Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Encanto e Paladar

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1912 – 30 de Outubro de 1987

Encanto e Paladar

       

Tínhamos chegado havia pouco.

Estávamos ávidos de conhecer o ambiente novo que nos envolvia.

A estrada que nos conduzia do aeroporto até ao hotel, apresentara-se-nos, ao longo dos 25km, orlada de “beladonas” em flor.

       

Noutras estações do ano, haveríamos de a admirar com as azáleas, os jarros, os agapantos, as hortênsias, as roseiras bravas, a sucederem-se ou a confundirem as suas aflorações no mesmo percurso.

            

As pessoas com quem por dever de cargo tínhamos que contactar, esmeravam-se no esforço de nos mostrar cada recanto da sua bela ilha.

Já fôramos com um “montanheiro” por caminhos de negra “bagacina”, onde as hortênsias florescem em azul, explorar grutas (com entradas encobertas por azevinho e mato) percorridas por correntes subterrâneas de águas geladas e transparentes.

Já havíamos descido ao fundo de chaminés de vulcões extintos, ao “Algar do Carvão” onde a água goteja das paredes irregulares, pelos relevos das lavas solidificadas, salpicando fetos de folhagens verdes de finíssimos recortes, que ficam a estremecer como arrepiados, enquanto dos fundos vem o eco dos pingos que se perdem nas águas dos lagos tinindo como musica de cristais, criando beleza e mistério que falam de começo e fim de mundos.

     

Sei lá que de coisas mais já viramos e pressentíramos naqueles vales desertos onde a terra referve como papas ao lume, cheira a enxofre e se faz, enterrando-o no chão, (embrulhado em panos) o melhor cozido de carne e couves que se possa imaginar…

        Cozido das Furnas 

Pois naquele dia, rumamos pelo interior ao outro lado da ilha, à freguesia de “Biscoitos” onde abundam casas de lazer junto às “calhetas”, (piscinas naturais que o mar cava na rocha e cuja água renova constantemente).

A paisagem era variada. Sucediam-se a zonas de aspecto lunar com vacas a pastar pachorrentas nas encostas dos vulcões extintos, matas densas de criptoméirias esbeltas, bosques de loureiros e trepadeiras, rocas de velha, hortênsias e fetos.

Cheirava a terra fértil, a musgo e humidade.

Havia, silencio. A luz coada pelas folhas do arvoredo alto, criava a religiosidade contemplativa e sombria de uma catedral.

Reparei então que as nossas presenças assustavam a passarada e os melros, que por lá abundam cruzavam-se à nossa frente, muito negros e brilhantes, quase rente ao chão, em voos furtivos, de moita para moita, com os bicos amarelos e grossos luzindo, e um barulhinho de asas a ranger.

Maravilhada, comentei: - tanto melro!

Que lindo!

Então com o ar entretido de quem lhes conhecia “outro gosto”, a minha companheira de passeio comentou:

--“Os castanhos fazem melhor canja”.

De então para cá, de vez em quando, furtivamente – como um melro esvoaçando na sombra dos bosques – perpassa no meu espírito esta recordação que invariavelmente me faz pensar e sorrir.

 

Maria José Rijo

 

estou: Encanto e Paladar - 1987
música: Encanto e Paladar

publicado por Maria José Rijo às 20:46
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11 comentários:
De Xavier Martins a 10 de Dezembro de 2009 às 21:06
Magnifico.
Que belo texto sobre "o diamante em bruto" como
eu gosto de chamar aos açores - visto achar , eu,
que a madeira está polido demais.

Como sempre bem ilustrado, já apanágio do seu blog.
Os meus Parabens por esta maravilha poetica sua.

Com imensa amizade

Xavier Martins


De Gustavo Frederich a 10 de Dezembro de 2009 às 23:13
Lindo tia
Os seus artigos são obras primas de literatura.
Poesia todo ele.
Conheço os açores e é surpreendente esta
maravilha de artigo.
Veramente belo. Como a sua alma .
Os meus Parabens minha tia
Muitos beijinhos

do seu Gus


De Adalgisa Alexandra a 10 de Dezembro de 2009 às 23:15
Tão bonito tia
Este seu artigo tocou-me profundamente.
Não conheço os Açores mas como a tia fala deles
é concerteza uma grande maravilha.

Mil beijinhos tia e
muitos Parabens

Gisa


De Lucas Marquês a 10 de Dezembro de 2009 às 23:18
Muito belo
este seu artigo D. Maria José Rijo.
Aliás este seu blog é uma maravilha.
Gosto muito dos Açores e a Senhora fala deles
com o coração.

Bem haja por esta maravilha

Lucas Marquês


De Avelino a 10 de Dezembro de 2009 às 23:27
Estou pasmo comeste texto.
Vivi três anos nos Açores, em São Miguel.
Na minha juventude, enquanto estava em casa
de uns tios, estudava e trabalhava.
Belos tempos esses em São Miguel.
A senhora fez-me recordar a beleza daqueles
lugares paradisiacos.
Obrigado por mais esta vez.

