Domingo, 22 de Novembro de 2009

Dois olhos à minha espera

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1822 – 31 de Janeiro de 1986

Dois olhos à minha espera

          

Era num largo – que uma igreja baptiza.

Um prédio alto, de aspecto um pouco decadente.

Uma lojeca no rés-do-chão, e por cima, duas janelas pequenas, vulgares, de vidraças sempre fechadas como dois olhos cansados. Porém, como se piscasse, pela intensidade da luz que lhe batia em cheio, numa delas estava sempre uma cortininha de renda arregaçada por mão envelhecida e magra, e no ângulo a descoberto, como pintados a carvão num rosto macilento e murcho, dois olhos escuros, fixos, olhando… olhando…

     

Os miúdos da rua, que brincavam ao sol e a chuva batendo os botões na parede, dançando piões, carolando berlindes, às vezes olhavam-na inventando caretas, gestos feios e nomes que doem, mesmo ditos sem maldade. Era a bruxa, espia…

      

Os passantes habituais fingiam não reparar, porque sempre se injuria o que não se entende, mas também eles contavam com os olhos frios, fixos e atentos ao largo.

E assim se somou tempo e tempo que somou anos bastantes, para ser costume e toda a gente já nem reparar … nem ver…

Um dia, porem, tudo mudou.

A cortina estava decidida e a porta da rua aberta.

           

Junto a ela a policia continha uma pequena multidão, que se acotovelava curiosa.

E a historia correu pelo largo… era uma senhora viúva, que do marido herdara um pequeno pecúlio que a doença consumiu, avidamente, avidamente. Era uma senhora com vergonha de pedir.

Era uma senhora velha, doente, sem dinheiro, e com preconceitos de classe que a “soldavam” ao que aprendera ser o seu lugar.

      

Era uma senhora que ficara por detrás da vidraça olhando… olhando… sem entender.

Era uma senhora que com dois palmos de baraço e o desespero duma geração perdida noutra que a ultrapassou e não a viu, se suspendeu do tecto chamando a si um fim que lhe tardava.

       

Era uma senhora que olhava a rua com dois olhos negros fixos e baços que esperavam, talvez, os meus – os nossos, que não fomos e às vezes ainda não somos capazes de chegar a tempo!

 

Maria José Rijo

 

estou: Dois olhos à minha espera
música: Dois olhos à minha espera - 1986

publicado por Maria José Rijo às 22:21
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14 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 22 de Novembro de 2009 às 22:42
Triste mas lindo este seu texto.

Parabens minha tia.
A cada dia me surpreende ainda mais.
Cada um é bem melhor que o anterior.
Adorei minha tiazinha querida
Como não gostar de si. Diga como?
A sua escrita é cativante, cheia de alma e coração.
Beijinhos de Parabens

da sua

Gisa


De Maria José a 24 de Novembro de 2009 às 20:52
Gisa - só, só um xi-coraçao para dizer: presente, porque ando super cansada a fazer os presentinhos de Natal
Beijinhos - tia Zé


De Xavier Martins a 22 de Novembro de 2009 às 22:45
È impressionante este texto.
Arrepia-me a alma - mas gostei imenso de o ler.
Realmente a Senhora tem uma alma Grande e é
muito, muito especial.

Adoramos o seu blog, eu e a minha mulher, mais
um e já uma grande, braçada de amigos.
Os nossos Parabens.

Do seu amigo

Xavier Martins


De Maria José a 24 de Novembro de 2009 às 20:55
Xavier Martins - ainda hoje - me sinto mal por não ter entendido o apêlo.
Há marcas que ficam para toda a vida.
Um abraço grato
Maria José


De Aristeu a 22 de Novembro de 2009 às 22:59
Lindo Tia
O meu Pai ao ler este texto, diz recordar essa
Senhora, lá para os lados da igreja de São
Domingos. Será a mesma. Recorda um episódio
semelhante mas já não tem bem a certeza disso.
Será ou será apenas a má memoria do Senhor meu
Pai, que já se esquece de tudo. Imagine foi a um
velhote barbeiro daqui com o noivo, porque este
tinha uma trunfa e usava rabo de cavalo e o Sr.
Luciano embirrava com ele por isso. Não gostava
de ver um velho com 80 e tal anos como se andasse
perdido pelos bares das cidades.
Bom lá conseguiu arrancar o noivo, que como
quase todos anda irritadiço, pois bem o tal do
barbeiro, tão velho quanto eles, já não trabalha mas
lá vai aparando os cabelos dos poucos amigos que o
procuram.
Sabe tia, o noivo, ou seja o julião acabou com
metade do cabelo rapado, porque o outro com a
tesoura na mão percebeu que era para tirar tudo.
Então agora tem metade comprida, que continua
com rabo de cavalo e na outra praticamente rapado.
Uma triste figura, mas como a noiva gostou do
corte radical diz aue vai fazer o mesmo, mas eu não
deixei. Não acha? Já viu o que vai ser isto tudo.
Até estou desejando a hora da partida para a tal
lua- de mel.
O Gilinho quer leva-lo a fazer rastas, a tia já viu.
Tá tudo maluco. o casamento vai ser no
proximo sabado. até tremo...
Um dia é mais louco que o outro.
Valha-me Deus.

