Sábado, 18 de Abril de 2009

O ILUMINADO

Conversas Soltas

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.425 – 31 – Outubro de 1997

 

 

 

Era perto, muito perto das 18 horas do dia 21 do corrente – Terça-feira.

Regressava a casa.

Para meu caminho escolhera a rua de Alcamim.

Era esse o meu hábito.

Agora pede-me o coração que dele me afaste.

Porém, mandou-me a vontade que tentasse, tentasse a empatia com aquela calçadinha escusada que por ali aconteceu.

Queria, queria muito, acreditar que o mau gosto era meu e que aquilo que lá se vê, se pisa e faz escorregar - não foi fruto de uma qualquer manobra de esperteza eleitoralista...

Queria muito tentar familiarizar-me com aquela estranha forma de gastar o nosso dinheiro (e que balúrdio!) em obras só para eleitor ver.

Obriguei-me então a pensar: A cidade é de todos, há quem goste! Respeita isso!

Pelo menos quem isto mandou fazer deve gostar. - Insisti comigo, tentando de qualquer forma um espírito conciliador para fazer o percurso e aceitar o inevitável. É que se a esperteza decidiu pela obra ainda não vi em actuação a inteligência que já teria atenuado os seus malefícios pelo menos suprimindo os pinos.

Será que o pavimento está mal feito? - Pensei!

Será que a calçada não tem fundações que aguentem a passagem de carros?

Será que há receio que isto se afunde? - Que abata?

Será esta recusa frente ao óbvio manobra de diversão?

Será?

É que sem qualquer razão lógica para sustentar tão abstrusa teimosia todas as hipóteses ficam de pé.

                

Lembrei-me então dos habitantes de Santa Eulália que choraram quando o negrume ofuscou a calçada das suas ruas e se confortam agora dizendo: - “o que vale é que a camada de preto é fininha e a chuva vai gastá-la depressa”...

Pensei nisso, é verdade, mas aqui a chuva não resolve! - Piora.

Meus passos cautelosos, “a idade torna-me prudente”, faziam chape, chape na calçada onde a água dificilmente se escoa.

Era altura da edilidade tomar outra medida eleitoralista para complementar esta, pensei irónica: - oferecer galochas aos passantes.

                     

Quero dizer enfiavam-se à entrada, rente a um pino, largavam-se à saída à beira de outro e assim serviriam toda a gente sem custos elevados.

Nesta altura das minhas divertidas, ou mordazes conjecturas, descurando um pouco a segurança dos meus passos levantei os olhos do chão e vi que a barafunda de que me apercebera partia de um agrupamento de pessoas, umas de pé, outras de joelhos, outras curvadas que lutavam desesperadamente contra o pino do cimo da rua de Alcamim – o que inibe o acesso de carros vindos da rua da Cadeia.

Um carro de bombeiros, parado, aguardava para prestar o solicitado socorro que a rosca, a chave, a corrente, o cadeado e todo o arsenal que constitui os mal afamados obstáculos - vulgo : pinos – se decidisse a colaborar com a sentença do senhor Presidente que os considera “fáceis e rápidos de remover”.

Olhei o relógio...

Passaram mais de 10 minutos.

Felizmente não havia ninguém em perigo de vida - era um algeroz entupido!

Mas... e, se houvesse?

Se houvesse senhor Presidente?!

É que V. Exª terá que pensar que o facto de terem pendurado o seu retrato por quase todos os candeeiros da cidade não o torna num homem iluminado.

A luz tem que vir de dentro.

Do coração.

Da alma.

Da inteligência – que segundo o dicionário de Morais quer dizer: - faculdade de entender, de compreender, penetração de espírito, percepção clara e fácil discernimento, etc, etc.

Esperteza e teimosia são valores muito pobres como traços capitais de quem tenha que decidir sobre a vida de uma cidade e, até este momento, é o que mais se tem verificado.

Está na hora de superar lástimas e misérias e demonstrar inteligência.

