Domingo, 3 de Janeiro de 2010

… E não vejo o fim do túnel

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1814 – 6 de Dezembro de 1985

 … E não vejo o fim do túnel

 

“Há homens que não compreendem as mulheres, coitadas, são umas criadas”.

-- É o comentário honesto, sério, do honrado velho, que assiste, revoltado, a uma dessas cenas que – vergonhosamente – ainda são parte do nosso quotidiano.

--“Cá por mim!”- continua ele evocando a companheira da sua vida – “Tomara que a minha nunca adoecesse!”.

(Aquela, que o marido acaba de espancar impunemente, dirá por certo: - “o meu” bate-me! – “o meu”, com a bebida enche-me de porrada!”)

Enquanto divago, o meu interlocutor continua:

-- “São para tudo as mulheres da gente! – e ainda há tipos que não reconhecem isso e as tratam mal! – mesmo que elas, coitadas, trabalhem a par deles! – são umas criadas” – ainda repete condoído.

          

--Mulher dá-me um copo de água! – Mulher arranja-me a roupa! – Mulher chega-me o comer!

 

No fundo da minha memória havia um dedilhar de violão e a voz pastosa de Vinícios num chourinho cantado:”… e me dá essa força e esse orgulho de ser rei…”

 Acompanha o relato de amor daquele Orfeu, mostrando-se à minha admiração, a falar da sua Eurídice como galo contente em seu poleiro.

Contente a confessar-se ingenuamente dono da sua casa, da sua mulher e da sua tranquila consciência de proprietário que, a cada um, como a cada coisa, trata com o respeito devido a tudo e a todos que lhe pertencem e o servem.

Estava a ouvir com a música de Vinícios na lembrança e a angustia das perguntas que não fiz:

     

-- E… se ela não for buscar água? – E… se não fizer a ceia?

-- E… se não arranjar a roupa? – E… se não trabalhar a par dele?

Mas quem perguntaria coisas tais e tão honrados Orfeus, descendentes de séculos de mulheres, que viveram servindo marido e casa e filhos e cão e gato e animais de capoeira?

Fico antes a perguntar-me quantas gerações ainda serão precisas para desvincular essas mulheres da obrigação de servir – porque são mulheres!?

Fico antes a perguntar-me quantas gerações serão precisas ainda para libertar dessa mentalidade, que as faz admitir quase com orgulho, que têm dono?!

Dessa mentalidade de animal doméstico que as faz aceitar tão irracional submissão?!

Pergunto-me, olho, e não vejo o fim do túnel.

 

Maria José Rijo

 

estou: … E não vejo o fim do túnel
música: … E não vejo o fim do túnel - 1985

publicado por Maria José Rijo às 13:58
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3 comentários:
De Adalgisa Alexandra a 3 de Janeiro de 2010 às 14:43
Mais um excelente artigo
e devo dizer que está actualissimo - como
todos os que escreve.
É mesmo incrivel conseguir esta actualidade em
textos escritos tantos anos antes.

É uma alegria e um prazer poder ler os seus artigos
minha tia.
Que 2010 lhe traga novamente esta vontade de
compartir com todos nós que passamos por aqui
para nos deliciarmos.

Obrigado minha tia
Muitos beijinhos

Gisa


De Samuel Oliveira a 3 de Janeiro de 2010 às 14:47
Excelente artigo e blog
Fiquei deveras impressionado com a sua forma
de escrever e contar o que a sua muita lucidez
lhe diz.
Estou deveras contente com o que aqui li.
Vejo no entanto que são artigos com alguns anos,
muitos anos, mas todos eles têm uma grande
actualização, o que não é muito facil de encontrar.
É realmente um sinal de GRANDE Escritora.
Só pessoas com o DOM da Escrita conseguem que
os seus textos sejam assim - apreciados quanto
são os seus.
Os meus Parabens

deste seu e tão novo leitor

Samuel Oliveira


De Xavier Martins a 4 de Janeiro de 2010 às 16:50
Olá muito boa tarde
que bom que temos novo texto.
Adoro sempre que aqui entro e encontro um
novo artigo para me deliciar.
Fico mesmo feliz.
É mesmo muito bom.
Parabens para si que escreve artigos belissimos.
Com muita amizade

Xavier Martins


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