besta” na beira da “estrada nova” e fazia a sua provisão de vegetais.

Foi assim que aprendi a identificar as ervas comestíveis e outras destinadas a mezinhas.

Tengarrinhas, [Acelga]acelgas, funcho, cardo para coalhar o queijo, tornaram-se familiares. Ervas apreciadas por coelhos também ainda as distingo … pimpoilas” poucas!... que os faz “enchar”, recomendava.

A pimpinela, para os problemas intestinais, também era muito procurada para acautelar “andaços” de verão com excessos de frutas.

Abrótea Gamão ou Abrótea (Asphodelus sp.) por Valter Jacinto | Portugal.para as “empinges”, menta para a dor de dentes, rilha-boi para pincelar com azeite virgem nas queimaduras, macela para os “fastios” e fel-da-terra para as “fevres” faziam parte do rol. Aprendi onde nasce e cresce o “poejo”, a merugem” e o mantrasto” e os terrenos onde rebentam os orégãos, colhi agriões em riachos e aprendi como é perigosa a flor de cicuta por Coloraudia.cicuta e enganosa a dedaleira de onde se extrai (sei agora) a digitalina e me encantava com as suas flores cor de rosa em forma de dedais.

Enfim! Coisas de aldeia, onde a natureza nos cercava vibrante e imperiosa.

Por lá os caracóis, além de petisco, eram sustento.

              Dorminhoca da Quinta dos Ouriços

Por lá onde os ouriços guinchavam de agonia a morrer queimados vivos, nos lumes que brilhavam à porta das tabernas, nas ruas sem luz, enquanto os homens aguardando o pitéu, bebiam vinho e cuspiam para o chão entre galhofas e dichotes boçais.

Daí trago o horror à violência, à injustiça social e à brutalidade que via eclodir da ignorância.

Mas, eu falava do meu compadre Miguel que tinha uma navalha que brilhava mais do que a lâmpada de Aladino.

Era uma navalha que saía fechada do bolso, que abria com um estalido seco e, que, de seguida era afiada no couro das botas cambadas que ele arrastava nos pés.

                              B. Alentejo

Sempre. Sempre isto antes de cortar o pão e raspar o toucinho que depois lenta, muito lentamente, seriam cortadas em pequenos nacos e mastigados com delícia.

Ainda hoje penso que aquela navalha que sabia fazer “pipas”, moinhos de cana souça, vergastas e outras coisas mágicas… que cortava o “toicinho” e a “lenguriça”… afiada na bota suja e limpa da calça puída de cotim… dava a tudo um toque especial.

Depois das refeições voltava a navalha aos mistérios do bolso de onde também surgiam cordéis, pregos e outras maravilhas que tais.

Como sobremesa, bebia o compadre mais uma golada da garrafa de vinho que sempre o acompanhava dentro do alforge e lá íamos na carrinha rumo a casa, com a noite a avizinhar-se e o compadre a espantar o silêncio da estrada deserta cantando a “sua versão” do Hino Nacional:

 

“Nação valente e mortal”

“Entre as brumbas da mimória”

“O Pátria senta-se à voz”

“ dos teus engréjos avozes”

Etc… etc…

 

Maria José Rijo

 

estou: compadre Miguel

publicado por Maria José Rijo às 00:09
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5 comentários:
De Gustavo Frederich a 31 de Março de 2009 às 00:47
Que posso eu dizer perante esta história verdadeira,
esta reminiscencia?
Que posso mais eu dizer a não ser Obrigado Tia.
Não sei se já lhe disse mas eu adoro as suas
reminiscencias, aliás eu gosto de tudo o que tem
sentido poético - e esse sentido está am cada frase
em cada tema de conversa.
A tia tem uma alma muito especial, uma alma de
grande equilibrio e de uma sensibilidade de artista.
Estou-lhe grato pelo seu comentario (para mim).