E a tia como está?
Como se sente? Espero que não tenha sido
apanhada pelas tristezas que a época nos tras, a
queda das folhas é mau para quem está só.
A saudade tem agora mais força do que nunca -
como diz a Mag.
Fique com deus minha querida tiazinha.
Beijinhos

do Aristeu


De Maria José a 24 de Novembro de 2009 às 21:06
Queridos, isto hoje é estilo telegrama, mas vai um beijo muito especial para o "meu " Gilinho, um abraço bem carinhoso para Pai Aristeu ( que merece ser condecorado pela paciência) e ao Avô Luciano, a confirmação: - acertou!
A senhora morava mesmo no largo de São Domingos
Era viuva dum fotógrafo.
Um abraço grande - Maria josé


De Virgilio Fernandes a 22 de Novembro de 2009 às 23:59
Minha tão querida tia
Desculpe a minha ausencia...
sei que sabe até onde cheguei mas... então a vida
tem destas coisas - dirá que sou mimado, sem
cabeça mas foi assim que comigo aconteceu...
Não esqueci, tento compreender - mas só o tempo
pode agora ajudar.
Depois de muito inssistir, até a figura de Eça - o
nosso primo Julião - aparece novamente em cena e
acredite que consegue tirar-me da minha tragédia.
Voltei a fotografar e eles são agora o alvo da minha
fotografia.
Eles estão encantados pois tu está registrado.
Aqui em casa é uma risota todo o dia.
Ao serão a Florzinha - A Senhora dona Marta de 89
anos, tenta cantar a traviata e dançar em pontas
enquanto eu nem quase consigo tirar fotos pois
só não consigo mi deixar de rir.
Oh tia é melhor que a tv.
Eu não tenho capacidade para fazer o que eles fazem.
O meu avo tenta acompanhar mas não consegue...
uma valsa e está de rastos...
eles é uma valsa, um tango, um paço doble e só
não é o samba porque não quero clocar a musica na
vitrola.
Oh tia como podem eles fazer tudo isto, não lhes
pesa os oitenta. Não pode né?

E a tia como está? Já se está preparando pró Natal?
Nós temos um pinheirinho a crescer e vou lá colocar
as luzinhas e vou fazer o presepio vivo com o
pessoal cá de casa. Deixe primeiro ver se me deixam.
Depois logo lhe conto.

Muitos beijinhos minha tiazinha
do seu
Gilinho


De Dolores a 23 de Novembro de 2009 às 00:02
Lindo tia
Lindo e triste - mas muito lindo e sentido.

É uma situação que é actualissima.
Quantas pessoas vivem nessas circunstancias e
acabam assim, caminhando antes de tempo para
aquele lugar que todos nós fugimos.
Dramas da vida... de então e de hoje em dia.
Muitas casas vivem essa situação e nós olhamos
sem saber o que está dentro daquelas paredes...

Um texto exemplar tia
Muitos beijinhos

Dolores


De Gustavo Frederich a 23 de Novembro de 2009 às 00:13
Gosto
Gosto muito, é um texto escrito a sangue e alma.
Gosto porque é sentido e verdadeiro.
Gosto imenso da forma como relata e tras a luz
assuntos importantes como a solidão da gente que
sofre, que tem fome, que está doente...
mas anda tudo com muita pressa, tratando cada um
de si, sem olhar para os lados.
Mas é assim a vida moderna.

Muito bom este artigo.
A minha tiazinha escreve maravilhosamente, como
já disse tantas vezes.
Obrigado tiazinha
Gosto muito de si.
Muitos beijinhos

Gus


De maria José a 24 de Novembro de 2009 às 21:15
Acabo de saber que faleceu mais uma "Menina do meu tempo", Àmanhã virei acompanhá-la.
Outro dia ouvi numa entrevista o dr. Fernando Nobre dizer que gostava de morrer com a cabeça no colo de sua mulher e de mãos dadas com os filhos.
Eu, não gostaria de morrer sem ter abraçado os meus amigos.
Beijinhos - tia zé


De Augusta Silva Torres a 23 de Novembro de 2009 às 00:23
Minha boa amiga
Desculpe a minha ausencia desta sua casa
maravilhosa, mas por motivos de saude não
tenho vindo.
Hoje estou bem melhor pelo que cá estou e já li
tudo - para estar em dia.
Tem aqui artigos estupendos e o de hoje é muito
bom - com ponta de triste - mas eu gostei imenso.

Os seus artigos - passem os anos que passarem -
estão sempre actualizados - digo-lhe que isso
não é para todos os escritores - só os que são
realmente muito bons é que têm esse
privilégio de manterem a actualidade.

Os meus sinceros P A R A B E N S
desta sua muito amiga e admiradora

Augusta Silva Torres


De Maria José a 24 de Novembro de 2009 às 21:24
Minha Amiga- venho expressar a minha alegria por a ter de novo comigo e contar-lhe que todos os dias acendo uma vela pela saude e bem-estar de todos os meus amigos.
Mesmo por estes caminhos, públicos,tão distantes das confidênciais cartas dos "nossos tempos" que bom sentirmos o gosto das boas companhias e da amizade.
Um beijo muito amigo e grato
Maria josé


De Magé a 23 de Novembro de 2009 às 21:26
Beijinhos
pa minha madinhaaa
da
Magé -


De Maria José a 24 de Novembro de 2009 às 21:33
Meu amor - quer dizer aos seus avós que melhor do que esta mensagem só um beijinho desses bem lambuzados que a minha querida por certo já sabe dar e nos derretem o coração?
Diga-lhes também, meu amor, que a sua delicada lembrança me enterneceu.
Que Deus a abençoe minha afilhada de coração
Beijinhos tia Zé


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