Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Instantâneo de rua…

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1953 --  12 Agosto de 1988

Instantâneo de rua…

      

Vi a mulher surgir, da viela, repentinamente, esbofetear o garoto e começar a arrasta-lo consigo puxando-o por um braço.

Aos tropeções, chorando e respondendo às injurias da mãe, iam-se afastando do local da cena, quando um observador gritou a mulher:

-- Deixe o miúdo brincar!

-- Você não tem vergonha de humilhar a criança batendo-lhe aqui à frente de toda a gente?

Pálida de raiva a mulher largou o garoto, pôs a mão na ilharga e encarou o homem dizendo:

-- Olhe lá!? – Donde o conhece?

-- Gosta mais dele do que eu?

-- Fui eu que o pari, sabia?

-- Não sabia que vocês, só os sabem fazer e as mulheres que os carreguem e se lixem para os criar.

--Deixe-o brincar! Se você o governar eu até o meto a doutor.

-- Deixe-o brincar! – Deixe-o brincar!...

     

Leio nos jornais, ouço na rádio, vejo na televisão a campanha contra o trabalho infantil.

Reconheço a necessidade de evitar que a cada criança seja negado o direito a fruir a sua própria infância.

          

Reconheço a urgência de cada criança ter acesso à vivência dos dez direitos que lhe são reconhecidos internacionalmente, porém…

Porém, recordo esta e outras cenas de rua em que transparece a miséria e o desespero das famílias e fico a pensar que não é a proibir que se encontra a solução – é a dar…

         

-- E a criar condições de trabalho e remuneração que permitam a cada Pai – a cada Mãe – não ter que conseguir na venda das débeis forças dos corpinhos ainda em formação dos seus filhos para provarem ao próprio sustento.

-- Se proibir apenas, fosse remédio, proibia-se a fome e a miséria e tudo estaria naturalmente sanado.

          

Quando uma mulher espanca um filho e o proíbe de brincar – já fez certamente a jornada de sofrimento inteira, que a levou a esse calvário onde a brutalidade é, no seu desespero, a única forma de manifestar preocupação pelo seu futuro e uma trágica maneira de ainda expressar Amor.

 

Maria José Rijo

 

estou: Instantâneo de rua…- 1988
música: Instantâneo de rua…

publicado por Maria José Rijo às 21:56
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9 comentários:
De Xavier Martins a 16 de Novembro de 2009 às 22:28
Grande artigo.
Onde nele está contida uma mensagem da realidade.
Ainda hoje é a realidade em muitos paises, mesmo
até aqui no nosso país.
Os meus sinceros Parabens.

Li o seu comentário e quero dizer que estive em
Elvas e até tinha programado estar no Museu de
fotografia, mas desta vez fui a um funeral e as
horas ficaram em pouco tempo e não deu.
Parece realmente que ainda não foi desta vez, mas
outro dia será. Acredito que sim.

Um grande abraço.
Xavier Martins


De Adalgisa Alexandra a 16 de Novembro de 2009 às 22:31
Verdadeiro este seu artigo.
ainda hoje a prova continua em todos os jornais,
revstas e televisões.

É impressionante, mas parece que os anos não
passam sobre os seus artigos
mentêm todos uma actualidade magnifica.
Obrigado pelas suas queridas palavras para mim.
Um grande, grande beijinho tia
Gisa


De Pedro Paulo Fonseca a 16 de Novembro de 2009 às 22:35
Gosto!
Gosto sempre dos seus artigos
porque em cada um deles
conseguimos fazer sempre 2 leituras

1- as suas belas palavras que contam a vida
com muita mestria e alma

2 . Outra´são as fotos que sempre acompanham
a sua história.

Não é facil conseguir esta mestria
Mas aqui é todos os dias.

Muitos Parabens

Pedro Paulo Fonseca


De Maria José a 19 de Novembro de 2009 às 21:33
Pedro Paulo Fonseca
Obrigada pelo seu comentário que me deixou muito feliz pela referência que faz à forma como a Paulinha ( dona e autora deste blog) faz com fotografias , algumas de sua autoria - a réplica aos textos que pôe on-line
Obrigada também pela simpatia da sua visita
Maria José Rijo







De Giane a 17 de Novembro de 2009 às 00:47
Ah, Ser de Boas Palavras, há quem responda melhor a ira que ao Amor...

Beijos mil!!!


De Maria José a 17 de Novembro de 2009 às 19:25
Giane - ´canta-se por aí uma cantiga que começa assim . "quando o coração chora por amor..."
O resto não sei.
É como a música - só nos fica no ouvido o que nos fala...
Um abraço - maria José


De Gustavo Frederich a 17 de Novembro de 2009 às 18:04
Este é um tema que me faz sofrer...
Crianças a trabalhar, com fome, etc , etc ...
Mas é um tema que se tem de comentar para
que as consciências se consciencializem de
que não pode ser assim...
Tem que haver mais humanidade entre todos,
não acha tia?
Sei que sim.

Um grande beijinho
A Senhora minha tia tem a consciencia pura dos
grandes GRANDES temas, como este.
Beijinhos

Gus


De maria José a 17 de Novembro de 2009 às 19:48
hoje não saí de casa embora tivesse estado um dia de Outono luminoso e morno.
Da minha janela assisti , como é meu costume, ao por do sol. O ceu manteve-se imenso tempo exibindo um festival de tons de carmim absolutamente irreais Se tivesse tido companhia, tinha ido passear debaixo dos platanos, em silêncio, para gosar melhor a música das folhas caídas sob os meus passos.
Fiquei pelo prazer imaginado.
Ontem, uma amiga de liceu, das poucas que sobrevivem, ao despedir-se, pelo telefone , disse:
Não quero beinhos! um abraço é mais gostoso.
Mais caloroso, será, talvez!
Um abraço, então - tia Zé


De lena a 18 de Novembro de 2009 às 10:22
Olá,Maria José!
Concordo plenamente consigo.Começar por dar em vez de proibir.Trabalho para os adultos puderem criar as suas crianças e deixá-las viver o que devem viver.Faz-me pensar no trabalho infantil em televisão...nao sei até que ponto certas crianças nao são usadas...até podem gostar disso,mas não é passatempo,é trabalho...Havia um caso francês: o pequeno Jordy (hoje já deve ser adulto) que foi polémico por haver afirmações de ser claramente explorado pelos pais,pois com 4 anitos já andava nas cantorias,cds,albuns e afins...neste caso,até acho que a família era classe média alta,ora o menino merecia era viver a infância dele...
Agora algo mais animado,vem aí o Natal e aproveito para deixar um convite: participe na Blogagem de Dezembro do blogue www.aldeiadaminhavida.blogspot.com
Basta enviar um texto máximo 25 linhas e 1 foto para aminhaldeia@sapo.pt até dia 8 de Dezembro. Participe. Haverá prémios e boa convivência!

Jocas gordas
Lena


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