A Dolores dorme agora - tem estado atrapalhada
por causa de uma constipação tremenda e a magé
cada vez mais bela e mais parecida com a mãe.
Chego a ficar arrepiado.

Em nome de todos
um grande beijinho
desta sua familia em França

Avelino


De Julieta Malaquias a 10 de Dezembro de 2009 às 23:31
Excelente este texto
Sou Açoriana e estou Feliz por ler este belo artigo
neste belissimo blog.

Parabens
Realmente é mesmo muito belo e a sua forma
de escrever é sublime

Julieta Malaquias


De Aristeu a 10 de Dezembro de 2009 às 23:37
Uma paixão!
A minha tia fala dos Açores com alma e coração.
Os meus Parabens por tão grande maravilha de
texto.
É poetico, belo, sensivel e de uma extraordinária
beleza.
O meu Pai recorda que este, ligado aos Açores, era
um dos preferidos da minha mãe, tanto que eles
fizeram uma viagem por causa da beleza que a tia
conta.

O Gilinho também gostou muito e a Meg está
apaixonada pela sua forma linda de contar - de falar
de estar na vida - e diz que a tia sabe
expressar tão bem o amor de viver - da vida...
ela quer muito conhece-la.

Os nossos Parabens minha tia queridaa
deste seu sobrinho

Aristeu


De Maria José a 12 de Dezembro de 2009 às 16:21
Meu Querido Aristeu
Estou a entrar "pela sua porta"mas, desta vez venho em procura de seu Pai porque me apetece fazer uma choradeira daquelas sem princípio nem fim, que pela graça de Deus ainda não cabem nos corações dos mais jovens. porque, tenho a crteza que, tal como eu, ele também algumas vezes "aproveita"uma mágoa para chorar juntas, todas as que lhe afogam a alma.
Penso que ele teria conhecido a o general Pedro Cardoso e a família; até pelos cargos de relevo que o Pedro teve na época em que Cavaco e Silva foi primeiro ministro e o tornaram conhecido por todo o país.
O Pedro era do curso do meu cunhado Trinité - que sei que conheceu bem, e daí intimos das nossas famíliias.
Ultimamente, sendo a viuva do Pedro proprietária de uma quinta maravilhosa aqui nos arredores em Vila- boím o querido Pedrinho seu filho e nosso sobrinho de coração trazia a minha irmã até mim, de porta a porta eaproveitavamos para almoçar ou jantar juntos aqui em nossa casa .na quinta deles ou em Juromenha.
Pois quarta feira pela manhã a Terezinha, com os seus frágeis 83 anos,encontrou o filho morto no quarto, com um enfarte. Tinha 48 anos.
Dispenso-me de lhe dizer que minha irmã e eu nem sabemos que dizer ou fazer senão chorar.
Por ele, pela Mãe que fica só e por nós a quem a morte de familiares e amigos vai deixando cada vez mais pobres.
Tenho tido a maior dficuldade em arrumar na minha alma a perda em Setembro, do Carlos , sobrinho de meu marido que cresceu à nossa beira, agora mais esta triste surpresa.
Viver muito acarreta estes riscos muitas vezes.
Perdoe a lamúria mas exteriorizar ajuda, e embora se sacrifiquem os amigos é como se repartir a dor aliviasse um pouco.
Talvez também porque estamos perto do Natal
lembrei-me de um outro há dezoito anos em que
apontei umas rimas que, embora íntimas, hoje divido com todos vós
Um abraço e as minhas desculpas
Maria José


De Luis carlos Presti a 10 de Dezembro de 2009 às 23:42
Olá Olá Olá
Disseram-me que falava aqui dos Açores...
Vim ver e ler e sentir e olhar e dizer que AMEI.
É LINDO
Estive no mes passado nos Açores e é uma
beleza tal e qual este artigo.
Gosto mesmo muito de si tia.
Muitos e muitos beijinhos

Luis Carlos Presti


De Leilla a 12 de Dezembro de 2009 às 14:38
Lindo este seu artigo.
Realmente a Senhora tem um Dom imenso para
escrever.
Muito, muito obrigado por este belissimo blog, sem
ele nunca teriamos acesso a tanta maravilha.
Bem Haja minha querida amiga
Beijinho no seu coração

Leilla


De Kiko Maciel a 12 de Dezembro de 2009 às 14:42
Oláaaaa
Minha tia queridasabe que desta vez o primeiro a
ler foi o medico do meu Pai que lhe telefonou a
contar.
É verdade, depois fomos todos ler e foi a minha
Mãe que ler .
É um texto muito lindo, a minha Mãe adorou porque
viveu no Pico durante uns aninhos e ficou a amar os
Açores.
Este texto está uma delicia.
Gosto muito de si tiazinha
Ah e vi na Tv que para a semana vem muito mais
frio, veja lá, que não a quero constipada.
Muitos beijinhos
Do seu
Kikinho


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