Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Reminiscências – 27

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.890 – 2- Novembro-2006

Conversas Soltas

Reminiscências – 27

A Dona Mariquinhas

          

A Dona Mariquinhas era modista de senhoras. Tinha aprendido a ler com a mesma professora que minha Mãe, e assim ficaram amigas desde a escola.

Cada qual seguiu seu rumo, mas a amizade manteve-se. Minha Mãe com aquela força de carácter que conservou até ao fim da sua longa Vida, atropelando um pouco os costumes de então, foi estudar para Faro, onde conheceu meu Pai, desistiu da Escola Normal e, aceitou o destino tradicional de casar e fazer vida de casa, (do que sempre manifestou algum arrependimento embora moderado, dizendo que nunca uma coisa deveria excluir a outra...)

Mariquinhas, fez-se mulher e “dona” com os anos, mas permaneceu solteira.

Aprendeu corte e costura, investiu na profissão a sua veia artística e, era célebre no seu “métier” até nas povoações vizinhas.

Vestir da sua casa era, como agora se diz: - o máximo!

Vivendo ela na terra de meus avós e tios certo e sabido que a visitávamos, também, com frequência e, isso era um dos maiores encantos das nossas estadas no Algarve.

com sandy aa.jpg

Ela era uma figura especial. Não era muito bonita, era baixota, mas o seu rosto agradável, de expressão sempre risonha, era um sorriso aberto e doce quando nos avistava, o que punha a brilhar os seus pequenos molares forrados a ouro, pormenor que nos parecia deslumbrante.

Prestava-nos imensa atenção, fazia perguntas levava a sério as nossas confidências e, com a sua voz, um tanto velada, quase rouca, contava-nos histórias.

Naquele tempo a indigência era a “reforma” dos pobres. Havia até figuras queridas, nos povoados, de entre eles. Eram os loucos mansos, que declamavam rezas e ladainhas, às vezes até sem nexo, que provocavam sorrisos, mas que as pessoas acolhiam com piedade, e, até alguma estima.

Dona Mariquinhas atendia-os a todos, tratava-os pelos nomes, falava com eles, e isso deslumbrava-nos.

Fazia-lhes perguntas anedóticas com aparente seriedade. – Mesmo assim, inquiria:- quantas castanhas seriam precisas para calcetar a estrada aqui de Messines até à Cumeada. O visado pensava, pensava, e respondia um número qualquer. Então ela, retorquia: - enganou-se só por quatro! - Felicitava-o, e dava-lhe uma boa esmola.

Nos dias bonitos de Primavera e Outono levava as “pequenas” a costurar para o pátio. Elas, sentavam-se em cadeirinhas baixas, de fundos de bunho, à sombra do enorme caramanchão de roseiras e buganvílias, e, Dona Mariquinhas, Suggia2 casaco pele.jpgtomava assento num cadeirão de verga e lia para elas, em voz alta, trechos de:- A Rosa do Adro, A Morgadinha, os Fidalgos da Casa Mourisca, e, por aí fora. Porém, o melhor para mim é que ela interpretava teatralizando o que lia; e, conforme fosse o personagem, assim fazia voz fina ou grossa sem se enganar sequer na musicalidade das gargalhadas com que figurava cada qual.

       

À meia tarde chamava os gatos que retouçavam pelo

 

quintal – Serenata! Viola! Bandolim!

 

Que apareciam para lambaricar os pires de leite enquanto a empregada da casa a todos servia a merenda, que invariavelmente oferecia.

Marmelada, biscoitos caseiros e gostosas fatias de pão com manteiga. Para bebida, chá de ervinhas. (príncipe, cidreira...)

Terminado assim o “recreio”. Tudo recolhia para dentro de casa e na sala de trabalho voltava a tesoura a fazer a música do terr, terr, cortando tecidos sobre as tábuas da mesa enorme, feita de castanho maciço e as agulhas a cantar baixinho ao roçar nos fundos metálicos dos dedais.

Então, na companhia da “mais velha” das aprendizas, Dona Mariquinhas afastava-se e, só depois de tratarem da tia Julinha (que sofrera uma congestão) e permanecia havia anos, imóvel e muda como uma santa de cera entre a alvura dos lençoes cujos bordados e rendas se confundiam com as camisas de dormir preciosas como peças do museu, que era o seu quarto -  reaparecia, risonha, como sempre, pontuando : vamos ao terço e, assim acontecia, no final do dia, com a sua récita em coro.

Como prémio – pela nossa presença, que ela muito apreciava - na despedida, vinha o convite: - podem escolher daqui, e apontava uma resma – os trapinhos que quiserem para fazer vestidos às bonecas. Eram tantas as cores e tão variadas, que era como meter a mão no arco-íris.

E, assim nascia o começo de um novo sonho para o dia seguinte...

E se fundamentava, sem disso nos darmos conta, o arquivo das reminiscências, que de vez em quando me apraz, deixar, aflorar.