Gostei imenso deste texto.
Um Grande, grande beijinhos

Gus


De Luis carlos Presti a 1 de Abril de 2009 às 01:16
Olá Tiazinha querida
Mas que Texto bonito.
Adoro - como diz o Gus - as suas reminiscencias
e os textos onde a poesia fala mais alto.
A minha companheira - A Carla - está a tirar cópias
dos seus poemas, receitas de colinária, dos doces...
e de alguns textos que ela mais gosta.
Tem indicado o seu blog a muitas amigas e têm
feito lanches onde cada uma leva algo das suas
receitas.
Acho uma ideia muito engraçada, esta que elas
tiveram e um pormenor comum a todas é que
dizem que a Senhora, a minha Tia - também é tia
de cada uma delas.
Então dizem - "è a Receita da minha Tia que vive
em Portugal" e a maioria delas nunca estiveram
em Portugal. eh eh eh eh
Como vê Tia por aqui nesta linda Florença onde
vivemos, as Italianinhas - amigas da minha Carla
estão muito animadas.
Isso dá-me alegria e aqui estou , também, para
lhe contar esta novidade e acrecentar que nem só
no Brazil, estão a dar a conhecer a minha Tia.

Estou Feliz com estas ideias.
Ficou feliz?
Muitos Beijinhos minha Tia

Luis Carlos Presti


Ah
vamos ter bébé cá em casa lá para Setembro...
Beijinhos

Luis Carlos


De Dolores Maria a 1 de Abril de 2009 às 01:30
Tia, Tiazinha querida
Já tinha saudades de vir aqui para a nossa
conversa diária.
Falhei porque tive de ir ao medico com a magé.
Está constipadinha, a nossa bonequinha linda.

Tia gostei muito do seu texto, é mais uma reminiscencia?
Tão querida, a tia e a sua mana, de crianças.
Adorei.
Sabe que a Luizinha tinha tirado todas as fotos suas
e tinha-as num album, com os seus poemas e
pensamentos dela.
Nunca percebi bem... mas ela gostava muito de si,
o que me deixa muito feliz.
A magé já aponta a sua foto e quando a apanha na
mão, dá beijinhos. Eu e o Avelino rimo sempre e
ela tambem.

A Páscoa está próxima e este ano vou fazer umas
coisinhas...
vou assar o leitão Manelzinho que está na conta.
Vou fazer dos seus bolos da Pascoa - lá das suas
receitas - que tanto me agradam.

Ah uma grande novidade - hoje o meu Avelino
imagine - lembrou-se e disse "- vamos paxão"...

Beijinhos tia querida

Dolores


De Adalberto Gomes de Sá a 1 de Abril de 2009 às 01:37
139.038

P A R A B E N S

Este número quer dizer que este blog recebe imensa
gente, que é muito lido e apreciado, o que muito me
deixa FELIZ, já que eu partilho dessa opinião.
Sou um leitor que vem aqui todos os dias e por vezes
2 vezes.
Gosto da escrita/prosa
Gosto da poesia
e acho que tem sempre uma apresentação
maravilhosa, belas fotos que nos dão duas
leituras especiais.
Gosto das actualizações diárias - e GOSTO muito
das suas opiniões acerca do mundo cão - que é o
da politica.
Parabens por ter um blog Honesto e também em
não ter comentários anónimos - uma praga que
estraga o trabalho dos outros.

P A R A B E N S
Cumprimenta-a

Adalberto Gomes de Sá
(do Algarve)


De Aristeu a 1 de Abril de 2009 às 01:42
Tiazinha
Que lindo, que texto maravilhoso, uma reminiscencia
pura - um pedacinho da sua infância.
Imagino como seria, para si, os desagradáveis
gritos de dor dos pequeninos ouriços.
Até me arrepia a alma - só de imaginar tanta
brutalidade.

Oh tia até fiquei emocionado.
As suas reminiscencias, para mim, são histórias
ecantadoras que vão de encontro a algo do meu
passado, não sei quê... mas dizem-me muito.

Beijinhos tia querida.
Gosto muito de si

Aristeu


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