Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Reminiscencia - 24

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.838 – 3 – Novembro - 2005

Conversas Soltas

Reminiscência Evocação

Reminiscência - 24

.

Uma das coisas que a Vida me ensinou, é que, de certo modo, nunca se está só.

Há sempre dentro de nós, qualquer lembrança, qualquer recordação que inesperadamente nos aflora ao espírito e que nos assegura que somos ou já fomos parte de um núcleo que mesmo depois de extinto, e permanecendo apenas como memória, nos identifica como indivíduos.

Nenhum de nós, é apenas e simplesmente isto ou aquilo. Cada um de nós, é, em cada dia um ser em evolução ao qual cada hora, cada minuto, cada instante torna diferentes, mas que conserva latente dentro de si, como um fermento, memórias da sua infância que sempre serão condicionantes e motor, dessa evolução.

           

Aqui há dois ou três dias atravessando o jardim, parei a observar a passarada nas gaiolas e dei comigo a pensar como desde muito criança sou pela liberdade.

Meu pai, adorava música e canto, aliás cantava muito bem, de tal forma que era solista no Seminário Patriarcal onde, em menino, estudou.

Nesse culto incluía também o seu apreço pelo canto das aves.

Cuidava com zelo das suas gaiolas de canários e, muitas vezes parava de ler qualquer jornal ou livro que tivesse em mãos, para, desvanecido ficar a escutar os seus trinados

Ora, em certa altura decidiu adquirir, também pintassilgos.

Vivíamos no campo, a tarefa afigurou-se-lhe fácil.

E, vá de comprar gaiolas e povoa-las. Acontece que o desconforto de estarem presos era tal, que os pintassilgos passavam o tempo a tentar alargar os arames, com as cabecitas, tentando a fuga.

Eu, olhava sofria e ia crescendo tanto a minha aflição, que à socapa ajudava-os e, eles fugiam.

As crianças são matreiras, mas os adultos não são tontos...

Meu Pai, calou-se, mas desconfiado da “fartura” porque o fenómeno se repetiu várias vezes – averiguou – e foi-lhe fácil apanhar-me em flagrante.

Estática, mais envergonhada e humilhada por ser descoberta a traí-lo, do que receosa, comecei a chorar.

E, quando eu pensava que meu Pai, ao erguer a mão para mim me iria puxar uma orelha (único castigo, e raro, que mais fingia do que exercia) ele segurou na minha, pegou-me ao colo, limpou-me as lágrimas e disse comovido: - tens razão filha! Até um pobre passarinho luta pelo direito à liberdade.

Vamos respeitar isso!

E, acabaram os pintassilgos engaiolados.

Revivi a cena e pensei: - meu Pai morreu já velhote!

Foi em 71, há 34 anos, tinha ele então 81!

Foi neste exacto momento que me lembrei da minha própria idade.

E, confesso que dei comigo a rir, a rir com gosto.

Velhote! Velhote!

E, velhota, porque não?!

~     

Fantástico como o tempo altera alguns dos nossos conceitos mais “definitivos”...

E, esta hein? – Diria, sem hesitações, Fernando Pessa.

 

Maria José Rijo

 

estou: Reminiscencia - 24 - Evocação
música: Nº 2.838 - 3 - Nov. - 2005 - Evocação

publicado por Maria José Rijo às 22:17
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8 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 7 de Maio de 2009 às 23:31
Linda este reminiscencia.
Adoro quando nos mostra pedacinhos do seu
passado como este.
Que menina linda que era (era a tia não é?).
Obrigado pelo seu comentario para mim.
Gosto sempre quando fala comigo.
Um beijinho

Gisa


De Amilcar Martins a 7 de Maio de 2009 às 23:40
Minha Senhora
Os meus Parabens por estas suas reminiscencias.
Como a Gisa, também eu as aprecio muito e devo
dizer-lhe que as tenho todas arquivadas com muito
carinho.

Os meus Parabens

Amilcar Martins


De Maria José a 15 de Maio de 2009 às 21:19
Amilcar Martins
A sua presença já me é tão familiar que quando está mais tempo sem aparcer ja´se lhe sente a ausência.
Obrigada por ter vindo à conversa - um abraço
Maria José


De Dolores a 7 de Maio de 2009 às 23:54
Querida Tia
Obrigado pelo seu comentario mas tudo está a
passar devagarinho - mas vai passar.
A Magé está linda, a crescer.

Cá vamos andando tia.
Fiquei preocupada com a sua saude dos olhos.
Mas vai tudo correr bem, não é?
Sei que sim.

Beijinhos
Dolores


De Luis carlos Presti a 8 de Maio de 2009 às 00:07
Tiazinha tão querida
São tão lindas as suas reminiscencias.
Gosto de todas e a Carla está a coleccionar
tudo o que a tia escreve.
Temos tudo, com fotos a cores.
Estamos muito contentes com este trabalho seu.
Os nossos amigos também vão ler. Uns gostam
de poesia, outros das receitas, outras da forma
como olha o mundo, sei lá tia cada um tem um
gosto especial.

Um grande beijinho de nós para si.

Luis Carlos



De Maria José a 15 de Maio de 2009 às 21:13
Luis - sabe o que era bom? - era eu coleccionar fotografias das vossas visitas a Elvas!
Era bom sinal. Queria dizer que tinha vivido a vossa companhia e a vossa amizade de perto.
Mas...como o optimo é inimigo do bom - fiquemos com o azoável que nos vai cabendo.
Beijinhos e bem hajam pelas vossas queridas presenças
Tia Zé


De Dina a 9 de Maio de 2009 às 23:47
Lindo este texto.


De Maria José a 15 de Maio de 2009 às 21:22
QueridaDina - aí um dia destes ao serão apareço-lhe pelo telefone
Beijinhos Maria José


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