 

 Maria José Rijo

 

estou: Reminiscências – 27
música: A dona Mariquinhas - Nº 2.890 - 2-11-2006

publicado por Maria José Rijo às 22:08
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6 comentários:
De Xavier Martins a 13 de Maio de 2009 às 23:35
Mais uma bela reminiscencia.
A Senhora tem uma colecção especialmente
bella das suas memoórias de infancia.
Mereciam um Livro especial.
Realmente este blog é uma maravilha.

Os meus Parabens D. Maria José.
O meu blog ( o seu blog) é tão especial.
Os meus parabens

Xavier Martins


De Maria josé a 15 de Maio de 2009 às 17:21
Meu Amigo - de vez em quando parece que tomo chá de sumiço , como se diz cá pelo Alentejo, e desapareço.
A verdade é que é a vida que nos comanda e o nosso livre arbítrio , para pouco mais serve, do que para nos acomodarmos a isso.
Assim tem sido.
Desta vez problemas de visão que mesmo sem gravidade de maior tem que ser resolvidos a tempo.
Obrigada sempre pela sua presença e pela sua opinião que muito considero.
um abraço
Maria José


De Aristeu a 13 de Maio de 2009 às 23:58
Muito boa noite minhs tia querida
Adoro sempre ter acesso a estas suas lindas
recordações.

Esta também é linda.
Obrigado.

Aristeu


De Maria josé a 15 de Maio de 2009 às 18:29
Meus queridos
Andei para aí a fazer turismo a caminho de Évora e, gostei tanto que já marquei novo passeio.
Isto, de viver muito, tem seus custos. Agora que já tinha "enriquecido" o meu vocabulário com a citação do vocábulo cataratas e tinha arrumado no meu espirito a decisão de eliminar "tanta água"eis que me forçam a conviver com uma sombra diferente -glaucoma.
Graças a Deus que estas descobertas foram feitas em tempo certo e, embora imponham alguns cuidados não são nada que preocupe mais do que a conta, até porque oitenta e tantos sem esses problemas são um bem inegável que usufrui até agora.
Explicado o silêncio vamos ver se serei capaz de gerir
o ler, ver televisão e espreitar a net com o equilibrio que se impõe.
Espero que sim.
Fico sempre contente quando o encontro por aqui,até me parece que estão tão perto quanto eu desejaria.
Que estejam bem.
Vai deixar morrer a horta do tio Américo?
Beijinhos - muitos - Tia Zé


De Gustavo Frederich a 14 de Maio de 2009 às 00:13
Quando penso no que será a publicação do dia
fico sempre áquem do que nos dá para ler.
Fico sempre surpreendido pela beleza das suas
palavras, pela beleza das suas descrições.
É muito bom ter este acesso a um mundo, que
para a maioria, está inacessivel - o mundo da
infância - o mundo do que os seus olhos e
coração de criança - olharam e sentiram.
Todos os que passam por aqui - também têm
recordações - mas nem todos têm esta bella
facilidade de as escrever e fazer delas - o que a
Tia aqui nos mostra - nesta simbiose de texto e
imagem - e mesmo sem imagem - ela forma-se
em cada um dos que lê.
Parabens Tiazinha
E parabens também por nos deixar ler a sua
fabulosa e magnifica obra literária.
Quando leio aqui os muitos comentários de pessoas
que dizem ter copiado para o papel os seus
textos / Poemas / receitas / opiniões e todo de
bello que aqui nos mostra dia - a dia - eu aconselharia
a todos que oferecessem um exemplar a essa
biblioteca da cidade onde cada um vive.
É uma obra Literaria importante.
Eu farei exactamente o mesmo com os meus
exemplares encadernados.
Não sei em que cidade/país eu irei entregar -
ultimamente não tenho permanecido por muito
tempo - mas minha tia - penso que vou voltar
para a minha floresta negra - e aí terei outro Aldebaran - e então será - Aldebaram - branco
como a neve fria e Antares negro como a noite.
Estou a pensar sériamente em regressar...
O que me diz minha Tia?

Deixo-lhe um beijinho enorme

Gus


De Maria José a 15 de Maio de 2009 às 18:58
Gus - mas que bom que me olhe com os olhos da sua alma!
Que sorte a minha!- confesso que me delicíaria "acreditar"no que me dizem. Não pense que estou a dizer que mente! - não é isso! - eu, é que não percebo como qualquer coisa que eu faça ou diga possa ter tanto mérito. É um pouco assim como olhar as cores. Cada uma é diferente de outra mas, é apenas uma cor que nos agrada.
Um dia a gente fala nisso , está bem? - mas entretanto que Deus lhe pague ser assim meu amigo.
Sabe que não me surpreendeu a pergunta que me faz?
Sei que fará o que dentro de si , se calhar, até já decidiu, mas se pergunta eu respondo : -regresse.
Se o não fizer ficará sempre com a interrogação suspensa dentro de si, e, a dúvida é - quanto a mim - o menos suportável.
Um novo cavalo para percorrer caminhos que saberá de cor... é bom.
Não se volta ao passado, mas não adianta tentar fugir do que temos vivo em nós.
É feita disso a nossa alma.
Beijinhos e boas decisôes e esteja onde estiver sinta sempre consigo o coração da tia Zé


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