Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Os novos rituais

 

 Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1926 – 5 de Fevereiro de 1988

 Os novos rituais

       

Por vezes, acontece que ao repetirmos um gesto ligado a uma qualquer tarefa, mais ou menos rotineira, que ao longo dos tempos sempre vimos executar por alguém, temos a impressão de “ver” a pessoa de quem herdamos esse conhecimento.

           

Pois numa destas tardes escuras e chuvosas, porque me lembrei de como era bom, com tempo assim, chegar da escola e sentir à entrada da porta o perfume das maçãs assadas, da canela no arroz doce ainda quente, ou das compotas a fervilhar em lume brando, nos tachos de arame, brilhantes como ouro, dei-me à fantasia de repetir, para meu goso interior, esses rituais domésticos, quase perdidos.

           

Só que, no fim do último acto da minha encenação, faltavam os destinatários da empreitada.

Faltava o “público” que gulosamente vinha rapar tachos, lambuzar-se e confundir, até ganhar o seu pratinho de arroz doce ou a sua fatia de pão de trigo colorida pela fruta melada de açúcar vidrado.

Então, como num teatro vazio, ali fiquei arrumando os acessórios da cena e fechando a fila dos frascos como quem fecha os camarins desertos dum teatro onde eu encenara, interpretara e fora a única espectadora.

         

Eu, que, olhava tudo com o ar de distância, de quem faz uma investida a um mundo passado e irrecuperável.

Agora, para os novos, mesmo os mais novos, a sedução do paladar não se exerce com cores ou perfumes de compotas.

               

Agora são as garrafas, são os refrigerantes, e as colas, que abrem o apetite para toda a espécie de bebidas, que ocupam definitivamente os espaços onde coexistiam boiões de frutas e latinhas de chá. E o mundo evocador da toalhinha de renda e do bule fumegante, da torradinha estaladiça com compota, e do bolinho caseiro que se fazia contando com os amigos certos – deu lugar à garrafa.

         

Agora em qualquer sala de qualquer casa, rica ou pobre, se tomam “uns copos” e para “uns copos” se convidam velhos e novos e serão portanto outros e bem diversos os rituais a recordar…

 

Maria José Rijo

 

estou: Os novos rituais - 1988
música: Os novos rituais

publicado por Maria José Rijo às 22:14
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3 comentários:
De Aristeu a 23 de Outubro de 2009 às 22:47
Minha querida tia
Já tudo terminou, a cremação aconteceu e o
Gilinho está de rastos...
O Sr Luciano está depressivo...
Um caos...

E a tia sente-se melhor?
Agora tem de estar mais tempo a descansar, um
pouco longe das grandes conversas e claro o
telefone ou o Tlm agora não ajudam, antes pelo
contrario prejudicam.
O senhor Luciano que lhe conte o que aconteceu
por levar três quarto de horas a falar com os
amigos do bingo e caiu para o lado... era o
marca-passos que descarregou... agora não passa
dos dez minutos e já treme.
O Gilinho zangava-se com ele, no entanto agora
nem sai do quarto, nem come...
Ai tia que hei-de fazer?
Muitos beijinhos e as melhoras
Cuide-se minha tia querida

Aristeu


De Adalgisa Alexandra a 23 de Outubro de 2009 às 22:51
Texto novo.
E LINDO.
Parabens minha tia querida.
Adorava provar as suas compotas, devem de ser
deliciosas.
Como faz o seu arroz doce?
Deve de ser belissimo e perfumado. O da minha
mãe era uma delicia mas a receita dela perdeu-se.
Já fiz várias mas nunca encontrei nenhuma
semelhante.
É uma pena.

Está melhorzinha? Espero e desejo que sim.
Muitos beijinhos tia e obrigada por mais esta
maravilha.
Muitos beijinhos

Gisa


De Ana Maria Lourenço a 23 de Outubro de 2009 às 23:00
Olá Senhora D. Maria José Rijo
Então como se encontra? Ficaria eu muito Feliz
que já se sentisse com forças e mais animadinha,
é verdade que sempre é um corpo estranho dentro
de nós mas se nos dá mais qualidade de vida -
então está do nosso lado para nos ajudar.
Que consigo tudo continue agora em bem, a minha
tia Julieta de 76 anos colocou o marca-passos em
2007 e até agora teve problemas só que
agora descansa um pouco mais e o telefone é o
minimo porque que faz muito mal´. É bom mas
também tem destas coisas.
Que se vai fazer!!

Obrigada por mais esta maravilha de artigo.
A Senhora tem uma alma linda e escreve assim,
maravilhosamente.
Parabens

Ana Maria Lourenço


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