Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O EQUIVOCO

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.967 – 2 de Dezembro de 1988

O EQUIVOCO

         

Quase todas as tardes antes que a sombra envolvesse a varanda, eu costumava gozar o sol lá, naquela linda casa perto da Serra da Estrela, onde então vivíamos.

Por baixo, no rés-do-chão, havia um jardim com um arbusto alto, cortado em redondo por cima, que, como soldado posto de guarda crescia frente ao portãozinho da entrada.

Era bonito. Deve ainda ser bonito de ver, se não mudou. Da varanda avistavam-se as serranias em redor. Como o clima por lá, era mais frio, a Primavera era tardia, mas as rosas de toucar que se debruçam nas grades de ferro e muros de pedra dos quintais faziam-na perfumada, com seu ar, de alturas, leve e fino.

      

Eu tinha tempo para gastar em pequenas tarefas que se tornavam mais agradáveis quando já não havia neve e a temperatura convidava a fazer sala na varandinha alta.

Foi assim, que em certa ocasião depois já de muitos dias passados desde o começo do bom tempo comecei deliciada a acreditar que dois passarinhos que sempre via nos fios do telefone se tinham habituado de tal modo à minha presença que já os poderia considerar meus companheiros amigos.

E, aqui, começo eu, no meu encanto, a ficar mais tempo ainda na varanda a falar-lhes, a arranjar-lhes comedouros convencida, como andava, que lhes ganhara confiança.

Tanto bem lhes queria, que não me parecia possível não ser entendida e continuava confiante a viver o meu sonhado enlevo.

Os passarinhos, também não arredavam dali.

Ora um, ora outro, ou ambos, lá estavam olhando para mim, pipilando como interessados em manter aquele namoro que foi durando, durando, até que, a certa altura sem razão que eu entendesse, pela ausência deles, terminou.

Bem voltava à varanda espiando as redondezas na esperança de rever os meus alados amigos.

Mataram-nos! – Pensava! – E, tanto de isso me convenci, que aceitei a mágoa de deles me ter perdido, por esse triste fim.

O tempo foi rolando, a serra mudava de cores, as tílias floresciam, o vento espalhava pela cidade ondas de perfume e, a certa altura, o Outono, apresentou-se com o seu cortejo de folhas caídas que ia arrancando de árvore em árvore.

Então, um dia, olhando o arbusto da entrada, nu e triste, vi um pequeno ninho vazio preso entre os ramos.

Percebi então o equívoco.

 

Maria José Rijo

 

estou: O EQUIVOCO- 1988
música: O EQUIVOCO

publicado por Maria José Rijo às 21:07
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9 comentários:
De Pedro Paulo Fonseca a 10 de Novembro de 2009 às 21:36
LINDO
O seu blog tem muito coração, muita alma.

Os meus Parabens
Pedro Paulo Fonseca


De Maria José a 16 de Novembro de 2009 às 20:20
Pedro Fonseca
Não sei quem tem mais coração - se quem escreve , se quem tem a genrosidade de apoiar quem o faz...
Obrigada pela visita
Maria José


De Adalgisa Alexandra a 10 de Novembro de 2009 às 21:39
Tia Adorei este seu belissimo texto.
Que fotografias tão bonitas.
Realmente a tia tem uma alma LINDA e um
grande GRANDE coração.
Beijinhos
Gosto muito de si
Gisa


De Flor do Cardo a 10 de Novembro de 2009 às 21:55
Minha cara amiga Maria José
Um texto LINDO, emotivo e sensivel.
Um belo texto para receber as boas noticias do
nosso menino.
Já está bem melhor e dentro em pouco deixara a
clinica, Graças a Deus.
A Mag tem conversado muito com ele e parece
que está a fazer um trabelho excelente.
O Gilinho tem o portatil na clinica e já ensinou aos
medicos o blog da sua tia, apesar dos medicos
lhe pedirem repouso, ele já fala com este, com
aquele e até já se levantou. Imagine.
.
O Julião tem andado a passear de charete com a
sua namorada e imagine agora quer casar no candomblé.
Imagine isto Meu Deus e tudo porque eles querem
uma cerimonia bem diferente.
.Segundo me disseram
No casamento do Candomblé não há uma regra ritualística pois cada grupo etnico possui seu
próprio cerimonial.
Normalmente existe uma preparação do casal,
onde eles visitam os túmulos de seus ancestrais
para pedir a bênção.
Na nação Kêto, por exemplo, os casamentos
são baseados em 3 Orixás: Oxossi, Oxum
e Oxalá.
Os dois primeiros, Oxossi e Oxum,
foram casados. Assim, representam a
personificação do matrimônio.
Já Oxalá é o Orixá da paz e é ele que
preside o ritual do casamento.
Os noivos vestem roupas brancas e se
dirigem ao sacerdote. Este se chama Pai de
Santo (ou Mãe de Santo) ou Zelador de Santo,
como eles preferem.
O sacerdote abençoa a união do casal e mistura alguns elementos como pemba branca ralada,
Obi e algumas folhas consagrando o matrimônio.
No fim duas pombas brancas são soltas simbolizando a paz e a união.
Uma curiosidade é que o Candomblé é uma das únicas religiões que aceita homossexuais em seu meio e realiza casamentos entre eles.
---
E agora como vai ser? Eu nem sei. O Gilinho riu
bastante.
Já me estão a chamar.
Até breve