                            

Não se trata de braço de ferro – combate de boxe ou qualquer relação de força que permita ganhar ou perder.

A parada é muito mais alta.

Não se compadece com mesquinhez.

Trata-se de ser ou não ser capaz de respeitar interesses de uma população, de uma cidade que por direito os exige.

Trata-se de ter ou não ter a nobreza de ser humilde.

Trata-se de dar razão a quem a tem.

Trata-se de pedir desculpa a quem se ofendeu.

Trata-se de resistir à esperteza e deixar que triunfe a inteligência.

Os homens não são deuses – todos cometem erros.

Iluminados são aqueles que tiverem a coragem de o reconhecer.

 

 

Maria José Rijo

 

estou:

publicado por Maria José Rijo às 22:41
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12 comentários:
De António Piedade a 18 de Abril de 2009 às 22:57
Excelente!!!
Excelente muitas vezes.
É mesmo como eu digo e penso, a Senhora tinha de
escrever também para jornais com um círculo maior
de leitores.
Gosto imenso de poder ler - ter o prazer de ler - os
seus artigos.

Os meus Parabens cara amiga

António Piedade


De Olivia Sousa Sampaio a 18 de Abril de 2009 às 23:05
Muito boa noite
e os meus Parabens por este artigo e por este
excelente blog.
Tem um blog muito interessante, repleto de belos
textos, de temas variados sem perder nunca a
classe com que aborda os assuntos, a forma como
nos leva até ao fim do que nos conta.

Sinceramente deixo aqui o meu voto de Louvor.
E por favor continue a mostrar-nos este seu
espólio magnifico.

Os meus sinceros Parabens.
A minha imensa admiração pela sua inteligência.

Um beijinho muito especial

Olivia Sousa Sampaio


De Maria José a 23 de Abril de 2009 às 22:14
Olivia Sampaio - obrigada por ter lido e comentado este artigo de opinião, que, como alguns outros mais, me deram algum retorno um tanto truculento.Porém assim como o aço se tempera pelo fogo o mesmo acontece às nossas mais profundas convicções, não se deixam abalar pelo desconforto que causam,pelo contrário, enraízam.
Os ideais, são como filhos de alma.Também se morre por eles.
Um beijo grato - maria josé


De Adalgisa Alexandra a 18 de Abril de 2009 às 23:22
Tia querida
Adorei a foto do Vasco Santana.
Sempre gostei imenso dos filmes portugueses e
só é pena não se ver o candeeiro a quem ele
pede lume para acender o cigarro.

Sempre excelentes os seus textos, sempre especiais.
Oh tia, gosto muito de si.

Beijinhos e que tenha um bom domigo.

Gisa


De Aristeu a 18 de Abril de 2009 às 23:58
MInha tão querida Tia
Quero confessar-lhe que o meu Pai já tinha falado
neste texto e aqui estavamos todos nós esperando
que ele aparecesse on Line.
E hoje... hoje foi esta surpresa.

Os meus parabens e obrigado por o ter colocado
aqui - On Line.
E ainda... esperamos outros...

Muitos beijinhos tia querida
Gosto muito de si.

Gus



Ah Tia duas noticias
Uma boa e outra ruim.
A boa é que o Tio Américo está melhor de verdade.
tem imensa força e coragem.
A Letícia vem cá a casa para lhe fazer fisioterapia
e ele aceita muito bem e já melhorou mas só
pensa em voltar a trabalhar lá na hortinha dele.
Nem imagina como é dificil mante-lo quietinho.

A outra noticia menos boa
é que o Gilinho foi a um rodeo e caiu de cima do
touro - partiu uma perna ( a esquerda) pelo que
está acamado, com a perna em gesso.
Imagine, imagine...
O meu Pai lá anda de um quarto para o outro...
E assim anda a vida...