Luciano



De Maria José a 16 de Novembro de 2009 às 20:47
Meu Amigo
Que história engraçada me conta dos seus amigos que, ao que parece deixaram de olhar para o calendário há já muitos anos.
Soubesse eu tal segredo e, talvez fosse capaz de aceitar mais rapidamente as limitações que os nossos marca passos nos impôem...
Minha Irmã costumava dizer que a mim só me faltava fazer sapatos, parodiando as minhas actvidades com martelos, black, penduras de quadros, cortinados e todas as demais aventuras com as quais me habituei a preencher espaços que a vida me esvaziou a contra- gosto.
Agora tenho que pensar antes de agir o que me inibe ao ponto de me cortar o mpulso que me atirava para fazer o que me dava na veneta e me impedia de ter
depressões
Esta é a resposta à sua pergunta de como me dou com a minha bengala do coração.
Olhe : - nem bem, nem mal, aceita-se o que é inevitável, e... adiante
Guardei para final confessar-lhe o meu desejo de que o "nosso" Gilinho consiga reagir à adversidade que lhe saíu ao caminho e retome a sua vida com a esperança e a coragem devidas à sua juventude
Anseio saber que ele voltou a fazer as reportagens das excentrecidades das suas visitas e voltou a afixar as fotografias em lugares de detaque
Peço~lhe que lhe dê muitos beijinhos meus. e que lhe diga que confio que ele volte a ser feliz.
Um abraço - Maria José


De Xavier Martins a 10 de Novembro de 2009 às 23:52
MAis um texto fantastico.
Como sempre nos habituou aqui neste cantinho
lindo.
Os meus Parabens pela forma tão bella como
conta uma historia tão bonita.
Um grande abraço

Xavier MArtins


De hélia Maria Pereira a 11 de Novembro de 2009 às 00:05
Boa noite
Finalmente encontrei o seu blog.
Que maravilha.
A minha advogada já me tinha falado dele, mas
omeu tempo é bem pouco pelo que só hoje, e
dou Graças a Deus, o encontrei.

Tem aqui textos magnificos, poesias com a qual
me identifico.
Ainda tenho muito para ler, mas vou ler tudo e
claro, imprimir o que mais gosto, se não é abusar.
Mas eu adoro ler e se tenho leitura a gosto
(como é o caso) serão os meus artigos de
preferencia.

Vivo em Vila Nova de Gaia, sou professora e tenho
38 anos.
e adorei conhece-la.
Obrigado por ter esta maravilha on-line.
Um beijinho

Hélia Maria M. Pereira e L.


De Maria José a 16 de Novembro de 2009 às 21:21
Hélia Maria Pereira
Lisongeia-me a sua presença que me alegrou como uma braçada de flores.
Que bom ter mais uma amiga e tão jvem que tem a idade de uma das minhas sobrinhas netas.
Conforta a alma conviver com gente jovem.
Obrigada pelas suas palavras. Sinto-me contente por ater na minha "companhia"
Beijinhos - maria josé


De Aristeu a 12 de Novembro de 2009 às 00:28
Minha querida tiazinha
Venho dar-lhe conta que o Gilio já está mais
restabelecido e na sexta feira estará em casa, se
Deus quizer.
Esta ideia deixa-me muito feliz no entanto tenho
outra má noticia a Mag perdeu o bébé. Está aqui
internada na clinica, no andar superior, de modo
que mais uma vez a tristeza invadiu a nossa casa.
Estou muito infeliz - se bem que recebi de volta o
Gilio perdi o bébé...
A Mag está inconsolavel e eu já nem sei... mas é
para a frente que é o caminho...

Beijinhos minha tia
Deste seu sobrinho - duplamente triste

Aristeu


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