Muitos beijinhos minha Tia tão querida

Aristeu


De Gustavo Frederich a 19 de Abril de 2009 às 00:32
Olá
Muito boa noite.
Nesta noite fria onde o lume da lareira volta a saber
bem.
Gosto deste ambiente de inverno, aqui em casa
este ar acolhedor, que sei que a tia iria gostar de
sentir este calorzinho, e os gatos ali defronte da
lareira, cada um na sua almofada de veludo, com
borlas , que eles tanto gostam de brincar.
São muito bonitos e meigos.

Tia este texto é muito especial.
Toca-me a forma como consegue mostrar caminhos...
A forma brilhante como consegue ensinar o
obvio que muitas mentes fechadas - são incapazes
de olhar.
É bom caminhar a seu lado, olhar nessa mesma
direcção e sentir a brisa no olhar...
Os meus Parabens ...
Parabens em todos os dias e por este blog...
este blog que faz a minha delicia na net.

Muitos beijinhos tia e por favor
SEJA FELIZ
a vida é o melhor pedaço do caminho que temos de
seguir ...

DEste seu sobrinho e admirador


Gus


De Maria José a 23 de Abril de 2009 às 22:33
Meu sobrinho querido
Quando li este comentário logo me ocorreu perguntar onde estava a minha cadeira de balouço!
Sim! -porque se os gatos têm lugar marcado , eu também queria o aconchego da minha cadeira, prto da sua lareira, junto a uma janela de onde possa olhar o jardim e tendo por perto uma mesinha de pé de galo onde sempre esteja o meu terço, a caixa de costura que herdei das minhas tias com os pertences todos em marfim e os retratinhos dos meus sobrinhos quando eram pequeninos . Claro que o Gus e a Rosinha também lá estão como eu os sonho - lindos- porque são sempre lindas as crianças que a gente guarda no coração.
Bem pode a neve caír lá fora...
Como vê estou por aí algumas vezes.
Mais do que julga...
Beijinhos - tia Zé


De Ubaldo Fonseca a 19 de Abril de 2009 às 00:44
Sim Senhora
Bonito blog. Gostei imenso de conhecer este
cantinho.
Formidavel .

Os meus Parabens

Ubaldo Fonseca


De Maria José a 23 de Abril de 2009 às 22:46
Ubaldo Ferreira
Obrigada pelos parabens e pela visita
Um abraço
Maria José Rijo


De Xavier Martins a 19 de Abril de 2009 às 00:59
Minha boa amiga
Um excelente texto. Sem duvidas.
O seu blog - desde o primeiro ao último post
tem uma slecção excelente de textos e temas.
Este blog é um lugar formidável.
Não sou o único que aqui afirma, uma e outra vez
que este blog é uma regalo para os olhos e para
quem gosta de ler opiniões lucidas, inteligentes e
honestas.
Os meus Parabens minha amiga

Hoje até é um dia triste
faleceu-nos uma sobrinha com 30 anos com
que sofria esclerose multipla.
Estamos destroçados mais uma vez.

Um abraço
Xavier martins


De Martim de Oliveira e Sá a 19 de Abril de 2009 às 18:07
Minha Senhora
A minha gratidão por este seu blog.
É um blog de grande qualidade literária. A Senhora
tem um DOM para a escrita e não é pequeno.
Tive conhecimento do seu blog faz 2 meses, porque
o meu neto fez um excelente trabalho para a escola,
onde tinham de identificar um autor retirado da net.
E ele escolheu poemas do seu blog. Teve uma nota
excelente e todos da familia começamos a ler a cada
dia esta maravilha - que é este seu dominio.

Um abraço e os meus Parabens.
Desde já seu leitor

Martim de Oliveira e Sá


De Maria José a 23 de Abril de 2009 às 22:52
Martim de Oliveira e Sá
Alegrou-me muito saber que um jovem achou algum encanto ou interesse em qualquer coisa que escrevi.
Obrigada por me ter contado. Na minha idade encontrar eco num jovem é mais do que posso desejar
Obrigada a ambos
Um abraço
Maria josé rijo


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